3.1 Overvintrende sjøfugl
3.1.3 Overvåkingsfasen (22. januar – 28. februar)
Apresentadas as perguntas de investigação e as respectivas hipóteses, explicam-se, de seguida, as diferentes etapas que permitiram o registo e posterior tratamento do material recolhido. Antes, porém, urge lembrar que “Os resultados das pesquisas, mesmo as mais localizadas, exigem geralmente a situação dos acontecimentos num conjunto global, inscritos em tendências a longo prazo, permitindo assim uma melhor compreensão dos contextos (Guerra, 2006: p. 8).
Este entendimento da pesquisa como parte de um processo, e portanto como algo que não pode ser percebido isoladamente, é muito importante. É nesse contexto que, aliás, o presente estudo se insere, uma vez que procura compreender os significados da estratégia de comunicação do governo de Moçambique a partir de uma instituição particular – as Presidências Abertas e Inclusivas do Presidente Armando Emílio Guebuza.
Os discursos do Presidente Guebuza foram estudados com recurso à Análise do Discurso (AD), uma técnica de investigação que se funda no estudo das diversas formas de produção, verbais e não-verbais, desde que esse material produza sentidos para a interpretação (Caegnato & Mutti, 2006: p. 680). Ou seja, este método de estudo permite analisar aspectos além do texto.
Nenhum texto tem um significado único e fixo: todos os textos são passíveis de interpretações pluralistas e portanto distintas, os significados não são sempre imediatamente evidentes, sendo que, muitas vezes, o que não está no texto pode ter mais significado do que aquilo que está lá expresso (Burr, 1995 apud Nogueira, 2001: p. 21)
No processo de produção de sentidos, a função da linguagem é central porque, enquanto discurso, não constitui apenas um sistema de signos utilizados para a comunicação ou pensamento, ela é interacção, um modo de produção social. Portanto, a linguagem não emerge num vazio social. Ela estrutura-se num espaço socio-histórico e representa um conjunto de práticas de produção de significados. Daí o interesse desta metodologia por vários campos de estudo como a psicologia, a sociologia, a linguística, a antropologia, os estudos literários, filosóficos, de comunicação social, tendo cada uma, evidentemente, a sua perspectiva. Por essa razão, é difícil ter uma definição de Análise do Discurso que possa abarcar toda a variedade de teorias e práticas que lhe são inerentes. Em todo o caso, sumariamente, a AD implica os modos conceptuais de pensar o discurso e de tratar os dados do discurso, sendo que o seu foco principal está na produção, através da linguagem, de uma visão particular da realidade social (Daymon & Holloway, 2011: p. 166)
Neste sentido, a pesquisa da análise de discurso propõe-se a investigar o que está implícito e explicito nos diálogos (linguagem) em contextos sociais, com aplicação para textos visuais (ex. televisão, cinema, banda desenhada) e também em textos físicos (ex, cidades, jardins). Contudo, o estudo da AD é mais praticado em textos escritos, tais como: relatórios, entrevistas, discursos, entrevistas, artigos de jornais, etc.
Um outro aspecto de realce na pesquisa de AD tem a ver com o pressuposto epistemológico (Burr, 1995; Willig, 2008), o qual sugere que o conhecimento obtido é parcial e situado, isto é, a AD é específica às situações particulares e a períodos particulares, não sendo, como tal universalmente aplicáveis.
O cariz multi e interdisciplinar da AD, com diferentes abordagens, dimensões e também de metodologias deu lugar ao surgimento de duas linhas teóricas: uma produzida na França, fundamentada por, entre outros, Michel Foucault, 1972; e Michel Pêcheux, 1993; e a outra de vertente anglo-saxónica, a Análise Crítica do Discurso (ACD), com uma forte influência dos estudos de pesquisadores como Hodge & Kress, 1979; Norman Fairclough, 1989; Teun Van Dijk, 1997.
Os trabalhos da análise de discurso francesa têm em consideração as relações entre o poder e o saber. Foucault (1979) rejeita a ideia do poder associado essencialmente à força repressiva, concebendo-a como mais produtiva quando produz saber. Assim, o poder não é entendido como propriedade de uma pessoa ou grupo, mas antes como algo que qualquer pessoa pode exercer através do discurso, influenciando a mudança social das pessoas.
Para os analistas desta abordagem, as práticas discursivas são práticas sociais, produzidas através das relações de poder concretas, numa época determinada. Essas relações apontam para certos efeitos que regulam e controlam a ordem social (Llombart 1995). Deste modo, a AD francesa considera os discursos como sendo meios fluídos em mudança, nos quais os significados são criados e contestados.
