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What are the outcomes and consequences of the land consolidation sale; the successes

4. Findings and discussion

4.3 Outcomes of Statskog’s land consolidation sale

4.3.1 What are the outcomes and consequences of the land consolidation sale; the successes

O impacto dos Poemas de Ossian nas letras ocidentais já foi mencionado, lá atrás, quando do início deste trabalho. Trata-se, certamente, de um fato cuja magnitude nunca deve deixar de ser enfatizada, dada a importância que teve no desenvolvimento de alguns temas e estilos,197 para sempre a ecoar as expansões lamuriosas do filho de Fingal.

As profundas transformações sociais e políticas por que passariam a Europa e as Américas, a partir do último quarto do século XVIII, tornariam o ambiente cultural e literário extremamente propício para que as representações de Macpherson sobre a passagem do tempo ganhassem enorme ressonância.

Nesse período, se consolidariam duas grandes revoluções,198 que removeriam muitos dos arranjos econômicos e políticos em torno dos quais se organizavam os países europeus e as suas colônias.

A primeira, e talvez de conseqüências mais duradouras, seria a revolução industrial, que promoveu novas relações de trabalho mediadas pelo dinheiro e submeteu o indivíduo a uma estrutura que o alijava de qualquer controle dos meios de produção.

A segunda, por seu turno, foi de natureza política, e materializou-se em levantes liberais e movimentos de independência, que trouxeram, em seu desenrolar, a ascensão do Estado-nação. Rearticulou antigas lealdades, de modo a estabelecer vínculos diretos entre o cidadão, de um lado, e o povo e o Estado, de outro. Tais sistemas tornaram proscritas diversas afiliações que se dessem num nível subnacional, como aquelas no interior de um clã ou de comunidades locais.

As convenções do ossianismo seriam, com isso, constantemente emuladas ao longo dos séculos XVIII e XIX na representação literária de organizações sociais que se encontravam fatalmente ameaçadas pelas mudanças então em curso.199

197

Por tudo, ver GASKILL, Howard. “Ossian in Europe”. Canadian Review of Comparative

Literature, v. 21, n. 4 (Dec. 1994), p. 643-675 e VANTIEGHEM,Paul. Ossian et l’ossianisme dans la

littérature européenne aux XVIIIE siècle. Den Haag: J. B. Wolters, 1920, passim.

198

HOBSBAWM, Eric J. Age of revolution. London: Abacus, 2003, p. 19 e ss. 199

É bastante apropriado o comentário, feito de passagem, de WILLIAMS, Heather. “Writing to Paris: poets, nobles and savages in nineteenth-century Britanny”. French Studies, v. 57, n. 4, p. 475-490 (especialmente p. 479): “O Ossian de Macpherson foi ele próprio um exemplo espetacular de se estar no lugar certo na hora certa” (“Macpherson’s Ossian was itself a most spectacular example of being in the right place at the right time”).

Na sua Escócia natal, por exemplo, forneceriam elementos para a elaboração do romance e poemas históricos de Walter Scott.200 Em primeiro lugar, Scott toma como extensiva a todos os escoceses a caracterização dos highlanders elaborada por Macpherson. No Prefácio à primeira edição de sua longa balada The Lay of the Last Minstrel, afirma estar interessado em mostrar ao público um pouco dos costumes elevados dos antigos caledônios, em especial aqueles da Fronteira (Border).201

Todavia, essa exposição dos costumes não é ambientada num passado remoto, em que supostamente tais antigos caledônios existiriam em toda a sua plenitude. Situa-se ao final do século XVII, ao término da dinastia dos Stuart, quando uma série de guerras e disputas já os houvera condenado a desaparecer.

À maneira ossiânica, representa-se a relação do novo com o que deixou de ser, em que ambos têm dificuldade para se assimilarem, numa dicotomia que inevitavelmente implicará o total apagamento do segundo. A figura sobre a qual se enfrentarão os movimentos opostos da história é a personagem central desse poema narrativo: o último menestrel. Proscrito e reduzido à mendicância, é deliberadamente retratado como uma espécie de relíquia de outros tempos:

O último dos bardos ele era,

Que cantaram da nobreza da Fronteira, Pois, um dia, seu tempo expirou,

Seus harmoniosos irmãos estavam todos mortos; E ele, abandonado e oprimido,

Queria estar com eles, a descansar.202

Trata-se de uma entidade cuja essência não pode se conformar aos atuais arranjos sociais e econômicos. Sua arte ― seu canto, sua lira ― foi criminalizada, e o herói de antanho se converteu num pária do reino.

