• No results found

Results and Analysis

6.6 Future Fund (FF)

Como discuto neste trabalho, os estudos das formas organizativas encontradas pelas comunidades negras, expressas contemporaneamente, por seus grupos e instituições, remetem a reflexões que se ancoram pelos séculos da presença africana no Brasil.

O Movimento Negro vai se constituir, ao mesmo tempo, em situação de cooperação entre si na luta pelos direitos sociais com variados setores, que muito lentamente vão compreender o alcance desta temática para o processo de democratização. De disputa por espaço buscando a devida relevância de suas várias estratégias e ações em erradicar as desigualdades raciais existentes; e de antagonismo com o status quo, que desconhece os processos de reconstrução e continuidade histórica da população negra no Brasil. Isto significa se compreender tendo uma herança de lutas sociais para a inclusão da população negra nas diversas esferas da vida social brasileira. Como também, situar as suas potencialidades específicas de contestação da situação socioeconômica e cultural da população negra, com relação à sociedade hegemônica branca, num contexto sócio-político particular de negação da existência do racismo.

Nesta direção, Santos (1985, p. 303) nos anos 80, do século XX, já chamava a atenção para a necessidade de olhar o Movimento Negro de uma forma mais ampla, como possibilidade em alterar a concepção de cultura e civilização brasileira elaboradas até aquele período, para ele movimento negro:

[...] é: todas as entidades, de qualquer natureza, e todas as ações, de qualquer tempo (aí compreendidas mesmo aquelas que visavam à auto-defesa física e cultural do negro) [...] Entidades religiosas (como terreiros de candomblé, por

exemplo), assistenciais (como as confrarias coloniais), recreativas (como “clubes negros”), artísticas (como o Grupo de Dança Afro Olorum Baba Mi), culturais (como diversos “centros de pesquisas”) e políticos (como o MNU); e ações de mobilizações políticas, de protesto anti-discriminatório, de aquilombamento, de rebeldia armada, de movimentos artísticos, literários e “folclóricos” – toda esta complexa dinâmica, ostensiva ou invisível, extemporânea ou cotidiana, constitui movimento negro.

Os diálogos realizados aqui são o intercruzamento dos registros escritos, sobre a trajetória do Movimento Negro, com os depoimentos concedidos por Amauri Pereira, Ivanir dos Santos e Maria José da Silva, quando estive no Rio de Janeiro, para as primeiras tentativas de entrevistas.

No caso do Rio de Janeiro, as várias formas de organização do protesto negro52, na década de 70, vão contribuir em configurar o rearranjo desta luta social por direitos coletivos na década seguinte. Pois, segundo me informam os colaboradores, a década anterior (os anos 60) marca um momento de encontros e debates sobre as relações raciais, tendo o movimento estudantil como referência. Maria José da Silva assim comenta:

Porque a rearticulação do Movimento Negro no Rio de Janeiro anos 60, 70 não se constitui em organização de início, se constitui em discussões, tentar juntar o que tava disperso [..] tava tudo disperso [...] o próprio Abdias tava exilado[...] a geração dele não tava aí fazendo interlocução com a gente [...] nós éramos uma geração que não tínhamos tido militância de movimento negro, nos tínhamos dezoito anos, eu tinha 18 anos, em 64[...] então nós todos vínhamos de uma militância estudantil, era nossa experiência.

Na compreensão de Amauri Pereira também não era possível, nesse momento, se falar em organização do Movimento Negro, mas do acúmulo de experiências marcantes, tanto locais quanto de outros países. Como foi o caso do Partido dos Panteras Negras para a autodefesa, fundado pelos ativistas negros Bobby Seale e Huey Newton, em 1966, nos Estados Unidos. Considerado um partido revolucionário de esquerda defendia entre outras coisas a luta armada contra a violência exercida pela polícia contra a comunidade negra. Tais acontecimentos marcam suas lembranças, então:

Na época, olha só, não havia Movimento Negro, não havia. O que tinha, eu consegui em 1968, eu tinha aquelas fotos da revista Realidade53, do Bobby

52 Para mais informações sobre as organizações culturais, sociais e políticas do movimento negro

consultar Pereira (2000)

53 “Criada em abril de 1966, a revista Realidade marcou época no jornalismo brasileiro. Inspirada no

conceito norte-americano de new journalism e com reportagens ousadas em seu conteúdo e forma, obteve sucesso imediato. Enfrentou tabus, cobriu guerras e abordou questões sociais até então pouco discutidas por outros veículos de mídia e pela própria sociedade. Ao mesmo tempo influenciada e impulsionada

Seale [...] que pra mim era muito importante porque era atleta [...] o impacto nas Olimpíadas de 68, eu ainda não tinha feito 17 anos, tinha 16 anos, o impacto das Olimpíadas, dos Panteras Negras, do Bobby Seale. O Huey, não to lembrando dos outros, quando levanta o braço, o punho levantado com a luva, aquilo foi marcante54. Logo depois morre o Luther King, antes, antes,

assassinato de Luther King, aquela música do Erlon Chaves e o Wilson Simonal55 “se sou negro de cor”, a perseguição que se começou a fazer contra

o Simonal.

