Para um melhor entendimento sobre a temática escolhida, é necessária a descrição do local onde foi realizado o estudo, juntando informações de um relatório anual, do site da internet deste local e de impressões pessoais registradas no diário de campo. Minayo et al. (2002) afirma que o campo de pesquisa é o recorte que o pesquisador faz em termos de espaço, representando uma realidade empírica a ser estudada, partindo da teoria em que o objeto de estudo se encontra fundamentado. Nesta pesquisa, a Fundação Dorina Nowill para Cegos foi escolhida para ser o campo de pesquisa pelo seu trabalho pioneiro e sua excelência no atendimento ao deficiente visual.2
2 Informações extraídas do Relatório Anual e do site da Fundação Dorina Nowill para Cegos
57 FIGURA 8: Parte da fachada do prédio da Fundação Dorina Nowill para Cegos com a sua logomarca.
Fonte: www.fundacaodorina.org.br
Trata-se de uma organização particular sem fins lucrativos e de caráter filantrópico que se iniciou há 62 anos por iniciativa da professora Dorina de Gouvêa Nowill e de um grupo de amigas, em uma pequena sala cedida pela Cruz Vermelha Brasileira. A Fundação é responsável pelo trabalho pioneiro da implantação da primeira imprensa Braille de grande porte do Brasil e pela luta em prol da inclusão social do deficiente visual, com a educação especial para cegos.
Visando ao entretenimento e ao acesso à literatura e ao estudo, a Fundação produz livros didático-pedagógicos, paradidáticos, literários e obras específicas solicitadas pelos deficientes visuais, impressos com o alfabeto Braille. Livros e revistas falados ou no acesso digital acessível (com até cinco níveis de ampliação da tela do computador) também garantem outras opções de fornecimento de informações para os deficientes visuais.
58 FIGURA 9: Exemplares das revistas Veja e Claudia gravadas em Cd, no formato de MP3.
Fonte: Cedidas por um dos entrevistados.
Também faz parte da missão da Fundação, o atendimento especializado e gratuito ao deficiente visual e toda a sua família. Essa assistência pode ser usufruída por todas as faixas etárias, fornecendo tratamento adequado às suas necessidades e proporcionando condições para um desenvolvimento pleno, considerando-se o seu potencial individual e as condições sociais, educacionais e econômicas, visando à sua inclusão social. O atendimento é realizado por meio de programas individualizados e tem como objetivo a independência do deficiente visual em todos os ambientes em que está inserido. Esse trabalho é desenvolvido por uma equipe interdisciplinar que integra as seguintes áreas: Serviço Social, Psicologia, Pedagogia, Fisioterapia, Professores de Orientação e Mobilidade, Terapia Ocupacional, Ortóptica e Oftalmologia.
Três programas de atendimento fornecem o suporte ao deficiente visual, de acordo com as suas necessidades e faixa etária, sendo ele: Reabilitação Visual, Educação Especial e Reabilitação. Na Reabilitação Visual, ocorre inicialmente uma avaliação para se conhecerem as condições psíquicas, sociais, pedagógicas e oftalmológicas do sujeito. Faz parte desse programa também a Clínica de Visão Subnormal, onde procedimentos técnicos específicos para as pessoas com baixa visão são ensinados para o melhor aproveitamento do resíduo visual. A Educação Especial está voltada para a faixa etária de 0 a 16 anos e oferece condições favoráveis à aprendizagem e à adaptação social, incluindo orientações para a família e a escola. O Programa de Reabilitação contém três subprogramas que são:
1) Reabilitação integral: Procedimentos para o resgate das funções prejudicada e diminuição das dificuldades na realização de tarefas. São incluídas nessa
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etapa: comunicação, orientação e mobilidade, atividades da vida diária, fisioterapia, psicologia e serviço social.
2) Reabilitação especial: Procedimentos voltados para pessoas com independência parcial ou não e/ou pessoas idosas, atendendo às necessidades específicas e de acordo com os interesses e o momento de vida de cada um.
3) Reabilitação profissional: Conjunto de medidas de avaliação, orientação, adaptação e emprego, para a integração do deficiente visual na sociedade através do desempenho em uma atividade laboral condizente com as suas necessidades e potencialidades.
Dados do ano de 2007 demonstram que na população total atendida pela Fundação existe uma maior prevalência de baixa visão (889 casos), contra 228 casos de cegueira e 35 casos inelegíveis. A faixa etária de 60 anos ou mais apresenta 284 sujeitos e a maioria deles apresenta baixa visão (251 casos).
As principais patologias determinantes de cegueira e de baixa visão são a retinopatia diabética e a degeneração macular relacionada à idade. Esse dado discorda de dados mundiais que foram divulgados pela Organização Mundial de Saúde em 2002, demonstrando a catarata como principal causa de cegueira. Uma pesquisa recente realizada em São Paulo também demonstrou a catarata como principal determinante de limitação visual e cegueira (RESKINOFF ET AL., 2004; ARAUJO FILHO ET AL., 2008).
A Fundação pode representar uma alternativa para aqueles que perderam totalmente ou parcialmente a visão. Ao frequentar as atividades oferecidas, o deficiente e os familiares recebem o suporte para enfrentar as mudanças que ocorrerão em suas vidas. Essa rede de suporte torna-se não apenas um espaço para discussão de angústias ou de aprendizado de novas técnicas de realização das atividades rotineiras, mas também significa uma oportunidade de sociabilização e integração com pessoas que apresentam as mesmas dificuldades.
É necessário salientar que apesar de a pesquisadora ter sido recebida de forma acolhedora na fundação, com vários profissionais dispostos a auxiliar na procura de sujeitos para as entrevistas e no fornecimento de informações, o acesso
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aos prontuários dos sujeitos entrevistados foi restrito, em função das normas internas da instituição. Portanto, todas as informações aqui relatadas e discutidas foram fornecidas pelos próprios sujeitos, durante as conversas iniciais e entrevistas.