2 Teori
2.5 Translasjonsteorien
2.5.3 Oversettelsesmodus og oversettelsesregler
Lélia Gonzalez, em Por um feminismo afro-latino-americano, expressa também as contribuições do Movimento Negro no que se refere ao desmantelo dos processos de exploração econômica da força de trabalho e à oposição às apropriações lucrativas do mercado capitalista dos símbolos próprios da cultura negra, sem ter representatividade real da negritude. Um exemplo atual é o da recorrente polêmica do uso de turbantes por mulheres brancas. Gonzalez critica um governo que naturaliza o aprisionamento, num cinturão econômico, da população negra em ofertas de trabalhos, no geral, manuais e com pouca qualificação, os ditos subempregos, por serem desvalorizados socialmente, com horas exaustivas de jornada e mal remunerados. Ela relembra ainda que a mesma função, quando ocupada por uma pessoa branca, tem rendimentos maiores do que aqueles recebidos por um trabalhador(a) negro(a). Vale recordar também que a mulher negra está na base do mercado de trabalho, com os empregos mais indesejáveis e mais mal renumerados, quando comparada às mulheres brancas e aos homens negros, que recebem menos do que aquelas.
Como reflexo da extrema servidão imposta ao povo negro durante o período escravocrata, até hoje, mulheres negras são exploradas domesticamente por famílias de classe média e média-alta para poder prover seu próprio sustento e de seus filhos. Devido a longas jornadas de trabalho, sendo ainda comum empregadas domésticas dormirem e, praticamente, morarem nas casas de seus patrões, são as mulheres negras que não têm tempo para se dedicar aos cuidados com seus próprios filhos, que crescem desamparados, tendo a rua como casa. Geralmente, trata-se de trabalhos serviçais a partir dos quais não se vislumbram oportunidades claras de conquistar ascensão social e mais condições de vida, como deve ser o objetivo de toda atividade empregatícia.
A esfera de classe também estabelece aspetos raciais e de gênero, e vice-versa, uma vez que é o tecnocrático sistema sexista racializado que determina qual esfera na divisão do trabalho cada indivíduo deve ocupar. Compreendemos claras relações entre classe, raça e gênero, pois, devido às marginalizações dos indivíduos negros baseadas em opressões raciais e de gênero, no caso das mulheres negras, esse grupo teve e tem pouco acesso à educação e, logo, a trabalhos dignos. A maioria das(os) negras(os) são pobres e a maioria das pessoas pobres são negras(os), logo, os moradores das periferias brasileira, em geral, são afrodescendentes. Pela dinâmica do poder centralizado no ideal eurocêntrico e patriarcal, as(os) negras(os) foram empurradas(os) para as periferias urbanas e obrigadas(os) a aceitar serviços mal remunerados e desvalorizados socialmente. Então, os fatores de raça e gênero
condicionaram a que classe social negras(os) pertenceriam na atual sociedade capitalista e classista.
Por conseguinte, normalmente, o homem branco bem escolarizado, como imagem dominante, tem privilégios para conquistar um emprego valorizado e que proporcione ascensão social. Enquanto a mulher negra, que é o “Outro do Outro”, é destinada aos empregos mais mal remunerados e de exploração braçal, estigmatizados, como empregadas doméstica, babá, cozinheira, faxineira, costureira, camponesa. O que condiz com as tarefas desenvolvidas pelas(os) negras(os) durante o período escravocrata. Assim, outras atividades constantemente condicionadas à população negra e periférica são as de caixa de supermercado, gari, pedreiro, mestre de obras, pintor, auxiliar de serviços gerais, que são alternativas racistas e classistas proporcionadas pela burocrática sociedade pós-moderna.
A esse respeito, em Mulheres, raça e classe, Angela Davis (2016, p. 101) afirma que, numa construção histórica escravagista, “negros são serviçais, serviçais são negros”. Dessa forma, a real emancipação da população negra tem permanecido como uma sombra de liberdade que a maioria das(os) negras(os) periféricas(os) não tem alcançado, inclusive, demonstrando grandes dificuldades em visualizá-la. Os grilhões da escravidão se perpetuarão enquanto não houver o desvencilhamento total do papel de serviçal doméstico naturalizado na figura do ser negro. Não haverá efetiva libertação, enquanto as(os) negras(os) não puderem realmente ocupar profissões valorizadas, bem pagas, em que os direitos trabalhistas sejam garantidos e preservados por leis e dinâmicas funcionais em sociedade. Dessa forma, “em um ensaio ferozmente crítico intitulado A serviçal da casa, W. E. B. Du Bois argumentou que, enquanto o serviço doméstico fosse regra para a população negra, a emancipação permaneceria uma abstração conceitual” (apud DAVIS, 2016, p. 106).