Essa transformação simboliza de um modo bastante explícito as revulsões por que passou a sociedade escocesa: de um passado (que se imaginava) glorioso e independente até a agonia e colapso de suas instituições, que culminaram na inviabilidade de qualquer tipo de autogoverno. O fim da dinastia Stuart, de origem escocesa, é-nos apresentado

200

MANNING, Susan. “Ossian, Scott, and nineteenth-century Scottish nationalism”. Studies in

Scottish Literature, v. 17 (1982), p. 39-54.

201

SCOTT, Walter. The lay of the last minstrel. Works. Ware: Wordsworth, 1995, Introduction, p. 1. 202

“The last of the Bards was he,/ Who sung of Border chivalry;/ For, welladay! their date was fled,/ His tuneful brethren all were dead;/ And he, neglected and oppress’d,/ Wish’d to be with them, and at rest” (idem, p. 3).

como um momento de inflexão tanto da história (com uma nova “idade de ferro”) quanto da sina do menestrel:

Os velhos tempos mudaram, os velhos costumes se foram; Um estranho ocupou o trono dos Stuarts;

Os fanáticos da idade de ferro

Chamaram de crime a sua inofensiva arte.203

Essa trajetória descendente é reforçada pela caracterização decrépita do menestrel, em tudo uma figura ossiânica. Último dos seus, nele se materializa o contraste da imagem idealizada do passado com a desesperança presente e futura. A todo momento, como a Escócia do poema An elegy on the death of Marshal Keith, de Macpherson, lamenta a sua “glória perdida”. Os exemplos são vários.

Na Introdução (Introduction) à balada:

O caminho era longo e o vento era frio, O menestrel, fraco e velho;

Suas faces adoentadas, suas tranças cinzentas, Pareciam ter experimentado dias melhores.204 No Segundo Canto (Canto Second):

Ai de mim!, belas senhoras: vãs são as vossas expectativas! Minha harpa perdeu sua força encantatória;

Sua leveza traria reprovação ao meu espírito:

Meus cabelos estão cinzentos, meus membros, velhos, Meu coração está morto; minhas veias, frias:

Não posso, não devo, cantar do amor.205

Esse traço das produções de Scott ― o de elevar as forças cujo antagonismo determina o processo histórico ― foi apontado por Lukács como o seu grande legado literário. Ao fazer com que suas personagens se confrontassem tanto com os projetos de modernização da Escócia quanto com a consciência de que tal modernização inevitavelmente traria perdas e sofrimentos, as obras de Scott lhes proporcionaram

203

“Old times were changed, old manners gone;/ A stranger filled the Stuarts’ throne;/ The bigots of the iron time/ Had call’d his harmless art a crime” (idem, ibidem).

204

“The way was long and the wind was cold,/ The minstrel was infirm and old;/ His wither’d cheek, and tresses gray,/ Seem’d to have known a better day” (SCOTT, Walter. The lay of the last minstrel cit., p. 3).

205

“Alas! fair dames, your hopes are vain!/ My harp has lost the enchanting strain;/ Its lightness would my age reprove:/ My hairs are grey, my limbs are old,/ My heart is dead, my veins are cold:/ I may not, must not, sing of love” (SCOTT, Walter. The lay of the last minstrel cit., p. 14).

historicidade, i.e., a individualidade de tais personagens se desenvolve a partir de peculiaridades históricas do tempo retratado.206

A importância que dá ao processo histórico é tornada explícita no Capítulo 72 de Waverley, uma espécie de posfácio ao romance (que, no entanto, lhe é parte integrante), em que conceitualiza e evidencia o conteúdo simbólico da narrativa. Assim como Macpherson, faz com que, para os rumos da narrativa, que culmina com a queda dos Highlanders, os motivos externos — ou seja, os acontecimentos históricos — tenham tanta importância quanto o caráter das personagens (o caráter orgulhoso e insubmisso dos irmãos McIvor, por exemplo):207

