5.2 Ungdom og seksuelle relasjoner
5.2.1 Kjæresterelasjonen, one-night-stands og pulevenner
Neste projeto pretenderemos expor, de forma cronológica, as várias fases do poeta Pablo Neruda, com a linha de análise, de que há um salto qualitativo dialético de sua poesia inicial até sua passagem à Espanha. Para isto usamos vários críticos, e inserimos uma novação na análise de Neruda, que é utilizar os conceitos de Octavio Paz, de seu livro, Os filhos do barro, para analisar as soluções estéticas e temáticas pretendidas por Neruda. O que fazermos de novo, é mostrar que a adesão socialista, marxista e comunista de Neruda, não é só um dado biográfico, mas é uma elegante solução poética para o problema da agonia do “desarraigo” (com a tradução não literal de desenraizamento em português) causada pela modernidade destruidora. Neruda assim, insere-se numa tradição de poetas modernos e vanguardistas, que se inicia desde o mito da Morte de Deus, iniciada na era romântica, e que vai ter suas versões na náusea sartriana, na peste de Camus, no homem destroçado pelos mecanismos do Estado em Kafka, nos poetas marginais franceses. Como partimos da afirmação de que a obra de um escritor é influenciada por sua vida, por suas experiências, sonhos, desejos, alegrias, frustrações, tramas, realizações, fizemos a correlação entre as diversas experiências tidas por Neruda na vida e como elas se refletiram na sua obra. Mas não só isto, pois senão cairíamos num biografismo estreito. Não é apenas um dado biográfico, é um tema e um estilo poético no qual Neruda dialoga permanentemente com toda uma vanguarda, e sua saída para uma utopia marxista também é uma saída estética para derrotar a inevitabilidade e a inexorabilidade do tempo cronológico. Mostramos as influências poéticas, as escolas, os movimentos de vanguarda da época que vão influenciar a forma e a estética de Neruda.
Neruda anterior a Espanha já é um poeta em transformação. Do jovem nascido no interior do Chile, estudante tímido que escrevia poesia pós-romântica ao funcionário consular que vive um exilo voluntário e é tragado no turbilhão da vida do Oriente, já há uma grande transformação estética. Influenciado pela leitura dos poetas de vanguarda, de Mallarmé e Baudelaire, a T. S. Eliot, Whitman, Joyce, Rubén Darío, ele vai desenvolver uma poesia cuja temática e estética é impressionantemente inovadora. Não tocado por orientalismos místicos, Neruda tratará o Oriente como um ambiente hostil, e reagirá a ele refugiando-se na poesia, uma poesia que não tratará dos altos temas, mas que se ocupará de absolutamente
tudo: o tédio e o horror da vida burocrática, a pobreza e o fanatismo místico, o sexo sem nenhuma sublimação subjetiva, meramente corpóreo e por vezes escatológico, a natureza sufocante e aterradora. Na forma, com o assilabismo, com os versos livres de ritmo interno, chegando ao poema prosa, ele será também um prenunciador de vanguardas tanto para a Espanha quando para a América Latina, com poemas que tem traços de realismo fantástico e surrealismo, mesmo antes que surjam estes movimentos. Neruda, como Lorca, é um poeta acima de escolas, sorveu de todas elas, não pode ser classificado rigorosamente em nenhuma.
Se a poesia foi fuga introjetada, esta fuga não é buscada numa transcendência, as pequenas vivências do cotidiano, até com o escatológico, do fumar um cachimbo ao gozo sexual, tudo é uma forma em cada dia de se dizer, estou vivo, existo, frente ao caos. A poesia é catarse deste tempo desconexo, de experiências desconexas. Pictórico e onírico, Neruda vivencia um realismo fantástico e por vezes quase fantasmagórico em sua poesia, a busca de uma reintegralização do ser, de uma essência perdida e que paradoxalmente ele não encontra em lugar nenhum. É uma poesia de vanguarda, experimental, que desconstrói a realidade, e desconstrói também a métrica, a rima, muitas vezes chegando à prosa poética. A fase oriental preparar o terreno, faz a projeção do novo edifício da nova poesia.
