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A espiritualidade da Idade Média é marcada pela busca de paz para a alma, por uma consciência tranquila, bem como por salvação. O caminho comumente adotado é o da prática de obras meritórias conforme o princípio escolástico facere quod in se est (faz o melhor que podes) e a imitatio Christi (imitação de Cristo, de Tomas Kempis). Mas não houve êxito pastoral. As Anfechtungen (tentações) de Lutero são representativas para as angústias experimentadas em seu tempo e a ineficiência destas propostas pastorais. A busca pelo Deus misericordioso continua. Novidades são encontradas na reflexão de Lutero a partir da justiça da fé. A fé acolhe Cristo e, ao acolhê-lo, vive em mim. Cristo e minha consciência são um só. Mas, qual o efeito prático desta afirmação teológica? Se o caminho das obras meritórias exige

113 Vamos voltar a esta temática do princípio que me move, a fé, no terceiro capítulo.

sempre mais obra penitencial da pessoa pecadora e estas não conseguem tranquilizar almas e vidas, a novidade está em que Cristo é o autor da libertação. Cristo liberta o pecador das tentações. Dreher, ao escrever a introdução do referido texto (p. 435), afirma que o pano de fundo da obra é “a experiência feita pela fé que se sabe livre das tentações.” Lutero intentou libertar as pessoas da falsa segurança de que as obras salvam, mantendo-as, porém, como imprescindíveis para a vida de fé (ObSel, 2.457 [1520]).

Lutero estrutura seu pensamento no paradoxo da liberdade e da servidão do espírito: “O cristão é um senhor libérrimo sobre tudo, a ninguém sujeito. O cristão é um servo oficiosíssimo de tudo, a todos sujeito”115 (ObSel, 2.437 [1520]). Esta aparente contradição está alicerçada na dupla natureza do ser humano:

(...) a pessoa humana é constituída de natureza dupla, a espiritual e a corporal. De acordo com a natureza espiritual, que denominam a alma, ela é chamada de pessoa espiritual, interior, nova. De acordo com a natureza corporal, que denominam a carne, ela é chamada pessoa carnal, exterior, velha, (...) (ObSel, 2.437 [1520]). Esta primeira distinção é importante para Lutero. A pessoa interior não é dependente e nem pode ser influenciada por obras exteriores. Nenhum movimento externo, penitência ou obra meritória pode condicioná-la para o bem ou para a servidão: “É evidente que em absoluto nenhuma coisa externa, qualquer que seja o nome que se lhe dê, tem qualquer significado para a aquisição da justiça ou da liberdade cristã, como também não o tem para a aquisição da injustiça ou da servidão,” (ObSel, 2.437 [1520]). Roupas, vestes, jejuns etc, não podem influenciar a alma, pois “uma só coisa é preciso para a vida, a justiça e a liberdade cristã, e somente esta: é o sacrossanto Verbo de Deus, o Evangelho de Cristo”. (ObSel, 2.438 [1520]). Ou seja, a alma precisa somente da Palavra de Deus:

Por isso claro está que assim como a alma necessita tão-somente da Palavra para a vida e a justiça, do mesmo modo ela é justificada somente pela fé, e por nenhuma obra. Pois se pudesse ser justificada por qualquer outra coisa, ela não necessitaria da Palavra e, conseqüentemente, também não da fé. (ObSel, 2.437-438 [1520]).

A razão para esta concepção está na compreensão antropológica de Lutero: o ser humano é portador de coisas culpáveis, pecaminosas e condenáveis. Esta afirmação está baseada em Romanos 3.23 e 3.10ss: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” e “não há justo, nem um sequer (...) todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.” Sendo portador de características tão negativas, necessita de

115 BRENDLER, 1983, p. 214-216 afirma que este paradoxo é uma paráfrase do princípio da justificação

somente pela fé: o ser humano interior não é condicionado pelos incentivos externos (obras meritórias) para alcançar a salvação. É, portanto, livre destas premissas pela fé em Cristo. A liberdade não é uma condição prévia para a fé, mas uma consequência da fé. O ser humano exterior, por sua vez, é servo de todos por amor. Se for coagido a realizar obras meritórias, que as faça. Estas não têm capacidade para contaminar o ser humano interior. Na perseguição e coação a estratégia contempla firmeza e flexibilidade simultaneamente. Paulo a usou no contexto de perseguição aos primeiros cristãos e Lutero também após a excomunhão.

