Escrever, pensar ou dialogar sobre educação nos remete à escola, a certificados, a espaços formais de aprendizado, porém, nos enganamos bastante se fixarmos nosso entendimento nisso, pois aprendemos nos mais diferentes espaços, inclusive debaixo de uma árvore, em galpões, em aldeias, nas igrejas, em casa, nos sindicatos, nos movimentos sociais, nos partidos, nos órgãos públicos ou privados, em qualquer lugar que possua a intencionalidade de promover a educação e o aprendizado. Para que esta educação seja coerente e atrativa para os indivíduos inseridos nela, precisamos conhecer as realidades e saberes destes participantes, pois todos possuem conhecimentos e experiências que precisam ser considerados para que, a partir deste conhecimento, possamos elaborar estratégias e metodologias de ensino apropriadas àquele contexto.
Percebemos que existem diferentes espaços de educação, assim como temos diferentes e variados modelos de educação. Gohn (2006, p. 28) faz uma breve distinção entre diferentes propostas educacionais da seguinte forma:
[...] a educação formal é aquela desenvolvida nas escolas, com conteúdos previamente demarcados; a informal como aquela que os indivíduos aprendem durante seu processo de socialização - na família, bairro, clube, amigos, etc., carregada de valores e culturas próprias, de pertencimento e sentimentos herdados: e a educação não-formal é aquela que se aprende “no mundo da vida”, via os processos de compartilhamento de experiências principalmente em espaços e em ações coletivos cotidianas.
Assim como temos diferentes espaços, temos também diversas educações, uma delas é a educação popular. Segundo Brandão e Streck (2008, p. 30), a educação popular não é um nível de ensino, nem uma modalidade de
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pedagógicas e a necessidade de setores dissidentes a se reorganizarem como movimentos pedagógicos. Uma educação em busca de compromissos, definindo-se como fração e instrumento de movimentos de cultura popular, movimentos de educação setorializadas que se realizam através de ações diretas junto ao povo, através da igreja, de agências de saúde, de comunicação social, de mobilização popular.
A partir destes conceitos, referente a espaços e tipos de educação, pretendemos apresentar uma experiência prática a partir de uma horta como espaço para a educação não formal como processo formativo no CRAS Barão. Propomos tal estudo buscando uma aprendizagem significativa para os sujeitos inseridos nestes espaços, promovendo metodologias pedagógicas interessantes, contextualizadas e instigantes para os membros participantes, buscando nas atividades realizadas uma aproximação entre as experiências e conhecimentos trazido por estas comunidades, movimentos sociais, sindicatos, projetos e a partir do PBF (Programa Bolsa Família).
Observando e analisando a realidade das mulheres participantes da Horta Comunitária Familiar e de crianças carentes, integrantes do Projeto EDUCARTE, ambas participantes do Programa Bolsa Família do município de Barão de Cotegipe, como não pensar ou elaborar algo de educação para a humanização e ascensão social destes grupos, desmistificando a alienação sofrida pelas classes sociais, motivando e mostrando caminhos possíveis, de busca e realização pessoal, para uma vida melhor em sociedade.
Para que este projeto obtivesse êxito, a equipe do CRAS Barão, preocupada com estas famílias em vulnerabilidade social, realizou um encontro com este grupo de mulheres em dezembro de 2017, demonstrando ideias para desenvolver e criar um maior vínculo entre ambas, para que pudessem desenvolver atividades ou oficinas que lhe trouxessem uma melhoria de vida e um possível trabalho futuramente. Após investigarem sobre as devidas possibilidades de realização, chegam a um denominador comum, a HORTA FAMILIAR. Os encontros iniciaram em janeiro de 2018, utilizando um terreno ocioso no CRAS Barão. Esta horta foi construída a céu aberto, no chão, com formato circular, como se fosse um relógio biológico. As integrantes iniciais do projeto acreditam que a horta é uma extensão de suas casas e jardins, então, para eles, a mesma deve ser bela e harmoniosa aos olhos de todos.
Para que este trabalho pudesse se desenvolver e render bons frutos, a equipe do CRAS, precisava ter um monitor para dar continuidade a estas atividades, liderando e motivando e grupo, para desenvolver as atividades necessárias, além de trazer informações e conhecimentos diversificados, atender a dúvidas e desejos apresentados. A monitora contratada para trabalhar com esse grupo é formada em Licenciatura em Matemática e Física, Pós-Graduada em Gestão Escolar e mestranda do Mestrado Profissional em Educação da UFFS, Campus Erechim, Pesquisadora na linha de pesquisa em Educação não formal: práticas político-sociais.
