2. Theoretical approach
2.5 Discourses of environmental governance and discourse analysis
4.1 Anotações à margem
O fosso entre as abordagens normativa e historicista é transposto nas epopeias ossiânicas.225 Basta ler os prefácios, ensaios introdutórios e notas de rodapé de Fingal e Temora, nos quais se intervém a fim de direcionar a recepção das obras. Parte considerável dessas intervenções buscava determinar a relação entre a poesia de Ossian e o ambiente sociocultural que a gestara. Por outro lado, o tradutor não hesitava em indicar como seus poemas satisfaziam expectativas neoclássicas para a execução de um épico.
Talvez em nenhum lugar a conjunção de premissas salte tanto aos olhos quanto numa nota ao “Livro Oitavo” de Temora. De início, rejeitam-se abstrações formais e another would have thought, or in what manner another would have expressed his conception […]” (FERGUSON, Adam. An essay on the history of civil society cit., p. 166).
222
Ver SIMONSUURI, Kirsti. Homer’s original genius cit., p. 133 e ss.
223 Idem, p. 125; TILLYARD, E. M. W. The English epic and its background cit., p. 494 e ss. e
FOERSTER, Donald M. The fortunes of epic poetry cit., p. 16 e 25.
224 “[...] Originals are the fairest Flowers: Imitations are of quicker growth, but fainter bloom”
(YOUNG, Edward. Conjectures on Original Composition, in a Letter to the Author of Sir Charles Grandison. Londres, 1759, p. 9).
225 Uma síntese dessa conciliação pode ser encontrada em BYSVEEN, Josef. Epic tradition and innovation in James Macpherson’s Fingal. Uppsala: Acta Universitatis Upsaliensis, 1982, p. 130-134.
Ver também STAFFORD, Fiona. “Romantic Macpherson” cit., p. 32. Para análises da poesia de Ossian, em especial a de Blair, que conciliam primitivismo e neoclassicismo, ver MOORE, Dafydd. “The reception of The Poems of Ossian in England and Scotland” cit., p. 27-28; CARBONI, Pierre. “Ossian and belles lettres: Scottish influence on J.-B.-A. Suard and late-eighteenth-century French taste and criticism”. In: DAWSON, Deidre; MORERE, Pierre (ed.). Scotland and France in the
Enlightenment. Lewisburg: Bucknell University – Londres: Associated University Presses, 2004, p. 74-
abjura-se da primazia de Aristóteles. Modelos críticos são tidos como construções históricas, adstritos aos “hábitos das nações”, sendo errôneo aplicá-los irrestritamente. Os preceitos aristotélicos deveriam ser entendidos, portanto, na conjuntura específica da literatura grega. Formulados da Ilíada e da Odisseia, satisfaziam as concepções locais do que seria a alta poesia heroica. Logo, seria forçoso admitir que a Poética talvez fosse um guia pouco adequado à apreciação de uma epopeia celta.
[…] todos os preceitos que Aristóteles extraiu de Homero não devem ser aplicados à composição de um bardo celta. Tampouco se deve questionar o direito deste último à epopeia, ainda que divirja, em algumas circunstâncias, de um poeta grego. Deve-se dar alguma margem aos diferentes hábitos das nações. O gênio de gregos e celtas era muito dissimilar. Os primeiros eram muito animados e loquazes; uma concisão viril de expressão distinguia os últimos. Acreditamos, portanto, que as composições de Homero e Ossian são marcadas pelos caracteres gerais e opostos de suas respectivas nações; e, consequentemente, que é impróprio comparar as minúcias de seus poemas em conjunto.226
Macpherson parece dar pouca importância ao fato de que o poema não se adéqua por inteiro às regras usualmente aceitas para uma epopeia. Impostas por Aristóteles, tais regras teriam sido prescritas a partir das composições homéricas, numa acusação velada de que seriam arbitrárias. Poucas linhas abaixo, no entanto, reverte-se a lógica da argumentação e o tradutor aquiesce à validade de um código universal. Postulam- se “regras gerais” na elaboração de um poema épico, em face dos quais seria possível aferir o mérito de Ossian:
Há, todavia, regras gerais na condução de um poema épico, que, como são naturais, são iguais, universais. Nessas, ambos os poetas concordam. Essa similaridade, que não poderia provir de imitação, é mais decisiva, com respeito aos mais relevantes princípios da epopeia, do que todos os preceitos de Aristóteles.227
Na poesia de Ossian, contudo, inexiste uma separação muito clara ou segura entre o entrecho ficcional e as intervenções do editor e tradutor. As constantes intromissões
226 “[…] all the precepts, which Aristotle drew from Homer, ought not to be applied to the
composition of a Celtic bard; nor ought the title of the latter to the epopæa to be disputed, even if he should differ in some circumstances, from a Greek poet. – Some allowance should be made for the different manners of nations. The genius of the Greeks and Celtæ was extremely dissimilar. The first were lively and loquacious; a manly conciseness of expression distinguished the latter. We find, accordingly, that the compositions of Homer and Ossian are marked with the general and opposite characters of their respective nations, and, consequently, it is improper to compare the minutiæ of their poems together” (idem, p. 522, nota 1).
