Já apontamos neste texto para a tradução de fides Christi como sendo fé de Cristo e não fé em Cristo. A diferenciação principal pode ser assim definida: fé em Cristo faz de Cristo o objeto a ser crido. Declaro-me crente em Cristo, ou seja, tenho em quem crer217 e isto me basta; fé de Cristo implica em movimento, em uma ação, num colocar-se a caminho assim como Cristo o fez. Bayer (2007, p. 166-171) afirma que a doutrina das duas naturezas de Cristo218 em Lutero não é mera especulação ou duas “naturezas” fixas e duráveis em si mesmas. Nem uma relação de sujeito predicado:
Não, o seu ser é antes a sua obra; e a sua obra, o seu ser. Diferentemente de nós, ele é idêntico ao que faz. (...) A obra salvífica de Jesus Cristo, que nos é comunicada e oferecida na ‘troca feliz’, não pode ser separada de sua ‘pessoa’. Teologicamente, ela leva ao erro quando se fala apenas de modo especulativo da ‘pessoa’ de Cristo ou de sua obra salvífica apenas em termos da influência histórica que teve. Cristologia e soteriologia, a ‘pessoa’ e o acontecimento salvífico, não podem ser entendidas uma sem a outra. (BAYER, 2007, 167-168).
Fé de Cristo implica, pois, num movimento de ser acolhido por Cristo, acolhê-lo e acolher o próximo; ser salvo e salvar; ser ajudado e ajudar; ser de Cristo e ser como Cristo; ter Cristo em mim e ser como Cristo para o outro. Lutero (ObSel, 2.456 [1520]) escreve:
... os bens que temos de Deus devem fluir de um para o outro e tornar-se comuns, de sorte que cada qual assuma seu próximo e proceda com ele como se estivesse no lugar dele. Eles fluíram de Cristo e fluem para dentro de nós, (...) De nós eles fluem para dentro daqueles que deles necessitam, a tal ponto que inclusive minha fé e justiça têm que colocar-se perante Deus, para cobrir e interceder pelos pecados do próximo que devo tomar sobre mim, e neles labutar e servir como se fossem meus próprios, pois foi isso que Cristo fez a nós. Este é, portanto, o verdadeiro amor e a regra sincera da vida cristã. (...) Concluímos, portanto, que a pessoa cristã não vive em si mesma mas em Cristo e em seu próximo, ou então não é cristã. Vive em Cristo pela fé, no próximo, pelo amor.
Também Hinkelammert expressa esse movimento com o conceito de “verdade” em Paulo como um algo mais do que uma frase verdadeira:
Mas, para Paulo, verdade é algo diferente do que costumamos entender em nossa linguagem corrente. Não se trata de declarar alguma frase sobre o mundo como verdadeira. Trata-se de um ‘ser na verdade’. Isso, por exemplo, no sentido de uma frase de Jesus segundo o Evangelho de João, em que ele diz: ‘Eu sou o caminho, a
217 Neste caso crer em Cristo é algo como crer no mercado financeiro, numa ideologia, num candidato
presidenciável que solucionará os problemas que afligem a nação, crer no herói etc. É a declaração de uma preferência que é volátil. Não implica em comprometimento.
218 Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro ser humano. Não queremos aqui esgotar o assunto. A intenção é
apontar para a unidade de pessoa e obra em Jesus. Na FC (In: LC 524.5 [1576/1577]) um conjunto de teólogos encontra o seguinte consenso: “que a natureza divina e a humana em Cristo estão unidas de maneira tal, que não há dois cristos, um o Filho de Deus, o outro o Filho do homem, porém um único é Filho de Deus e do homem. Lc 1; Rm 9”. A seguir exemplificam a união e a comunhão com o ferro incandescente: cada qual, porém, mantém sua essência.
verdade e a vida.’ Estar na verdade é uma maneira de agir e de viver: viver na verdade. Isto é a fé segundo Paulo: quem vive na verdade tem fé. Isso em nada se relaciona com a crença em alguns dogmas ou representações e com a ideia de que são certas ou não. Se não se entende a fé em Paulo nesse sentido, não se pode entendê-lo. (HINKELAMMERT, 2012, p. 73)
Essa verdade é realizada pela justiça. A justiça a realiza. Por isso o que tem fé é justo na fé. (HINKELAMMERT, 2012, p. 74). A verdade é, portanto, uma vivência.
