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É peculiar às metáforas a presença de um ponto de comparação, uma espécie de ponto de semelhança entre o objeto que pode ser um conceito ou pessoa, e a imagem que serve como metáfora. por exemplo, em Jo 10.11,14 Jesus

diz “ Eu sou o bom pastor”, nesse caso Jesus é o objeto e a imagem é o bom pastor, quando a metáfora estabelece a comparação entre o objeto e a imagem , é possível que existam inúmeras sugestões de semelhança entre Jesus e um bom pastor .

Quando o autor faz uso da metáfora e deixa de forma implícita a comparação, permite que o ouvinte perceba qual das inúmeras sugestões de semelhança entre Jesus e o bom pastor é a que se aplica melhor ao texto, essa percepção é tarefa do leitor, e o elemento específico de comparação é chamado de tertium comparationis, como observa Berkof, (1981, p.89)

O intérprete deve esforçar-se por descobrir a ideia principal, a TERTIUM COMPARATIONIS [comparação de termos, sem dar demasiada ênfase aos detalhes. Quando os autores bíblicos empregam metáforas, tinham em geral algum ponto específico em mente. E mesmo que o intérprete seja capaz de descobrir outros pontos, deve se limitar aos que fazem parte da intenção do autor. Em Romanos 8, Paulo diz, num arroubo de segurança: “ E se filhos, também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo.” É perfeitamente claro que ele se refere às bênçãos que os crentes recebem com Cristo do seu Pai comum. A metáfora contida na palavra “herdeiro” poderia ser forçada demais se quiséssemos que ela significasse a morte do Pai como testador. Uma passagem como Apocalipse 16,15 mostra como é perigoso aplicar uma passagem figurada. Aí lemos: “Eis que venho como ladrão”. O texto geralmente determinará até onde se pode aplicar a figura.

Isso significa dizer que deve haver um termo exato que deve ser assemelhado à despeito dos outros. No exemplo dado anteriormente, temos a facilidade de que o contexto logo na sequência da metáfora oferece a indicação explícita de qual termo de semelhança exato Jesus se refere ao se denominar como bom pastor, Jo 10.11,14 diz que Ele é o bom pastor porque dá a vida por suas ovelhas e porque conhece suas ovelhas e elas o conhecem, mas nem sempre o contexto esclarece explicitamente o termo de comparação, por vezes acontece o que ressalta John Beekman (1992 p.129):

Algumas vezes a imagem estabelece mais que um ponto de semelhança, por ex.em I Pe 2.4 a pedra – “pode sugerir estado de permanência, uma pessoa boba, algo ou alguém que destrói, peso, força, utilidade para moer, um tropeço, dureza ou algo que se afunda facilmente”, o leitor precisa reconhecer o verdadeiro ponto de semelhança, do contrário a mensagem estará incompleta e portanto , ele procura usar aquele ponto de semelhança que lhe parece mais lógico , tenta escolher o ponto que faz sentido em sua opinião e que não entra em choque com sua religião e cultura, mesmo sendo um cristão, e mesmo que haja no contexto alguma indicação do sentido verdadeiro, o leitor fará uma escolha razoável conforme as normas da sua cultura.

A compreensão por parte do leitor de qual é o termo de semelhança exato ao qual se refere a metáfora é de suma importância para a compreensão do significado, se o leitor não compreender, ou compreender mal o ponto de semelhança todo o significado estará comprometido, e a metáfora ao invés de auxiliar na compreensão irá gerar compreensão diferente.

Se tomarmos como exemplo a metáfora “Eis que venho como ladrão!” ditas por Jesus a João em Apocalipse 16.15, veremos que a palavra “ladrão” levanta uma série de associações todas de cunho negativo ligadas à ilegalidade, ao mau- caratismo, à injustiça, à violência entre outras coisas. Isso causaria estranheza principalmente se considerarmos que Jesus fazia tal afirmação a respeito de si mesmo.

É a análise do contexto e a busca do termo de comparação que nos conduz a perceber que a semelhança entre um ladrão e Jesus não se dava por nenhuma característica como a ilegalidade, mau-caratismo, injustiça ou violência e sim pelo fato de que a promessa de que voltaria para buscar seus fieis que sofriam se daria de surpresa como a chegada de um ladrão. Basta olharmos o contexto completo da metáfora considerando o texto em que está inserida “Eis que venho como ladrão! Feliz aquele que permanece vigilante.” Nitidamente a intenção é levar os fieis a “vigiarem”, manterem-se em estado de alerta para o momento de sua prometida volta.

Por isso, a metáfora propõe a reflexão do ouvinte/leitor, não lhe é exposta apenas uma informação, a metáfora oferece uma espécie de participação no texto, o ouvinte/leitor precisa refletir a respeito da palavra antes de encontrar seu significado

para descobrir qual o termo de semelhança adequado. Berger (1998, p.34) entende essa questão analisando que a metáfora não indica qual qualidade do objeto está sendo esclarecida pela imagem, considera que “na metáfora, descobrir isso é antes a tarefa do ouvinte/leitor, e a criatividade que nisso se deve investir torna a metáfora emocionalmente interessante”.

Essa participação do ouvinte /leitor é como descreve Berger “emocionalmente interessante”, e de extremo valor interativo, mas também é nesse ponto que se estabelece o maior problema para a compreensão das metáforas, pois, “as metáforas deixam aberto o espaço para atividade do ouvinte e a possibilidade dele não entender o jogo, ou mais tarde, na liberdade que lhe foi deixada, de fazer novas associações, já que a imagem é polivalente” (BERGER,1998, p.35). Essa liberdade que as metáforas dão aos leitores causa certa tensão. Por conta da contribuição reflexiva que oferece ao leitor, há intérpretes que acreditam existir apenas um termo de comparação correto, já outros pensam haver inúmeras possibilidades distintas de comparação. Por isso, levanta-se o questionamento sobre se as metáforas são “traduzíveis” ou “intraduzíveis” 3.