227 “There are, however, general rules, in the conduct of an epic poem, which, as they are natural, are
likewise, universal. In these the two poets exactly correspond. This similarity, which could not possibly proceed from imitation, is more decisive, with respect to the grand essentials of the epopœa, than all the precepts of Aristotle” (idem, ibidem).
assinadas por Macpherson integram a construção do sentido que emerge das partes cuja voz organizadora se atribui a Ossian. Obtém-se, com isso, uma triangulação dos poemas para as notas e das notas de volta para os poemas. Veja-se o que se dá, por exemplo, em “Colna-dona”. Tão logo a donzela epônima é mencionada, dicionariza- se seu nome como “o amor dos heróis”.228 Tendo-se esta definição em mente, o desenvolvimento da historieta ganha em profundidade: agora, a paixão desenfreada de Toscar por Colna-dona avulta menos caprichosa e mais justificada. Ademais, a inserção da nota problematiza a linguagem do sujeito poético. De acordo com a sistemática estabelecida pela nota de rodapé, uma passagem singela à primeira vista, como “Toscar escureceu em seu lugar, diante do amor dos heróis”,229 não contém apenas um epíteto, mas também uma tradução literal em língua inglesa, inescapavelmente perifrástica, do nome de Colna-dona.230
A supressão do aparato paratextual, como faziam muitos dos tradutores portugueses no século XIX, certamente simplifica a experiência estética e intelectual proporcionada por Ossian. Trata-se de aparato que elabora e teoriza a poesia primitiva – e decerto orientou a recepção e a fortuna crítica imediatas de Ossian na Europa e nas Américas. Por outro lado, é inegável que as dissertações e os prefácios de Macpherson, e muito menos as suas notas, não se sustentam sozinhos.231 De tal feita, nossa análise de como Fingal e Temora conjugam noções neoclássicas e primitivistas da poesia épica buscará evitar seccionamentos artificiais entre as epopeias propriamente ditas e os comentários do tradutor.
4.2 Poemas heroicos
De saída, o liame estabelecido entre a configuração de Fingal e Temora e seu contexto insere-se na complexa – porém necessária – tentativa de se proporcionarem “provas internas”232 de autenticidade dos Poemas de Ossian.
228
MACPHERSON, James. “Colna-dona: a poem”. The poems of Ossian and related works cit., p. 540, nota 2.
229
“Toscar darkened in his place, before the love of heroes” (idem, p. 328).
230
GASKILL, Howard. “Introduction: ‘Genuine poetry... like gold’” cit., p. 4.
231 Ver GENETTE, Gérard. Paratextos editoriais. Trad. Álvaro Faleiros. Cotia – SP: Ateliê, 2009, p.
17.