Cristo. Logo, a fé em Cristo o torna outra pessoa, pois recebe dele o perdão e a justificação. Ou seja, por méritos alheios (os méritos de Cristo) o ser humano é justificado. (ObSel, 2.439 [1520])

Lienhard (1998, p. 91) afirma que a real oposição aqui colocada não é a oposição entre corpo e alma, mas entre ser humano interior e exterior: o ser humano interior é criado na alma pela palavra de Deus; o ser humano exterior insiste em alcançar a justificação pela via das obras meritórias. Ambos, alma e corpo, são valorizados em Lutero: a alma ganha eminência somente quando tocada pela Palavra de Deus; já o corpo é importante porque Deus se dirige ao ser humano por sinais exteriores, que passam pelo corpo, e, sobretudo, na expressão do amor ao próximo que, inevitavelmente, passa pelo corpo.116

O ser humano está condenado a viver sempre com esta alma pecadora? Lutero afirma que não. Lutero concebe a palavra de Deus santa, verdadeira, justa, pacífica, plena de toda bondade e que esta se une à alma. Logo, a alma que se atém à palavra de Deus com fé firme

será unida a elas (às qualidades da Palavra) de tal modo, ou por elas totalmente absorvida, que não apenas participará mas será saturada e inebriada de toda a força delas. (...) Por esta maneira, portanto, a alma é justificada somente pela fé, sem as obras, a partir da palavra de Deus (...) A partir daí é fácil compreender por que a fé é capaz de tão grandes coisas e por que nem todas as obras juntas podem igualar-se a ela; pois nenhuma obra pode prender-se à palavra de Deus e estar na alma, mas nela reinam somente a fé e a Palavra. Assim como é a Palavra, tal se torna a alma por meio dela, da mesma forma como o ferro candente fica incandescente como o fogo por causa de sua união com o fogo. (ObSel, 2.440-441 [1520]).117

Unida a Cristo a pessoa cristã passa a ser definida por Cristo. Nenhuma obra externa ou meritória a condiciona. Somente a fé é o suficiente para a salvação: o ser humano é livre, a nada e a ninguém sujeito.

Mas o fato de ser unido a Cristo não torna somente o ser humano livre, mas igualmente o torna sacerdote em eternidade: escreve Lutero (ObSel, 2.445 [1520]):

... por meio do sacerdócio somos dignos de comparecer perante Deus, orar por outros e ensinar-nos mutuamente sobre as coisas de Deus. (...) Assim Cristo no-lo conseguiu, se nele cremos, para que, como co-irmãos, co-herdeiros e co-reis, também sejamos seus co-sacerdotes, (...) orar um pelo outro e fazer tudo o que vemos o ofício visível e corporal dos sacerdotes fazer e figurar.

116 Lutero se vale também da distinção entre preceitos (lei) e promessas na Escritura. É fato que esta contém

muitos preceitos. Mas a função destes é fazer com que o ser humano se reconheça limitado e impotente diante de Deus. Só assim poderá reconhecer a importância de Cristo e dele receber as promessas pela fé somente. (ObSel, 2.440 [1520]; LIENHARD, 1998, p. 91).

117 Outra figura de linguagem da qual Lutero se vale é a da alma como noiva que se une a Cristo, o noivo: Cristo

e alma são feitos uma só carne. O noivo aceita o que é da noiva e compartilha com ela o que tem de melhor. Ou seja: o pecado, a morte e a condenação da alma se tornam de Cristo e a graça, vida e salvação de Cristo passam a ser da alma. (ObSel, 2.442 [1520]).

Na segunda parte do texto Lutero fala do ser humano exterior. Quer apontar para as boas obras como atitude inerente à fé, visto que fora acusado118 serem desnecessárias diante da primazia da fé. A 2ª parte da tese – “o cristão é um servo oficiosíssimo de tudo, a todos sujeito” tem este objetivo.

Parte do pressuposto de que o ser humano vive aqui em meio às circunstâncias e condicionantes da vida até o dia derradeiro. Vive, justificado por Cristo, multiplicando sinais do amor que moveu Cristo entre as pessoas. O ser humano justificado, por força do Espírito Santo que atua nele, faz obras boas: “e visto que pela fé é dado o Espírito Santo, o coração também se torna apto para praticar boas obras.” (LC 38.28s – CA, 1530). Ou ainda: “as boas obras não fazem o homem bom, mas o homem bom faz boas obras”; “as más obras não fazem o homem mau, mas o homem mau faz obras más.” (ObSel, 2.449 [1520]). Assim é a obra do ser humano: o princípio o rege. (ObSel, 2.450 [1520]).

