• No results found

Uma das principais marcas do processo de realização de Flaherty era o estabelecimento de uma convivência durante longos períodos com as pessoas e com o cenário que figurariam em seus filmes. Essa estratégia foi adotada não

25 “Flaherty debe de haber dicho muchas veces poonuk a sus colaboradores. Les mostraba

inmediatamente cada secuencia. Si esta parecía poco satisfactoria o si Flaherty deseaba otra toma desde otro ángulo o a diferente distancia, la acción se repetía.”

26 “Yo, mientras tanto, filmaba y filmaba. Los hombres clamaron para que terminara aquella lucha

só em Nanook, o esquimó, como em boa parte de suas produções, entre as quais

Os pescadores de Aran (Man of Aran, 1934) e Moana (Moana, 1926). A

colaboração dos habitantes dos locais filmados era imprescindível para a realização do tipo de filme de Flaherty.

Com os esquimós, a colaboração se deu em diversas frentes. Na organização de estrutura para as filmagens e para a revelação, eles percorreram a costa da baía em busca de madeira jogada à praia pelas águas com o objetivo de construir uma câmara para manter a película segura contra a umidade. Os esquimós também aprenderam a desmontar e remontar a câmera, o que faziam sempre que ela caía no mar e tornava-se necessário limpar e secar cada peça. E, finalmente, os esquimós se tornaram atores do filme. Flaherty elegeu um conhecido caçador da região para ser o protagonista. E assim, Nanook “se converteu no núcleo das sequências fílmicas. Seu zelo e entusiasmo pelo aggie – o filme – não tinham limites”27 (BARNOUW, 1996, p. 37).

Uma das primeiras propostas de Nanook foi filmar uma caça de morsas, de acordo com a tradição dos antepassados. Barnouw descreve um diálogo entre Flaherty e Nanook, uma negociação de como seria de fato a produção e a ação para a filmagem.

“Suponhamos que o façamos”, lhe disse Flaherty. “Sabes que tu e teus homens podem ter que abandonar a matança se esta não convier ao meu filme? Recordarás que o que interessa a mim é filmá-los na caça do ivuik e não sua carne?”

“Sim, sim”, lhe assegurou Nanook. “Em primeiro lugar, o aggie.”28

(BARNOUW, 1996, p. 37) [Itálico e aspas do original]

Aqui cabe pontuar algumas questões sobre a negociação levada a cabo entre Flaherty e Nanook. A ação necessária para o registro da prática da caça é colocada como prioridade. O diretor exige que Nanook confirme ter entendido que não é o resultado da caça – a carne – o que interessa ao filme e sim a

27 “Nanook se convirtió en el eje de las secuencias fílmicas. Su celo y entusiasmo por el aggie –

la película – no tenían límites.”

28 “Supongamos que lo hacemos”, le dijo Flaherty. “¿Sabes que tú y tus hombres pueden tener

que abandonar la matanza si ésta no conviene a mi película? ¿Recordarás que lo que a mí me interesa es filmaros en la cacería del ivuik y no su carne?” // “Sí, sí”, le aseguró Nanook. “Lo primero será el aggie.”

encenação de movimentos imprescindíveis à representação da caça. Flaherty quer ter a garantia de que será possível filmar todas as tomadas de que precisará na montagem. Assim, ao assegurar que o “aggie” estará em primeiro lugar, Nanook aceita a exigência de Flaherty e, mais que isso, demonstra entender que o diretor precisa rodar de acordo com a planificação.

Antes de partir em sua viagem de volta para casa, Flaherty fez uma promessa a Nanook sobre o destino das imagens captadas e do filme que seria construído a partir delas. Na bela descrição de Barnouw (1996, p. 40):

Antes de ir embora, encontrando-se [Flaherty] na praia com Nanook, apontou-lhe os incontáveis seixos que viam e lhe disse que as pessoas, em igual número, veriam no Sul os inuit – “nós, o povo”, como eles próprios se chamavam” – em ações que tinham filmado juntos.29

[Aspas do original]

Uma das acusações contra Flaherty, tanto em relação a Nanook, quanto a seus filmes posteriores, foi a de que ele expunha seus personagens a perigos extremos (BARNOUW, 1996, p. 44). Sobre essa questão, Barnouw argumenta em defesa de Flaherty:

