6. Offentlige finanser i ulike scenarier for HO-sysselsetting mot 2060
6.2. Oversettelse av HHH19-scenarier til DEMEC-scenarier
indivíduos, de modo que, tal teoria se relaciona à capacidade de uma determinada estrutura social ser incorporada pelos agentes por meio de disposições para sentir, pensar e agir como procuro demonstrar no caso das benzedeiras que constituem seus fatos sociais ao mesmo tempo que os vivenciam no movimento que fazem entre as estruturas, medicina, cultura e religião.
De acordo com Bourdieu (2004, p. 79), o trabalho religioso é realizado por agentes especializados, porta-vozes institucionais poderosos, que respondem com um tipo de prática e discurso a um tipo de necessidade e a um grupo determinado.
A esse respeito, afirma Oliveira (2003, p. 182) que no trabalho religioso reside a maior contribuição à sociologia da religião. Para ele, "há trabalho religioso quando seres humanos produzem e objetivam práticas ou discursos revestidos de sagrado, e assim, atendem a uma necessidade de expressão de um grupo ou classe social#.
É justamente por atenderem às demandas, que as benzedeiras, possivelmente, se situam nas relações sociais que estabelecem, com relativa demanda ideológica de reclamantes em seu cotidiano. Segundo Bourdieu:
[...] é possível falar de interesses religiosos quando surge uma demanda ideológica, isto é, a espera de uma mensagem sistemática capaz de dar um sentido unitário à vida, propondo a seus destinatários privilegiados uma visão coerente do mundo e da existência sistemática, e dando-lhes os meios de realizar a integração sistemática de sua conduta cotidiana. Portanto, capaz de lhes fornecer justificativas de existir tal como existem, isto é, em uma determinada posição social (BOURDIEU, 2004, p. 86).
A crença de se poder dar sentido unitário à vida foi algo percebido ao entrevistar no dia 02 de setembro de 2014 (terceira entrevista) D. Adelícia Moura Souza de Moura, nascida em Santa Helena, interior de Goiás, 63 anos, que se diz amigada (amasiada) há 40 anos, como diz ela: "amigado com fé, casado é#. Afirma que sua casa é própria, originária de apoio recebido da prefeitura local e diz morar em Quirinópolis há 35 anos, no bairro Tonico Bento, e considera que possui boa relação com a comunidade. Nunca estudou. Tem um filho. Veste roupas simples e tem hábitos simples também.
Sua residência está em reconstrução, pois a antiga era de madeira e chão batido. Leva, com seu "amigado# (Figura 04), uma vida tranquila, mas sem muitos recursos, em um dos bairros mais pobres, e com maiores índices de usuários de drogas da cidade. Seu olhar maroto chama a atenção.
Ainda conforme a figura 3, nota-se a simplicidade da casa, sem portas, só cortinas, e moveis simples também. D. Adelícia pode ser pensada dentro da teoria já exposta sobre o pensamento de Weber como uma agente mística da cura que, em Bourdieu, no trecho acima citado, mostra-se como alguém que fornece significado à
vida de miséria que existe em seu bairro. É ela, que no cotidiano sofrido das pessoas à sua volta, fornece sentido existencial.
FIGURA 04: D. Adelícia e esposo, logo após a entrevista Fonte: Acervo de Gilson Azevedo (Divulgação autorizada)
Contestada enquanto benzedeira por alguns do seu bairro por conta do fato de que seu "amigado# possuir uma doença repleta de simbologias que é a hanseniase, ela alega ter benzido ao longo de sua via mais de mil pessoas e diz ser ainda bastante procurada. Quando o marido teve a doença, e ela entendeu, inicialmente, ser cobreiro, tratando o problema como tal. Por morar em um bairro muito pobre, D. Adelícia, frequentemente, tem que benzer de infestações como pulgas, carrapatos e outros insetos. Por isso, ela optou, mediante meu pedido, por ensinar a seguinte oração:
Se a casa tem nove bichos. De nove tira um, fica oito. De oito tira um, fica sete. De sete tira um, fica seis. De seis tira um, fica cinco. De cinco tira um, fica quatro. De quatro tira um, fica três. De três tira um, fica dois. De dois tira um, fica um. De um tira um, não fica nenhum e também esta. Mal que comeis. A Deus não louvais. E nesta peste. Não comerás mais. Hás de ir caindo. De dez em dez. De nove em nove. E nesta peste. Não ficará nenhum. Há de ficar limpa e sã. Como limpas e sãs ficaram. As cinco chagas de Nosso Senhor (ENTREVISTA COM D. ADELÍCIA MOURA, 02/09/2014).
