O espaço de fronteira é um lugar que não tem delimitações, é onde o local todas as possibilidades se dão: o novo, o velho, o forasteiro e os caminhos e que delimitam ou estendem as linha móveis que formam esse espaço dicotômico, um espaço de aceitação e contradição, é nesse espaço que se confunde e que nascem as tradições, nele também essas tradições são alteradas de modo irreconhecível.
Nesses espaços temos as maiorias sem privilégios, os que vivem à
margem, os excluídos, os que buscam uma nova oportunidade de vida ou uma vida. A fronteira é o lugar que quem não se tem lugar, assim a fronteira nos leva a uma profunda reflexão do todo que a abarca, nela vivemos com a historicidade e as incompletudes que nos cercam. Ao mesmo tempo que recebe, a fronteira cria linhas de fuga, cria fissuras em seus espaços físicos, por onde se deslocam os mais variados tipos: locais de entradas e de saídas, essas fendas permitem o respirar do novo espaço traçado.
O conhecimento também é um lugar fronteiriço, é necessário a existência de uma dualidade do discente para possa se estruturar. É através de uma subjetividade inerente a ele - conhecimento, pois sua formação é individualizada e subjetiva, cada ser utiliza o conhecimento em função de suas capacidades e necessidades, citando Kant: “o fim da educação é desenvolver em cada indivíduo, toda a perfeição de que ele seja capaz”. Tanto o capital econômico, como os primeiros coronéis das águas viam nessa possibilidade de perfeição que poderia ser oportunizada pela educação, uma possibilidade de produzir seres capazes de realizar suas tarefas, visando um possível lucro que viria com a exploração das águas termais.
O problema curricular trabalhado ou alterado na cidade, o ensino ficou colado no ensino secundário, com base na formação para o comércio. O currículo ou programa com chamavam na época trazia o básico necessário para compreender as necessidades financeiras e sociais. Analisando o contexto sócio-histórico podemos desse interesse pela cidade está no n. 37 do noticioso a Semana que circulava em 1923 em Ipameri e região, o titulo da primeira página traz estampado: CALDAS NOVAS PRIVILEGIADA PELA NATUREZA, a
noticia discorre sobre a pesquisa do Dr. Batesco Dutza sobre as propriedades termais das águas.
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ampliar nossa reflexão sobre as questões pedagógicas, ou seja, porquê as mesmas estruturas não funcionaram a contento na pequena cidade? Historicamente prevaleceu a força cultural do campo. A evasão escolar era muito grande, as pessoas mal aprendiam “as primeiras” letras e já retornavam as funções econômicas de suas famílias, ou o que lhes dessem retorno rápido.
São nessas fronteiras que se deu o início de uma nova identidade urbana, no caso de Caldas Novas, essa identidade estaria ligada ao lazer e a saúde. A primeira casa de banho, explorada pela viúva do Cel. Gonzaga, já continha essa proto-identidade, a formação final se daria dentro das escolas e nos hotéis, pensões e farmácias que deveriam ser criadas para atender os “aquáticos” que viam nas águas quentes uma cura para suas mazelas.16
Uma nova realidade social é imposta, um novo momento social é vivido
em toda a sua plenitude novas “realidades” são lidas nesse novo mundo, realidades; econômica, social e política, nascem à plena desigualdade entre os iguais, falta o emprego prometido, o meio social não suporta os menos favorecidos, destes querem apenas a capacidade laborativa, o sistema de saúde é falho, falha os setores de controle (polícia e milícias) e para que as revoltas não ocorram e preciso no dizer de Foucault em Vigiar e Punir, docilizar os corpos.
O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia política”, que é também igualmente uma “mecânica de poder”, está nascendo; ela define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”. (FOUCAULT. 2004. p.119)
16 Analisando do O Kró e outros jornais das cidades vizinhas, podemos hermeneuticamente retirar de suas
entrelinhas as fortes diferenças sociais, a cidade tinha três (03) grandes classes, os proprietários de terras e posses, um arremedo de classe média, que ficavam por conta de serviços públicos e completavam a renda realizando outras atividades comerciais e os trabalhadores, que viviam de pecuária e de agricultura de subsistência, mesmo com a tentativa do projeto urbanizador para transformar a cidade, Caldas Novas, ficou presa no interior de suas vontades, em passos lentos viu escorrer lentamente suas águas sem que fosse possível uma profunda modificação social, fato que iniciará somente no início dos anos de 2000.
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A execução prática desse discurso escolarizante é um fator preocupante. A vontade de utilizá-la (a Educação) está sempre presente, embora essa utilização nunca se aproxime, nem em esboço, do discurso ideológico utilizado.
Essa ideia de que nada acontece se o povo não tiver conhecimento, reforça- se no ideário da Escola Nova, uma instrução popular, profissionalizante, para adaptar a sociedade às novas necessidades da época. Como é possível estruturar uma sociedade com uma população ágrafa? Uma necessidade de interação entre poder e povo se faz necessária. Portanto, ensinar a escrever e a ler, mas, só o suficiente para continuarem a satisfazer as vontades e os mandos eleitorais e ocuparem as vagas no mercado emergente.
Desta maneira Caldas Novas seguia a cartilha do poder, apoiava o discurso dos melhores intelectuais que estavam a serviço do Estado; com isso, buscavam incutir o processo higienizador, adestravam os citadinos e tentavam forjar uma nova identidade local.
O discurso não chegava a empolgar totalmente os moradores da cidade, na prática a população era servida com o mínimo de escolarização possível e necessária, para empreender os projetos expansionistas das elites, eles queriam criar um polo de turismo na região das águas quentes. A cultura local priorizava o trabalho manual, as escolas da cidade contavam com um número razoável de alunos, mas não chegava a ser expressivo, no campo, os professores além de não possuírem formação, eram os primeiros a estimular a matança de aulas. Buscando mudar essa realidade sombria um grupo escolar foi idealizado e concretizado, as poucas escolas particulares que existiam, tinham a única preocupação de arrecadar o máximo possível do governo, porém mantinha a qualidade de seus ensinos de maneira mais deplorável possível. Os filhos da fortuna recebiam tratamento diferenciado, iam estudar fora, no Rio de Janeiro, São Paulo ou para os menos abastados no triângulo mineiro.
A modernidade de maneira parcial, incompleta, mas com a sua mais eloquente ideologia. A proposta de um mundo moderno, reluzente acenava ao homem comum promessas de sucesso e conquistas, mas, o ideário que estava sendo trabalhado não permitia crescimento algum. As vontades da população, na verdade, eram as vontades e mandos dos coronéis locais que tecem com toda força uma rede de (in)possibilidades para o crescimento econômico, político, social e principalmente educacional do cidadão
comum. As fronteiras não são dilatadas, o conhecimento vira instrução, a cidade mantém um movimento moroso, um caminhar lento, mas com um olho visando o futuro.
Outro problema a ser enfrentado será esse distante futuro, quando transformado em presente as estruturas são outras, outros são os referencias das escolas, o tempo não foi piedoso, exigiu uma adaptação que a cidade não estava preparada.