Lutero enfatiza reiteradas vezes que a obra desenvolvida pela pessoa não tem finalidade justificadora diante de Deus, mas é imprescindível como fruto da fé, expressão de amor ao próximo (ObSel, 2.451-452 [1520]):

Pois a pessoa não vive somente para si mesma neste corpo mortal, para operar nele, mas também para todas as pessoas na terra, sim, ela vive somente para os outros, e não para si. (...) Por isso não pode acontecer que ela seja ociosa nesta vida e sem obra a favor de seus próximos. (...) Por isso a pessoa deve, em todas as suas obras, estar orientada por esta ideia e visar somente isto: servir a outros e ser-lhes útil em tudo que faz, nada tendo em vista senão a necessidade e a vantagem do próximo. (...) Esta é a verdadeira vida cristã, aqui de fato a fé atua pelo amor. Isto é, entrega-se com alegria e amor à obra da servidão libérrima, com a qual serve ao outro gratuita e espontaneamente, enquanto ela própria está abundantemente satisfeita com a plenitude e opulência de sua fé.119

E reitera (ObSel, 2.453 [1520]):

Eis que em Cristo meu Deus deu a mim, homúnculo indigno e condenado, sem nenhum mérito, por mera e gratuita misericórdia, todas as riquezas da justiça e da salvação, de sorte que além disso não necessito absolutamente de mais nada a não ser da fé que crê que as coisas são de fato assim. Portanto, como não faria a este Pai, que me cobriu com suas inestimáveis riquezas, livre e alegremente, de todo o coração e com dedicação espontânea, tudo que sei ser agradável e grato perante ele? Assim me porei à disposição de meu próximo como um Cristo, do mesmo modo como Cristo se ofereceu a mim, nada me propondo a fazer nesta vida a não ser o que vejo ser necessário, vantajoso e salutar a meu próximo, visto que, pela fé, tenho abundância de todos os bens em Cristo.

118 Na Confissão de Augsburgo Melanchthon escreve: “os nossos são acusados falsamente de proibirem as boas

obras.” (LC 37.1 – CA, 1530). No panfleto contrário a Lutero intitulado “Uma conversação que se passou não longe de Trento, na rota para Roma, entre um cortesão apostólico e o diabo ao encontro do piedoso papa Adriano” (1522) Lutero tem reconhecida como cristã características de sua doutrina, “mas ele trabalha para o diabo porque lhe faltam a humildade cristã e o amor ao próximo”. (LIENHARD, 1998, p. 107).

119 Lutero tem como base o texto bíblico de Romanos 14.7s; Filipenses 2.7 e Gálatas 5.6. O objetivo é deixar

Esta é a verdadeira liberdade do cristão: a de servir ao próximo de forma livre, por gratidão, em alegria, de modo a não calcular lucros ou dividendos como resultado do servir. Do mesmo modo como nós precisamos de Deus, o nosso próximo precisa de nós:

tal qual o Pai celeste nos auxiliou gratuitamente pelo corpo e suas obras, e cada qual tornar-se para o outro como que um Cristo, para que sejamos Cristos um para o outro, e o próprio Cristo esteja em todos, isso é, para que sejamos verdadeiros cristãos. (ObSel, 2.454 [1520])

Encerra o texto alertando os que transformam a “liberdade da fé” em libertinismo, como se fosse algo no sentido de “agora tudo lhes é permitido”. (ObSel, 2.457 [1520])

Destaque-se do texto de Lutero que a pessoa interior, para alcançar a liberdade, justiça e vida cristã, não é presa a coisas exteriores e nem condicionada por elas. Não são, portanto, ritos, jejuns, obras meritórias, roupas, status social ou religioso, ... que definem a liberdade, justiça e vida cristãs, mas somente o Evangelho de Cristo. A mensagem de Cristo (vida, morte e ressurreição) só pode ser recebida pela fé, logo, a pessoa é justificada por acolher uma fé alheia, qual seja, de Cristo. A pessoa interior é, portanto, livre de todos os preceitos sociais e religiosos que tentam condicioná-la. Diante de uma prática religiosa pautada pelo mérito, a proposição de Lutero soa libertadora. Libertadora do ponto de vista da fé em obras meritórias, mas também do ponto de vista econômico: as receitas da igreja, resultantes da venda de indulgências, estavam questionadas. Mais do que isso: se a Igreja assumiu um modelo econômico que teve como consequência outro destino da oferta de caridade (as pessoas pararam de ajudar o pobre e o necessitado para comprar indulgências e mandar rezar missas, o que gera receita financeira para a Igreja), Lutero prega claramente a superação deste modelo econômico (mesmo sem fazer referência a ele) quando afirma ser prerrogativa da pessoa justificada voltar seu olhar para o próximo e lhe ser como um Cristo.