Não há nação européia que, no curso de meio século ― ou pouco mais ―, tenha passado por uma transformação tão completa quanto o reino da Escócia. Os efeitos da insurreição de 1745 (a destruição do poder patriarcal dos chefes dos Highlands; a abolição das jurisdições hereditárias da nobreza e dos barões das Lowlands; a total erradicação do partido Jacobita, que, contrário a entremesclar-se aos ingleses, ou a adotar seus costumes, por muito tempo se vangloriou da manutenção dos antigos modos e costumes escoceses) começaram essa inovação. O influxo gradual da riqueza e a extensão do comércio uniram-se desde então para fazer do presente povo da Escócia uma classe diversa de seus avós [...]. Hoje, essa raça quase que desapareceu por completo e, com ela, sem dúvida, muito do absurdo preconceito político, mas também, muitos exemplos vivos da desinteressada e singular ligação aos princípios que receberam de seus pais ― e da velha fé, hospitalidade, dignidade e honra escocesas.208

Já no contexto inglês, temas, imagens e situações caras ao ossianismo se destacariam de discussões ― ainda que transfiguradas pela literatura ― acerca do destino nacional para serem tratados (ou representados) com o intuito de se porem em evidência as novas relações de classe surgidas com a consolidação da revolução industrial.

As rápidas alterações trazidas pela modernização da Grã-Bretanha foram crescentemente lamentadas por poetas e romancistas, que percebiam profundas

206

LUKÁCS, Georg. The historical novel cit., p. 32-37. 207

Cf. STAFFORD, Fiona J. The last of the race cit., p. 157 e ss. 208

“There is no European nation, which, within the course of half a century, or little more, has undergone so complete a change as this kingdom of Scotland. The effects of the insurrection of 1745, — the destruction of the patriarchal power of the Highland chiefs,—the abolition of the heritable jurisdictions of the Lowland nobility and barons, — the total eradication of the Jacobite party, which, averse to intermingle with the English, or adopt their customs, long continued to pride themselves upon maintaining ancient Scottish manners and customs, — commenced this innovation. The gradual influx of wealth, and extension of commerce, have since united to render the present people of Scotland a class of beings as different from their grandfathers […].This race has now almost entirely vanished from the land, and with it, doubtless, much absurd political prejudice — but also, many living examples of singular and disinterested attachment to the principles of loyalty which they received from their fathers, and of old Scottish faith, hospitality, worth, and honour” (SCOTT, Walter. Waverley. Hamondsworh: Penguin, 1983, p. 492).

transformações tanto na paisagem quanto no estilo de vida.209 Com os cercamentos, por exemplo, a economia do campo foi integrada à das cidades, sujeitando-se, com isso, às oscilações e caprichos do mercado. As antigas relações de trabalho ― fundamentadas numa ligação entre senhorio, camponês e a terra ― passaram a ser mediadas pelo dinheiro. Rompida essa ligação, muitos abandonariam ou seriam expulsos do campo e buscariam trabalho nos novos centros industriais, cada vez maiores e desordenados.

Da percepção de mudança, e das dores e desconfortos provocados por essa mudança, nasce uma idealização do passado, em que, muitas vezes, a crítica às injustiças das relações humanas pautadas pelo dinheiro regride a uma idealização de uma sociedade pré-capitalista, permeada por imagens de senhorios alegres e sábios.210

Bastante representativo é o poema The Deserted Village, do anglo-irlandês Oliver Goldsmith. Aqui, a imagem de uma comunidade tragada pelos caminhos do tempo distancia-se de considerações acerca do destino das nações, como havia em seu ensaio, citado páginas atrás, sobre Carolan e nos Poemas de Ossian, de maneira a não se vincular apenas a um povo, uma família, mas também a um modo de viver, a uma maneira de interagir com o mundo.

A linearidade da história, marcada pela percepção do chronos, se configura neste poema pastoral na maneira como é apresentada a miséria do vilarejo de Auburn, esvaziado pela emigração de seus habitantes. O vilarejo antes florescera e prosperara, mas a cobiça do proprietário tornou inviável a permanência de seus moradores. As oportunidades geradas pelo novo mercado de lã haviam-no incentivado a voltar-se contra aqueles que trabalharam em sua propriedade por gerações e cortar o vínculo dos agricultores com a terra, num gesto que tornaria impossível a sobrevivência daquela comunidade.

