Após termos discutido as possibilidades que restam àquele que se depare com o diagnóstico negativo que oferecemos, gostaríamos de empreender uma discussão sobre o
princípio hermenêutico da caridade. O leitor pode perguntar-se por que não introduzimos este princípio quando falamos sobre a abordagem afirmativa, mas logo as nossas razões esclarecerão a nossa decisão.
Neil L. Wilson, em um artigo de 1959 intitulado Substances without substrata, foi quem criou a expressão “princípio de caridade”. Quine (1960, p. 90), no seu livro Palavra e Objeto, introduziria uma definição em termos do senso comum: “a tolice de nosso interlocutor, a partir de um certo ponto, é menos provável do que a má tradução.”.
Davidson (1984), que, por vezes, usava a expressão “princípio de acomodação racional”, a partir da sua teoria semântica, falava sobre a maximização da verdade e racionalidade dos proferimentos.
Há muitas formulações do princípio. De modo resumido, poderíamos dizer que, havendo mais de uma interpretação, deve ser escolhida aquela que seja mais caridosa para com o seu interlocutor, levando-se em consideração que ele é racional e não um tolo, como diria Quine. No contexto da teoria da argumentação e da Lógica Informal, Jonathan Adler (1981) problematiza a questão da justificação do uso do princípio de caridade. Por que deveríamos ser caridosos e buscar a melhor interpretação possível do nosso interlocutor? Adler fala sobre uma justificação de ordem ética — teríamos a obrigação moral geral de sermos razoáveis quando lidamos com outras pessoas — e sobre uma justificação de caráter prudencial, pois seria prudente que fôssemos caridosos com outras pessoas.
Adler não se dá por satisfeito com essas justificativas e pergunta-se se poderíamos justificar o princípio de caridade de maneira menos retórica e mais técnica e se seria possível uma abordagem no âmbito da Lógica Informal que unificasse tal princípio com uma teoria da cognição.
91 Defenderemos aqui que a abordagem negativa fornece o quadro metodológico pelo qual Adler perguntava-se e que a alternativa que desenvolvemos com maiores detalhes, a saber, aquela referente à contemplação religiosa argumentativa, é aquela que melhor justificaria o uso do princípio hermenêutico da caridade.
Como possibilidades diante do diagnóstico negativo, fornecemos cinco alternativas: ( i ) a ataraxia argumentativa; ( ii ) o parnasianismo argumentativo; ( iii ) o niilismo argumentativo; ( iv) o relativismo argumentativo e ( v ) a contemplação religiosa argumentativa. Em todos estes casos, está presente o fato de que os conceitos são gestálticos.
Se é, realmente, o caso de que podemos ter configurações distintas da realidade que não são meramente subjetivas, tendo correspondência com a realidade, como no exemplo do pato- coelho, a minha perspectiva não é superior às outras perspectivas.
Vimos, também, que não há um ambiente neutro a partir do qual eu possa tecer julgamentos sobre outras perspectivas. Em toda argumentação e proferimento, há uma série de pressupostos subjacentes que, por vezes, não estão explícitos. Cremos que o caso particular da verodependência tenha deixado claro que sempre que se critica uma dada teoria já se parte de uma concepção de verdade.
Quando temos em vista a opção pela contemplação religiosa argumentativa, temos por norteamento a participação metafísica em Deus por meio do processo de santificação. O Logos divino, como explicamos, abrange todas as possibilidades gestálticas. Se tenho a compreensão de que a minha perspectiva não é a única e que as outras dizem respeito ao mundo, eu devo procurar conhecê-las.
Sei, entretanto, que, ao procurar tomar conhecimento de outras perspectivas, estarei fazendo-o sempre a partir das minhas categorias. O esforço de ser caridoso com o proferimento dos outros é o esforço de procurar vestir-se da Gestalt do outro. Dentro da perspectiva contemplativo-religiosa, o princípio hermenêutico da caridade é inserido como uma condição necessária para o conhecimento. Se, como diria Paulo aos Romanos, devo moldar minha mente à mente de Cristo, que seria o Logos encarnado, buscar este amoldamento é, precisamente, apreender outras Gestalten.
Quando consideramos as outras opções que fornecemos, o princípio hermenêutico não é pressuposto de maneira necessária. Dentro da ataraxia argumentativa, se eu era descaridoso antes de tomar conhecimento do diagnóstico negativo, posso continuar sendo-o sem nenhum problema. A partir do parnasianismo argumentativo, da mesma forma, posso seguir sendo descaridoso. Poder-se-ia dizer, inclusive, que esta opção, em particular, primaria pela
92 descaridade, pois, quando sou descaridoso, o outro sente a necessidade de defender-se. Desta forma, as discussões são fomentadas.
No niilismo argumentativo, a questão da caridade nem ao menos é problematizada pelo fato de o âmbito da argumentação ser abandonado. O evitamento das argumentações traz consigo o evitamento de discussões sobre os seus pressupostos.
A única opção, além da contemplativo-religiosa, que levaria à adoção do princípio hermenêutico da caridade seria o relativismo argumentativo: se eu empreendo argumentações para entender melhor o que os outros pensam, é do meu próprio interesse procurar compreender a perspectiva do outro e não a destruir simplesmente.
Nas abordagens afirmativas, as argumentações, freqüentemente, como já mencionamos, são vistas a partir de um ponto de vista bélico, em termos de perdas e ganhos, vencedores e derrotados. Não é uma surpresa, portanto, que um princípio de caridade precise ser adicionado de maneira artificial e ad hoc. Na abordagem negativa, entretanto, o reconhecimento de que a minha configuração da realidade não é única possibilita a caridade. No caso do relativismo, ela dá-se pelo fato de eu querer interagir com os outros por razões diversas — mesmo que eu queira aprofundar o meu próprio ponto de vista, para isto, eu preciso tomar conhecimento do que o outro, realmente, enxerga —; no caso da contemplação religiosa, pelo fato de que a santificação envolve a participação metafísica no Logos, que abrange todas as perspectivas.