Quase todos os músicos cabo-verdianos entrevistados encontraram a música em casa, ou melhor, nasceram e cresceram com ela, havendo quem mesmo a tenha encontrado na “barriga da
137 Os ditos factores de atracção são as condições estruturais e conjunturais que, nas áreas de destino, favorecem a
entrada de imigrantes, enquanto os de repulsão são todos os que contribuem para que uma parte da população de uma determinadas área ou país procure alternativas de vida noutros espaços geográficos (Almeida, 1995: 86).
mãe”. É claro que a socialização musical não se circunscreve apenas ao ambiente familiar, onde ela terá sido mais visível e exercida particularmente pelo pai, pois quase todos os entrevistados aprenderam a tocar e a cantar em serenatas protagonizadas exclusivamente por homens encostados às janelas das namoradas ou preferidas e em redes informais de amigos.
O meu pai obrigava-me a mim e aos meus irmãos aprender a tocar e, às vezes, queríamos fugir, mas ele fazia tudo para que nos aproximássemos dele. Comecei em casa com o chocalho e reco-reco e tinha ainda entre os 10 e os 11 anos. Nos bailes onde tocava o meu pai, já tocava o chocalho, mas, depois, comecei a tocar viola de 10 cordas, pois ele viu que tinha jeito para viola de 10 cordas. Mais tarde, ele passou-me para cavaquinho, pois viu que eu não tinha muito jeito para violão, mas, sim, para o cavaquinho, para o qual tinha mais balanço, mais compasso, mais força e, então, empurrou-me ainda mais para o cavaquinho do que para a viola de 10 cordas e passei a acompanhá-lo naquele instrumento. Até hoje, continuo com o cavaquinho. [Executante de cavaquinho, 37 anos, músico profissional a tempo inteiro, Póvoa de Santo Adrião]
Na realidade, os aprendizes praticavam mais do que um instrumento musical, consoante fosse a vocação de cada um e o interesse imediato que tais instrumentos pudessem despertar neles, se bem que acabassem por eleger o seu instrumento de predilecção. Também não é menos certo que havia certos pais que se opunham terminantemente à aprendizagem dos filhos, pois, na altura, a música era considerada profissão menor e desviante e, como tal, reprimida socialmente, o que obrigava a que alguns acabassem por aprender a tocar às escondidas e à revelia dos progenitores, por via da observação.
Se bem que a maioria dos músicos entrevistados apenas toque de ouvido, frequentaram escolas de música no país de origem, antes da sua partida para Portugal, destacando-se, de entre elas, algumas instituições religiosas que tiveram um papel fundamental na aprendizagem da música, sobretudo nas cidades do Mindelo e da Praia. Aliás, as igrejas salesiana e nazarena formaram muitas gerações de músicos cabo-verdianos, tanto no domínio da execução de instrumentos musicais como no canto, sem contar, igualmente, com uma ou outra escola de formação profissional que teve algum mérito na formação de jovens.
Comecei a cantar desde que eu tinha os meus 6 a 7 anos, na Escola Salesiana em São Vicente, onde estudei, até à 4.ª classe, e foi ali que comecei a tomar gosto pela música com o falecido Padre Cristiano. Saí dessa escola e continuei a frequentá-la, pois fazia parte do coro. [Cantora, 30 anos, amadora, Cacém]
Antes da sua emigração para Portugal, alguns músicos chegaram a pertencer a bandas musicais no país de origem, para além de exercer uma ou outra actividade profissional extra- musical, também geradora de rendimento. Embora o móbil da emigração de muitos tivesse sido a música, o certo que a inserção no meio musical em Portugal, pelo menos numa primeira fase, nem sempre foi possível e decorreu através de um longo processo.
Vim mais para tocar, mas […] cheguei numa fase em que não encontrei oportunidade no domínio musical. Já em Cabo Verde tinha uma profissão, pois, trabalhava na construção civil, na parte ligada ao ferro, actividade que eu aprendi com um meu irmão que trabalhava na parte da construção técnica, que se chama Djeca, que era responsável, e ainda com outro irmão, que vive nos Estados Unidos da América, de nome Djôdjô. Assim, em Lisboa, resolvi enveredar também para esta área da construção civil, porque encontrei o meu irmão, filho mais velho da minha mãe e viu que eu tinha jeito para o ferro e pôs-me com ele a trabalhar. Assim, a minha primeira actividade foi na construção civil como armador de ferro. E safei-me porque tinha jeito para trabalhar com o ferro, tinha jeito, e já fiquei como ferreiro, desde 1990 a 1999. Nessa altura, eu tinha bom salário, melhor do que o salário na música, neste momento. Vim numa época boa, mas depois o trabalho no sector da construção civil veio complicar-se. Um belo dia, encontrei-me em Lisboa com Tito Paris e convidou-me voltar a tocar e aceitei logo o convite, pois eu estava numa profissão errada. [Executante de cavaquinho, 37 anos, músico profissional a tempo inteiro, Póvoa de Santo Adrião]
Assim, em 1999, respondendo ao convite de Tito Paris, este executante de cavaquinho entra em cheio na música cabo-verdiana em Portugal, precisamente pelas mãos daquele, após ter
abandonado a profissão de armador de ferro, que lhe dava algum dinheiro, «sim, fiquei a tempo inteiro na música e fiquei a tocar com o Tito, ora aqui, ora ali, ora acolá, e este colocou-me logo no Restaurante Enclave, que era, na altura, propriedade do próprio Tito, Leonel e Bana”. [Idem]
Alguns músicos são, pois, obrigados a trabalhar no sector da construção civil, da carpintaria, da ferraria ou ainda da restauração, até à sua inserção definitiva no sector da música e sujeitam-se a uma fase de transição que poderá durar algum tempo. Assim, grandes executantes da música cabo-verdiana em Portugal passaram, antes da sua entrada na cena musical, pela actividade no sector da construção civil, em primeiro lugar, contando com o apoio de alguns conterrâneos, bem como de algumas redes, nessa difícil fase de transição para a vida artística.
