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3. The Dual Approach

3.1 Outline and assumptions

A bibliografia, portanto, enfatiza a ausência de ruptura entre Geisel e Figueiredo nos princípios que guiavam a política externa, somada à rápida deterioração da situação econômica brasileira, em prejuízo ao status internacional que havia sido alcançado. Houve, porém, um elemento novo nas relações externas brasileiras a partir de 1979: a inédita aproximação com os países latino-americanos, em especial com a vizinhança sul-americana. Com Figueiredo, a diplomacia para a América Latina “ultrapassava a posição retórica e as iniciativas de alcance limitado”, defende Vizentini. “Todos os generais presidentes – inclusive Castelo Branco – colocavam a América Latina como prioridade. Mas, até Figueiredo, isso só permaneceu no plano do discurso” (VIZENTINI, 2004. P 277).

O “eixo principal” da aproximação brasileira com a vizinhança era o novo momento na relação com a Argentina. Ao tomar posse, Figueiredo colocou a solução do contencioso sobre o uso das águas do Rio Paraná, negociação que vinha sendo conduzida havia dois governos, no topo da agenda do Itamaraty e afirmou a Guerreiro que, caso o chanceler não conseguisse um acordo com os argentinos, ele próprio iria a Buenos Aires “resolver” o

impasse. Mas, superadas as desavenças técnicas sobre a altura da queda e o número de turbinas na barragem, o Acordo Tripartite Itaipú-Corpus foi assinado no início do governo, sete meses após a posse de Figueiredo.

Dois episódios subsequentes confirmaram o novo rumo das novas relações entre os vizinhos. Em 1980, Figueiredo torna-se o primeiro presidente brasileiro desde Getúlio Vargas a realizar uma visita oficial à Argentina13, onde foi recebido pelo comandante da junta militar Jorge Rafael Videla. Em Buenos Aires, ele enfatiza que o Brasil “não tem pretensões hegemônicas” na América do Sul, ao contrário do que diziam vozes influentes entre os generais argentinos, bem como referências do pensamento geopolítico do país vizinho. Luis Alberto Moniz Bandeira chama ainda atenção aos acordos de cooperação aeroespacial e no setor nuclear, o qual poderia dar a ambos os países controle sobre o ciclo completo de enriquecimento de urânio – cenário que os EUA temiam (BANDEIRA, 1993. P. 242). As garantias, projetos bilaterais e promessas de solidariedade seriam confirmadas menos de dois anos depois, após a conflagração da Guerra das Malvinas, com o discreto apoio brasileiro aos argentinos.

Nessa cadeia de eventos que aproximou Brasil e Argentina, do acordo Itaipu-Corpus às Malvinas, a bibliografia apresenta duas interpretações. Uma versão tradicional parece ver o novo momento da relação bilateral como uma consequência do tratado de 1979. O acordo, assim, teria alterado as condições existentes e possibilitado a aproximação entre Brasília e Buenos Aires. Nos últimos anos, porém, um novo entendimento ganhou força, segundo o qual o pacto envolvendo as hidrelétricas, os acenos mútuos e a colaboração na guerra das Malvinas não foram em si as “causas”, mas antes os “sintomas” de uma mudança mais ampla no padrão de relacionamento entre Brasil e Argentina. Gian Luca Gardini defende que os eventos de 1979 a 1982 foram reflexos de alterações tanto no sistema internacional – a nova relação dos EUA com a região sob Carter, as consequências da crise econômica e o endividamento, etc – quanto nos dois países, as quais ensejavam uma nova determinação no sentido da aproximação. Gardini sustenta:

The events of the period 1979-1982 are not to be confused with the causes of change. Rather than prompting a new course of action in bilateral relations, these events were actually a manifestation of it. (…) First, traditional mutual tolerance for respective assertiveness in regional affairs was broken. Second, changes in the international scenario were so significant that they altered the Argentine and Brazilian vision of both the self and the other. The 







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combination of these two factors reshaped the deep underlying forces of history acting in the area. The result was a new long-lasting paradigm in bilateral relations: close association became a vital element in both countries’ concept of national interest. (GARDINI, 2010. Ps 18-19)

Com o contencioso no Prata “resolvido” em 1979, o Brasil ficou mais livre para conduzir uma aproximação com os demais países sul-americanos sem que isso ensejasse tantos temores na Argentina sobre a “pretensão hegemônica” do vizinho, defende Sônia de Camargo. O espaço de maior protagonismo do Brasil continuava a ser o Cone Sul e todos os países da região receberam visitas do presidente. Mas o bloco andino, com o qual o País celebrara em 1978 o Tratado de Cooperação Amazônica, passou a receber atenção inédita do governo brasileiro – a começar pela Venezuela, cuja influência crescia na região do Caribe impulsionada pelos novos preços do petróleo.

O espaço amazônico não andino também foi palco de iniciativas importantes do Brasil. Um dos principais exemplos foi o pequeno e Suriname. Com a crescente influência cubana sobre o regime do ditador Desiré “Desi” Bouterse – algo que consternava tanto os EUA quanto o Brasil –, Figueiredo lança em 1983 a chamada “Missão Venturini”, liderada pelo ministro-chefe do Gabinete Militar, general Danilo Venturini, definitivamente afastando Paramaribo da órbita de Havana (AVILA, 2011). Mais ao norte, o Brasil via-se obrigado a tomar posição diante do aprofundamento da crise centro-americana, agora sob intervenção dos EUA, embora o regime brasileiro evitasse um envolvimento direto no assunto. Sônia de Camargo indica uma cisão interna na ditadura: o Itamaraty recusava a intromissão americana e pedia soluções “endógenas” 14, enquanto o Conselho de Segurança Nacional defendia a luta contra a subversão. Ao mesmo tempo em que diplomatas brasileiros criticavam na OEA e ONU as ingerências na Nicarágua e em El Salvador, o Brasil vendia armamento aos governos da região alinhados a Washington, principalmente Honduras (CAMARGO e OCAMPO, 1988. P150).