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Results and Analysis

6.8 Overall findings

Assim, a luta antiracista e por reivindicações sociais necessitou de um mínimo de estudo que vai se viabilizar pelas leituras, de encontros, debates e reuniões fora dos bailes soul. Esta questão das práticas distintas do meio negro carioca está bem situada na argumentação feita por Pereira (2000, p. 90), para ele:

Seriam necessários muitos debates, muita tenacidade para que se colocasse a questão racial em pauta, para que ela pudesse ser discutida para além dos chavões que faziam a fortuna da ideologia racial dominante. Houve mesmo momento de confrontação, de questionamentos contundentes em importantes reuniões públicas, nas quais se buscava rearticular a esquerda.

Assim, em meados da década de 70, o Movimento Negro premido pela necessidade de avançar para além dos trabalhos no campo das manifestações culturais, procura evidenciar as desigualdades sociais existentes entre negros e brancos. Essa mobilização, evidentemente, mais política leva ao surgimento de várias organizações, cuja finalidade era tematizar a miséria e a marginalização dos negros no Brasil.

Essas práticas sociais do meio negro foram de fundamental importância como fator de agregação, de circulação de idéias, de resguardo da identidade, e até de encaminhamento de reivindicações sociais de suas comunidades junto às autoridades constituídas (PEREIRA, 2000, pg. 89)

É um momento de efervescência, de necessidade de uma maior politização das atividades, das idéias de participação política dentro dos canais tradicionais contra o regime militar, a exemplo dos partidos políticos.

No entanto, a tendência da esquerda em considerar a “questão racial” como um problema secundário e que visava dividir a classe operária, dificultou a articulação entre o Movimento Negro e as agremiações partidárias ali existentes.

Levando em conta que os outros setores democráticos da sociedade não absorviam, não aceitavam este argumento do Movimento Negro. O movimento vai se constituir basicamente aparte de tudo isso [política partidária], eram poucos quadros partidários, mais como negros, do que a vontade do partido (Ivanir).

Assim, atentos a esta limitação, a constituição de entidades negras, neste período, preocupadas com certo grau de politização, vai ter como mote, de maneira geral, o combate ao racismo e a valorização do negro e da cultura negra como componente fundamental da sociedade brasileira. Bandeiras recorrentes no seio da militância negra, dos anos 70, até os finais dos 80, onde outras temáticas serão desenvolvidas e aperfeiçoadas como resposta a dinâmica social.

Para Ivanir a preocupação com o caráter de denúncia e afirmação do 20 de novembro define grande parte do perfil do movimento negro:

[...] na década de 80, a preocupação maior era desmistificar o 13 de maio, demolir a democracia racial, e afirmar o 20 de novembro. Se você pega todos os documentos que fala do movimento, neste período, os manifestos, todos eles eram isso. Denunciar o racismo, desmistificar a democracia racial brasileira, ou seja, o Brasil é um país racista, não era fácil naquela conjuntura política dizer isso [...] então a sua agenda neste período, vai ser de 13 de maio, dia nacional de protesto, de denúncia, de protesto do 13 de maio, da falsa abolição, e dia 20 de novembro que o Dia Nacional da Consciência Negra, é causa da afirmação, mais da negritude.

Amauri reafirma estes grandes motes erguidos pela militância negra no período e acrescenta a preocupação do Movimento Negro com a valorização e o legado cultural, que segundo observa é à chave para a compreensão de uma consciência negra

O principal era a denúncia do racismo do mito da democracia racial. Isso era o grande, éramos reativos mesmo nossa coisa contra o racismo. O mito da democracia racial precisava ser exposto, isso era a grande batalha, aí o reconhecimento do valor do negro, do valor da cultura negra, com uma visão muito, muito, muito eu diria hoje muito elementar, mais muito reativa, de valorização do negro, da cultura negra, mas isso foi muito forte na época, isso a meu ver foi o que criou, que eu chamo hoje de uma cultura da consciência negra, isso pra mim é o saldo. Agora a gente tem uma consciência do que é negro, mas que a gente coletivamente isso foi construído na década de 80, um pouco em torno do IPCN.

Tendo estas bandeiras como prioritárias no seu perfil organizativo, posteriormente, outras temáticas serão aos poucos colocadas como parte das reflexões destas entidades. Entre elas o debate educacional, com especial atenção ao mercado de trabalho, que tem um impacto negativo na trajetória de muitos negros e negras, que começam a adentrar o setor produtivo, como relembra Maria José:

Eu acho que a questão educacional era uma questão presente em todos os discursos, em todas as tendências, era um discurso bastante presente. E a questão do mercado de trabalho, era uma classe média negra, que tava tendo sérias dificuldades [...] .tinha o diploma na mão e não conseguia trabalho,

então esta questão da inserção no mercado de trabalho era uma questão básica, uma questão importante, e se tinha sempre, se tinha a clareza que a educação era determinante.