Chegamos assim à pergunta decisiva na vida de fé: o que faz a pessoa cristã dizer e fazer o que diz e faz? Qual é o princípio que a move? No mercado financeiro este impulso é a cobiça; mas e na pessoa cristã? Vimos que em Lutero este impulso primeiro é uma ação de Deus que acolhemos pela fé. Esta, inclusive, é obra criadora de Deus. Mas isto não significa, em minha opinião, estabelecer um escalonamento de ações, separando o que não pode ser separado. Há que se considerar o conjunto: quando chove a terra é irrigada (não posso dizer chove primeiro e irriga a terra depois, mesmo que haja um lapso de tempo entre uma coisa e outra); quando o raio solar brilha, há luz; etc. Assim também fé e obra219. Por esta junção a misericórdia de Deus ganha espaço num mundo marcado por mazelas.
Em Westhelle (2008, p. 127-132) encontramos este agir no que o autor chama de “ressurreição da prática”220. Em seu esforço de não separar cruz e ressurreição, mas de ouvir o grito que vem da cruz, apresenta Maria e as outras mulheres como exemplo desta prática. Na crucificação elas estavam lá, ao pé da cruz, e foram ver onde o corpo havia sido sepultado.
219 Declaramos ciência que em Lutero há um escalonamento: a fé precede a obra, ou seja, a fé é a obra das obras.
Lutero o compreende desta forma por considerar Deus o sujeito de toda obra que é feita através de nós. Concordamos com esta premissa do ponto de vista teológico. Acolhemos também sua relevância metodológica no século XVI quando a boa obra era crida e aceita como caminho de salvação, resultando na questão das indulgências. Entretanto o que deve ser evitado é este escalonamento entre fé e obra no século XXI. Quando afirmamos que a fé vem primeiro e a obra depois, relegamos a obra de misericórdia em favor do próximo para um segundo plano. Na prática do luteranismo brasileiro este é um dos grandes problemas: a ação é secundária, pois a justificação se dá pela fé. É a separação do que não pode ser separado. Em consequência, muitos param na declaração verbal da fé, ou seja, no culto. Há, entre nós, uma carência pela vivência da misericórdia de Deus. E esta só é concretizada no ato, no gesto, na vida. A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil se preocupa com este aspecto e, como um dos encaminhamentos decorrentes desta preocupação, criou o Ministério Diaconal assim definido pelo Estatuto do Ministério com Ordenação no seu artigo 15: “o exercício do ministério diaconal consistirá no testemunho prático da fé cristã e se expressará através do serviço à pessoa, visando a sua cura e o bem-estar integral, cabendo-lhe especial responsabilidade: (I) - no incentivo à prática do amor e no serviço à pessoa necessitada; (II) - no despertamento e na promoção de uma espiritualidade diaconal entre os membros; (III) - na criação de grupos de solidariedade ou de serviço na comunidade; (IV) - em atividades diaconais desenvolvidas em instituições diaconais, a exemplo de hospitais, ancionatos, creches; (V) - nos movimentos ecumênicos em proteção à dignidade humana ou em favor de causas justas, apoiadas pela comunidade; (VI) - em iniciativas da comunidade que visem prevenção e cura do sofrimento humano e a eliminação de suas causas; (VII) - na implementação de projetos de apoio social.” A iniciativa a considero boa, com o cuidado de não haver a “profissionalização” do cuidado e do amor ao próximo ou a sua terceirização – delegar o gesto do cuidado ao ministério diaconal. Seu específico não significa exclusividade. É a expressão natural de toda pessoa que crê.
220 Em sua obra “O Deus escandaloso: uso e abuso da cruz” (2008), Westhelle destaca o labor teológico feito a
partir da cruz. A concebe como lugar da revelação de Deus. Desmistifica a romantização da cruz e afirma ser necessário ouvir o grito de dor que vem dela. Igualmente critica as teologias que a ignoram, passando diretamente para a ressurreição. A conexão entre cruz e ressurreição faz com que a “ressurreição seja abordada como uma prática (...) É uma prática de trabalho, de luto e de amor, ...” (p. 171)
Então foram para casa e prepararam óleos. É o primeiro sinal de que a história não acabara na cruz. Após os preparativos e o respeito ao sábado, voltam para o túmulo a fim de “ungir um corpo morto putrescente” (p. 128). E são surpreendidas com a ressurreição:
a surpresa está aí quando realizam um trabalho de luto e amor. Em meio à sua dor, em face do cadáver do Amado, essas mulheres praticaram o ato improvável de amor sem esperar que ele alguma vez fosse retribuído. Uma teologia da cruz é sempre o outro lado de uma prática da ressurreição, e uma prática da ressurreição é o outro lado de uma teologia da cruz. (WESTHELLE, 2008, p. 128)
O gesto, além de conectar a ressurreição e a cruz, é símbolo de pessoas que esperam contra toda esperança e mantém aberta a memória empática: “essa é a tarefa dos seguidores e das seguidoras de Cristo: não permitir que a história termine em calamidade, não permitir que o passado seja fechado, contra toda evidência, contra toda esperança.” (WESTHELLE, 2008, p. 129). A isto chama de abrir um passado mediante memória empática. Por mais dolorosa que seja, não deixá-la se apagar.