Como aponta Angela Davis, enquanto as(os) negras(os) forem exploradas(os) pela força de trabalho doméstica, a escravização ainda é um processo histórico atuante nas dinâmicas atuais. Vale relembrar que disponibilizar educação pública e de qualidade é uma das principais formas de resistir a essas formas de servidão, como analisado no subcapítulo anterior. Para bem exemplificar isso, em Mulheres extraordinárias, Karla Maria traz a história de Joventina Lopes de Queiroz, mulher negra que nasceu em 1904, período logo após a escravatura, e, na época da entrevista, completava seus 109 anos de idade. Ela foi filha de Alzira, que fora escravizada e nascida no município de Barros Cassal, no estado do Rio Grande do Sul. Como relatado, após rejeição de sua mãe, que não a queria, Joventina Lopes de Queiroz foi criada pela família branca a quem pertencia sua mãe. Mesmo assim, Joventina testemunha que teve uma vida próxima à realidade da escravidão, já que sua família branca se
envergonhava dela, que comia os restos da família, passava quase o tempo todo na estrebaria, dormindo numa tábua dura sem conforto, sendo explorada como empregada doméstica e de plantio, e castigada duramente pela família branca quando os serviços não eram feitos de acordo com o esperado.
Em testemunhos recolhidos, Joventina Lopes de Queiroz conta que se casou duas vezes; com o primeiro companheiro teve 3 filhos, foi com quem teve Zaída, filha que agora cuida da mãe idosa. E, após traições, se separou, eventualmente casando com seu segundo marido. Ela então se mudou para a cidade de Espumoso, também no estado gaúcho. Nesse momento, ela deixou seus filhos sub a tutela da mesma família branca que a havia criado, logo, seus filhos também passaram por processos semelhantes de escravização e desumanização. No momento da entrevista, rodeada pelo amor de seus filhos e netos, Joventina é uma mulher negra forte e bastante saudável para sua idade. Sem doenças crônicas, embora ainda mantenha o hábito de fumar cigarro. Ela é analfabeta, pois nunca teve oportunidade de acesso à educação. Foi a vida inteira explorada por sua força de trabalho, buscando formas de sobreviver e resistir. Com a falta de estudos, se tornou alvo fácil da exploração doméstica.
Por isso, Karla Maria (2017, p. 25) finaliza essa narrativa trazendo dados que comprovam a dificuldade de acesso à educação encontrada pelas(os) negras(os):
Conforme o 2º Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil: 2009-2010, a taxa de analfabetismo entre os negros é mais que o dobro do que entre a população branca. Dos 6,8 milhões de analfabetos em todo o país que frequentam ou tinham frequentado a escola entre 2009 e 2010, 71,6% são pretos e pardos.
Dessa forma, o índice de pessoas negras no serviço doméstico é maior do que o de brancas e é proporcional à falta de acesso aos estudos, já que a população afrodescendente ocupa também o maior contingente no quadro de analfabetismo no Brasil. Pesquisa feita pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) “revela que, enquanto 20% das negras e pardas são domésticas, entre brancas o percentual é de 12%. Negras e pardas ganham menos nesse serviço, em média, do que as brancas” (MARIA, 2017, p. 26). Portanto, a relação entre precário acesso à educação e exploração doméstica é feita pela própria autora, visto que Karla Maria restaura a história de Joventina Lopes de Queiroz, relembrando que em 1934, quando ela fazia 30 anos de idade, se encontrava analfabeta e estava assoberbada pela realidade do
campo racista e sexista, Antonieta de Barros, figura estudada acima, que teve acesso à educação e estudou avidamente, era eleita a primeira deputada estadual negra do Brasil. Assinalamos, mais uma vez, que disponibilizar oportunidades de estudo e educação é fundamental para a dignificação e ascensão social do povo negro.
