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É importante salientar que uma das dificuldades no trato da análise da desumanização diz respeito à compreensão dos seus motivos, da necessidade de sua existência, isto é: por que alguns grupos “hegemônicos” (opressores) utilizam discursos e práticas para desumanizar os oprimidos, uma vez que, muitas vezes, essas não oferecem qualquer ameaça (pois já se encontrariam ideologicamente alienadas) ou já estariam submetidas ao poder hegemônico? Essa questão fica mais clara com a seguinte pergunta: qual necessidade teria a Igreja em emitir discursos desumanizadores sobre as mulheres, que por seu turno, de certa forma, já estariam subjugadas ao seu domínio? Em princípio, nenhuma necessidade haveria para tais discursos, se pensarmos neles somente como instrumentos para dominação e, nesse âmbito, o discurso desumanizador não seria pronunciado para fins militares e pouco serviria para doutrinação ou divulgação de uma ideologia.

Entretanto, Delumeau (1989, p. 313) atribui como principal motivo para os referidos tratamentos às mulheres o medo. Assim ele se manifesta:

O medo masculino da mulher vai portanto além do temor da castração identificada por Freud. [...] Dossiês clínicos, mitologias e história confirmam, com efeito, o medo da castração no homem [...]. No inconsciente do homem, a mulher desperta a inquietude, não só porque ela é o juiz de sua sexualidade, mas também porque ele a imagina de bom grado insaciável, comparável a um fogo que é preciso alimentar incessantemente, devoradora como o louva-a-deus.

Assim, é provável que além do medo, a incompreensão do sexo feminino por parte do homem tenha sido também fundamental para a construção do preconceito contra as mulheres. Além disso, pesavam sobre as mulheres do Medievo, considerações religiosas e supersticiosas que, a partir dessas, explicavam ao homem sua vida de miséria e desolação. Dentre as crenças dos homens que os faziam temer as mulheres no começo da modernidade, pode-se ainda citar que

Porque mais próxima da natureza e mais bem informada de seus segredos, a mulher sempre foi creditada, nas civilizações tradicionais, do poder não só de profetizar, mas também de curar ou de prejudicar por meio de misteriosas receitas. Em contrapartida, e de alguma maneira para valorizar-se, o homem definiu-se como apolíneo e racional por oposição à mulher dionisíaca e instintiva, mais invadida que ele pela obscuridade, pelo inconsciente e pelo sonho (DELUMEAU, 1989, p. 311).

De qualquer forma, o homem, assumindo-se no papel de opressor, sempre fez questão de diferenciar-se da mulher, supervalorizando suas próprias capacidades e desvalorizando aquilo que ele mesmo atribuía como “coisas de mulher”. Pode-se compreender que o homem, por não ser capaz de gerar filhos, possui uma incapacidade primária de compreender esse fenômeno e, como é possível perceber ao longo da história, a humanidade liderada sobretudo por homens custou muito (e ainda custa) a lidar com aquilo que não compreende.

Outro motivo que serviu para uma pretensa desumanização das mulheres no início da modernidade seria de ordem psicológica:

Ele [o homem] teme o canibalismo sexual de sua parceira, assimilada por um conto do Mali a uma enorme cabeça que, ao rolar, devora todas as coisas à sua passagem. Ou ainda ele imagina Eva como um oceano no qual seu frágil navio flutua com precariedade, como um sorvedouro que o aspira, um lago profundo, um poço sem fundo. O vazio é a manifestação fêmea da perdição. Assim, é preciso resistir aos turvos apelos de Circe e de Lorelei. Pois, de qualquer maneira, o homem jamais é vencedor no duelo sexual. A mulher lhe é “fatal”. Impede-o de ser ele mesmo, de realizar sua espiritualidade, de encontrar o caminho de sua salvação. Esposa ou amante, é carcereira do homem. Esse deve, pelo menos, às vésperas ou no caminho de grandes empreendimentos, resistir às seduções femininas (Id., Ibid., p. 313).

Encontradas, pois, as responsáveis pelo sofrimento e a perdição do homem, restava a eles submetê-las e dominá-las. Nesse processo de submissão e domínio, a violência não se fez ausente e a identificação da mulher com o mal tornou-se uma constante nas relações de gênero.