Nossa tese central, todavia, é a de que há uma experiência é central na vida do Poeta. Esta experiência é sua estada na Espanha. A segunda residência é escrita uma parte no Oriente, outra na Espanha. A Ode a Federico García Lorca, poema que inaugura a fase em que uma gota de sangue caiu na poesia de Neruda e a manchou de vermelho, é poema ainda da Segunda Residência. Neruda se estabelece na Espanha e é Ligado a ela não só pelas amizades; da qual García Lorca fora preponderante, já que Neruda o considerava irmão de coração; mas pela arte. Neruda participará, como se espanhol fora, nos destinos literários da Geração de 1927, chegando mesmo, ele que era chileno, a dirigir uma das mais importantes publicações modernistas da Espanha, junto com Rafael Alberti, a revista Caballo
Verde, na qual ele escreve um manifesto, Para uma poesia impura, que
consideremos síntese da Geração de 1927. Aliás, também defendemos neste trabalho de que Neruda devia ser considerado partícipe desta Geração Espanhola, e só não o é, por ter nascido no Chile, seu manifesto, por exemplo, é traço distintivo entre os poetas que agora utilizavam-se de todos os temas do cotidiano e das manifestações populares da jovem República, contra a poesia do “tema nobre”,
representada por Ramón José Jimenez.
Ele é partícipe dos experimentalismos da Geração de 1927, e a partir daí começa a beber dos influxos que serão constantes na sua poesia dita engajada, como solução teleológica final para o agon da sua época, o breve século XX, século de duas grandes guerras e de 70 milhões de mortos só nestas duas guerras. Século da Revolução Socialista Russa, da Guerra Civil Espanhola, do Holocausto, da experiência Socialista Democrática de Allende e do Golpe Militar de Pinochet, que assassinará o presidente amigo íntimo de Neruda. Assim, a solução socialista revolucionário, do homem novo, é também um retorno, na tensão permanente dos modernismos e da vanguarda da tradição das rupturas, a utopia socialista como solução anticíclica do tempo, ainda que na realidade, boa parte da vanguarda literária russa não tenha resistido e tenha sido devorada pela própria revolução bolchevique, vejamos as contradições entre poesia e utopia do breve século XX, para entendermos melhor a nossa tese de que a utopia socialista também é uma solução poética para Neruda:
A condenação da poesia pelo espírito moderno evoca imediatamente outras condenações. Com a mesma ferocidade com ue a igreja castigou os místicos, iluminados e quietistas, o Estado Revolucionário perseguiu os poetas. Se a poesia é a religião secreta da era moderna, a política é sua religião pública. Uma religião sangrenta e mascarada. O processo da poesia foi um processo religioso e a revolução condenou a poesia como uma heresia. O equívoco é amplo: se na poesia se manifesta uma visão religiosa pessoal do mundo e do homem, na política revolucionária reaparece uma dupla aspiração religiosa: mudar a natureza humana e instaurar uma igreja universal baseada também num dogma também universal. Num caso analogia e ironia; no outro, transposição da dogmática e da escatologia à esfera da história e da sociedade (PAZ, 2013, p.113).
Assim, a passagem de Neruda para as fileiras revolucionárias também é uma passagem para uma solução estética. Vista ou não como ilusão, é uma forma de escape ao tempo cíclico e um retorno à bondade da era de ouro e a igualdade pré-capitalista. Nossa tarefa aqui não é de fazer análise marxista se Revolução e o socialismo são possíveis ou não, mas de analisar a Revolução como imagem estética, imagem que ao mesmo tempo que é destruidora e revolucionária, também é um retorno imagético à era de ouro da abundância, bondade, solidariedade e igualdade. Neruda viverá todas estas contradições e sobreviverá política e poeticamente até as denúncias contra o stalinismo desferidas em 1956, por uma razão bem concreto, sua poesia não era só panfleto, estava prenhe de imagem e forma poética e seus temas eram largos e amplos para que valha à pena ainda hoje ler todos os seus poemas. Em Macchu Picchu, ao lado da apologia a Stálin, há toda
uma série de vozes que só tomam forma pelas mãos de Neruda, que mais parece um escultor primitivista, pintando a camponeses operário, o mineiro, o militante comunista assassinado. Militante de duas causas perdidas, a República Espanhola e a experiência Socialista Chilena, seus poemas ganham valor de documento trágico.