Em outro momento do livro, Karla Maria conta a história de racismo que Débora Reis, 29 anos de idade, estudante de medicina, sofreu da mãe de outra aluna que também frequentava esse curso. Débora Reis relata que estava na fila do banco quando a mãe da amiga da faculdade a abordou e fez a seguinte observação: “Geralmente quem faz esses cursos (Medicina) tem cabelos lisos, é branquinha e se veste de outra forma... Hoje até filho de faxineiro pode estudar?” (MARIA, 2017, p. 217). Isso demonstra a violência simbólica à qual mulheres negras estão expostas, que atua para restringir e neutralizar a atuação de negras(os) ao serviço doméstico, cerceando possibilidades de ascensão social e de ocupar profissões diversas entre as muitas disponíveis.
Pela declaração racista dessa mãe, foi deduzido que Débora Reis, mulher negra e jovem, só pudesse ser filha de empregados domésticos, que não teriam como arcar com os custos de uma faculdade de medicina, um dos cursos mais renomados e valorizados devido ao status da profissão e aos altos salários. Isso demonstra os atuais imaginários sociais que oprimem as mulheres negras na escravização pelo estereótipo de serviçal e punem as negras que conseguem escapar dessas explorações domésticas e obtem ascensão social. Para finalizar essa narrativa e resistir a essas violações, Karla Maria traz a lei brasileira a respeito do Código Penal e afirma que racismo é crime imprescritível e inafiançável, sendo a injúria racial qualificada com pena de um a três anos de reclusão.
Outro exemplo de mulher negra que transcendeu a exploração doméstica de modo pioneiro no Brasil é o de Laudelina de Campos. Sobre essa militante feminista negra é o sétimo cordel escrito por Jarid Arraes a compor a obra Heroínas negras brasileiras: em 15 cordéis. Jarid Arraes resgata a história de Laudelina de Campos Melos, que foi empregada doméstica desde os 7 anos de idade para prover o sustento dos irmãos mais novos após a morte do pai, e lutou pelos direitos civis das mulheres e das empregadas domésticas que, em sua maioria, são negras moradoras de periferias brasileiras. Jarid Arraes começa o cordel narrando o nascimento desta heroína negra em 1904, sendo mineira, nascida em Poços de Caldas, onde, desde muito cedo, já faxinava casas de família.
Arraes faz com que o leitor se coloque nessa trágica situação que era a realidade de Laudelina de Campos, ou seja, construímos empatia pela criança negra e pobre que perde sua infância em um dos serviços mais desvalorizados e mais mal remunerados, sem ter outra
escapatória para garantir sua sobrevivência e de sua família. Como se percebe pelo seguinte trecho:
Imagine que terrível Era ainda uma criança Mas limpava e cozinhava Sem chance da mudança Pois nesse país racista
Não havia outra esperança. (ARRAES, 2017, p. 78)
A despeito das adversidades, Laudelina de Campos desde muito cedo se mostrou consciente sobre sua realidade, e com 16 anos de idade foi eleita presidente de um clube denominado Treze de Maio, que organizava atividades de militância e cultura para a comunidade negra. Ainda jovem, com 18 anos de idade, mudou-se para São Paulo, na cidade de Santos, juntamente com seu marido, onde participou do grupo de valorização da cultura negra Saudade de Campinas.
Em 1936, Laudelina de Campos, que nesse momento tinha dois filhos para criar e já havia se separado do marido, afilia-se ao Partido Comunista Brasileiro e também funda a primeira Associação de Trabalhadores Domésticos do Brasil, que tratava dos direitos das empregadas domésticas. O que já demonstrava seu papel de precursora na defesa de leis que garantam direitos trabalhistas para as empregadas domésticas. Era ainda atuante nos movimentos políticos de esquerda e militante também da Frente Negra Brasileira, que reuniu cerca de trinta mil participantes, sendo a maior associação que se tem registro. Participou ainda do Movimento Negro de Campinas, pelo qual protestava contra o racismo e debatia problemas raciais presentes no Brasil. Em 1955, agora morando em Campinas/SP, se envolveu com movimentos negros e participou de um teatro chamado Teatro Experimental do Negro, no qual, a partir da dança e da encenação, oportunizavam-se cultura e autoestima para os jovens negros.