É importante instigar o que as integrantes desse projeto gostam de saber, pensam e querem aprender. Momentos em que o tempo está chuvoso e impossibilita o trabalho na horta, por exemplo, são momentos em que são realizados estudos sobre temas ligados ao contexto da horta. As mesmas aprendem desde como plantar, onde plantar, como adubar, semear, o que realizar com as hortaliças, buscando receitas diversificadas aproveitando caules e folhas dos vegetais que colhem. Também é estimulada a busca de novos saberes que possam ajudar na economia e manutenção de suas casas, incentivando, além disso, o cuidado e a preservação do meio ambiente, buscando, a partir desse conhecimento, ter uma vida mais saudável.
Após visualizar, perceber e analisar os resultados obtidos nesta horta, fomos convidados para trabalhar com horta suspensa no Projeto EDUCARTE, em contraturno escolar, onde são inseridas crianças com vulnerabilidade social, oriundas do Programa Bolsa Família, CAD ÚNICO do município, confeccionando horta suspensa com litrões de garrafa pet, trabalhando a sustentabilidade e a limpeza do meio ambiente. Cada estudante fez a sua horta, desde cortar a garrafa pet, furar, colocar terra, substrato, a mudinha de planta e depois molhar. Adoraram a atividade e ficaram com o dever de continuar molhando, cuidando para que ela cresça.
3 CONCLUSÕES
Através destes trabalhos desempenhados no CRAS Barão, podemos perceber e entender, através das teorias, que estamos praticando uma educação não formal,desenvolvendo as mais variadas atividades, entre elas, momentos de reflexão sobre a vida, sobre a sociedade, sobre situações de economia, sobre a valorização da mulher, ser humano, mãe e esposa responsável pela educação dos filhos, além de trazer os mais variados assuntos relacionados à horta entre outros, trazendo um espaço de reflexão, tentando resgatar a dignidade, autoestima, dando voz e vez a esse grupo. Percebemos o nível de interesse e de apropriação do ser humano, seja ele adulto ou criança, ambos se sentem pertencentes, pelo cuidado, desenvolvimento, crescimento, produtividade, melhoria e conhecimento adquirido nestes encontros.
Universidade do Oeste de Santa Catarina – 10 a 12 de setembro de 2018 Sentir-se pertencente ao grupo, criar vínculos de amizades e interesses, compartilhar ideias, atitudes e ações de seus cotidianos, fabricar utensílios básicos pedidos por eles, está fazendo com que, a cada encontro, participem cada vez mais. Acreditamos que a educação não é a salvadora de todos os problemas, mas um dos maiores princípios de realização de uma sociedade melhor.
Preocupados com a higiene, com o preparo dos alimentos, com a economia em tempos de crise, pensamos muito sobres as atividades realizadas para que essas pessoas pudessem aplicar esses conhecimentos em seus lares. Buscamos elaborar e manter uma horta saudável, com adubos e inseticidas orgânicos, além de repassar para o grupo, receitas saborosas, com aproveitamento de folhas, caules, com pouca gordura, mais legumes, hortaliças e vegetais. Trabalhamos junto a esses grupos percebendo a educação como desenvolvimento, fruto de lutas sociais, como processo constante na vida enfocando uma concepção emancipatória do sujeito, intensificando sua identidade, memória e protagonismo, melhorando sua qualidade de vida, valorizando seus saberes e sua cultura.
Podemos perceber a alegria, a satisfação e o interesse através do olhar das crianças, depois de um tempo retornamos para fazer outra oficina de embelezamento dos espaços do Projeto, visualizamos os resultados, as plantas da horta suspensa, estavam todas lindas e viçosas, uma verdadeira perfeição, sinal de que foram muito bem tratadas e cuidadas pelas crianças, pois sentiram-se pertencentes ao trabalho realizado. Estão aguardando a colheita para poderem saborear e mostrar para seus familiares o trabalho confeccionado no projeto do qual participam.
REFERÊNCIAS
BRANDÃO, Carlos Rodrigues; STRECK, Danilo R. Pesquisa participante: o saber da partilha. 2. ed. Aparecida:
Ideias & Letras, 2008.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GOHN, Maria da Glória. Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas.
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