Tragado pelas novas forças econômicas da sociedade inglesa (“Os tempos mudaram; a seqüência insensível do comércio/ Usurpou a terra e desapossou os colonos”211), a trajetória do vilarejo é explicitamente contraposta àquela de “príncipes e senhores”. Para estes, no esplendor de sua riqueza, haverá sempre um novo recomeço, uma marcha cíclica, que, por conta disso, é destituída de qualquer sentido trágico. Para os camponeses, no entanto, não se vislumbra restauração de seus antigos modos de vida:

209

STAFFORD, Fiona J. The last of the race cit., p. 109 e ss. 210

WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade cit., p. 57 e ss. 211

“But times are alter’d; trade’s unfeeling train/ Usurp the land and dispossess the swain” (GOLDSMITH, Oliver. The deserted village, a poem. 2. ed. Dublin, 1770, 62-63, p. 5).

Príncipes e senhores podem florescer ou definhar; Um sopro pode fazê-los, como um sopro os fez; Mas bravos camponeses, o orgulho de seu país, Quando destruídos, não podem ser substituídos.212 (53-6)

Para marcar o contraste entre a velha ordem e a nova, Goldsmith recorre a uma personagem tipicamente ossiânica. Trata-se de uma velha senhora, única pessoa a ficar na vila. Testemunha da antiga prosperidade do local, agora se defronta com a miséria e a solidão. Última de sua comunidade, com a sua morte também será perdida a memória de Auburn:

Pois todo o viço florescente da vida se foi. Todo menos aquela enviuvada, solitária criatura Que fragilmente se curva atrás da nascente alagadiça. Ela, infeliz matrona, nesta idade, forçada, para ganhar o pão, A desnudar o riacho forrado por um cobertor de ervas, A pegar dos espinhos a sua lenha para o inverno, A buscar seu abrigo noturno e chorar até amanhecer; Ela, última a sobrar daquele inofensivo grupo, A triste historiadora da pesarosa planície.213 (128-136)

Na literatura inglesa, esse tipo de representação ossiânica da passagem do tempo teria ainda uma longa vida século XIX adentro. A incapacidade de lidar com mudanças nos planos social e político freqüentemente se socorreria de topoi como o (último e) solitário sobrevivente de um povo, a intuição de um destino ominoso, a consciência de uma condenação conjugada de forças irresistíveis da história etc.

Seriam utilizados em obras de aguda crítica social, como The Village, do reverendo George Crabbe.214 Neste poema, o imaginário bucólico é desdenhado como irreal ou inadequado para os tempos presentes:

Foram-se aqueles tempos, quando, em harmoniosas melodias, O rústico poeta louvava suas campinas nativas:

Nenhum pastor, agora, em versos alternados e suaves, Recita as belezas e as ninfas de sua terra [...].215

212

“Princes and lords may flourish, or may fade;/ A breath can make them, as a breath has made:/ But a bold peasantry, their country's pride,/ When once destroy’d, can never be supply’d” (idem, 53-56, p. 4).

213

“But all the bloomy flush of life is fled./ All but yon widow’d, solitary thing/ That feebly bends beside the plashy spring/ She, wretched matron, forc’d, in age, for bread,/ To strip the brook with mantling cresses spread,/ To pick her wintry faggot from the thorn,/ To seek her nightly shed and weep till morn;/ She only left of all the harmless train,/ The sad historian of the pensive plain” (idem, 126-134, p. 9).

214

Ver a análise de Raymond Williams desse poema, em O campo e a cidade cit., ao longo de quase todo o capítulo 9.

Diante da pobreza do campo, as idealizações de que se valia a poesia augustana não passavam de um escapismo de uma mentalidade que evitava confrontar-se com a realidade da vida rural inglesa: “Pois bobagens não exigem pensamentos profundos;/ Cantar de pastores, isso é tarefa fácil”.216

Para expressar o verdadeiro sofrimento dos agricultores, Crabbe procura abandonar as imagens legadas pelo classicismo e, nesse movimento, vale-se, dentre outros expedientes, de uma personagem ossiânica: um velho, que questiona a sua sina:

Por que vivo, quando desejo estar

Para sempre livre da vida e de seus longos trabalhos?

