Partindo do pressuposto de que os indicadores são uma forma de conhecimento (LYYTIMÄKI et al., 2014), é perfeitamente cabível estabelecer-se uma analogia ao termo “governança do conhecimento”, empregando, deste modo, a expressão “governança de sistemas de indicadores”. Recentemente, Holden (2013) definiu governança de sistemas de indicadores como “as maneiras nas quais os ISs [sistemas de indicadores de sustentabilidade] enquadram-se como ferramentas
políticas dentro de um contexto de governança de múltiplos níveis e múltiplos atores” (p.89). Em que pese esta abordagem atender em grande parte a perspectiva que orienta a presente pesquisa, opta-se por uma definição que se aproxime da noção de governança no sentido amplo e de governança do conhecimento.
Para efeitos do presente trabalho, define-se governança de sistemas de indicadores de sustentabilidade como o processo e a estrutura que promovem e estimulam a interação colaborativa e organizada entre instituições (públicas, privadas, terceiro setor) e comunidade, com vistas à construção, utilização e gestão de sistemas de indicadores destinados a avaliar a sustentabilidade de ações ou ocorrências de interesse comum a estes atores sociais.
Assim, o que este trabalho propõe é efetivamente uma ideia de governança, onde atores dos mais variados segmentos são colocados como potenciais partícipes do processo, o qual, para ocorrer, depende que tal participação adquira caráter colaborativo. Complementando, governança de sistemas de indicadores significa integrar práticas de boa governança ao sistema em elaboração, tais como abertura, participação, responsabilidade, efetividade e coerência (RAMOS; CAEIRO, 2010).
A Figura 7 apresenta a concepção desenhada neste trabalho. É esta concepção que permeia o modelo a ser elaborado, onde a sustentabilidade é vista como um problema de todos, o que, portanto, estende-se à AAE e aos indicadores que esta empregará. Deve-se ter em conta que os IdS são “objetos de fronteira” entre ciência, política e sociedade (item 4.2), e, sendo assim, devem reunir conhecimentos e agentes destes três campos, sob a guarida de uma efetiva governança. Cada AAE deverá fazer com que a elaboração de seu sistema de indicadores de sustentabilidade seja um processo de construção social, aliado a um exercício de saber científico. Os membros da equipe elaboradora atuam como técnicos e como “agentes de governança”, cabendo a eles imprimir este direcionamento ao processo e oportunizar que os diversos atores – pessoas e instituições – ajam colaborativamente no cenário da avaliação.
Figura 7. Representação esquemática da concepção de governança de sistemas de indicadores de sustentabilidade adotada neste trabalho.
Fontes: Commission on Global Governance (1995); BID (2003); Stoll- Kleemann et al. (2006); Vaz e Pereira (2006); van Zeijl-Rozema et al. (2008); Zhouri (2008); Meuleman (2010); Van Buuren e Eshuis (2010); Partidário (2012); Shiroyama et al. (2012); Gerritsen et al. (2013). Elaboração do autor.
A compreensão da razão de ser e da filosofia que move a presente pesquisa leva naturalmente à conclusão de que a expressão “governança de sistemas de indicadores de sustentabilidade” é a que melhor define sua essência e que, portanto, deve nominá-la.
8 METODOLOGIA
Neste capítulo, apresenta-se a descrição da metodologia empregada no trabalho. Inicialmente, aborda-se a concepção paradigmática que norteia a pesquisa, descrevendo as visões positivista, interpretativista e construtivista, vindo a enquadrá-la nesta última por razões que são detalhadas. No item seguinte, a pesquisa é classificada em termos metodológicos, tomando-se por base os critérios normalmente adotados pela literatura, os quais são detalhadamente explicitados e demonstrados. O capítulo finaliza com a exposição dos procedimentos metodológicos que foram adotados, especificando as etapas, métodos e técnicas que foram empregados nesta pesquisa. 8.1 CONCEPÇÃO PARADIGMÁTICA DO TRABALHO 8.1.1 Paradigmas positivista, interpretativista e construtivista
O paradigma positivista fundamenta-se na ontologia realista, de verdades objetivas e independentes da percepção humana, sendo a realidade constituída por estruturas palpáveis, tangíveis, mensuráveis e relativamente imutáveis (MOREIRA; CALEFFE, 2008; SACCOL, 2009). Parte do pressuposto que o objeto ou o fenômeno em estudo existe independentemente de quem o analisa, e as visões de diferentes pesquisadores não podem interferir na definição da realidade, pois esta se situa “fora” do indivíduo. Expresso de outro modo, a realidade é formada por fatos, sobre os quais não pode haver interferência das concepções, percepções ou opiniões do pesquisador (ZAIT; ZAIT, 2009; KHAGRAM et al., 2010). Valores e juízos pessoais são tidos como “vieses” que devem ficar ausentes do processo de pesquisa através do emprego de métodos e procedimentos claros, estruturados e quantitativos (SACCOL, 2009).
