• No results found

OVERSIKT OVER VANNKVALITETSPARAMETERE

Karl Marx em “O Capital”, nos capítulos históricos 22, 23 e 24, sobre a acumulação primitiva, demonstra que, no primeiro momento da formação do capitalismo, os limites naturais e psíquicos do ser humano ainda constituíam um obstáculo efetivo à demanda do capital por ampliar progressivamente a sua produção, e assim, limitava a dinâmica da acumulação capitalista. Com a maquinofatura o capital se liberta desses limites naturais humanos, e acelera seu ritmo de produção e seu processo de acumulação.

Apesar da emissão de gases já existir desde a expansão agrícola e pecuária, a produção industrial intensificou a emissão de poluentes e a criação de resíduos em grande quantidade além de transformar por meio da industrialização, os recursos naturais, de forma que os produtos frutos desse processo não pudessem ser reassimilados pela natureza, ou fossem só depois de muito tempo. A produção industrializada começa um progressivo consumo de recursos naturais e intensificação da poluição.

Há no capitalismo uma demanda por ampliar progressivamente a sua produção, pois sendo um modo de produção baseado na competição e não na cooperação entre os produtores, há uma necessidade progressiva do capital em revolucionar constantemente os produtos e os processos produtivos na busca de aumento de vantagens competitivas e expansão do mercado consumidor. O acumulo de capital se reverte em mais vantagens competitivas, uma vez que esse capital acumulado será em grande parte reinvestido nos produtos ou processos produtivos.

A necessária busca progressiva pelo acúmulo de capital que se dá na busca de vantagens competitivas sobre a concorrência leva a um constante aprimoramento dos meios de produção, com a introdução sistemática de inovações e o contínuo desenvolvimento das forças produtivas. Não é regra que somente a empresa de elevado capital acumulado possa inovar tecnologicamente melhorando produtos e processos, mas sim, uma freqüência, uma vez que o tamanho do investimento em inovação e as patentes já conseguidas por ciclos de investimentos anteriores têm papéis decisivos para a vantagem de certas empresas sobre outras. Daí a necessidade crescente de expandir o acumulo de capital que irá gerar mais vantagens competitivas. A progressividade do capital diz respeito assim a uma necessidade do capital em se desenvolver para a acumulação, sem a qual não obtém o lucro necessário à mais um ciclo de reinvestimento.2

A inovação do produto traz consigo uma inovação também cultural que influencia hábitos de vida, devido à abrangência de sua propagação, que uma vez

2 Toda a análise apresentada nesta tese nas páginas sobre o desenvolvimento capitalista e suas

características têm como base de argumentação a dissertação de mestrado intitulada “Contribuições das Políticas Científicas e Tecnológicas à formação de uma cultura de sustentabilidade socioambiental” apresentada à Unicamp em 2003, pela mesma autoria desta tese.

incorporada gera a necessidade de ser suprida. A necessária progressividade do aumento da produção está ligada à necessidade de aumento também do consumo como forma de escoamento do aumento da produção. Para tal, há inclusive um sucateamento precoce programado do aparato técnico da produção e dos próprios produtos, devido à necessidade de expansão e acumulação do capital das empresas que fabricam os produtos e as próprias tecnologias de processo. Para a progressividade do acúmulo de capital, não há investimento em aspectos como a durabilidade dos produtos e sustentabilidade dos recursos naturais, o que gera impactos e degradação ambientais, muitas vezes irreversíveis.

Essa característica estrutural do sistema capitalista de produção impõe uma contradição também estrutural: considerando que qualquer forma de produzir a existência material das sociedades humanas (o modo de produção econômico) tem como base a apropriação, extração, transformação, distribuição e consumo dos recursos naturais, as sociedades baseadas no modo de produção capitalista possuem características singulares no que diz respeito ao seu relacionamento com a natureza. A progressiva expansão do capital entra em contradição com os próprios limites dessa relação com a natureza, pois os recursos naturais do planeta são limitados por uma temporalidade natural de regeneração dos ecossistemas e não progressivas como as necessidades do capital, que precisa expandir cada vez mais seus mercados consumidores. A racionalização interna da empresa, visando fins individuais, não racionaliza o processo de forma estratégica e coletiva, visando a sustentabilidade desses recursos naturais vitais a toda a sociedade e ao próprio sistema.

Mais uma vez o ser humano se depara com as limitações da terra e do tempo da natureza, mas agora pelo motivo contrário: pela rapidez e aumento progressivo do ritmo da produção e conseqüente necessidade do uso de recursos naturais. Tal situação demonstra que os problemas ambientais estão intrinsecamente relacionados às formas das atividades produtivas humanas e suas técnicas.

A cultura está relacionada à ordem da produção, o que pede processos de formação cultural voltados à sustentabilidade socioambiental que possibilitem mudanças que influenciem na reorientação de processos da própria ordem produtiva

e contribuam a novos hábitos de vida das pessoas, responsáveis do ponto de vista socioambiental.

As políticas científicas e tecnológicas se mostram como uma privilegiada possibilidade de contribuições à formação de uma nova cultura, devido ao fato de serem um direcionamento político voltado ao cerne da racionalidade do desenvolvimento capitalista: a inovação científica e tecnológica, que possui papel decisivo para o modo de produção e seu universo de interferência, e ainda, devido à centralidade da ciência e da tecnologia na cultura das sociedades modernas. Segundo Irwin (1995) a ciência e a tecnologia provêem muitas das possibilidades materiais da existência moderna e as inovações científicas e tecnológicas sempre promoveram rupturas culturais nas sociedades em que se desenvolveram.

A ciência e a tecnologia já eram apropriadas pelos interesses do desenvolvimento capitalista largamente desde a Segunda Revolução Industrial (ROSENBERG, 1995), mas não havia envolvimento direto entre o desenvolvimento da ciência e tecnologia e políticas específicas voltadas ao desenvolvimento do capital. A primeira política científica e tecnológica reconhecidamente direcionada por interesses específicos foi o projeto Manhattan, desenvolvido pelos Estados Unidos da América durante a Segunda Guerra Mundial, visando o desenvolvimento das bombas nucleares cujos acionamentos marcaram o fim da guerra (PRICE, 1986).

É ainda escassa a literatura a respeito dos impactos culturais que as políticas científica e tecnológicas promovem nas sociedades em que são desenvolvidas, mas no Brasil, um dos casos notórios de histórias de políticas científicas e tecnológicas está relacionada à FAPESP, que influenciou fortemente o desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil, depois da década de 70, que serão analisadas posteriormente.