A oração transcrita utiliza uma espécie de operação matemática e paralelismo gramatical que ressaltam, posteriormente, a força divina aparentemente de Deus Pai e de Jesus, na condição de salvador, que livra o reclamante do mal da peste. Para Moura (2011, p. 340) "O princípio básico por trás da benzeção é a ideia de curar (mal físico ou espiritual) por meio da palavra, da oração, no qual o(a) benzedeiro(a) é um(a) intermediário(a) entre Deus, ou deuses, e aquele que se submete à cura#.
D. Adelícia demonstra em sua fala, crer que fora escolhida, eleita pela Virgem Maria, dada a sua fé na Santa, para fazer o que considera como o bem, resignificado no ato da benzeção, dando sentido ao cotidiano sofrido das pessoas do seu bairro.
Nesse mesmo comparativo, retomo Bourdieu que afirma:
[...] as demandas religiosas tendem a organizar-se em torno de dois grandes tipos de situações sociais, ou seja, as demandas de legitimação da ordem estabelecida, próprias das classes privilegiadas, sentimento de dignidade prendido à convicção da própria excelência e perfeição de conduta de vida, e as demandas de compensação próprias das classes desfavorecidas (religiões de salvação) [...] [que se funda na promessa de salvação do sofrimento] e no apelo da providência capaz de dar sentido ao que são a partir do que virão a ser (BOURDIEU, 2004, p. 87).
Dentro do constructo citado, D. Adelícia seria uma legitimadora da cura e da fé, pois ouve diretamente as reclamações de seus "pacientes#, sem ter salas ou mesmo remuneração fixa para isso. Mulheres como ela, atuam diretamente no campo da salvação pessoal e atribuição de sentido à vida de quem as procura. Sobre a concorrência no campo religioso pelo poder, Bourdieu salienta que:
[...] a especificidade está no fato de que o alvo tem residência no monopólio do exercício legítimo do poder de modificar em bases duradouras e em profundidade a prática e a visão do mundo dos leigos, impondo-lhes e inculcando-lhes um habitus religioso particular, isto é, uma disposição duradoura, generalizada e transferível de agir e de pensar conforme os princípios de uma visão (quase) sistemática do mundo e da existência (BOURDIEU, 2004, p. 88).
Nesse sentido, Bourdieu (2004, p. 88), ao indicar os ditames de sua pesquisa, entende que para uma investigação completa da teoria de Weber sobre religião, faz- se necessário um "levantamento das dificuldades com que Weber se defronta em sua tentativa de definir os %protagonistas& da ação religiosa: profeta, feiticeiro e sacerdote#, na forma de tipos ideais de identificação das práticas que as benzedeiras realizam.
Para tanto, é preciso uma ruptura com a metodologia de Weber, a fim de se chegar a sua interpretação teórica interacionista das relações entre os agentes religiosos, de modo a se pensar em um processo de interação simbólica; tentativa essa que fora feita no tópico anterior e que reafirmo aqui em relação aos comparativos que teço, afigurando a imagem do curado, predisposta na ideia da pitonisa grega, da bruxa ou feiticeira medieval, da cigana, da mulher selvagem e da babayaga.
É justamente nesse ponto que Bourdieu (2004) se entrecruza com a tese que tenho proposto, dado que a prática das benzedeiras que indiquei, parece ter se situado no contexto nacional, por promover certo ordenamento no cosmo pessoal sem grande burocracia, diante da desordem costumeiramente provocada pela doença, e por outros fatores adversos como afetos, trabalho, dinheiro, estudos e medos.
As benzedeiras possuem uma resposta imediata, além de mediadoras do sagrado, diretamente ligadas aos elementos naturais da cura, gozam de grande respeito e consideração por parte de vizinhos, amigos, apreciadores de sua arte. Isso talvez explique, parcialmente, sua permanência até nossos dias, pois não há muitos limites aparentes em sua prática; conforme me confidenciou D. Adelicia, as benzedeiras "ouvem o problema e em seguida fazem uma oração, propõem um emplastro, um chá, um ritual# e o que chamam de graça, simplesmente acontece. Nesse sentido, a graça é e brota da ação humana, é o agir humano, afetivo em função do outro, ao acolher o outro, ao dar uma fala amiga para ele.