Em Portugal, o meu primeiro trabalho foi na obra de construção civil, embora eu tivesse vindo fazer experiência de música. É que, quando cheguei a Portugal, na altura, em 2002, não podia integrar facilmente e comecei logo a fazer serviço de carpintaria com um primo meu, ao mesmo tempo que me faziam convite para tocar em vários lugares, mas sem deixar o trabalho. Mas, depois, trabalhava e, às vezes, o empregador, que era meu primo, mas que, por sua vez, dependia de patrão português, pagava-me com atraso e, por isso, comecei a ter dificuldades. Morava em casa da minha mãe e ela apoiava-me muito. Entretanto, comecei a ter muito apoio do cantor e teclista Luís de Matos, que me convidava para tocar com ele. Aliás, toquei com Luís, como executante de violão, durante cerca de dois anos e, graças a ele, comecei a integrar-me na vida musical em Portugal, ao ponto de abandonar o trabalho de carpintaria a que me dedicava, mas sem grandes rendimentos. Também, tocava aos fins-de-semana no Restaurante “Vulcão” do Benjamin, em Buraca (Bairro do Alto da Cova da Moura). [Guitarrista, 44 anos, músico profissional a tempo inteiro, Ajuda]
Circunstâncias várias terão levado a que alguns músicos tenham sido obrigados a abandonar a vida musical e a abraçar outras actividades profissionais, mesmo que a título provisório, até conseguir alguma estabilidade. Veja-se, por exemplo, o caso de um jovem cantor, hoje profissional a tempo inteiro, que emigra definitivamente para Portugal em Março 1997, onde, aliás, estivera anteriormente por motivo de saúde, que é obrigado, durante cerca de quatro meses, a trabalhar no sector da construção civil, não se tendo conseguido adaptar, por se tratar de
um trabalho muito duro, explorador e extremamente desonesto da parte de quem emprega as pessoas. [Cantor, 41 anos, músico profissional a tempo inteiro, Algés]
Todavia, há músicos que chegaram a Portugal através de outros canais e que, por isso mesmo, não passaram por experiências profissionais mais ou menos dolorosas, antes do seu ingresso na actividade musical profissional. Assim, em 1998, por exemplo, alguns vieram ao abrigo de contratos celebrados com companhias de dança contemporânea portuguesas que terão durado pelo menos três anos, com todas as condições e garantiras, e, findo o contrato,
deixei de participar em grupos em cima do palco, como performance, deixei de participar em projectos e passei a ocupar-me mais da música, mais da composição, mais de outras coisas que têm ver com a música directamente, apesar de eu continuar a fazer, na dança, bandas sonoras. Cheguei cá […], mas nunca me senti integrado. [Executante de cavaquinho/viola da 10 cordas/compositor, 32 anos, músico profissional a tempo inteiro, Arroios]
Outros canais ou agentes de recrutamento de músicos impuseram-se sobretudo na década de 80 do século passado, destacando-se, em primeiro lugar, a figura de Bana, que era proprietário de uma loja de discos e de um restaurante em Lisboa, um espaço gastronómico e cultural muito procurado pelo público português e pela própria comunidade cabo-verdiana em crescendo. Assim, através dessa canal, chegaram a Portugal vários músicos profissionais para dar corpo à 3.ª edição do conjunto musical “Voz de Cabo Verde”, em circunstâncias nem sempre fáceis, tendo em conta particularmente as condições de alojamento que não eram as melhores, como recorda um deles.
Quando cheguei a Lisboa em 1988, não tinha onde ficar, a situação era muito complicada. Na altura, os meus colegas músicos aos quais vim juntar-me viviam em quartos de pensões, cada um tinha o seu quanto e, quando cheguei, nem isso sequer tive. Não tive um cubículo para me encostar (risos) e, por isso, tive que ir viver para a casa da minha tia. Foi muito complicado, muito complicado. Em 1989, decidi abandonar a música, porque a frustração era de tal forma e fui trabalhar como soldador para uma
empresa cá em Lisboa, precisamente em Carnaxide. Passados alguns meses, sou repescado pelo Paulino Vieira, que precisava fazer um trabalho, andou meses à minha procura porque, entretanto, retirei-me do meio, desapareci-me do meio e ele fez-me regressar à actividade musical, retomei a minha actividade musical. Cheguei, inclusive, pensar em regressar a CaboVerde. [Multinstrumenitsta/compositor, 42 anos, músico profissional a tempo inteiro, Sintra]