A visão de mundo positivista busca a generalização do conhecimento e a formação de teorias, princípios e leis que permitam conhecer a realidade, como também prever os fenômenos que se seguirão (SACCOL, 2009). Evidencia-se uma postura determinista, que investiga relações de causa e efeito entre variáveis (CRUZ; PEDROZO, 2008), entendendo que o conhecimento deve ser oriundo de métodos de quantificação e mensuração física, o que leva à adoção e valorização de métodos empíricos e experimentação (KHAGRAM et al., 2010). Nesse sentido, os positivistas empregam uma abordagem essencialmente quantitativa e pautam suas análises em dados numéricos, testando-os e
validando-os por meio de processos estatísticos (MOREIRA; CALEFFE, 2008).
O paradigma interpretativista surge em contraposição à vertente positivista, tendo como objetivo não mais a explicação da realidade, mas sua interpretação/compreensão. A ontologia que guia este paradigma é a da interação sujeito-objeto, a qual “não considera a existência de uma realidade totalmente objetiva, nem totalmente subjetiva, mas sim, que existe uma interação entre as características de um determinado objeto e a compreensão que os seres humanos criam a respeito desse objeto, socialmente, por meio da intersubjetividade” (SACCOL, 2009, p.262). Portanto, para os interpretativistas, a realidade não é independente do espírito ou do conhecimento de quem a analisa, ou seja, sujeito e objeto são inseparáveis e interdependentes (CRUZ; PEDROZO, 2008; ZAIT; ZAIT, 2009). A ênfase é direcionada às percepções dos indivíduos e para o significado que os fenômenos têm para estas pessoas, ou seja, os sentidos que as pessoas lhes atribuem. “Devido a diferenças nas percepções, na interpretação e na linguagem, não surpreende que as pessoas tenham visões diferentes do que é a realidade”, assinalam Moreira e Caleffe (2008, p.61).
O interpretativismo assume que o pesquisador não ocupa posição de neutralidade, mas, ao contrário, suas pressuposições, crenças, experiências e interesses intervêm na modelagem e na condução de seu trabalho. Em vista disso, Saccol (2009) destaca que o próprio cientista é um “instrumento de pesquisa”, pois seus valores e conhecimentos prévios são fatores que irão influenciar os resultados da investigação, e o reconhecimento consciente da intervenção do pesquisador é parte do processo. Da mesma forma, no paradigma em tela o contexto adquire particular importância, pois o conhecimento é tido como próprio do contexto em que ele foi gerado, de modo que um fenômeno deve ser entendido com base nas condições no qual ocorre (CRUZ; PEDROZO, 2008; SACCOL, 2009).
O fundamento de um estudo interpretativista é compreender o fenômeno através da perspectiva de seus participantes. Segundo Cruz e Pedrozo (2008) e Khagram et al. (2010), o processo de criação do conhecimento passa pela compreensão do senso que os atores envolvidos dão à realidade. Para Saccol (2009, p.263), “a pesquisa interpretativista assume que o que se tem como resultado de uma investigação não são os fatos em si (uma realidade objetiva), mas a interpretação do pesquisador sobre as interpretações dos indivíduos que participam em um determinado fenômeno” (itálico no original). Ou seja, o pesquisador interpretativista “busca compreender a realidade por
meio das interpretações feitas pelos atores” (CRUZ; PEDROZO, 2008, p.60). Assim, o processo de pesquisa deve ser flexível, aberto à visão dos atores e à sensibilidade do contexto no qual a pesquisa é realizada (SACCOL, 2009).
O paradigma construtivista aproxima-se do interpretativista, comungando com este grande parte de sua concepção. Também para os construtivistas, o sujeito e o objeto são interdependentes, e o conhecimento – necessariamente subjetivo e contextual – é formado a partir de interpretações (CRUZ; PEDROSO, 2008). No entanto, o construtivismo entende que a realidade, isto é, os fenômenos e seus significados, é continuamente construída pelos atores através de suas interações, configurando uma produção (construção) em constante mutação. A realidade é, pois, o resultado de sucessivas transformações, simbolizada por um “universo construído” (ZAIT; ZAIT, 2009). Em um projeto construtivista, os resultados são construídos junto com os atores envolvidos, em modo de coprodução.
