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Identification feature design

3.5 Digital Document Feature Design

3.5.1 Identification feature design

À volta da música cabo-verdiana, tem-se gerado alguma polémica sobre aquilo que deve ou não ser considerada a sua verdadeira “essência”, ou melhor, se o crioulo é ou não um elemento bastante para a sua definição. Naturalmente, as posições dividem-se entre aqueles que consideram a língua um factor essencial na definição da música cabo-verdiana e aqueles que defendem o contrário. No fundo, a questão que se coloca é saber se cantar em crioulo significa ou não praticar música cabo-verdiana. Assim, a maioria dos entrevistados contesta esta tese que vincula a língua à música, alegando basear-se a essência da música cabo-verdiana não no factor linguístico, mas tão-só num conjunto de elementos estruturantes de natureza técnica, mais ligados à melodia, ao ritmo e à sonoridade, de uma forma geral. Dito de outro modo, a língua, para muitos, não é determinante na definição da música cabo-verdiana.

[…] cantar em crioulo não quer dizer que se esteja a fazer música cabo-verdiana, porque a música cabo-verdiana tem as suas características rítmicas, harmónicas. Se eu cantar um fado em crioulo, não estou a cantar música de Cabo Verde […], se eu cantar um reggae em crioulo não estou a cantar música de Cabo Verde, estou a cantar em crioulo. [Cantor/guitarrista/compositor, 60 anos, profissional a tempo inteiro, Fernão Ferro]

Basicamente, aceita-se a “essência” da música cabo-verdiana, a sua evolução ao longo dos tempos, através nomeadamente de empréstimos de novos elementos, mas sem perder as suas características, pois

[…] acho que a morna tem uma identidade própria e um sentido harmónico que lhe pertencem, podemos alterá-la ligeiramente, mas atenção à forma como ela é alterada. Uma pessoa em Cabo Verde que compõe extremamente bem e veio alterar um bocadinho o sentido harmónico da morna, mas não fugindo àquela tal raiz. é, por exemplo, Betú. Não aceito, por exemplo, que um cantor cante zouk e diga que, só por ser cabo-verdiano, está a cantar música de Cabo Verde. Isto não aceito. [Pianista/director musical, 47 anos, músico profissional a tempo inteiro, Pontinha]

É certo que no interior de Cabo Verde, a música tem evoluído,

[…] estive em Cabo Verde, há pouco tempo, e fiquei extremamente bem impressionado por ter encontrado ali rapazinhos de 18, 19 e 20 anos a tocar e a respeitar aquela sonoridade típica cabo-verdiana, com muitas inovações, em termos de sentido de harmonia, mas respeitando a matriz musical. Fiquei contente porque há um movimento que volta a defender isto. [Idem]

Tal movimento interno virado para a defesa da evolução da música cabo-verdiana e assente no respeito pela sua sonoridade e essência projecta-se, de alguma forma, para o exterior do país, em direcção à diáspora, onde, aliás, se encontram “pequenos núcleos aqui, ali e acolá” [idem].

Para outros, essa polémica não tem qualquer razão de ser, tanto mais que a música cabo- verdiana não se pode fechar a influências vindas do exterior, como se elas não existissem, refugiando em rotulações que em nada abonam a favor de uma classificação musical baseada em parâmetros ou critérios minimamente objectivos.

Considero esta polémica muito esquisita, ou seja, se esta música é cabo-verdiana ou se não é cabo-verdiana. Não perfilho essa polémica porque nós sempre fomos um povo aberto a toda ou quase toda a informação e a influências, até porque tem a ver com a razão da nossa existência enquanto seres humanos, somos abertos a outras culturas, mas, felizmente, nunca fechados. A verdade é que tudo aquilo que tem a ver com a música

africana veio da Europa, nomeadamente de Portugal, e do Continente Africano e nós absorvemos e tomamos isso como uma coisa nossa. Sempre foi assim e eu acredito que vai continuar a ser assim, nós vamos continuar a absorver [criticamente] as informações e vamos transformá-las numa coisa nossa. Isto é natural, hoje estamos num mundo em que não podemos fechar os ouvidos e dizer assim, eu não quero isto, não. Não é importar, é absorver criticamente. Querendo ou não, vamos ter que absorver essas informações, mas, depois, vai caber a cada um dar a sua interpretação e fazer uma coisa dela., mas, depois, vai caber a cada um dar a sua interpretação e fazer uma coisa dela.

Não gosto de rotulações, porque acho que estar a rotular as músicas é estar a retirar a capacidade de cada um de nós, enquanto criativos, enquanto criadores, é estarmos a fechar-nos numa concha e dizer isto é A, B, etc. Para mim, a música é como uma árvore, percebes, em que a árvore está constituída pelas raízes, pelo tronco, depois, as ramas, as folhas, os frutos. Agora, se formos analisar bem, a cor do fruto desta árvore não tem uma tonalidade uniforme, há sempre uma diferençazinha ali, mas não deixa de ser o fruto desta árvore, o tronco está aí. É por isso que quando eu faço música cabo- verdiana, faço música cabo-verdiana exactamente a pensar numa árvore: tenho aqui este tronco, mas agora vamos tentar modificar isto de forma a que esteja aberta ao mundo. [Multinstrumenitsta/compositor, 42 anos, músico profissional a tempointeiro, Sintra]

Todavia, refira-se que, se a excessiva abertura ao mundo não for gerida correctamente, poderá, de algum modo, fazer perigar a “essência” da chamada música tradicional cabo-verdiana, se bem que isso, à partida, não constitua um problema de fundo para alguns músicos, pois,

temos uma capacidade enorme de não só absorver as informações que nos vão chegando todos os dias, ainda por cima com a Internet, via satélite, mas, ao mesmo tempo, temos a capacidade de ser cabo-verdianos. Costumo dizer que é preciso saber separar as coisas […], as pessoas podem absorver as influências todas, mas, depois, quando chega o momento, vem ao de cima aquele sentimento e vamos tratar a morna como ela é mesma. [Idem]

Independentemente das classificações mais ou menos rígidas que não abonam a favor da abertura da música cabo-verdiana, na realidade esta caracteriza-se por uma série de padrões ou critérios distintivos de outras músicas. Mas, afinal que critérios são esses, ou melhor, quando se fala de música cabo-verdiana de que música se estará a falar?