Ivanir também contribui em indicar o tema da educação e do mercado de trabalho como marcos para o debate da condição do negro na sociedade brasileira. Para ele estes temas ajudam para o processo de articulação nacional que se começa buscar:

E claro, todos os panfletos que você vai ver nesta área denunciava a violência policial, vai denunciar o desemprego, de forma ainda sem grandes elaborações como hoje, mas tinha. E vai denunciar também a questão da escola, hoje nós temos aí este debate e tal. Mas não tinha grandes propostas, era apenas uma preocupação em marcar independência, de denunciar, e afirmação do 20 de novembro. Acho que este período é importante observar, você começa as articulações nacionais também. E já tinha o Norte/Nordeste, que já fazia isto, desde o final da década de 70, já fazia os encontros do Norte/Nordeste60.

Ao mesmo tempo, ele vai indicar a importância do movimento negro como o primeiro movimento social preocupado com ativismo negro fora do país, como é o caso na denúncia do regime do apartheid61 e demais lutas em África. Enfatiza que este tipo de movimentação, até este momento, não poder ser definido como uma grande estratégia coletiva do Movimento Negro:

Tinha outra coisa que eu acho, eu queria falar, tinha também o seguinte, o Movimento Negro é o primeiro movimento político a denunciar o apartheid, e ao mesmo tempo também, é o movimento político a celebrar a libertação de Angola, da África Austral, do julgo do colonialismo, sempre teve esta articulação, sempre fizemos manifestação na porta do consulado, tanto, que aonde era o consulado da África do Sul, não sei se ainda é, em Botafogo, a rua chama-se Nelson Mandela, por pressão do Movimento Negro da época, botou o nome dele, fez campanha, pra soltar, embora fosse uma coisa mais espontaneísta do movimento, do que uma grande articulação nacional, que levasse a fazer, isso, não era uma grande articulação internacional.

Tendo em mente esta dimensão política, ideológica e organizativa do movimento negro, os colaboradores vão localizar a partir de suas memórias as organizações e

60 Conforme escreve Santos (1983, p. 57), os Encontros de Negros do Norte e Nordeste se iniciam a partir

de 1981, sendo que o primeiro acontece no Recife, em setembro de 1981. Registra-se, ainda, a realização do II Encontro em João Pessoa, em setembro de 1982; e o III Encontro em São Luís, em junho de 1983. Há, ainda, informações sobre a realização de um IV Encontro que teria sido sediado em Alagoas, em junho de 1984. Este material é bastante importante na medida em que registra as delegações participantes e as principais deliberações dos três primeiros encontros.

61 Regime de governo implantado na África do Sul cujo escopo consistia de medidas legais de

discriminação racial, eliminação de direitos sociais e políticos aos negros e a perpetuação da hegemonia branca naquele país.

pessoas, que marcam o processo de redefinição da luta social em prol da população negra, tendo como eixo a contestação do cenário de negação da existência do racismo.

Para Ivanir a relevância das organizações negras girava em torno da atuação do IPCN (Instituto de Pesquisas das Culturas Negras)62 e das pessoas que gravitavam em volta desta movimentação. Como não poderia deixar de ser acentua a atuação do Movimento Negro Unificado (MNU) e suas lideranças, além de outras entidades que movimentam o cenário da cidade. Do ponto de vista partidário, o PDT aparece como aglutinador de uma parcela de pessoas, preocupadas em ampliar esta temática para dentro dos programas destas agremiações:

Depende, o mais importante no período eram os grupos que se organizavam no IPCN, lá você tinha o SINBA, que teve um papel importante, mas depois perdeu um pouco de fôlego, diálogo no início dos anos 80. O IPCN tem uma sede própria, e ali estava Amauri63, Yedo64, Orlando65, Abigail66, Paulo

Roberto67, Medeiros68, Filó69. Tá um grande grupo que se articula em torno do PDT, Togo70, o Paixão71, um artista plástico que tinha um papel

importante e interessante. E ao mesmo tempo, a partir também da Lélia Gonzalez72 que era mais próxima do MNU, era coordenadora do MNU [...]

pessoa importante como Lincoln73 [...] como Júlio Tavares74, Célio75 teve um

papel no início do MNU, foi professor da UFF. Mas, neste período tem o André Rebouças, justamente criado pela Beatriz Nascimento76, um grupo da

academia. Por outro lado, você tem um grupo de intelectuais que se aglutinavam no Afro-Asiático, neste período. São os dois grupos basicamente.

Para Maria José Lopes o papel fomentador do IPCN é que marca a retomada de um viés mais politizado e agregador do Movimento Negro no Rio de Janeiro:

62 Esta e algumas outras das organizações indicadas serão devidamente apresentadas mais adiante. 63 Amauri Mendes Pereira um dos nossos entrevistados, ver p.

64Conforme Sant’ana (1998), Yedo Ferreira funcionário público aposentado, militante e fundador do

SINBA, esteve a frente do IPCN e do Jornal Maioria Falante, órgão de comunicação da imprensa negra nos anos 80.

65 Não obtive informações sobre o mesmo. 66 Não obtive informações sobre a mesma.

67 Conforme Monteiro (1991), Paulo Roberto dos Santos, historiador, militante do movimento negro

participou das atividades do MAM.