Com efeito, os discursos são entendidos, na óptica de Foucault, como comunicações imbuídas de ideologias que afectam e influenciam a vida social, incluindo o reforço das desigualdades sociais. Portanto, a corrente foucaultiana não estava preocupada com a micro-análise da interacção individual, mas sim por estudos de maior amplitude, com o objectivo de promover a mudança e expor as relações de poder na sociedade.
Já na linha anglo-saxónica da ACD, seleccionada como ferramenta metodológica da presente investigação, o discurso é visto como um modo de acção, como uma prática que altera o mundo e altera os outros indivíduos no mundo. Ou seja, esta corrente centra-se na micro- análise dos textos, observando o seu impacto na sociedade. O analista presta atenção à forma como os discursos particulares usam, estrategicamente, a linguagem, para legitimar as suas posições e acções, a fim de influenciar a mudança social. O interesse aqui é, então, investigar como e por que alguns significados tornam-se linguagem comum e por que os outros tornam- se marginalizados.
Para os defensores desta abordagem da análise crítica do discurso, cada discurso/texto é desenhado com algum propósito de influenciar significados e, por conseguinte, para moldar conhecimento. Pensa-se que, ao examinar cuidadosamente as palavras escolhidas num discurso e observar as metáforas introduzidas, é muito provável que se identifiquem pressupostos que suportam e justificam interesses e posições muitas vezes não reconhecidos. Desse modo, os discursos não se limitam a reflectir ou espelhar eventos e categorias pré-
existentes no mundo social e natural, pelo contrário, constroem uma versão das coisas, contando com as implicações sociais e políticas. Neste contexto, Daymon & Holloway (2011) defendem que o recurso a metáforas na linguagem discursiva é um procedimento estratégico porque elas representam algo mais e ajudam a orientar e revelar o nosso pensamento.
No âmbito desta análise do discurso, a linguagem ou discurso não são meros dispositivos de produção e transmissão de significados. Trata-se de uma estratégia que as pessoas usam para criar, intencionalmente, determinados efeitos (Daymon & Holloway, 2011: p. 167).
A conexão entre a linguagem e o seu contexto é estruturante nesta metodologia de análise do discurso. Os investigadores que seguem esta abordagem estão preocupados com a ideia de que o discurso ocorre dentro de um contexto social que tanto influencia, como é influenciado pelo discurso. A análise crítica do discurso vai, portanto, para além de exame textual para explorar como a linguagem é utilizada, ela examina o processo através do qual os significados são gerados e mantidos.
O principal proponente da ACD anglo-saxónica, o investigador britânico e professor emérito de linguística na Universidade de Lancaster, Norman Fairclough (2010), por exemplo, centraliza o seu trabalho na linguagem como um instrumento de comunicação na vida social, olhando principalmente para questões tais como mudança social, globalização e política (especialmente, em discursos políticos).
Quando em 1985 Norman Fairclough publicou no Journal of Pragmatics, um texto intitulado
Critical and Descriptive Goals in Discourse Analysis, demarcando-se da análise do discurso
tradicional francesa (segundo a qual as práticas discursivas são ligadas a questões de dominação e de manutenção do poder, com efeitos ideológicos), inaugurou um formato de pesquisa em que se analisam as “interacções verbais como fenómenos dialecticamente associados às estruturas sociais, no sentido em que por estas são fortemente determinados, ao mesmo tempo que sobre elas actua (…), é ainda tarefa da análise relacionar o micro- evento (discursivo) com a macro-estrutura (social)” (Gouveia, s/d: p. 32).
Com efeito, Fairclough (2001: p. 100) sugere uma análise tridimensional dos textos, sustentando que qualquer discurso pode ser considerado, simultaneamente, um texto (análise linguística), um exemplo de prática discursiva (análise da produção e interpretação textual) e um exemplo de prática social (análise das circunstâncias institucionais e organizacionais do evento comunicativo).
Segundo este modelo tridimensional existem três perspectivas analíticas: a multidimensional - para avaliar as relações entre mudança discursiva e social e, também, para relacionar as propriedades particularizadas de textos às propriedades sociais de eventos discursivos; a
mudar o conhecimento, as relações e identidades sociais; e a histórica - para discutir a “estruturação ou os processos ‘articulatórios’ na construção de textos e na constituição, em longo prazo, de ‘ordens de discurso” (Fairclough, 2001: p. 27).
Neste prisma, a análise de discurso foca-se nos processos tanto de produção e de distribuição como de consumo textual. Por conseguinte, esses processos sociais impelem que a análise faça referência aos ambientes económicos, políticos e institucionais particulares, nos quais o discurso é gerado.
Figura 4: Modelo tridimensional de análise crítica do discurso. Fonte:
(Fairclough, 1995: p. 98).
Indo mais a fundo no entendimento do modelo tridimensional de Fairclough (2001), sugere-se, de seguida, a explicação das categorias de análise discursiva:
1. Análise textual e linguística, também denominada de “descrição”. Esta dimensão