Ao nos filiarmos a ideia de Octavio Paz de que a Revolução é um retorno típico da modernidade, uma forma de escapar ao devoramento do tempo cíclico, abrimos a rota para estabelecer as ligações da poesia de Neruda com todas as grandes poesias inovadoras, desde Baudelaire a Lorca. Neruda é um poeta no qual há permanências, o lirismo do amor, seja sensual, seja idealizado, é uma constante em toda sua obra. Outra constante permanente é a exaltação quase mítica e mística da natureza, um certo panteísmo sem divindade, que também é autobiográfico e um eterno retorno à sua infância em Temuco, na verdade, dois retornos ambivalentes, o retorno permanente ao bosque, a infância fundadora do eu (id) da identidade, e também o retorno revolucionário, fundador de uma pátria mística coletiva que vença o tempo e se torne eterna porque a imortalidade não é individual, mas é coletiva, como dizia don Pablo, “Me has hecho ver la claridad del mundo y la posibilidad de la
alegría. Me has hecho indestructible porque contigo no termino en mí mismo”. Assim
a tentativa do homem infinito se dá em soluções coletivas, povo, Partido Comunista, proletariado.
Neruda foi, no modo de dizer da vanguarda modernista brasileira,
antropofágico3, sorvendo o melhor da experiência estética da poesia latino-
americana (José Martí, Gabriela Mistral, Rubén Darío) com a poesia mais revolucionária (tanto na forma, quanto no conteúdo) da Europa e dos Estados Unidos (Baudelaire, Mallarmé, Joyce, T. S. Eliot, Walt Whitman; assim como dos espanhóis da Geração de 1927, principalmente Federico García Lorca). Esta mescla o fará predecessor de vanguardas na América Latina e na Europa, partícipe direto da Geração de 1927, irmão de letras e de ideias de Federico.
Dentre estes escritores revolucionários espanhóis, o mais significativo e influente era, exatamente, o melhor amigo de Neruda, seu irmão de coração: Federico García Lorca. Desta amizade, na vida real e literária, surgirá uma influência
3 O manifesto antropofágico é uma das manifestações da vanguarda de 1922, feito por Oswald de Andrade e que defendia que devíamos consumir todas as boas influências estrangeiras, como faziam os caraíbas com os bravos derrotados em guerra, e condicioná-las a uma estética própria local.
mútua. De Lorca, Neruda tomará a poética popular e de cunho social (ainda que a obra de García Lorca não tivesse cunho socialista), mas também tomará o verso livre e branco, a musicalidade, o elogio às heróis anônimos do povo. Lorca, como mostramos nesta obra, terá a influência do ritmo interno da poesia muçulmana, o fúnebre e a musicalidade da poesia do Cante Jondo cigano. Este louvor ao que é apátrida, do que é marginalizado, será uma temática comum. Neruda escreverá uma obra dedicada a um bandoleiro, La Barcarola, Joaquín Murietta, um marginalizado na história do Chile. Os ciganos de Lorca, serão os mineiros e os operários para Neruda. Em lugar dos apátridas de Andaluzia, os apátridas exilados de sua própria terra, o proletariado. Como diz Karl Marx no Manifesto do Partido Comunista, o proletariado não tem pátria e é internacional. Este internacionalista, colocando o homem sofrido e marginalizado acima de sua origem e crença, será então comum a ambos.
Também será comum em ambos o experimentalismo nos versos, Neruda chegará, como Federico García Lorca a um poema sem rigidez em sua construção silábica e marcado pelo ritmo interno do poema (outra influência árabe, no caso de Lorca), muitas vezes namorando com o poema prosa. Também será terreno fértil comum a ambos o onírico, o pictórico. Se Lorca desenhava a terra de Andaluzia, seus personagens e suas características em seus poemas, Neruda vai pincelar o bosque chileno, o mar, os caracóis, os portos e todas as características marinhas. Uma poesia pictórica e com elementos oníricos em ambos. Em Neruda a influência da matéria do sonho é anterior à Espanha, em sua experiência oriental, a passagem e o convívio com a Geração de 1927 só aguçará esta característica. Como uma permanente refundação, a tentativa do homem infinito, a ideia de vencer o isolamento, a solidão, o caos, a angústia com a morte. Nesta busca, a ideia engajada da política, do Partido Comunista como escola de humanidade, da luta socialista e internacionalista, é uma forma de reificar e reintegralizar as experiências e buscar um porto na sua jornada de viajante sem destino.