Já no que se refere às motivações para o acontecimento da desumanização, tal questão apresenta uma variedade de teorias e explicações, muitas vezes até conflitantes. Uma das explicações mais contundentes é a proposta por Bauman (1998, p. 128-129), nos seguintes termos:

A desumanização liga-se de modo inextricável à tendência mais essencial, racionalizante, da moderna burocracia. Como todas as burocracias afetam em alguma medida alguns objetos humanos, o impacto negativo da desumanização é muito mais comum do que sugeriria o hábito de identificá- lo quase totalmente com seus efeitos genocidas. Mandam os soldados atirara em alvos, que caem quando são atingidos. Os empregados de grandes companhias são encorajados a destruir a concorrência. Funcionários de agências previdenciárias operam com abonos discricionários numa hora e

créditos pessoais em outra. Seus objetos são os segurados com benefícios extras. É difícil perceber e lembrar os seres humanos por trás de todos esses

termos técnicos. A questão, no que concerne às metas burocráticas, é que é melhor não percebê-los e não lembrá-los.

Uma vez efetivamente desumanizados e portanto cancelados como sujeitos potenciais de demandas morais, os objetos humanos da execução de tarefas burocráticas são vistos com indiferença ética, que logo vira desaprovação e censura quando sua resistência ou falta de cooperação torna mais lento o fluxo macio da rotina burocrática. Objetos desumanizados não podem possivelmente ter uma ‘causa’, muito menos uma causa ‘justa’; eles não têm interesses a serem considerados, com efeito nenhuma reivindicação à subjetividade. Objetos humanos tornam-se portanto um ‘fator incômodo’. Sua rebeldia reforça mais a auto-estima e os laços de camaradagem que unem os funcionários. Esses vêem-se então como companheiros numa luta difícil, que pede coragem, auto-sacrifício e dedicação desinteressada à causa. Não são os objetos da ação burocrática mas os seus sujeitos que sofrem e merecem compaixão e exaltação moral. Podem com justiça sentir orgulho e confiança na própria dignidade, por esmagarem as vítimas recalcitrantes – da mesma forma que sentem orgulho de superar qualquer outro obstáculo. A desumanização dos objetos e a auto-avaliação moral positiva reforçam-se mutuamente. Os funcionários podem servir com lealdade a qualquer meta e manter sua consciência moral intacta. (BAUMAN, 1998, p. 128-129).

As explicações de Bauman, embora contundentes, singularizam as condições que levaram à desumanização dos/as judeus/judias e, por conseguinte, a tentativa de aniquilação total desses. Nesse ínterim, a criação de uma “linguagem técnica” para abordar questões relativas ao assassinato em massa de judeus, integrada a uma estrutura burocrática que não se permite visualizar de onde partem as ordens, mas dá a essas mesmas ordens um crédito e uma autoridade inexplicável, constituíram num mecanismo de morte e destruição daqueles que eram considerados inimigos pelos nazistas.

Bauman ainda parece compartilhar da crença de que, uma vez desumanizados, ou seja, uma vez que os nazistas estão convencidos de que os/as judeus/judias não são seres humanos e, mais do que isso, são um incômodo e um escândalo para a proposta ariana nazista de humanidade, então, sua destruição torna-se mais que apropriada: torna-se necessária. Por esse motivo, muitos nazistas acreditavam piamente que, ao chacinarem judeus, além de cooperar com legislação Nacional Socialista vigente – numa sociedade que se pretendia “superior” –, eles estavam fazendo um bem à própria humanidade em si. O depoimento da esposa de um oficial da SS, que também era oficial, é sintomático quanto a essa questão:

[...] Quando o interrogador perguntou a Petri como, sendo ela mãe de dois filhos, pôde matar crianças judias inocentes, ela respondeu: “Não posso entender hoje como é que naquele tempo eu estava em tal estado que me conduzi tão brutal e repreensivelmente – atirando em crianças judias. No entanto, antes (antes de chegar à propriedade na Ucrânia) eu fui tão condicionada pelo fascismo e as leis raciais que estabeleciam uma visão das pessoas judias. Como me disseram, eu tinha que destruir os judeus. Foi com essa ideia na cabeça que cheguei a cometer um ato tão brutal (LOWER, 2014, p. 170).