O que as mulheres fazem é um gesto do mais genuíno e desinteressado amor:
[s]e se quiser ter certeza de que o amor é completamente desinteressado, elimina-se toda possibilidade de retribuição. Mas exatamente isso é eliminado na relação com alguém que está morto. Se o amor, todavia, permanece, ele é verdadeiramente desinteressado. [...] A obra de amor em lembrar alguém que está morto é uma obra do MAIS DESINTERESSADO amor. (KIERKEGARD, Soren. Works of Love. New York : Harper & Row, 1962, p. 320, apud WESTHELLE, 2008, p. 132. Ênfase do autor).
Westhelle percebe um amor que age de forma desinteressada, que é prenúncio de esperança e memória empática. Um amor que é vivência e fomenta um modo de vida.
Tamez (1995) igualmente contribuiu com a construção deste modo de vida pautado pela fé de Jesus. Percebemos este movimento quando aponta para a Justificação pela Fé como afirmação da vida.221 É o aspecto da solidariedade como raiz da Justificação pela Fé (TAMEZ, 1995, p. 217ss).
Pela solidariedade de Deus com Jesus Cristo e o ser humano a dignidade e a justiça ganham forma.
Deus solidariza-se com o humano e Jesus Cristo, protótipo do excluído. Ao fazê-lo, convoca todos os homens e mulheres da terra à prática da fraternidade baseada em sua justiça. É graças à solidariedade de Deus, manifestada no primeiro de muitos, que o ser humano redescobre sua imagem divina, como um ser justificado por Deus, e é por meio da justiça da prática dela que a justificação se torna tangível. (TAMEZ, 1995, p. 217).
221 Este é o terceiro capítulo de sua obra. Nele a autora se propõe um ensaio de reconstrução teológica da
Justificação pela Fé. Este passo é necessário pois ela conclui, nos capítulos anteriores, haver um descompasso entre o que Paulo entende ser a Justificação pela Fé e a prática da Igreja. Nesta pesquisa destacamos o elemento da solidariedade como expressão da Justificação pela Fé. É uma forma de dar continuidade ao tema já iniciado sob a perspectiva da comunitariedade como forma de viver na lógica de Deus.
Dentro da concepção de justificação como humanização (TAMEZ, 1995, p. 206), o pobre e excluído percebe que sua história e a história de Jesus são semelhantes. Quando o excluído se dá conta disso, tem em Jesus o grande protótipo e referência. Ele se dá conta de que Deus caminha com ele. Desta percepção vem a força que vence a morte e a cruz; que resiste à realidade dura e a transforma. Este é o olhar do justificado, daquele que assume a lógica de Deus. (TAMEZ, 1995, 212-217). “A solidariedade aqui é outro sinal de vida, de imagem de Deus, é a resposta ao grito do excluído, primeiro sinal de vida.” (TAMEZ, 1995, p. 221).
Destacamos que a solidariedade opõe-se ao projeto do mérito. A solidariedade é a ação desenvolvida sem interesse, por graça, sem segundas intenções. Pikaza afirma:
o que antes parecia duplo movimento (por um lado, repartir os bens com os pobres e, por outro lado, seguir a Jesus), acaba ficando unido: é no serviço universal de ajuda aos necessitados que se descobre Jesus. (PIKAZA, Xabier. Hermanos de Jesús y servidores de lós más pequeños. Mt 25.31-46. Salamanca : Sígueme, 1984, p. 308, apud TAMEZ, 1995, p. 223).
Neste ponto percebemos que o amor é de fato algo desinteressado, fruto da graça: se amamos o próximo por amor a Deus, de forma interessada, aplicamos a mesma lógica das obras da lei e não da graça. Ou seja, desenvolvemos uma ação que é o amor ao próximo com o objetivo de alcançar mérito diante de Deus; se, porém, amamos o próximo sem segundas intenções, atuamos com a mesma graça com que Deus nos acolheu. (GUTIÉRREZ, Gustavo. Beber em su proprio pozo. Lima : CEP, 1983, p. 169, apud TAMEZ, 1995, p. 223). Westhelle (2008, p. 128), como vimos, o chama de “prática da ressurreição”.
