As circunstâncias históricas, sociais e políticas que produziram a emergência do conceito de clínica contribuem para situar o lugar e o papel da psicologia clínica no contexto das práticas de saúde contemporâneas.
A psicologia clínica é considerada herdeira direta da psiquiatria que tem a sua gênese na medicina moderna que “fixou sua própria data de nascimento em torno dos últimos anos do século XVIII”. (Foucault, 2006, p. viii).
No entanto, “antes de ser um saber, a clínica era uma relação universal da humanidade consigo mesma”. (Foucault, 2006, p. 58).
Na aurora da humanidade, antes de toda crença vã, antes de todo sistema, a medicina residia em uma relação imediata do sofrimento com aquilo que o alivia. Essa relação era de instinto e de sensibilidade, mais do que de experiência; era estabelecida pelo indivíduo consigo mesmo antes de ser tomada em uma rede social. (Foucault, 2006 p. 58).
A clínica, distinguida como racionalidade médica e não mais como magia, remete a Hipócrates, 2.500 a.C., pois foi esse filósofo grego quem inaugurou o exame clínico, por meio da observação, da anamnese e do exame de regiões do corpo, da temperatura, dos batimentos cardíacos, dentre outros procedimentos, pelos quais descreve um grande número de enfermidades, que ainda são referências para a medicina moderna.
A palavra clínica, originalmente do grego Kliné, tem o sentido etimológico de leito, cama, de onde concebem classicamente que o saber médico era construído ao pé do leito do doente, pela observação constante e descrição de sua doença. Também assim era a transmissão do saber e da arte médica, sendo o estudo de caso o seu método tradicional.
“Nos tempos passados, a arte da medicina era ensinada na presença de seu objeto e os jovens aprendiam a ciência médica no leito do doente.” (Moscati, ano VI, citado por Foucault, 2006, p. 59).
No contraponto entre a medicina clássica e a moderna, vários deslocamentos e rupturas epistemológicas são objetos da reflexão de Michel Foucault (2006), evidenciando a descontínua narrativa na história que a medicina clínica empreendeu para se organizar como ciência e prática. História essa sempre ligada à das instituições e à da política.
Nesse sentido, poucos esforços foram bem-sucedidos para implantar cadeiras clínicas ou institutos clínicos em universidades de Londres, Oxford, Cambridge, Dublin e no hospital de Viena, no século XVIII, pois o projeto esbarrava no interesse dos médicos em manter o antigo estado de coisas, “em que um ensino prático era dado na cidade, de modo individual e oneroso, pelos mais notáveis consultores”. Entretanto, “foi nos hospitais militares que se organizou primeiramente o ensino clínico”. (Foucault, 2006, pp. 61-62).
Três momentos nessa organização são identificados pelo autor que demarcam o aparecimento da clínica como fato histórico: a protoclínica, século XVIII; clínica, final do século XVIII e a anatomoclínica, no século XIX.
Em cada momento, ocorreu a gradual transformação das experiências na clínica de casos, consolidada pela observação – olhar sobre o doente e no discurso sobre a sua doença, fundamentado no pensamento classificatório, em direção à clínica moderna, consolidando-a nos procedimentos experimental, instrumental e científico da medicina anatomopatológica do século XIX.
A quem desejasse fazer o inventário temático, a ideia da clínica sem dúvida apareceria carregada de valores demasiado imprecisos; nela provavelmente se decifrariam figuras incolores, como o efeito singular da doença sobre o doente, a diversidade dos temperamentos individuais, a probabilidade da evolução patológica, a necessidade de uma percepção vigilante, inquieta com as mínimas modalidades visíveis, a forma empírica, cumulativa e indefinidamente aberta do saber médio; velhas noções usadas há muito tempo em que, sem dúvida, já formavam o equipamento da medicina grega. (Foucault, 2006, p. xv).
Portanto, as reorganizações no conhecimento clínico alcançaram os objetos, os conceitos e os métodos do saber e do fazer médico, configurando novas práticas institucionais e políticas.
No nível do conceito, por exemplo, a doença, antes considerada uma essência abstrata, era apresentada ao observador segundo sintomas e signos; e na clínica moderna, materializa-se no saber sobre o corpo doente que revela um ser patológico, conforme escreve Foucault (2006):
Na tradição médica do século XVIII, a doença se apresenta ao observador segundo sintomas e signos. Uns e outros se distinguem por seu valor semântico e por sua morfologia. O sintoma – daí seu lugar de destaque – é a forma como se apresenta a doença: de tudo o que é visível, ele é o que está mais próximo do essencial; e da inacessível natureza da doença, ele é a transcrição da primeira. (pp. 97-98).
Em nível institucional, o espaço hospitalar, antes referência para a assistência ao pobre e para a morte, torna-se o lugar do ensino da medicina, onde “a doença e a morte oferecem grandes lições nos hospitais à vida”. (Foucault, 2006, p. 68).
Considerada em sua disposição de conjunto, a clínica aparece para a experiência do médico como um novo perfil do perceptível e do enunciável: nova distribuição dos elementos discretos do espaço corporal (isolamento, por exemplo, do tecido, região funcional de duas dimensões, que se opõe à massa, em funcionamento, do órgão e constitui o paradoxo de uma “superfície interna”), reorganização dos elementos que constituem o fenômeno patológico (uma gramática dos signos substituiu uma botânica dos sintomas), definição das séries lineares de acontecimentos mórbidos (por oposição ao emaranhado das espécies nosológicas), articulação da doença como organismo (desaparecimento das entidades mórbidas gerais que agrupavam os sintomas em uma figura lógica, em proveito de um estatuto local que situa o ser da doença, com suas causas e seus efeitos, em um espaço tridimensional). (Foucault, 2006, p. xv).
Essa clínica, identificada no contexto histórico dessas reorganizações por inserir- se nas transformações e mudanças mediadas, continua, desde então, a produzir efeitos na clínica contemporânea.
O aparecimento da clínica como fato histórico, deve ser identificado com o sistema dessas reorganizações. Essa nova estrutura se revela, mas certamente não se esgota na mudança ínfima e decisiva que substituiu a pergunta: “o que é que você tem?”, por onde começava, no século XVIII, o diálogo entre o médico e o doente, com sua gramática e seu estilo próprios, por esta outra em que reconhecemos o jogo da clínica e o princípio de todo o seu discurso: “Onde lhe dói?”. (Foucault, 2006, pp. xv e xvi).
Outras transformações paralelas e complementares abrem espaço para a medicina no âmbito social, a consciência explícita da doença como problema político e do médico como autoridade administrativa fundada na competência de seu saber. (Roberto Machado - contracapa, Foucault, 2006).