Se estivermos a falar da morna, estamos, estamos a falar de música cabo-verdiana, se falamos da coladeira estamos a falar de música cabo-verdiana, se falamos do funaná ou do batuque, sim senhor, porque são estilos bem delineados. Agora, se, depois, falamos de uma batida zouk, cantada em crioulo, não que eu tenha nada contra, mas quando dizemos que aquilo é música cabo-verdiana temos que ter em atenção quando o afirmamos, embora seja uma expressão musical válida como qualquer outra, é apenas uma observação que faço. Não estou com isto a dizer que não se deva estender a música, porque a música é isso, a música é música, mas temos que ter algum cuidado na classificação […], pois nós os seres humanos queremos catalogar tudo. Eu prefiro que as pessoas me digam que isto é música. É música. Mas, dizer que é música de Cabo Verde, não me parece que se estaria a fazer justiça a um Jotamont, a um B. Léza, a um Paulino Vieira ou a um Luís Morais […], não obstante a música ser um instrumento vivo […]. [Cantor e baixista, 41anos, descendente de imigrante cabo-verdiano, músico profissional a tempo inteiro, Paço d’Arcos]

A circunstância de se tratar de músicas produzidas e interpretadas por cabo-verdianos não significa que, à partida, se esteja a falar de música cabo-verdiana, porquanto a nacionalidade não é um requisito único e suficiente de definição de música cabo-verdiana. É certo que, hoje em dia, a música cabo-verdiana, já catalogada na chamada world music, graças à Cesária Évora, não consegue fugir a essas misturas, que a vão absorvendo.

Contrapondo-se a uma visão meramente purista ou conservadora, há, pois, uma corrente liderada essencialmente por jovens músicos que advoga uma visão ecléctica, sincrética, aberta e verdadeiramente integrada da música cabo-verdiana, independentemente dos géneros ou estilos musicais. Sendo assim, a língua não tem peso na definição da essência desta última, ou seja, a definição de música cabo-verdiana não passa pela língua crioula, no sentido em que se

eu estou a cantar um blues em crioulo, um reggae em crioulo, não estou a cantar música de Cabo Verde. A Titina Rodrigues, eu gosto muito dela, ela tem uma forma de interpretar as músicas também fora de série, ela vive a música de uma forma muito intensa.

Por outro lado, a própria música de Cabo Verde impõe limites, mormente num contexto de globalização em que são tantas as influências. Contudo, essa definição de tais limites da música não é empresa fácil e não se considera

relevante de todo definir o conceito de música de Cabo Verde, nem as fronteiras, nem as balizas. Aliás […], isto tudo resume-se […] a um sentimento, mas pode ser algo muito genérico, não é relevante […], até porque, hoje em dia, já não é possível fugirmos às influências que temos do mundo inteiro, nós vivemos num mundo globalizado. [Cantora, 26 anos, estudante-música semiprofissional, Santo António dos Cavaleiros, Loures]

No passado, tornava-se mais fácil fugir às influências musicais viessem donde viessem, já que, nessa altura,

o meio eram as pessoas que nos rodeavam, eram os nossos pais, eram os nossos vizinhos, eram essas pessoas que as transmitiam […].Claro que nós temos que tentar manter essa tradição para mostrar as pessoas, mas, lá está, não é fácil saber, de facto, o que é essa tradição, porque o que era para o Bana, o que ele viveu, o que ele sentiu, os temas que eram importantes, na altura, não o são hoje em dia para mim; os instrumentos que eles utilizavam na altura, ainda hoje existem […], mas, com tanta coisa nova, eu não posso estar a cantar a minha realidade e utilizar coisas que se utilizava, no passado, é impossível, porque não é ser fiel ao que se vive. [Idem].

Daí que se imponha a preservação da chamada música tradicional cabo-verdiana, mas reformulando o conceito de tradicional, que tem um significado diferente para cada geração de músicos, em função do seu tipo de socialização, das suas experiências e das suas mundivências.

Aliás, em Portugal assiste-se a um esforço evidente no sentido da preservação desse tipo de música, sobretudo da parte das intérpretes femininas, embora não se evitem influência externas, tal como no passado,

[…] os mais velhos sempre fizeram misturas com outras coisas […] e continuamos a fazer o mesmo. As misturas representam um factor positivo […]. Sempre foi assim. Neste momento, em Portugal, a música anda à procura de raízes, outra vez, tal como no passado, as gerações recentes tentam procurar as raízes, podem meter alguma coisa, mas a raiz está lá. A sua contribuição para a música cabo-verdiana é positiva. [Pianista/arranjador/director musical, 41 anos, músico profissional a tempo inteiro, Seixal]

7.5. Penetração e presença da música cabo-verdiana na AML, a partir