Essa comunitariedade como vivência da Justificação pela Fé ganha significado no cuidado mútuo. Lutero (ObSel, 1.429 [1520]) a expressa no contexto da Ceia do Senhor: se todas as pessoas participam do benefício de Cristo, “... todos os sofrimentos e pecados também passam a ser comuns, de modo que o amor é aceso por amor, levando à união.” A Igreja aqui ganha mais e mais o sentido e jeito de um hospital (LUTERO, Martim. WA 56, 275, 26ss, apud ALTMANN, 1994, p. 128). Sua tarefa é de, na precariedade da vida, ser sinal do amor.
As comunidades luteranas são chamadas a ser sinal do amor na precariedade da vida e se esforçam para tanto.222 Acolher a Justificação pela Fé como modo de vida requer alcançar a vida do outro na forma como ela se apresenta. A vida do outro interpela e, por grandes ou
222 O Pastor Presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Nestor Paulo Friedrich
(2013, p. 13), ao definir a IECLB como Igreja Protestante, cita Paul Tillich e diz: “ela [IECLB] afirma a justiça, a paz e a dignidade da criação e está sempre na defesa da pessoa humana, amada e dignificada por Deus.” Neste sentido é protestante.
pequenos sinais, exige resposta. A Comunidade Luterana em Campinas (IECLB) se coloca a caminho e vivencia este modo. O faz de muitas e diferentes formas, entre as quais citamos:
a) visitas realizadas pelo Grupo de Diaconia no Natal de 2013 à Instituição Renascer (Instituição Pública, mantida pela Prefeitura de Campinas, que abriga doentes mentais, em sua maioria ex moradores de rua). O apoio público não diminui a carência e necessidade humanas constatadas. A mensagem da Justificação pela Fé se materializa na interação de vidas;
b) visitas às famílias de idosos que vivem sozinhos e famílias desestruturadas pela doença, idade, separações etc, que não conseguem mais participar da vida comunitária. Trata- se de um projeto de visitação e cuidado pastoral;
c) acompanhamento continuado a moradores de rua no centro da cidade de Campinas em parceria com a Cáritas Brasileira. Conforme registro do mês de maio de 2012 da Secretaria de Assistência Social da Prefeitura de Campinas, há no município 890 moradores de rua cadastrados.223 É-lhes oferecido um espaço para higiene, descanso e um café da manhã com a ajuda de pessoas voluntárias e doações;
d) apoio de pessoas voluntárias à instituição ABBA (Associação Beneficente Boa Amizade) que oferece alimentação, oficinas de capacitação e reforço escolar a crianças em situação de vulnerabilidade social no bairro Jardim Aurélia em Campinas;
e) apoio institucional e voluntariado no CRAMI (Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância). O voluntariado se dá através de pessoas que dedicam tempo à causa e o apoio institucional na forma de infraestrutura: a comunidade oferece a infraestrutura necessária para os trabalhos de atendimento de uma dupla psicossocial (psicóloga e assistente social) às crianças e familiares na região central da cidade;
f) doação de cestas básicas, remédios e pagamento de previdência social (INSS) para desempregados através dos recursos do fundo diaconal, mantido com doações em dinheiro feitas pelos membros da comunidade;
g) chá da OASE organizado pelas Senhoras da Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas (OASE). É um chá da tarde mensal que reúne senhoras de todas as idades e gera dois benefícios imediatos: o primeiro para as próprias participantes, idosas em sua maioria, que “quebram a rotina” e se encontram com as amigas para uma tarde agradável; o segundo é de assistência social: os alimentos são doados e o ingresso ao chá é vendido. Parte do dinheiro arrecadado é doado ao final de cada ano à entidades assistenciais de Campinas e região. No
223 Conforme reportagem publicada pelo portal G1, em 23/08/2012, disponível em
http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2012/08/numero-de-moradores-de-rua-em-campinas-aumenta- 49-em-2-meses.html, acesso em 14.01.2014.
ano de 2013 oito entidades puderam ser beneficiadas com setecentos reais, ou seja, mais de um salário mínimo brasileiro na ocasião para cada uma delas.