É narrado que, após mais de quarenta anos trabalhando como doméstica, Laudelina de Campos realizou o sonho de abrir seu negócio e passou a vender salgados em jogos nos estádios; também abriu uma pensão, da onde igualmente retira sua renda e sustento. A militância desta heroína negra é atual em várias frentes e tem abordagens diversas, seja com projetos culturais ou na organização de sindicados e grupos de trabalhadores. Por isso, ela ainda criou o baile de debutantes para as adolescentes negras, que tinha o intuito de promover o amor-próprio e a autoestima das meninas negras que são excluídas do ideal de beleza da
branquitude, como debatido outrora. Ela organizou ainda o Baile Pérola Negra, também com vistas a fazer mudança social pela cultura, e promoveu atividades de alfabetização para conscientizar a comunidade negra onde executava suas ações.
Em 1961, ainda em Campinas, ela fundou a Associação Profissional Beneficente das Empregadas Domésticas que, posteriormente, se tornou o primeiro Sindicato das Empregadas Domésticas no Brasil, defendendo e propondo novos direitos trabalhistas para esta classe. Laudelina de Campos, a partir dos sindicatos, proporcionava informação às(aos) trabalhadoras(res), formas de organização coletiva, lutas de classe e estratégias para conquistar direitos e fazer valer os já adquiridos. Por causa disso, ela se torna a “mãe das empregadas domésticas”, a precursora no respeito e na dignificação desse atividade trabalhista e, logo, das ocupantes desse cargo, predominantemente mulheres negras periféricas. Jarid Arraes (2017, p. 81) confirma a imagem de inspiração de Laudelina de Campos, sendo a primeira de muitas, que hoje continuam com seu legado:
Foi chamada em mais cidades Pra abrir mais sindicatos Ajudou muitas mulheres Com retorno imediato E por causa disso tudo O clamor foi espalhado.
Todas as mulheres, principalmente as negras, que se envolvem nas causas pelos direitos das domésticas, têm como pano de fundo a militância de Laudelina de Campos, falam pela voz já prenunciada desta heroína negra e lutam como extensão do braço desta grande precursora. Laudelina de Campos faleceu em 1991, deixando a casa onde morava como sede do sindicato das empregadas domésticas de Campinas, que ajudou a construir. Contudo, sua história, como das demais heroínas negras, não acaba com sua morte. Representante de uma luta incansável que nunca cede ao silêncio, esta militante é exemplo de força e determinação para as feministas negras atuais. É uma das primeiras a articular com complexidade a interseccionalidade entre gênero, raça e classe para determinar as demandas e as necessidades das mulheres negras periféricas na posição de empregas domésticas e para organizar esse movimento político.
Ao lutar pelos direitos das empregadas domésticas que são, em sua grande maioria, mulheres negras, Laudelina de Campos torna-se símbolo de resistência à exploração
doméstica das(os) negras(os) que tem fortes bases racistas e escravocrata. Consequentemente, Jarid Arraes (2017, p. 82) versa:
As empregadas domésticas Com direitos garantidos Possuem mais dignidade E isso deve ser mantido Para acabar a exploração E o racismo destruído.
Como declara Angela Davis (2016), é apenas transgredindo a condição de “serviçal” que indivíduos negros podem escapar de dinâmicas que escravizam, exploram e aprisionam, próprias do passado colonial. Dessa forma, essa heroína negra representa o poder de reivindicar cidadania e dignidade das trabalhadoras negras periféricas.
Ao humanizar e valorizar as empregadas domésticas, Laudelina de Campos também buscou construir um estilo de vida fora dos moldes da escravização moderna, transgredindo o ideal de exploração braçal destinado às(aos) negras(os). A partir da luta política dessa heroína negra, mesmo que seja a partir do serviço doméstico, que hoje é emprego profissionalizado – com carteira assinada, com pisos e tetos salariais, e direitos garantidos por lei, como férias, 13º salário, licença médica e licença maternidade – buscou-se disponibilizar os meios pelos quais as mulheres negras periféricas, que estão nessa função, possam conquistar dignidade e qualidade de vida para si e sua família. A esse respeito, houve uma vitória recente, desde 2015, devido à aprovação da Lei Complementar nº 150, que regulamentou a Emenda Constitucional nº 70/2015. Com essa mudança na legislação, as(os) empregadas(os) domésticas(os) passaram a gozar de novos direitos, que lhes podem assegurar melhores condições de vida, tais como adicional noturno, intervalos para descanso e alimentação, FGTS, seguro-desemprego, salário família, entre outros34.