5.3 Seksuelle grenseoverskridelser og overgrep
5.3.2 Overgrep eller misforståelse?
A fé está sempre presente nas palavras de Cortès. A figura divina dos índios era evidentemente bem diferente da de Cortès. Verne tendo estudado a vida e a conquista do herói nos mostra a superioridade dos espanhóis e também sua tática. Cortès tem a seu favor a ciência militar e também a ciência política. Ele procura sempre obter aliados (Tlaxala), ou no mínimo a neutralidade das populações vencidas (Cholula) antes de entrar em guerra, buscando a diplomacia. Cortès tenta mostrar sua fé , suas ideias e coloca em cena suas ambições pessoais, ou seja terminar a conquista com a riqueza que ele tanto sonhava. Cortès tenta mostrar-lhes a importância da fé, ele tenta convertê-los antes de adotar a utilização da força:
O capitão disse que não vinham por mal, mas apenas para lhes dar conhecimento de nossa fé e para que soubessem que tínhamos como senhores aos maiores príncipes do mundo e que estes obedeciam a um príncipe ainda maior. (CORTEZ, 2007: 21).
22 Tradução:
Se Cortes tinha convencido Montezuma em tudo relacionado à política, não houve o mesmo com a religião. Ele nunca pôde convencê-lo a se converter, e quando tentou derrubar seus ídolos, como tinha feito em Zempoalla, ele provocou uma rebelião que teria se tornado muito grave se ele não tivesse abandonado imediatamente seus projetos. (Verne, 2005: 63 e 64).
Bartolhomé de Las Casas, em Très brève relation de la destruction des Indes mostra claramente as consequências das missões que os espanhóis pensavam ter o dever de fazer. Segundo ele, o nome da Igreja é fortemente utilizado para conseguir a colonização desses povos:
Tous ces peuples universels et innombrables, de toutes sortes, Dieu les a créés extrêmement simples, sans méchanceté, ni duplicité, très obéissants et très fidèles à leurs seigneurs naturels comme aux chrétiens qu'ils servent; les plus humbles, les plus patients, les plus pacifiques et tranquilles qui soient au monde; sans rancune et sans tapage, ni violences ni querelles, sans rancœur, sans haine, sans désir de vengeance. (B. DE LAS CASAS, 1996: 49) 23
O conquistador é representado para alguns, como Las Casas, como um homem com uma ambição perigosa, pois Cortès reduz toda uma civilização em uma época em que as conquistas fascinavam muitos guerreiros. Cortès se mostra diante deles como uma fonte de esperança, riqueza e glória. Sendo assim, a destruição e o sangue derramados, muitas vezes em nome de Deus, para muitos dos conquistadores não eram consideráveis. Os índios são fortemente inseridos na questão da religião, que tem por finalidade “civilizá-los”. Cortès se apresenta como um homem de muita fé, e sempre em seu discurso podemos observar a presença de Deus. Ele possui também um discurso de agradecimento:
Acreditem vossas altezas que esta batalha foi vencida muito mais pela vontade de Deus do que por nossas forças, pois, para quarenta mil homens de guerra, quatrocentos, como éramos, se tornava um número insignificante. (CORTEZ, 2007: 27)
Os massacres desses povos são muito conhecidos na História, como elenca Las Casas, estes povos são muitas vezes explorados, mas Cortès não os vê como vítimas, ao
23 Tradução:
Todos estes povos universais e incontáveis, de todos os tipos, Deus os criou extremamente simples, sem maldade, nem duplicidade, muito obedientes e muito fiéis a seus senhores naturais como os cristãos que eles servem; os mais humildes, os mais pacientes, os mais pacíficos e tranquilos que existam no mundo; sem rancor e sem brutalidade, nem violência e nem querelas, sem amargura, sem ódio, sem desejo de vingança (B. DE LAS CASAS, 1996: 49).