Conforme evidenciei no caso de D. Adelícia, de acordo com Bartz (2007, p. 36), os sistemas de interesses religiosos estariam vinculados à situação social, visto que, nesse espaço, a mensagem religiosa tem conotação relevante para alguns grupos na forma de ação simbólica, fornecendo um sistema de justificativas de existência a uma determinada posição social.
De modo semelhante, dentre as especificidades do campo religioso, o que D. Adelícia faz é estabelecer em sua relação com as pessoas do bairro, pode ser dito como uma espécie de habitus, onde ela situa o que ela é para os demais, conforme referencio a seguir:
[A benzedeira incorpora o] monopólio do exercício legítimo do poder de modificar em bases duradouras e em profundidade a prática e a visão do mundo dos leigos, impondo-lhes e inculcando-lhes um habitus religioso particular, isto é, uma disposição duradoura, generalizada e transferível de agir e de pensar conforme os princípios de uma visão (quase) sistemática do mundo e da existência (BOURDIEU, 2004, p. 88).
Conforme o citado, na luta pelo exercício legítimo do poder (fazer) religioso, o que vai prevalecer, é a autoridade e a força ou carisma que se conquistou no transcorrer da lida. O processo de legitimação religiosa, ou conferência de sentido a um objeto, prática ou grupo, torna-se resultado direto de lutas e processos simbólicos
que acontecem, às vezes, de forma violenta. É o cotidiano performático8 das benzedeiras que faz com que a crença em sua oração e força se tornem um habitus.
Nesse conforme, a história social das benzedeiras é sim uma história que denota uma luta por situar-se no contexto em que se encontra; nem sempre constituída por grupos e grandes levantes, mas por lutas isoladas em sua maioria, contra párocos, paróquias, igrejas protestantes e demais situações vigentes, muito embora não tenha encontrado nas entrevistadas desta tese algum indício nesse sentido, como vi nas referências que consultei. Sua luta social mostrou-se mais contra parentes, maridos e vizinhos, do que necessariamente por forças religiosas oficiais.
Novamente cito o comentador Bartz (2007, p. 38) sobre o poder religioso que é o produto de um negócio (transação) entre agentes religiosos e leigos, em que o interesse de cada categoria deve ser contemplado, sendo que o poder que os agentes religiosos detêm, deriva do princípio de estrutura das relações de força simbólica, conforme desejo indicar ao citar o depoimento seguinte:
Com a reza de espinhela eu rezo pra várias coisa, mas vô mudando arguma palavra. Às veis eu peço pra um santo, ora pro otro, dependendo do que eu tô sentindo na hora. Cada oração sai de um jeito e o que importa é a gente tê aquela fé de que vai curá e cura mesmo (ENTREVISTA COM D. CLEUZA, 16/09/2014).
Ao expor a fala de D. Cleuza, entende-se evidenciar que o poder religioso exercido pelas benzedeiras não é nem institucionalizado, nem formal, mas está presente desde sempre, possuindo raízes históricas milenares, talvez mais antigas que o próprio cristianismo. Assim, torna-se, no campo dos significados linguísticos de sua constituição, um campo religioso relativamente autônomo dentro do processo de incorporação de crenças populares que pode ser evidenciado na fala de Bourdieu:
O conjunto das transformações tecnológicas, econômicas e sociais, correlatas ao nascimento e ao desenvolvimento das cidades e, em particular, aos progressos da divisão do trabalho e à aparição da separação do trabalho intelectual e do trabalho material, constituem a condição comum de dois processos que só podem realizar-se no âmbito de uma relação de interdependência e do reforço recíproco, a saber, a constituição de um campo religioso relativamente autônomo e o desenvolvimento de uma necessidade de "moralização# e de "sistematização# das crenças e práticas religiosas (BOURDIEU, 2004, p. 34).
A sistematização das práticas populares, e nesse fim, o surgimento de uma prática de benzeção, não acontecem necessariamente em grandes cidades, conforme