Outro aspecto a ser considerado encontramos na ressignificação da função e papel da Igreja. Vimos que a Igreja Medieval, no contexto da doutrina da penitência e da teologia do purgatório, se apresenta como mediadora e fiadora entre as pessoas e Deus. A Igreja Medieval, pela prática da indulgência e de rezar missas, se crê com poder de intervenção junto a Deus. Lutero supera este modelo eclesiológico ao afirmar que onde a Palavra de Deus é crida, Cristo se une à pessoa interior e os dois formam “uma só carne”. Ou seja, o fiador e fundamento da Igreja cristã, da liberdade e da justificação é Cristo acolhido pela fé e não a Igreja como estrutura social ou a indulgência praticada. O papel da Igreja neste novo conceito é pregar retamente o Evangelho de Cristo. Esta concepção supera também a estratificação eclesiológica baseada no princípio de que a pessoa religiosa, cumpridora de todas as leis e

deveres divinos, está mais próxima de Deus120. Cristo é o mesmo em e para todas as pessoas e a justificação da pessoa não é decorrente do cumprimento de obras meritórias, mas da fé em Cristo. Dreher, na introdução ao texto de Lutero (ObSel, 2.435 [1520]), fala da superação da “tirania eclesiástica” e da destruição do “cativeiro eclesiástico”.

Mas no papel da Igreja há que se considerar ainda o seu papel social. Os bispos eram detentores de terra e poderes políticos, fazendo parte da nobreza. Logo, sua atuação era concebida para a manutenção do status quo. Isto fazia a Igreja institucional assumir o papel de exploradora da sociedade. Ela mantinha os colonos no regime feudal rígido: os bispos detentores de terra e poder eclesiástico, os pastores dependentes de seus superiores. Esta dinâmica de manutenção do status quo e de dependência inviabiliza uma reforma social, a não ser que haja forte colisão contra a Igreja. (BRENDLER, 1983, 106). Lutero contribui nesta reflexão ao falar do papel social da Igreja. Seu olhar partiu da sociedade e seus problemas (não da nobreza religiosa) em direção ao texto bíblico. O olhar bíblico ofereceu retorno para a sociedade e as pessoas, independentemente de poder contar com a nobreza religiosa ou não. E confirma que o papel da Igreja é pregar acerca dos reais motivos pelos quais foi necessário Cristo vir ao mundo; a salvação para as pessoas; oferecer consolo; e oferecer rumo para as questões do cotidiano (é o Evangelho no cotidiano). (BRENDLER, 1983, p. 105-106).

Destacamos da segunda parte da tese de Lutero – o servir do/a cristão/ã – a absoluta inversão da perspectiva salvífica: se para a teologia escolástica, o pensar teológico medieval e a Igreja institucional a justificação era o objetivo final do ser humano, para Lutero a justificação é a base de sustentação, o ponto de partida da vida cristã, da justiça, da liberdade e da atuação da Igreja.121 Isto se mostra no controle do libertinismo e na ação amorosa em favor do próximo como consequência da justificação. O ser humano pratica boas obras como expressão de sua natureza justificada e não com o objetivo de obter mérito e justificação. Dreher, na referida introdução ao texto de Lutero (OS 2.436 [1520]), diz:

Ao se avaliar o “tratado sobre a liberdade cristã”, deve-se ter em mente que ele fala da liberdade resultante da justificação. Sua argumentação está dirigida contra um legalismo eclesiástico. Aqui está seu significado emancipatório, pois se volta contra uma Igreja repressora. Contra essa Igreja repressora, o tratado pergunta pela força que possibilita liberdade. A liberdade cristã é proveniente de Deus, é presente dele, e não é conseguida através de ativismo que busca auto-realização religiosa. (...) Uma

120 Houve quem chamasse de herética a superação desta estratificação eclesiológica, especialmente no contexto

do sacerdócio universal. “Ensina-se a ler a cada camponês, embora tenha sido feito para o arado e não para o altar” (Emser, Contra o livro anticristão de Lutero) e Cochlaeus (153 artigos tirados de um sermão do Dr. Martim Lutero sobre a missa e o Novo Testamento, 1523): “Lutero, tu és verdadeiramente um deus grosseiro, visto que fazes os sacerdotes tão grosseiros, a saber, tratadores de porcos e vaqueiros nos campos. [...] Onde está escrito isso?” (apud LINDBERG, 1998, p. 108).

de suas conseqüências é um engajamento muito humano em prol de salvação plena para o próximo.