68 Conforme Sant’ana (1998), Carlos Alberto Medeiros, jornalista foi presidente da Secretaria

Extraordinária de Defesa e Promoção da População Negra (SEDREPON). Participou da fundação do IPCN.

69 Não obtive informações sobre o mesmo.

70 Conforme Sant’ana (1998), Togo Ioruba, servidor público federal, foi fundador e diretor do Jornal

Maioria Falante

71 Não obtive informações sobre o mesmo 72 Lélia Gonzalez

73 Não obtive informações sobre o mesmo

74 Conforme Monteiro (1991), Júlio César Tavares, historiador, professor militante do movimento negro 75 Não obtive informações sobre o mesmo

76 Conforme Monteiro (1991), Beatriz Nascimento, historiadora, pesquisadora, militante do movimento

Eu acho que o IPCN teve um papel importante no RJ, da pena hoje a gente vê a situação que chegou o IPCN, hoje você não tem uma organização, uma referência tão forte como foi o IPCN. O IPCN realizou um grande trabalho no RJ. Arregimentou gente, teve um quadro de associados enorme e propiciou espaço de discussão, de intervenção política importantíssimo.

Para complementar o quadro das percepções em relação a este processo organizativo das entidades negras, do ponto de vista das figuras que contribuem em dar corpo a esta mobilização racial, Ivanir relembra:

Abdias sempre foi uma figura forte, mas neste período, ele ta voltado de uma militância mais partidária, no movimento mais partidário, no PDT. Tinha o Zé Miguel77 que também mobilizava um setor mais dentro do PDT, autor do

busto de Zumbi e autor de coisas aqui na cidade. Temos os intelectuais como Joel Rufino, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, que vai ter um papel ali fundamental, no debate do ponto de vista da academia, são pessoas que acho, neste período. Embora Benedita78 seja deste período, Benedita não era

liderança negra, ela foi eleita parlamentar, ela vai, o movimento vai ter proximidade com ela, e vai impulsionar a carreira política dela em 86.

Nesta mesma direção Maria José vai indicar algumas destas mesmas figuras como articuladoras de novas formas políticas, com especial atenção a figura de Lélia:

Eu acho, por exemplo, que um nome como Lélia Gonzalez, e um nome emblemático falando em MN, porque ela foi uma pessoa que se preocupou com a direção política do movimento, uma pessoa que eu reputo da maior importância, foi uma pessoa que lá no Parque Lage, ainda naquelas reuniões políticas, que se fazia antes de virar organização, como te falei, onde se estava arregimentado pessoas, a Lélia já tava ali alguns cursos, se preocupando com a formação política da militância. Então, neste aspecto ela foi pioneira, eu acho que o MN aqui no RJ pelo menos ele teve sempre esta preocupação com formação de quadros.

Além dela, do ponto de vista de atuação no espaço acadêmico e da formação militante e intelectual, como mote neste período, vai relembrar de figuras anteriormente citadas. Maria José faz especial referência a figura de Abdias do Nascimento como emblemática na produção de uma bibliografia sobre o tema:

77 Não obtive mais informações sobre o mesmo.

78 Benedita Souza da Silva Santos, líder comunitária e militante do movimento negro brasileiro. Tornou-

se a primeira mulher negra a ocupar vários cargos na história do Brasil: vereadora, deputada federal constituinte, reeleita para um segundo mandato em 1990, senadora, em 1994, e vice-governadora no pleito de 1998. Benedita da Silva assumiu o comando do Estado do Rio de Janeiro, com a renúncia do então governador. No dia 23 de dezembro de 2002, a primeira mulher a governar o Estado do Rio recebeu do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva a indicação para o Ministério da Assistência e Promoção Social, cargo que ocupou até janeiro de 2004.

[...] eu citaria ainda Beatriz Nascimento, que foi uma pessoa que também, lá na UFF (Universidade Federal Fluminense), também teve uma intervenção política extremamente importante, uma pessoa que também tava preocupada com esta formação. Eu citaria Amauri Mendes, como uma pessoa também sempre tendo uma preocupação com a formação, Yedo também é uma pessoa que foi desta época. O primeiro nome que eu deveria ter citado foi indelicado, foi o grande Abdias, com sua leitura do racismo, eu acho que ele, ele que ensinou agente que e o mito da democracia racial, mitologia do branqueamento, ele nos ensinou a desmontar, a desconstruir a democracia racial pelas coisas que ele escreveu, que mesmo antes do exílio ele já tinha produzido algumas coisas e essas coisa acabam parando na minha mão, eu li algumas coisas que ele produziu e serviu, e me deu muita instrumentação.

O conjunto de entidades e personalidades da mobilização negra no Rio de Janeiro contribui em construir uma trajetória, que subsidia a compreensão de um pensamento social sobre as relações raciais (SILVA, 2000). Relacionar estas instâncias me auxilia em traçar o caminho de um dado movimento social, que por muitas vezes fora silenciado no cenário político, sociais, econômicos e culturais do Brasil em determinadas épocas.