contrário, na busca por credibilidade e legitimidade, ele sempre encontrava razões para obrigá-los a praticar sua religião, como no exemplo a seguir:
Mostramos-lhes o mal que faziam em adorar aqueles ídolos, fazendo- os entender que deviam vir para a nossa fé. Deixamos uma cruz e eles ficaram muito contentes, dizendo que se tornavam nossos amigos e vassalos de vossas majestades. (CORTEZ, 2007: 27)
O poeta Alexis Piron diz que a Europa criou a civilização que foi chamada de Novo Mundo: “C’est la civilisation du monde par l’Europe”. (PIRON, 1744: 430). Assim como Verne, como pudemos observar ao longo deste trabalho, Piron acredita que Cortès era um homem de valores e de muita fé, Cortès possui uma valoração constituída sobre uma imagem já preexistente. Nestes autores o herói é alguém a se destacar dos outros, a questão da fé possui um apelo no que diz respeito à civilização desses povos, sendo ela também uma estratégia para atrair novos soldados para sua conquista. Piron defende o herói:
Cortès a pour lui la valeur, la prudence, l’humanité, la fortune et la Religion. A quels titres plus justes méritera-t-on jamais les bonheurs de l’héroïsme? Vous l’aurez quelque part lui nommer de Cruel, Avare, Exterminaeur. Hypebole e mauvaise foi! Jalosie nationale qui se plaît à confondre Pizarre 24 avec CORTÈS. 25 (PIRON, 1744: 431)
Segundo o autor, Cortès era um homem de muita fé e dignidade, contudo podemos dizer que Cortès utiliza o discurso cristão com a finalidade de: em primeiro lugar, conseguir soldados para sua conquista, pois uma vez catequizados e convertidos, estes índios passavam a ser vassalos do rei e logo estariam a seu comando e em segundo lugar, como forma de legitimar-se diante do rei, já que o rei também queria converter estes povos.
24
Francisco Pizarro foi um explorador e aventureiro espanhol. Conquistou o Império Inca, uma civilização avançada da América do Sul, e fundou a cidade de Lima, hoje capital do Peru. Pizarro nasceu em Trujillo, na Espanha, por volta de 1475.
25 Tradução:
Cortès tem em si o valor, a prudência, a humanidade, a fortuna e a Religião. A quais títulos mais justos se merecerá a felicidade do heroísmo? Vocês podem tê-lo em algum lugar chamado de Cruel, Avaro, Exterminador. Hipérbole e má fé! Ciúme nacional que se compraz em confundir Pizarro com CORTÈS.
Charaudeau (2008: 52) elenca que, de fato, o discurso politico, no que concerne às suas significações e a seus efeitos, não resulta da simples aplicação de esquemas de pensamento pré-construídos que se reproduziriam sempre da mesma maneira quer se esteja do lado dos dominantes ou dos dominados. As significações e os efeitos resultam de um jogo complexo de circulação e de entrecruzamentos dos saberes e das crenças que são construídos por uns e reconstruídos por outros. Isso significa dizer que o político está sempre em um jogo de troca, buscando estratégias e analisando seu adversário. Os trechos que fazem alusão à questão da fé, mostram sempre um discurso com argumentos que nos fazem acreditar que Cortès era realmente um homem de muita fé:
E parece que o Espírito Santo me dera um aviso com a ideia que tive, pois no outro dia foram tantos os índios que nos cercaram por todos os lados como nunca tínhamos visto antes. Mas quis Nosso Senhor mostrar seu grande poder e misericórdia conosco, pois com toda sua grandeza conseguimos reunir forças e quebrar a sua resistência, embora eles fossem tantos que chegavam a bate runs nos outros, a ponto de se estorvarem mutuamente. (Cortez, 2007: 82)
Seu discurso reforça esse imaginário, sua relação com a corte, sendo a fé um dos símbolos usados para seduzir o rei, uma vez que desperta o encantamento por essa nova civilização que precisava ser civilizada. Muitos autores porém, acreditam que esta cultura e a história destes povos não correspondem a um jogo de interação do eu com o outro, mas sim do seu próprio eu, pois mostrar sua própria cultura e identidade em busca do reconhecimento e aceitação do outro, pode assim como ocorreu, causar estranheza dos valores e símbolos que compõem essa realidade.