Como folhas na primavera, os jovens foram soprados para longe, Sem os pesares de uma lenta decadência;

Eu, como aquela folha murcha, fiquei para trás, Enrijecido pela geada, e tremendo contra o vento; E lá se queda217 até que novos botões floresçam”.218

Figuras, imagens e personagens semelhantes a essas seriam empregadas em ficções históricas, como no caso do longo poema narrativo de Robert Southey, Roderick the Last of Goths.219 Nele, contam-se as desventuras do último rei espanhol antes da conquista dos maometanos vindos da África do Norte. Aqui, no entanto e ao contrário do que se sucedia nas composições analisadas acima, o topos da inadequação do indivíduo em face da história é lido numa chave ambígua.

Roderick, ou Rodrigo, não é um governante virtuoso como Cuchullin, que, por conta da vulnerabilidade de sua própria virtude, viu-se soterrado pelo tempo. Não: fora um tirano cruel e sanguinário. Contudo, ao ver-se completamente despossuído ― sem filhos, esposa, cetro nem fortuna ― Roderick enfrenta uma longa caminhada pelo interior da Espanha e Portugal rumo à penitência e ao arrependimento. Como último dos godos ―

[...] um estrangeiro

Alguém cujas fortunas se perderam na calamidade,

215

“Fled are those times, when, in harmonious strains/ The rustic poet praised his native plains:/ No shepherds now, in smooth alternate verse,/ Their country’s beauty or their nymph’s rehearse” (CRABBE, George. The village. The poetical works of the Rev. George Crabbe: with his letters and journals, and with his life, by his son. London: John Murray, 1834, v. 2, p. 73).

216

“For no deep thought the trifling subjects ask;/ To sing of shepherds is an easy task” (idem, p, 75). 217

A folha murcha. 218

“Why do I live, when I desire to be/ At once from life and life’s labour free?/ Like leaves in spring, the young are blown away,/ Without the sorrows of a slow decay;/ I, like yon wither’d leaf, remain behind,/ Nipt by the frost, and shivering in the wind;/ The it abides till younger buds come on” (CRABBE, George. The village cit., p. 82).

219

Sua linhagem e seu nome, extintos para sempre, Ele mesmo salvo por clemência, sobrevivente a todos.220

―, o rei caído torna-se grande como não houvera sido: organiza um levante contra os mouros, no qual acaba por morrer.221

Neste ponto, os lugares-comuns do ossianismo já ganharam autonomia simbólica e, agora no contexto do romantismo inglês, não mais se prestam apenas a vocalizar os temores causados pelo progresso. Integram um conjunto de composições que não somente lamenta a passagem do gênio natural (ou rural), mas que deliberadamente afirma a sua genuína independência. No isolamento dos remanescentes dos antigos modos de vida, reencontra-se o homem em sua inteireza, em paz com a natureza e imaculado em sua essência.222

Destituídas de tudo pelas transformações sociais, pela pobreza crescente do campo, essas personagens que descendem de Ossian entram em contato direto com o que há de realmente valoroso no ser humano, sem os supérfluos da riqueza, livre das pressões da multidão.

Esse é o caso de diversas criações de William Wordsworth,223 como: o pai sem filhos (The Childless Father), o mendigo de The Old Cumberland Beggar e a viúva de Salisbury Plain. Todas elas encontram a transcendência em meio ao imenso sofrimento. Após perderem tudo aquilo a que davam valor, evidenciam-se plenas, sem qualquer manto para lhe encobrir, a dignidade e a grandeza espiritual que Wordsworth toma como inerentes a todo ser humano, capaz de suportar e transpor mesmo os maiores infortúnios. Tal se dá com a protagonista de The Ruined Cottage, que definha enquanto espera o regresso de seu marido, forçado a alistar-se para alimentar sua família. Ela diz:

“[...] Estou mudada;

E comigo”, ela disse, “errei muito, E com essa criança indefesa. Dormi

Chorando, e, a chorar, acordei; minhas lágrimas Jorraram como se meu corpo não fosse

Como os outros, e eu jamais pudesse morrer. Mas agora, na mente e no coração,

Estou mais calma, e espero”, disse ela, “que os céus Dêem-me paciência para agüentar tudo

220

“[…] a stranger; one/ Whose fortunes in the general wreck were lost,/ His name and lineage utterly extinct,/ Himself in mercy spared, surviving all” (idem, v. 1, Book V, p. 73).

221

Idem, v. 2, Book XXV, p. 173-174. 222

WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade cit., p. 184.