Este viajante, levará sua influência, de seus poemas, viagens e liderança para a Geração de 1927, e como exilado de duas pátrias, expulso pela Guerra Civil, mesmo não sendo espanhol, levará de volta a guitarra de Andaluzia de Lorca para o Chile, e ela continuará a tocar depois da morte de Lorca, já que seus versos influenciarão toda a sua geração. Neruda, chileno de nascimento, é espanhol, todavia, em grande parte de sua poética. Lorca não influenciará somente a Neruda;
a Geração de 1927 da Espanha, com certeza ecoará no florescimento da nova poesia latino-americana, não por coincidência, que acontecerá quase concomitantemente a esta época, já que Neruda é parte desta renovação na América Latina, é um marco na poesia Latino-americana. Contraditoriamente, ao ser marco na poesia chilena e latino-americana, Neruda mescla a influência de duas pátrias e dois continentes, de tal maneira, que é impossível saber de onde e como surgiu cada parte que compõe sua temática e forma.
Explicitamos que o grande marco na vida do poeta, a estada na Espanha, a Geração de 1927, a poesia e a amizade de Lorca, a Guerra Civil, são catalisadores de uma mudança que desembocará num Neruda Múltiplo. O Neruda dos Vinte poemas não é um Neruda menor ou pior do que o Neruda de A Uva e o
Vento, é somente um poeta mais completo, um poeta que agregou à face lírica uma
outra face, social e política. Não há como deixar de se emocionar com a beleza estética na forma e no conteúdo dos versos dos Vinte Poemas, ainda que neles não fique caracterizada nenhuma militância social. Mas a face lírica, panteísta, interiorizada de Neruda não sumirá, somente trabalhará em conjunto, em textos como os do Canto Geral, já que o tempo inteiro Neruda cantará a natureza com riqueza de adjetivos e com uma profundidade metafísica, mas destes traços, já presentes no Neruda jovem, agregam-se o experimentalismo, a liberdade na forma e no conteúdo: o cotidiano, a crítica social, a guerra, a luta política, a revolução; ao lado do amor, das uvas, da cebola, do vinho. O lirismo juvenil não desvanece, mas junto a ele, surge o cantor do sexo muitas vezes sem máscaras e sem idealização, o crítico social, o humanista em busca de um sentido para a existência, o exilado de duas pátrias, testemunha visual de duas guerras e tomando lado em cada um conflito.
Ao contrário da crítica mais feroz a Neruda, não acreditamos que a adesão socialista de Neruda tenha transformado sua poesia num pastiche, num folhetim. Neruda não ficou unilateral, continuou múltiplo, e se foi censurado por sua adesão e engajamento, do outro lado foi censurado por poetas cubanos e comunistas de várias partes do mundo, por não ter restrito sua estética ao “realismo socialista”. Insistimos que a forma panteísta que é uma característica nerudiana que o liga a tradição de vanguarda desde o romantismo, já que as formas míticas que não são da religião oficial católica e ou oriundas da reforma protestante, também sempre foram uma forma de ruptura e não adesão. O leitmotiv, o moto perpétuo de
todas as vanguardas desde os românticos, a “tradição da ruptura”, uma dicotomia,
Ouroboros, a serpente, o dragão que devora a si mesmo pela cauda. Assim, a utopia
em Neruda, assim como em Brecht, em Maiakovski, são formas poéticas de fuga do caos do tempo devorador, soluções finalistas teleológicas, como as do sistema hegeliano, traduzido em Marx, como Revolução Comunista:
As origens da nova religião política, uma religião que ignora a si mesma remontam ao século XVII. David Hume foi o primeiro a observar isto, ele afirmou que a filosofia de seus contemporâneos, especialmente a crítica ao cristianismo, já continha os germes de uma outra religião: atribuir uma ordem ao universo e descobrir uma vontade e uma finalidade era incorrer de novo na ilusão religiosa. Mas Hume não testemunhou, embora tenha previsto, a queda da filosofia na política e sua encarnação, no sentido religioso da palavra, nas revoluções. A epifania do universalismo filosófico logo adotou a forma dogmática e sangrenta do jacobinismo e seu culto à deusa Razão. Não é uma mera coincidência que o dogmatismo e o sectarismo tenham acompanhado os movimentos revolucionários dos séculos XIX e XX; Tao pouco que, uma vez no poder estes movimentos se transformassem em inquisições que realizavam periodicamente cerimônias dos sacrifícios astecas e dos autos de fé (PAZ, 2013, 114).