Percebe-se com essa fala que a obediência irrestrita a uma ordem (“Como me disseram”) aparece como verdadeira motivação para o assassinato. Porém, a justificativa do condicionamento, embora ele, de fato, pareceu ter existido por meio da propaganda antissemita e dos discursos inflamados sobre as ações benévolas do nazismo que levariam a sociedade ariana a um futuro próspero, não parecem convincentes. Concordar com essa justificativa seria o mesmo que aceder à noção de que todos os crimes cometidos durante o regime nazista foram frutos de um mero contexto de época e, portanto, foram inevitáveis.

Hannah Arendt (2004), por seu turno, classificava os atos nazistas contra os/as judeus/judias como uma incapacidade de pensar dos opressores, transformados em meros “dentes de engrenagem” da maquinaria estatal totalitária, em que os expedientes de assassinatos, torturas e demais violências foram enquadrados dentro de uma rotina de expedientes burocráticos, fazendo com que tais atos se tornassem banais.

Entretanto, Goldhagen (1997) discordava de Hanna Arendt. Segundo ele, os nazistas eram perfeitamente capazes de refletir sobre seus atos, tanto que colaboraram voluntariamente com as demandas nazistas que visavam ao aniquilamento judeu. Em sua obra Os Carrascos Voluntários de Hitler, ele demonstra vários exemplos dessa voluntariedade dos verdugos em matar judeus. A justificativa que ele oferece para a onda antijudaica era que

[...] A única explicação adequada para responder a essas tarefas [ou seja, o assassinato e maus tratos dos judeus] sustenta que um anti-semitismo demonológico, de uma variedade racial virulenta, era estrutura comum de cognição dos perpetradores e da sociedade alemã em geral. Os perpetradores alemães, segundo essa visão, foram assassinos de massa coniventes, homens e mulheres fiéis a suas próprias crenças anti-semíticas eliminacionistas, que eram fiéis a seu credo cultura anti-semítico e consideravam que o massacre era justo. (GOLDHAGEN, 1997, p. 418).

Apesar da realidade do fato de que havia na Alemanha nazista um tenaz antissemitismo, parece equivocado atribuir como motivação única para os processos de extermínio dos/as judeus/judias apenas esse virulento antissemitismo. Concordar com isso seria admitir um gigantesco poder de um regime estatal de insuflar na mente de seus cidadãos qualquer tipo de ideologia, até mesmo as mais perniciosas. Parece mais plausível acreditar que fatores psicológicos, sociológicos e políticos devem ser sopesados com mais cautela para oferecer uma resposta mais abrangente à questão das motivações nazistas para o holocausto.

A desumanização, muitas vezes, como foi ponderado anteriormente, passa por certas ritualizações. No caso do extermínio judeu, o ritual que antecedia e preparava sua aniquilação era o sofrimento:

Os judeus deveriam sofrer. Esse era um segundo elemento do modelo subjetivo. Não se tratava apenas de as vidas dos judeus serem “indignas de ser vividas” e portanto apropriadas para o extermínio. Como vivos, os judeus deveriam também ser punidos e degradados. [...] Como a percepção de sofrimento era, com algumas exceções, prática comum a todo o pessoal alemão desses campos (tais como as repentinas e persistentes chibatadas), um entendimento genericamente compartilhado entre os algozes, embora sem codificação, parece ter sido que tornar a vida miserável para os judeus era parte essencial de seu trabalho. (GOLDHAGEN, 1997, p. 342-343).

A crença na verdade do discurso de que os/as judeus/judias não compartilhavam da mesma humanidade dos outros e de que eram indivíduos naturalmente maus (cujas vidas eram “indignas de ser vividas”) parece tão forte, que a humilhação do judeu, principalmente nos campos de concentração, torna-se rotineira e banal. Goldhagen (1997) dá a impressão de que os atos degradantes cometidos contra os/as judeus/judias não são fruto de um simples sadismo dos perpetradores, mas sim algo que “fazia parte” da tarefa de lidar com judeus. Mesmo porque é difícil compreender a necessidade de brutalidade para com os/as judeus/judias, uma vez que todo mecanismo dos campos de concentração já garantiria que eles seriam exterminados. Sendo assim, para quê humilhá-los antes de matá-los? Além disso, em outra passagem, Goldhagen (1997) também afirma que a degradação dos/as judeus/judias não era autorizada por qualquer lei nazista, embora as autoridades fizessem “vista grossa” para a violência contra eles.