Nesse cenário inicial, Maria José da Silva identifica um conjunto de trabalhos que chega as suas mãos debatendo sobre a realidade dos negros no Brasil. Assim como, de movimentos e espaços, que contribuem para formar uma consciência crítica, que vai abrindo caminhos para a necessidade de uma ação mais qualificada sobre as relações raciais no Brasil.

[...] eu tava atenta as questões raciais56 e tinha informação sobre as questões

raciais, lia trabalhos de Abdias, já tinha me caído em mãos. Eu tava antenada com o Movimento Negro americano, movimento de resistência, Black Power [..].o trabalho de Angela Davis57 nos Estados Unidos, daquelas lideranças

negras americanas [...] e a gente tava atento a essas coisas, a gente freqüentava clube de negros, havia o chamado Renascença58, que existe até

hoje, e que naquela época era um clube que fazia, tinha uma resistência[...] a gente freqüentava esse clube, ia aos bailes, freqüentava vida social daquele clube.

Estas percepções destes espaços da cidade e de experiências anteriores deram o caldo e os elementos para estruturar um Movimento Negro, que não renasce de qualquer

pelas manifestações políticas e de contracultura no fim da década de 60, a revista também sofreu com a com a repressão da ditadura militar que na época se consolidava no Brasil.” Extraído de www.alamedaeditorial.com.br, consulta em 28 de julho de 2008.

54 Nas Olimpíadas da Cidade do México, em 1966, os atletas negros Tommie Smith e Jonh Carlos ao

subirem ao pódio fizeram a saudação com o braço estendido e o punho cerrado, símbolo de propaganda dos Panteras Negras.

55 Cantor negro de sucesso na década de 60 foi acusado de ser informante da polícia da repressão, o

DOPS. Desmoralizado por esta acusação sua carreira declina, morre alegando inocência. Foi reabilitado em 2003 pela OAB.

56 Questão racial é um discurso recorrente na fala dos militantes do movimento negro, segundo aponta

Cunha Júnior foi apropriado dos debates da sociologia dos anos 50, quando se discutia ou não a existência do racismo no Brasil. Além disso, neste período outros temas serão levantados como a questão urbana, a questão indígena, etc. Neste estudo a questão racial deve ser entendida como o universo dos movimentos sociais que lutam pelos direitos da população negra e pela eliminação do racismo. Esta expressão será mantida como tal apenas quando aparecer na fala dos entrevistados.

57 Militante comunista e integrante dos Panteras Negras, na década de 70. Professora e filósofa destaca-se

pela defesa dos direitos das mulheres e contra a discriminação racial e social nos Estados Unidos

58 Segundo se lê no trabalho de Silva (2006, p. 287), “... o Renascença Clube constituiu-se em uma das

grandes iniciativas dos negros da cidade [RJ] ao se organizarem através do lúdico cultural. Em mais de meio século de existência, o Renascença Clube passou por diferentes diretorias, que emprestaram a ele diferentes identidades.”

vazio, pois levam em conta outras diferentes formas de atuação da população negra. É desta maneira que o depoimento de Ivanir dos Santos reforça que:

[...] o Renascença, que era os grandes bailes e algumas atividades, que era

um clube negro, como é até hoje. Você tem um agrupamento, que não tá ativista, mas que tem que levar em conta, que é a Igreja do Rosário, a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos. É uma Irmandade que vem desde a época da escravidão, existe até hoje, claro, não com uma agenda, como foi na época da escravidão, uma luta, conseguir alforria, depois pela abolição, mas ela congrega negros até de elite, com identidade racial, tá fora da agenda deste Movimento Negro mais jovem, mais moderno, que surge neste período.

Assim, o ressurgimento do movimento negro no Rio de Janeiro nos ajuda a construir um quadro da conjuntura política, caracterizada pela repressão ao debate das relações raciais, que o país atravessava naquele período. Maria José rememora a dificuldade desse momento de reunir-se para propor este debate:

Nós tínhamos um grupo dentro da universidade de negros, que éramos poucos, todos nos conhecíamos e nos dávamos todos, formamos um grupo dentro da universidade. Esse grupo tava sempre, tava pensando sempre a nossa condição enquanto negros, dentro de uma universidade branca, e que naquela cultura uma universidade muito mais elitista do que se tem hoje. Porque hoje você tem uma discussão incipiente sobre relações raciais dentro da instituição [...] naquela altura absolutamente não se falava disso, eu venho de uma geração que se falava de racismo era uma questão de segurança nacional, em plenos anos de chumbo, era assim que a coisa era colocada.

Bem como, a percepção e por conseqüência uma inquietação das barreiras raciais impostas aos negros, principalmente no mercado de trabalho, esta é a observação de Maria José quando fala de sua participação no Movimento Negro carioca, diz ela:

Sim, fiz parte desde os anos 70 [...] o movimento negro na minha geração, a geração que tava concluindo a universidade, no final dos anos 60, que foi o meu caso, que tava concluindo a graduação, licenciatura, nós nos vimos numa situação, numa contingência, aquela geração em plena ditadura, se viu na contingência de se colocar como altamente discriminada face ao mercado de trabalho.