São sinais de amor em meio à precariedade da vida. São suficientes? Pequenos? Grandes? Não sabemos.224 Sabemos que são sinais que evidenciam a lógica de Deus e geram dignidade característica do Reino de Deus: vida, dignidade e cuidado. São sinais da condição de pessoas libertas da lógica do mérito e que se sentem comprometidas com a edificação de uma sociedade onde a vida tenha espaço.
Este compromisso da comunitariedade também se dá na individualidade225. Muitas são as pessoas luteranas que, voluntariamente, se engajam em atividades sociais de voluntariado através de Organizações Não-Governamentais com os mais variados fins. O zelo ético é premissa que cada qual deve assumir226. Por consequência, muitas são as manifestações de repúdio à corrupção, por exemplo, e raramente ouvimos que um luterano nela está envolvido. É claro que existem, não nos enganemos.227 Mas, em geral, estamos diante de pessoas muito éticas e que assumem os princípios da fé e os transformam em vivência. Fazem o que está à mão. Materializam a fé de Cristo.
Registramos que esta ética é também a ética de todas as pessoas justificadas pela fé, independentemente da confissão religiosa. O Papa Francisco o expressa de forma bonita ao falar do “ecumenismo de sangue”228: onde há pessoas sendo mortas por serem cristãs não se pergunta a denominação ou local de batismo. Mortas, o sangue se mistura. É uma realidade que não pode ser desprezada. Precisa ser acolhida e enfrentada de forma conjunta, pois gera dor e morte de irmãos e irmãs. A ideia do cuidado pode ser ampliada: onde pessoas passam
224 Se os sinais são “pequenos” ou “grandes” é difícil de mensurar. O que é um gesto pequeno para quem o
realiza, pode ser acolhido como algo grandioso por quem o recebe. Ou vice versa. Altmann (1994, p. 90) acentua que vida na graça desenrola-se em misericórdia.
225 Tanto na comunitariedade como na individualidade o luterano é animado a viver a “palavra” na perspectiva
da determinação do ser, como vimos. Ou seja, na “inter-relação entre pensamento, palavra e ação.” (BAYER, 1997, p. 42-44). Wegner (1990, p. 68) também conclui que a “defesa do meio ambiente tem que ser feita exatamente nestes dois níveis: no pessoal e no coletivo.”
226 Altmann (1994, p. 80-95) afirma que a Justificação pela Fé é transformação pessoal e social. Hinkelammert
(2012, p. 41-42) afirma que a pessoa tornada sujeito age em conformidade com o espírito de Deus, age em conformidade com a sabedoria de Deus (que é loucura para este mundo). Tamez (1995, p. 187-189, 245) afirma que a justificação insere a pessoa na lógica de Deus e, ao assumir esta lógica, “a luta pela defesa da vida concreta dá consistência à fé”.
227 Toda generalização é ineficaz e ineficiente. Toda regra tem sua exceção, diz o ditado popular. Mas
precisamos apostar neste caminho. Apesar de suas imperfeições e possíveis contradições no dia de amanhã. A incerteza do porvir não pode fazer desistir da caminhada hoje. Nem podemos deixar de valorizar os pequenos sinais apesar dos grandes desafios. A questão chave não é, por hora, a grandiosidade do movimento, mas o assumir a lógica de Deus que é a vivência da Justificação pela Fé. Bornkamm (1992, p. 179) afirma que Paulo expressa esta percepção na tríade fé, esperança e amor (1 Coríntios 13.13).
228 Jornal La Stampa (Itália) entrevistou o Papa Francisco e publicou matéria intitulada ''Nunca tenham medo da
ternura''. TORNIELLI, Andrea (repórter). 15-12-2013. Tradução: Moisés Sbardelotto. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/526693-nunca-tenham-medo-da-ternura-entrevista-do-papa-francisco-ao- jornal-la-stampa, acesso em 07.01.2014.
fome, onde estão desempregadas, onde em guerra, onde doentes e sozinhas, ... precisam de ajuda. Não é necessário pedir a certidão de batismo para verificar a confissão religiosa, é necessário ajudar. Este é o modo de vida decorrente da Justificação pela Fé que supera exclusivismos e intolerâncias de qualquer sorte.
O enfoque final de nosso texto é afirmar que todos estes gestos e iniciativas são importantes. O próximo precisa deles. São-lhe imprescindíveis. O limite, todavia, está em que não é possível construir aqui o Reino de Deus (Altmann). Todo esforço será sempre paliativo. Se assim não fosse, teríamos criado, ao menos na teoria, um novo sistema que, instituído,