232 Tomamos essa distinção entre as ditas provas internas e externas dos Poemas de Ossian de
SHAW, W. An enquiry into the authenticity of the poems ascribed to Ossian. Londres, 1761, p. 2. Sobre Shaw, ver SHER, Richard B. “Percy, Shaw and the Ferguson ‘cheat’: national prejudice in the Ossian wars”. In: GASKILL, Howard (ed.). Ossian Revisited. Edimburgo: Edinburgh University, 1991,
Macpherson estava muito longe de ser um tradutor judicioso das relíquias que coletara em suas andanças pelos Highlands. Com efeito, manipularia o expressivo material coletado na sua expedição de agosto de 1760, que resultaria na publicação
Fingal, an ancient epic poem in six books, together with several other poems e Temora an ancient epic poem in eight books, together with several other poems.233
Em todas as composições atribuídas a Ossian, o eminente poeta e celtista Derick Thomson conseguiu detectar os vestígios de quinze ou dezesseis baladas gaélicas, pertencentes sobretudo aos ciclos de Finn e Cù Chulainn.234 Às vezes, como em “The Battle of Lora”, há correspondências consideráveis com a tradição oral celta, dado que o enredo de fuga conjugal, vingança e morte é decalcado de “Teanntachd Mhòr Fèinne”.235 Ainda assim, há variações substantivas nos procedimentos retóricos, nos nomes e no ponto de vista das personagens.236 Noutros poemas, existe uma verdadeira colagem a fim de se obter algo maior e mais impressivo. Em Fingal, fundem-se no enredo “Garbh mac Stairn” e “Magnus”, enquanto os episódios advêm de “Fingal’s visit to Norway”, “Duan na h-Inghinn” e “Ossian’s Courtship”. Ademais, há ecos de “Sliabh nam Ban Fionn”, “Praise of Goll”, “Táin Bó Cùalnge” e, provavelmente, de uma balada sobre o carro de Cù Chulainn.237 Temora, por sua vez, é uma composição para a qual quase não se reclamam origens legítimas. O “Livro Primeiro” provém da
p. 207-245. Para uma análise das “provas internas” apontadas por Blair, ver: DENTITH, Simon. Epic
and empire in nineteenth-century Britain cit., p. 24.
233 Sobre a relação de Macpherson com suas fontes, ver, de saída, o relatório da Highland Society,
de 1805, coordenado por Henry Mackenzie, sobre a autenticidade dos Poemas de Ossian (MACKENZIE, Henry (coord.). Report of the Committee of the Highland Society of Scotland,
Appointed to Inquire into the Nature and Authenticity of the Poems of Ossian: Drawn Up, according to the Directions of the Committee, by Henry Mackenzie, Esq. Edimburgo: Constable – Londres: Hurst,
Rees and Orme, 1805, passim). Ver também: THOMSON, Derick S. The Gaelic sources of
Macpherson’s ‘Ossian’. Edimburgo – Londres: Oliver and Boyd (published for the University of
Aberdeen), 1951, passim; O’HALLORAN, Clare. “Irish re-creations of the gaelic Past: the challenge of Macpherson’s Ossian”. Past and Present, n. 124 (agosto, 1989), p. 69-95; MEEK, Donald E. “The Gaelic ballads of Scotland: creativity and adaptation”. In: GASKILL, Howard (ed.). Ossian revisited cit., p. 19-48; MAC CRAITH, Mícheál. “The ‘forging’ of Ossian”. In: BROWN, Terence (ed.).
Celticism cit., p. 125-142; THOMSON, Derick S. “James Macpherson: the Gaelic dimension”. In:
GASKILL, Howard; STAFFORD, Fiona (ed.). From Gaelic to romantic: Ossianic translations. Amsterdã – Atlanta, GA: Rodopi, 1998, p. 17-26; e CURLEY, Thomas M. Samuel Johnson, the Ossian
fraud and the Celtic revival in Great Britain and Ireland cit., p. 34-36. Sobre o tour de Macpherson
pelos Highlands, ver STAFFORD, Fiona. The sublime savage: a study of James Macpherson and The
Poems of Ossian. Edimburgo: Edinburgh University, 1988, p. 113-128.
234 THOMSON, Derick S. The Gaelic sources of Macpherson’s ‘Ossian’ cit., p. 10.
235 Cf. THOMSON, Derick S. “James Macpherson: the Gaelic dimension” cit., especialmente p. 21. 236 Cf. idem, p. 22.
reformulação das baladas “Death of Oscar” e “Battle of Gabhra”, mas o resto é, aparentemente, de sua própria lavra.238
Mesmo diante disso, Macpherson até que demonstrara empenho em fazer disponíveis algumas de suas fontes, como o “Book of the Dean of Lismore”, e providenciar testemunhos quanto à honestidade do trabalho.239 Na mesma toada, rechearam-se as composições ossiânicas de extenso aparato crítico, destinado a tanto demonstrar a seriedade da pesquisa quanto situar o leitor nas especificidades da poesia gaélica. E, se isso não fosse o bastante, tachavam-se eventuais reticências como decorrentes de
[...] preconceitos de nosso tempo contra os antigos habitantes da Grã-Bretanha, os quais são tidos como incapazes dos sentimentos generosos a serem encontrados nos poemas de Ossian.240
Contudo, de acordo com o tradutor, a antiguidade dos Poemas e, mais especificamente, dos épicos seria discernível na sua própria configuração. Temas, estilo e linguagem denunciariam uma origem remota, com que a produção de evidências empíricas, externas, tornava-se desnecessária. Já no “Prefácio” aos
Fragmentos de poesia antiga, escrito por Hugh Blair,241 tem-se que a mera leitura das composições desnudaria a conjuntura em que foram geradas:
A tradição, no país em que foram escritos, refere-se a uma era das mais antigas. Essa tradição é sustentada pelo espírito e o estilo dos próprios poemas, que abundam daquelas ideias – e pintam aqueles hábitos – que pertencem aos mais antigos estágios da sociedade.242
Quando da publicação de Fingal, expande-se o mesmo argumento para descrever eventuais suspeitas de fraude como desarrazoadas:
Essa ideia poderia induzir alguém, desconfiado de suas habilidades, a atribuir suas composições a uma pessoa, cuja antiguidade remota e circunstâncias, quando viva, poderiam muito bem responder pelas