Neruda viverá como militante todas estas contradições, pois será contemporâneo das revisões do stalinismo. Entretanto, como nunca foi um poeta oficial, e tem sua biografia ligada a dois movimentos tragicamente derrotados, a República Espanhola e o Governo de Allende no Chile, não chega a vivenciar profundamente a contradição inquisitorial da censura e expulsão dos escritores na União Soviética. Poeta latino-americano, é mais ligado a uma tradição de sofrer exílio, perseguição, ameaça de prisão, censura, já que a América Latina é laboratório capitalista de ditaduras e tortura durante a guerra fria, assim poesia revolucionária na América Latina é sinônimo de ruptura e luta do lado dos explorados e perseguidos. A revolução para Neruda é a pátria dos que não têm pátria:
O tema crítico do tempo original se transforma no tema revolucionário da sociedade futura. Desde o final do século XVIII, e sobretudo desde a Revolução Francesa, a filosofia política revolucionária confisca um por um os conceitos, valores e imagens que tradicionalmente pertenciam às religiões. Esse processo de apropriação se torna mais agudo no século XX, o século das revoluções políticas, assim como os séculos XVI e XVII foram das guerras de religião. Vivemos há duzentos anos, primeiros os europeus, e depois todos os homens, à espera de um acontecimento que possui para nós a gravidade e a fascinação terrível que a segunda vinda de Cristo tinha para os primeiros cristãos: a Revolução.
Esse acontecimento visto com esperança por uns e com choro por outros, tem um duplo significado, como foi dito: é a instauração de uma sociedade nova e é restauração da sociedade original, antes da propriedade privada, do Estado, da escrita, da ideia de Deus, da escravidão e da opressão das mulheres. Expressão da razão crítica, a Revolução se situa no tempo histórico: é a troca do presente iníquo pelo futuro justo e livre. Essa troca é uma volta: a volta ao tempo do início, à inocência original. Assim, a
Revolução é uma ideia e uma imagem, um conceito que participa das propriedades do mito e um mito que se funda na autorrazão. (PAZ, 2013, 176-177).
Neruda, poeta personagem de seus próprios poemas, é o Quixote revolucionário de seus versos. Seus moinhos são reais, talvez a utopia seja ilusória, o caminho que se faz ao caminhar. O fundamental é mostrar que a ideia revolucionária, esta é também imagem poética, inserida na tradição ocidental como paradoxo, futuro e eterno retorno, busca do tempo perdido e da libertação da humanidade. E todas estas soluções teóricas, sendo reais ou não, fundadas no mundo real ou não, estarão nos poemas de Neruda. Para a análise literária o que importa não é a coisa em si, mas seu signo, como ele é traduzido e transformado em arte, sua techné, e nisto don Pablo é perito, escultor de sonhos, pintor de mundos, da analogia e do ritmo do mar e dos sinos, sua poesia da ampla voz a todas as contradições literárias e sociais de sua época.
Por isto defendemos que Neruda é múltiplo, viajante do tempo e do espaço, poeta autobiográfico, e como sua biografia se confunde com a do “breve século XX”, de uma história deveras interessante, uma epopeia, que reúne em seus versos, a visão ocidental de um oriente desbravado pelo capitalismo, as tragédias da Guerra Civil Espanhola, da jovem República assassinada e da Segunda Guerra Mundial; as tragédias das ditaduras militares da América Latina, a esperança da Revolução Socialista pelo voto da Frente Ampla e de Salvador Allende, e como epílogo trágico de sua vida e obra, narrada em sua biografia, o assassinato da experiência e inclusive do presidente, seu amigo íntimo. O conjunto de sua poesia é