Fica evidente que, em todas as iniciativas no sentido da retomada da luta contra a discriminação racial, são permeadas pela vigilância dos aparelhos repressivos do Estado; e pelo silêncio das demais organizações democráticas, sindicatos e órgãos de imprensa. Com isso a questão cultural será muitas vezes enfatizada mais do que diretamente por lutas de direitos sociais para a população negra.

Nesse quadro, o que caracteriza o movimento negro inicialmente na década de 70 é a promoção da auto-estima da população negra, a partir da produção de novos elementos estéticos e culturais, ou da reelaboração dos já existentes.

Pode-se dizer que esta aparente dicotomia entre cultura e política faz parte de uma estratégia de organização, em parte como aponta Nascimento (1989, p. 90):

[...] as entidades culturais entram para a década de 70 atribuindo aos termos cultura negra um significado que parece não encontrar precedente em movimentos passado. Com um trabalho de mobilização, e simultaneamente de recriação da história, elas tentam conscientizar diferentes setores negros do seu papel de sujeito, e não de objeto, na edificação da história brasileira.

Dessa argumentação, apenas discordaria da afirmação quanto a não encontrar “precedente no passado”. Pois, é a conjunção e recriação de elementos culturais do passado, da manutenção da ancestralidade africana que vai determinar o que ela “criou, recuperou e preservou em termos da compreensão de mundo, universo simbólico, religioso, percepção de tempo e espaço para os diferentes grupos que compõem a história da presença negra no Brasil” (NASCIMENTO, 1989, p. 91), notadamente adaptando-se as mudanças no tempo e espaço. A mobilização negra carioca vai, portanto, lançar mão de soluções coletivas antes mesmo do que uma busca mais institucionalizada, baseada, segundo se vê na bibliografia sobre o tema, pela materialização de eventos, reuniões e atividades culturais.

Neste sentido, o Museu de Arte Moderna (MAM)59 torna-se referência para estes debates de caráter cultural através da exibição de filmes, cuja temática visava a promoção de uma identidade positiva do negro, a partir das influências norte- americanas, africanas e da resistência dos negros ao passado do escravismo criminoso.

Como posso inferir do depoimento concedido por Ivanir, ele vai afirmar a respeito das influências anteriores das entidades negras que:

Todos saem da década de 70. O que existe de novo em oitenta é a articulação das mulheres negras. Mas a maioria dessas lideranças vem de 70. Todas vêm do período Black Power e dos debates do MAM. Dos bailes do Renascença [....] Começou as reuniões do MAM, discutir isso, sobe a questão racial, passavam filmes sobre herança africana, debates em suma.

O mesmo colaborador chama a atenção de outras referências anteriores, que configuram o movimento social negro em sua reconstrução na cidade do Rio de Janeiro.

Agora, claro que tinham lideranças mais antigas, do Teatro Experimental do Negro, mas que ainda na se constituía enquanto organização, como Haroldo Costa, como artistas já ligados, próximos ao Abdias, Milton Gonçalves, mas que não se constituía grupo organizado, mas eram referências importantes, mas como, a organização do movimento negro, ela parte dos encontros dos bailes, dos black power, dos debates políticos que haviam no MAM.

Encontrei argumentos que apontam que este processo cultural capitalizado pelo MAM, estava articulado pela influência do fenômeno soul, denominado Movimento

soul, que surge na década de 60 e ganha ampla repercussão como manifestação

associativa no meio de jovens negros dos grandes centros urbanos.

O movimento Black soul vai se constituir numa nova abordagem artística tendo como referência a herança cultural africana, a afirmação da negritude a partir das roupas e músicas vindas da cultura negra americana, mas também dos grupos locais como os

Goldens Boys, Tony Tornado entre outros (VIANNA, 1995).

Segundo aponta Nascimento (1989, p. 96) este movimento pode ser considerado uma das variadas formas dos negros em recriar as manifestações culturais, tendo como foco diferentes maneiras de encarar a idéia de negritude, a autora assim escreve:

Não antagônicas, porém geradas e situadas em realidades econômicas e sociais distintas, as duas vertentes culturais do Movimento Negro dos anos 70 referem-se à Negritude com N maiúsculo. Elas têm como ponto inicial um processo cujo objetivo é alterar a consciência negra através da recuperação do domínio do cultural. Não havendo projeto único, uma pluralidade de manifestações domina o cenário do período permitindo a colocação de duas questões: a primeira diz respeito as fascínio exercido pela negritude e a necessidade de que a redescoberta do negro, a partir de sua cultura se faça, cada vez mais, sob a égide da identidade; a segunda refere-se às possibilidades de um trabalho político mais abrangente para a ampliação da consciência negra.

Este movimento soul atravessa os anos 70, e contribuiu a muitos militantes do Movimento Negro obter uma consciência histórica mais estreita, do que apenas o viés cultural definido como parâmetro de sua atuação na década anterior.