Assim, enquanto para o paradigma interpretativista a criação do conhecimento consiste em (e visa) interpretar e compreender os significados que os atores sociais atribuem aos acontecimentos e comportamentos, o paradigma construtivista propugna a reconstrução destes significados, tendo por base a experiência do pesquisador e a sua relação com o objeto, com os demais atores e de todos para com o contexto (ambiente). Neste ponto reside, segundo Cruz e Pedrozo (2008), uma das diferenças entre os dois paradigmas: os interpretativistas advogam que a compreensão da realidade se dá com o propósito de entender a realidade dos atores estudados, ao passo que os construtivistas consideram que o processo de compreensão do pesquisador participa da construção da realidade desses atores. Outra diferença assinalada pelos autores está ligada ao fato que, para os construtivistas, o processo de compreensão antes mencionado está relacionado à finalidade do projeto de conhecimento a que o pesquisador se propõe, ou seja, o processo de constituição do conhecimento está ligado à intenção ou finalidade do sujeito que analisa. Deste modo, Mir e Watson (2000) observam que os pesquisadores construtivistas não são meros processadores reativos, que apenas observam e descrevem seus achados; são, isto sim, atores que assumem um papel efetivo no processo, definindo as estruturas que são mais apropriadas para serem adotadas.
Para Khagram et al. (2010, p.392), o construtivismo “muitas vezes atravessa um meio termo entre o positivismo e o interpretativismo, com abordagens tendendo para uma ou outra
perspectiva, ou tentando criar uma abordagem unificadora, dependendo dos objetivos da pesquisa”.
Como uma síntese geral, pode-se afirmar que na visão realista do Positivismo a geração do conhecimento ocorre por descoberta de fatos reais; no Interpretativismo, através da compreensão da realidade; e, no Construtivismo, pela construção interativa desta realidade.
Enquanto os realistas concebem o processo de pesquisa como uma escavação, onde o terreno dos fenômenos é minerado em busca de valiosas pepitas a partir de ideias que ocorrem naturalmente, construtivistas veem o processo mais como um ato de esculpir, onde a imaginação (ou a teoria de base) do artista interage com o meio dos fenômenos, para criar um modelo de realidade que chamamos conhecimento. (MIR; WATSON, 2000, p.942-943).
8.1.2 Paradigma adotado
Esta proposta de investigação científica está ancorada ao paradigma construtivista.
Deve-se destacar, inicialmente, que o trabalho traz fortes elementos interpretativistas, pois adota-se a posição do pesquisador como o elemento que procede a “leitura” das interpretações dadas pelos atores aos processos nos quais estes tomaram parte, isto é, que realiza a “interpretação das interpretações” (SACCOL, 2009). Para permitir este intento, o instrumento adequado por excelência é a entrevista, que foi prevista exatamente para permitir recolher as experiências e percepções dos envolvidos em AAEs. No entanto, esse processo de “meta- interpretação” utilizará como substrato também a análise documental feita em processos de AAE. Muito embora sejam geralmente expressos em linguagem técnica, esses documentos podem permitir a identificação das dificuldades vivenciadas por seus autores/atores, favorecendo o direcionamento e a condução da entrevista.
Ocorre, no entanto, que a presente proposta não se restringe à atitude de interpretação da percepção dos atores, pois, a partir desta, avança para a efetiva (co)(re)construção da realidade. Assim, o processo de interpretação realizado pelo pesquisador não é visto como um fim em si só, ou seja, destinado a gerar um conhecimento da (sobre a) realidade. O que está proposto, de fato, é que a interpretação da experiência e da sensação dos atores gere conhecimentos que serão canalizados para uma
intenção específica, qual seja a de compreender e modelar (no verdadeiro sentido de uma construção) o ciclo dos indicadores de sustentabilidade em processos de AAE. Lembrando Le Moigne (2001), referido por Cruz e Pedrozo (2008), o que se está buscando é a adoção de uma abordagem de conhecimento-projeto (ou conhecimento- processo) – dotada de uma finalidade específica, a ser construída – ao invés da simples ideia de conhecimento-objeto, a qual visa apenas descrever objetos de conhecimento, disciplina por disciplina. Pesquisas de inspiração construtivista tencionam desenvolver e empregar a capacidade inventiva do pesquisador, dentro de uma perspectiva de conhecimento-projeto.
Isso significa que, nesse tipo de pesquisa, o projeto de conhecimento que se constrói é orientado pelo tipo de questionamento de pesquisa e pelo tipo de objetivo de pesquisa explicitados. O caminho a ser percorrido para responder ao questionamento de pesquisa e aos objetivos traçados é decisivamente dependente do pesquisador e de sua postura inventiva. (CRUZ; PEDROZO, 2008, p.66).
Ela [pesquisa construtivista] não busca mais descobrir o verdadeiro plano de um universo dissimulado sob o entrecruzamento de fenômenos: ela visa inventar, construir, conceber e criar um conhecimento projetivo, uma representação dos fenômenos: criar sentido, conceber a inteligibilidade, em referência a um projeto. (LE MOIGNE, 2001, p.140, por CRUZ; PEDROZO, 2008, p.67).
Os elementos aqui revelados, confrontados com os objetivos e com a metodologia a ser empregada, permitem identificar e situar este trabalho junto ao paradigma construtivista.