Lafaye (1973:4) diz:
… les résultats de la conquête: porter la parole aux Gentils, autrement dit, civiliser les sauvages (comme on dira au XIXe siècle); ces fins idéales, justifient-elles les moyens employés par les conquérants: le pillage, les massacres, les tortures et finalement la déploration et le
travail forcé? 26
São as cenas de pilhagem e massacre que tornaram tristemente célebre o nome de Cortès. Como se pode constatar, a conquista da América não é somente um grande fato da História, é também um triste momento em que os conquistadores tratam cruelmente os indígenas e acabam por “exterminar” esta população. O mundo chamará o índio de “o bom selvagem”, facilmente colonizado. E os espanhóis colocarão fim à sua cultura e à sua história. Em Poèmes Aztèques Auguste Génin (1884-1889: 167) escreve:
Égorger des païens, ne saurait être un crime! Cortèz comme Pizarre, abrités par la croix, À ton voile étoile, religion sublime!
Après plus d’un massacre ont essuyé leurs doigts. 27
Nesse sentido, identifica-se a crença destes povos como quase totalmente eliminada pelos conquistadores. No lugar de acrescentar sua fé e sua cultura, os espanhóis exterminam, o mundo cristão torna-se assim, um mundo pessimista, onde os conquistadores aproveitam o nome de Deus para destruir tudo que eles encontram em seu caminho. O poeta supracitado, mostra em seus versos um mundo desiludido com imagem de horror deixada pelos espanhóis. A fé é representada como desculpa para guerrear com estes povos para assim eliminá-los. O autor pinta uma imagem de terror vivida pelos astecas e desfaz ao mesmo tempo, a imagem que os historiadores dão ao conquistador, ele mostra um conquistador violento, que é um verdadeiro bárbaro. Las Casas também acredita que esta legitimação através da fé não é plausível. Ele considera que o Deus dos conquistadores durante a conquista era o ouro: “Ce tyran commença à commettre les cruautés et les forfaits habituels, que tous les Espagnols ont coutume de commetre aux Indes et beaucoup d’autres encore, afin d’obtenir ce qu’ils considèrent
26 Tradução:
…os resultados da conquista: levar a palavra aos gentios, em outras palavras, civilizar os selvagens (como se dirá no século XIX); estes resultados ideais, justificam eles os meios empregados pelos conquistadores: a pilhagem, os massacres, as torturas e finalmente a lamentação e o trabalho forçado?
27 Tradução:
Matar os pagãos, não pode ser um crime! Cortès como Pizarro, protegidos pela cruz, Em teu véu estrela, religião sublime! Após mais de um massacre limparam os dedos.
comme leur Dieu: l’or.” 28
As vítimas de Cortès e dos seus companheiros aparecem nas diferentes obras, introduzindo um discurso problemático em relação à religião e à colonização. A educação religiosa praticada ao longo dos séculos de colonização é tão assustadora que é difícil imaginar uma crença religiosa em Cortès e em seus companheiros. Estas guerras em nome de Deus retomam o antagonismo existente diante do que ele acreditava ser uma religião. Para os índios, seus Deuses eram incomparáveis, deslegitimando o Deus da Igreja Católica e por assim dizer Cortès.
