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5 NORMATIVE CONSIDERATIONS

5.2 Other Normative Considerations

i) para o projecto de EdC

Considerar a expansão de um projecto como a EdC leva-nos a reflectir tanto naquilo que a EdC pode oferecer ao mercado e à sociedade, como a questionar se o seu ideal vai ao encontro do que procura o consumidor e o cidadão no futuro, como ainda posicionar este projecto na realidade socio-económica em sentido amplo.

Assim, para além dos desafios já enunciados atrás, como uma maior ligação com a sociedade civil, melhor explicitação sobre a estratégia aplicada para os lucros doados e um discurso com

mais referências à preservação de todas as formas de vida no planeta, apontamos ainda aqui outros reptos ao projecto de EdC.

 Dada a crescente competitividade global e a importância de novas vantagens comparativas, o domínio das relações interpessoais poderá representar cada vez mais uma vantagem comparativa.

Neste sentido, a EdC pode ser uma experiência com futuro num mundo em que as novas tecnologias cada vez mais substituem o trabalho humano, mas onde o “fim do emprego” não será uma realidade se se considerar que o papel da dimensão interpessoal tem um valor cada vez maior (Bruni, 2003b: 57).

 Por outro lado, como já referimos anteriormente, o cidadão tem cada vez mais a oportunidade de conciliar as suas escolhas económicas com a sua concepção de vida. Embora ainda com uma expressão marginal, prevê-se um crescente espaço para propostas de consumo ético, finança ética, comércio justo, produtos biológicos, entre inúmeras outras. As respostas que têm surgido dentro deste espírito são fruto de uma acção cultural, mas se continuarem a crescer irão cada vez mais orientar a procura.

Neste contexto, a EdC tem pela frente o desafio da comunicação junto de todo o tipo clientes. Ao longo da pesquisa apercebemo-nos de uma cultura organizacional bastante discreta ao nível da divulgação da EdC e de alguma relutância em certificar as empresas de EdC, pelo menos nesta fase.

Está a faltar impacto externo a este projecto, está a faltar comunicação. Talvez se aguardue por uma fase com mais massa crítica. Seria também importante uma maior presença nos

media.

O desafio apresenta-se, assim, na forma de conciliar uma comunicação, que não busca vender a imagem da EdC como estratégia de marketing, com a importância de dar a conhecer o projecto, os seus valores e ideais, contribuindo para uma nova cultura económica e para uma afirmação séria de uma responsabilidade empresarial que deve ser por natureza ética e social.

 Por último, retomamos uma ideia já aflorada em 4.2. sobre a importância que terá para o futuro a forma como as empresas de EdC forem capazes de realizar alianças e promover redes de parcerias com outras experiências que actuem no campo económico e social e que se baseiem em princípios em consonância com os da EdC e, deste modo, alimentar uma

economia civil134, com espaço para empresas de EdC, cooperativas, ONG, empresas de inserção, de economia social, etc., nas quais o elemento da relacionalidade é característico do seu modus agendi. Um desafio interessante não só para a afirmação de uma economia de tipo plural, mas para as próprias empresas de EdC não se isolarem na sua experiência.

ii) no enquadramento político de projectos como a EdC

A EdC é um projecto que contribui para uma nova consciência empresarial que não alinha com fundamentalismos anti-económicos que por vezes surgem em certas franjas do Terceiro Sector e, nesse sentido, testemunha um modo de conjugar competitividade e solidariedade, no respeito por um Desenvolvimento humanizado e sustentável. Pode ajudar a combinar eficiência, rigor e estratégias correctas de gestão e marketing – aspectos por vezes mais difíceis no mundo da economia social - com humanização, personalização e participação. A identificação do valor acrescentado deste tipo de pontes entre dois universos, o económico e o social, como algo que se destaca, que é válido e que tem potencial para promover maior coesão social, revela a importância de um maior enquadramento ao nível das políticas económicas e sociais mais integradas, elas próprias necessitadas destas pontes.

Um outro contributo interessante da EdC é que terá mais facilidade em desligar-se de um certo “localismo” ao qual está frequentemente associada a Economia Social e que de algum modo dificulta a sua expansão, o que confere à EdC outra autoridade nos círculos tradicionais do mundo económico e, consequentemente, poderá abrir novas portas no campo das políticas e da legislação, nomeadamente, por exemplo, no que diz respeito a regras de responsabilidade social das empresas, a políticas de incentivos fiscais e a melhor enquadramento legal de iniciativas do chamado Terceiro Sector.

De facto, o sentido de cidadania empresarial é ainda encarado como facultativo, como acessório. Significa que política e legalmente o progresso social não acompanha adequadamente o crescimento económico e o desenvolvimento, não obstante, as inúmeras iniciativas que vão surgindo. Deixar menos nas mãos do voluntarismo a adesão a certos princípios éticos e práticas de cidadania empresarial é um dos desafios de hoje. Ainda há muitos aspectos que não têm uma obrigação jurídica, de direito legal, mas apenas de direito natural (Gago, 2005: 97).

134 “Entrevista com Stefano Zamagni”, in Movimento dos Focolares, Economia de Comunhão, uma nova

A pressão ética a que cada vez mais assistimos hoje tende a substituir a pressão sindical de outros tempos, até porque o discurso dos sindicatos não parece estar a acompanhar o crescente discurso da RSE. Neste sentido, as políticas públicas são chamadas a dar resposta a novas exigências no campo da responsabilidade empresarial.

Assim, através da visão sobre a realidade económica e empresarial que nos é provocada pela EdC, propomos como principais macro-contributos com vista a um enquadramento político:

Recusa de uma economia tripartida, que arruma de um lado o Terceiro Sector, num conjunto de ilhas de experiências dispersas, ainda que por vezes competitivas entre si e, do outro lado, a economia empresarial e pública mais trabalhadas do ponto de vista teórico

 Maior integração entre o económico e o social, de modo que a equidade e a coesão social estejam inseridos em políticas ex-ante e não ex-post processos produtivos.

 Aposta numa efectiva Economia Plural (Roustang, 1996) que, não recusando o mercado:

- defende que não há um modelo único de concorrência e lucro;

- acredita na coexistência de vários modos de regulação da actividade económica;

- aposta numa economia social cuja razão de ser vai mais longe do que colmatar as falhas do capitalismo ou do que encontrar micro-intervenções criativas, direccionadas para a satisfação de necessidades mais urgentes.

 Inclusão de princípios éticos e da responsabilidade social empresarial em códigos de conduta obrigatórios por lei e maior controlo e sanção para práticas de corrupção, falta de transparência, má fé negocial e contratual, tráfico de influências, evasão fiscal, entre outros.

Portanto, este desafio de promoção de uma outra cultura económica implica um trabalho para além de micro-projectos e obriga a uma actuação organizada sobre as macro-relações e instituições que interagem sobre o conjunto e sobre as políticas, através de acções de

lobbying, sensibilização e formação, seja ao nível do sistema fiscal, das redes de

financiamento, da justiça económica, da representação colectiva, dos sistema de controlo de qualidade, dos sistemas de informação, das redes entre as universidades, os centros tecnológicos e o sector empresarial, etc., de modo a construir redes cada vez mais alargadas de agentes envolvidos, privados ou públicos (Coraggio, 1997: 37).