Mas esses personagens certamente aceitavam de bom grado os riscos e até os buscavam, o que indica até que ponto compartilhavam com Flaherty o interesse pela filmagem. Nanook, que propunha as sequências mais perigosas, pode muito bem ter sentido que assim assegurava uma espécie de imortalidade aos inuit e para si mesmo.30

(BARNOUW, 1996, p. 44)

As dificuldades de negociação constituem outro ponto importante na relação do documentarista com seus futuros personagens. Robert Flaherty narra que na pré-produção de Os pescadores de Aran ocorreram diversos percalços, em especial na fase inicial da aproximação. “Demorou alguns meses para que

29 “Antes de marcharse, hallándose en la playa con Nanook, le señaló a éste los incontables

guijarros que se veían y le dijo que la gente, en igual número, vería en el sur a los inuit – “nosotros, el pueblo”, como ellos mismos se llamaban – en acciones que habían filmado juntos.”

30 “Pero esos personajes ciertamente aceptaban de buen grado los riesgos y hasta los buscaban,

lo cual indica hasta qué punto compartían con Flaherty el interés por la filmación. Nanook, que proponía las secuencias más peligrosas, puede muy bien haber sentido que así aseguraba una especie de inmortalidad para los inuit y para sí mismo.”

começassem a ter confiança no que queríamos fazer e também a nos levar a sério”31. Um dos primeiros obstáculos, conta Flaherty, foi com relação à resistência de uma mãe em permitir que seu filho fizesse parte do elenco. Nas palavras de Flaherty:

Estávamos de olho num certo garoto, o qual sabíamos que seria o único que poderia fazer esse papel, mas durante o processo, sua mãe não permitiu que viesse [para as filmagens]. Oferecemos mais dinheiro, mais do que ganhariam em toda sua vida. Era uma família pobre, talvez a mais pobre do lugar. Mas não conseguíamos persuadi-la a deixar a criança ir. Passaram-se semanas, minha esposa foi para a fazenda para tentar convencê-la. Pat Mullen32, todos os moradores de Aran que

iriam participar das filmagens fizeram seu melhor, mas ela sempre balançava a cabeça. Estávamos desesperados, tínhamos que ter esse garoto, não haveria para nós outro para esse papel. Até que falamos com o padre local, Padre Adrian. Fui até ele, falei de minhas dificuldades, e pedimos que intercedesse por nós. E ele intercedeu. E ela [a mãe] desistiu, o garoto veio conosco, e fez parte do elenco do filme. Demorou mais alguns meses para finalmente entender o porquê de a mãe não deixar a criança participar. Parece que cem anos antes da independência da Irlanda, quando os protestantes vieram da Inglaterra, eles davam sopa para as pessoas que partilhavam sua fé. E aqueles que aceitavam a oferta dos missionários, passaram a ser chamados de “soupers”. Então, essa mulher, cem anos depois, pensava que iríamos fazer de seu filho um “souper”. [Aspas do original]

Como o relato demonstra, a persistência e obstinação eram características de Flaherty. Não desistia no primeiro “não” e tentava, de todas as formas, garantir aquilo que julgava essencial para rodar o filme. As características pessoais do realizador, em geral, refletem na condução das negociações com os futuros personagens e, no limite, na própria viabilização do filme. Barnouw elenca algumas das características pessoais de Flaherty:

Flaherty era um homem de grande encanto. Seus olhos azuis tinham uma vivacidade extraordinária e chamavam a atenção. De físico imponente, possuía uma prodigiosa capacidade de trabalho, era companheiro cordial, narrador de contos incríveis e bom bebedor; não poupava esforços e nem os poupava aos demais. Gostava de música, tanto que levou à região subártica seu violino e seus discos de fonógrafo para divertir os esquimós. Era admirador e colecionador de gravuras e desenhos esquimós, e isso se refletia no filme; as

31 Nessa citação e na seguinte, utilizei a tradução apresentada no extra do DVD, com algumas

modificações, quando julguei que a tradução não estava clara para o contexto da tese.

composições fotográficas de Nanook muitas vezes sugeriam desenhos esquimós: pequenas figuras perdidas em vastas extensões brancas.33

(BARNOUW,1996, p. 44)

No tocante a este estudo, interessa perceber e registrar que o modo de ser e de agir do documentarista, seus gostos e aptidões podem “ser colocados a serviço” da produção dos documentários e, de diversas formas, refletir-se nos filmes que realiza.