238 Idem, p. 59-69.
239 Ver GASKILL, Howard. “What did James Macpherson really leave on display at his publisher’s
shop in 1762?”. Scottish Gaelic Studies, v. 16 (1990), p. 67-89.
240
“[…] prejudices of the present age, against the ancient inhabitants of Britain, who are thought to have been incapable of the generous sentiments to be met with in the poems of Ossian” (MACPHERSON, James. “Preface to 1st edition of Fingal”. The poems of Ossian and related works cit., p. 35-36).
241
Cf. BLAIR, Hugh. “Appendix no. IV”. In: MACKENZIE, Henry (coord.). Report of the
Committee of the Highland Society of Scotland cit., p. 57-58.
242 “Tradition, in the country where they were written, refers them to an æra of the most remote
antiquity: and this tradition is supported by the spirit and strain of the poems themselves; which abound with those ideas, and paint those manners, that belong to the most early state of society” (MACPHERSON, James. “Preface”. The poems of Ossian and related works cit., p. 5) (grifo nosso).
falhas que seriam indesculpáveis num escritor desse tempo. Um cavalheiro engenhoso fez essa observação, antes que conhecesse qualquer coisa além do nome do poema épico impresso nesta coleção [Fingal]. Quando ele o leu, sua opinião mudou. Julgou-o abundante daquelas ideias que pertencem somente aos mais antigos estágios da sociedade, para que fosse a obra de um poeta moderno.243
“Falhas indesculpáveis” em escritos contemporâneos são vinculadas às ideias comuns às eras primevas da sociedade. É uma associação em que o arranjo da obra é um meio para se conhecer as circunstâncias em que tal obra foi gerada. O pressuposto, obviamente, é de que o poema é poroso aos estímulos do meio.
Seria errôneo, contudo, afirmar que a postulação de um vínculo entre Fingal e
Temora e o contexto do século III d. C. se esgota em mostras engenhosas de
autenticidade. Nos ditos épicos ossiânicos, a vida nas Terras Altas é o substrato de sua dimensão estética. Não é à toa que o tradutor, nas suas dissertações, muitas vezes substitua suas considerações sobre os méritos de Ossian por arrazoados sobre a sociedade celta. Nos ensaios introdutórios e nas notas de rodapé aos poemas, há comentários sobre os valores dos highlanders, bem como sobre sua religião, língua, clima, sistema jurídico, atividades econômicas e organização política, familiar e social. Muito embora essas intervenções tenham um quê de antiquariato postiço, o elenco não é aleatório. Com efeito, ele contém os elementos que, para os primitivistas, perfazem o que Blackwell chama de Fortuna – e, por isso, prefiguram a criação literária.244
Trata-se a realidade caledônia como contígua ao universo ficcional de Fingal e
Temora. No aparato crítico-editorial, a caracterização heroica das personagens é
examinada com base em dados sociais e antropológicos. Na dissertação a Fingal, afirma-se que a conduta dos antigos escoceses era fortemente influenciada pelos bardos, que comandariam uma espécie de “poetocracia”.245 Numa sociedade iletrada,
243 “This consideration might induce a man, diffident of his abilities, to ascribe his own
compositions to a person, whose remote antiquity and whose situation, when alive, might well answer for faults which would be inexcusable in a writer of this age. An ingenious gentleman made this observation, before he knew any thing but the name of the epic poem, which is printed in the following collection. When he had read it, his sentiments were changed. He found it abounded too much with those ideas, that only belong to the most early state of society, to be the work of a modern poet” (MACPHERSON, James. “Preface to 1st edition of Fingal”. The poems of Ossian and related works cit., p. 35).