Comparando a religião dos índios com a que aparece em Cortès e nos outros conquistadores, pode-se dizer que os índios respeitavam primeiramente a natureza, eles se consideram como parte desta natureza que está a seu redor e não como seus mestres. Havia uma sociedade igualitária, o chefe era seguido pelos outros índios de maneira espontânea. Como sabemos, os imperadores que eram os governantes antes da chegada dos espanhóis, batizavam o seu povo pelas suas crenças e costumes. Ao longo do século XVI um dos sacrifícios impostos pelos espanhóis foi o batismo, e Cortès consegue evangelizar muitos destes índios, visto que os mesmos queriam se emancipar dos astecas.
28
Tradução:
Este tirano começou a cometer as crueldades e os castigos habituais, os quais todos os espanhóis têm por hábito cometer nas Índias e muitos outros ainda, com a finalidade de obter o que eles consideravam como seu Deus: o ouro.
Les espagnols attisaient le feu au-dessous du grill (VERNE, 2005: 80).
A imagem acima representa o domínio dos espanhóis para com aqueles que não quiseram se catequizar. Cortès exige que seus homens tenham a mesma fé que a coroa espanhola. O fogo representa mais uma vez o domínio. O padre no meio dos cristãos
queimando aqueles que não possuem a mesma religião, simboliza o domínio da Igreja Católica em relação às outras crenças.
Sendo assim, a legitimação através da fé aparece sob forma de força e discurso. Como pudemos observar, no exposto por Verne, mais força do que discurso. Ele utiliza sua imagem para incitar os outros conquistadores em nome da fé, porém muitos utilizavam seu nome para matar e violar mulheres:
Mon père, je n’ai pu refuser aux soldats cette occasion d’amusement et de gaiété que Votre Révérence connaît, mais je ne l’ai point fait sans répugnance. C’est à Votre Révérence qu’il appartient maintenant d’ordonner une procession, de dire une messe et de faire un prêche pour en prendre occasion de recommender aux soldats de ne point enlever les filles des Indiens, de ne pas voler, de point chercher querelle et de se conduire en bons chrétiens catholiques, afin de mériter que Dieu nous favorise. (CORTEZ IN CASTILLO, 2003: 473) 29
Castillo destaca as reclamações do monge Bartolomé de Olmedo (?- 1524), que havia expressado nesta ocasião um descontentamento enfatizando que “cela lui paraissait répréhensible et ajoutant que c’était là une triste façon de rendre grâces à Dieu et de mériter qu’il nous protégeât à l’avenir.” (CASTILLO, 2003: 473). 30 Essa troca comunicativa deixa em evidência que, por algumas vezes, Cortès não era o responsável direto, mas que também não impedia que seus soldados praticassem maus tratos. Se ocultava, para não se colocar na função de chefe, de questionador, de determinador de funções. Simplesmente deixava que seus soldados se divertissem, para que assim, ficassem satisfeitos e continuassem reconhecendo-o como líder. Ele, enquanto enunciador, utiliza-se de seu poder de persuasão, mostrando para o monge Bartolomé de
29 Tradução:
Meu padre eu não podia recusar aos soldados esta ocasião de divertimento e alegria que a Vossa Reverência conhece, mas eu não o fiz sem repugnância. Cabe a Vossa Reverência agora ordenar uma procissão, e rezar uma missa e para pregar e utilizar a ocasião para recomendar aos soldados para não remover as meninas indianas, não roubar, não procurer briga e de se comportar como bons cristãos católicos, para merecer o que Deus nos favoreça.
30 Tradução:
Aquilo lhe parecia repreensível e ainda era uma maneira triste de render graças a Deus e de merecer que ele os protegesse no futuro. (CASTILLO, 2003: 473)
Olmedo que o papel de parar com as atrocidades lhe cabia, que essa transmissão de fé e compaixão para com as filhas dos indígenas fazia parte de uma construção discursiva, que consiste em assegurar sua posição, legitimando o monge a mostrar aos outros conquistadores que tais atos não deveriam ser cometidos por católicos. De maneira a postular-se diante de tais comportamentos, ele se distancia influenciando o outro a tomar a palavra em seu lugar, revelando mais uma vez seu saber político.