244
KERSEY, Mel. “Addison’s Indian, Blackwell’s bard and the voice of Ossian” cit., p. 265-275.
245
Retirei a expressão “poetocracia”, em outro contexto, de CARPEAUX, Otto Maria. História da
eles eram tanto os guardiães quanto os árbitros da memória. Por mais valoroso que fosse um guerreiro, seus feitos seriam esquecidos caso não fossem eternizados em poesia.246 Nenhum temor assombra mais as personagens ossiânicas que o do esquecimento. É o destino reservado aos covardes, aos derrotados na guerra e àqueles que morreram cedo demais.247 Cuchullin, campeão irlandês, teme que o triunfo de Swaran sobre seus homens no campo de batalha o condene ao oblívio:
Lá longe, ignorado do mundo, hei de jazer. Nenhum bardo ouvirá falar de mim. Nenhuma pedra cinza será levantada para meu renome. Pranteia-me com os mortos, ó Bragéla!, [pois] minha fama se foi.248
E Fingal lamenta o fim prematuro de seu filho Ryno, antes de tornar-se renomado: “[...] Ryno, estás mesmo morto. — não recebeste a tua fama. Ullin, tange a harpa para Ryno, conta o que o chefe teria sido”.249 De tal sorte, a maior glória para um guerreiro seria irmanar-se a seus antepassados nas canções dos bardos. É o que se depreende da fala do rei de Morven, ao consolar seu exército após a morte de Oscar, seu neto: “Nossos jovens heróis, ó guerreiros, são como o renome de nossos pais. — Eles lutam na juventude. Eles tombam: seus nomes estão nas canções”.250
Na “Dissertação” que antecede Temora, mobilizam-se com bastante clareza o método analítico de Blackwell e o historicismo de Montesquieu. Defende-se que os tempos primitivos de Ossian são propícios às paixões e às inclinações viris da alma, constantemente defrontada com todo tipo de provação. O resultado dessas provações seria, de acordo com o tradutor, um povo dotado de atributos extraordinários, bastante diversos daqueles dos modernos. Os séculos ditos refinados, argumenta-se, eram marcados pela pusilanimidade. Longe das circunstâncias que demandariam verdadeiras demonstrações de fortitude e mérito, o caráter dos contemporâneos de Macpherson se esconderia atrás de mesuras e afetações, perdendo o viço. As
246 MACPHERSON, James. “A dissertation concerning the antiquity, &c. of the poems of Ossian
the son of Fingal”. The poems of Ossian and related works cit., p. 48-49.
247
Sobre o temor do esquecimento nos Poemas de Ossian, ver STAFFORD, Fiona J. The last of the
race: the growth of a myth from Milton to Darwin. Oxford: Clarendon, 1997, p. 104.
248 “There, far remote, I shall lie unknown. No bard shall hear of me. No gray stone shall rise to my
renown. Mourn me with the dead, O Bragéla! departed is my fame” (MACPHERSON, James. “Fingal: an epic poem”. The poems of Ossian and related works cit., p. 76).
249 “[...] Ryno, thou art low indeed, — thou hast not received thy fame. Ullin, strike the harp for
Ryno; tell what the chief would have been” (idem, p. 93).
250 “Our young heroes, O warriors, are like the renown of our fathers. — They fight in youth; they
fall: their names are in song” (MACPHERSON, James. “Temora: an epic poem”. The poems of Ossian
exigências da vida primitiva, contudo, seriam propícias a um comportamento espontâneo, no qual não se cerceiam as paixões humanas. Como consequência, ter-se- ia uma sociedade livre, cujo comando está invariavelmente nas mãos de seus melhores. Condensam-se essas ideias num trecho lapidar:
As paixões mais nobres da mente nunca brotaram tão livres e irrestritas quanto naqueles tempos que chamamos de bárbaros. Aquele modo de vida irregular e aquelas ocupações varonis das quais a barbárie toma seu nome são altamente favoráveis para uma força de vontade desconhecida em tempos refinados. Numa sociedade avançada, os caracteres humanos são uniformes e encobertos. As paixões humanas se quedam, de certa maneira, ocultas por formas e modos artificiais – e os poderes da alma, sem a oportunidade de exercê-los, perdem seu vigor. Os tempos de hábitos refinados e regulares devem, portanto, ser desejados por aqueles de vontade débil e fraca. Circunstâncias conturbadas – e as convulsões