6.3 Possible Explanations
6.3.2 Other Considerations
Com diferentes formas de aplicação em áreas como jornalismo, psicologia, administração, ciências sociais e história, a entrevista vai além de uma forma eficaz de se obter informações através de questionários, especialmente se a intenção for vivenciá-la não somente como uma técnica, mas também, como uma prática humana. As perguntas e respostas ganham, então, um status dialógico, tornando-se uma experiência comunicativa e quebrando isolamentos sociais (MEDINA, 2001).
Nesse sentido, cria-se uma situação de interação quando os envolvidos se influenciam reciprocamente a tal ponto que as informações, dadas pelo entrevistado, são afetadas pela natureza da relação deste com o entrevistador (DUARTE, 2010). Se isso acontece é porque as duas pessoas experienciaram uma tomada de consciência; cruzaram suas fronteiras e entrelaçaram seus caminhos. Elas não são mais indiferentes.
[...] quando, em um desses raros momentos, ambos – entrevistado e entrevistador – saem ‘alterados’ do encontro, a técnica foi ultrapassada pela ‘intimidade’ entre o EU e o TU. Tanto um como outro se modificaram, alguma coisa aconteceu que os perturbou, fez-se luz em certo conceito ou comportamento, elucidou-se determinada autocompreensão ou compreensão do mundo. Ou seja, realizou-se o Diálogo Possível (MEDINA, 2001, p. 7).
Para vivenciar essa experiência, foi preciso sair da zona de conforto e mergulhar no universo dos moradores do Antônio Bezerra. Conhecer suas famílias e amigos; saber dos seus hábitos, ideias, valores e passados e, ao mesmo tempo, permitir que eles me percebessem como sujeito e não somente como pesquisadora. Entrevistei-os para tentar compreender seus conceitos e trajetórias de vida, tentando ir além da técnica imediatista, ansiando por desvendar o real e quebrar o comportado “espelho das aparências”; tarefa nada fácil “diante da densa textura que é uma pessoa.” (MEDINA, 2001).
56
O diálogo tão almejado entre entrevistador e entrevistado convive, ainda, com a presença oculta de um terceiro interlocutor. Como dizia Jorge Luis Borges31, na entrevista, há
também um “anfiteatro de personas futuras” (VOGEL, 2009). Esse público hipotético sinaliza que a entrevista pode ser compartilhada e indica a existência de “co-enunciadores que não estão presentes e que se posicionam fora do tempo empírico da entrevista, rompendo a privacidade da sala fechada, da conversa que acontece e permanece entre dois.” (VOGEL, 2009, p. 41).
Para entrevistar, é necessário, então, convencer o entrevistado a revelar, a tornar público o que está na esfera do privado (particular). Isso pode gerar resistências, ainda mais quando a proposta é trazer à tona antigas recordações e, com elas, emoções adormecidas ou, antes, ignoradas. Diante disso, a entrevista acontece também no nível da sensibilidade, em um jogo de bloqueios e desbloqueios no qual a empatia entre entrevistado e entrevistador é a primeira ponte a ser construída. Vivi um pouco disso no contato com Viviane Rocha, que administra o BAB junto com Inácio. Alegando timidez, ela relutou em ser entrevistada, preferindo conversar informalmente, e só nos últimos meses de pesquisa é que concordou em responder pelo Facebook algumas perguntas.
Apesar da carga emocional, a entrevista tem finalidades pontuais e específicas, direcionadas pela pesquisa. Ela apoia-se em pressupostos, pois não permite comprovação de hipóteses (típico de pesquisas experimentais e tradicionais), sendo estas substituídas por “um conjunto de conjecturas antecipadas que orienta o trabalho de campo.” (DUARTE, 2010, p. 63). Como técnica qualitativa, explora um assunto, a partir das experiências, percepções e informações coletadas, procurando a “intensidade nas respostas, não-quantificação ou representação estatística.” (DUARTE, 2010, p. 62)32.
No que concerne às estruturas das perguntas, optei por mesclar entrevistas abertas e semiabertas33, privilegiando o primeiro modelo por ser mais flexível e permitir que tanto
perguntas e respostas fossem ajustadas livremente. Inclusive porque perguntar quando for estritamente necessário e fazer isso à medida que as respostas surgissem me ajudaria a criar esse clima de diálogo, tão almejado para aprofundar os assuntos, através da conversação.
31 Um dos maiores escritores do mundo contemporâneo, o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) dedicou-se,
nas últimas três décadas de sua vida, a atender jornalistas de todo o mundo, concedendo “um grande número de entrevistas, que talvez tenha superado o milhar. [...] As entrevistas, que costumavam seguir um ritmo de conversação, reúnem as concepções estéticas do escritor em sua maturidade, refletem seu convívio com a tradição literária, realçam sua autonomia intelectual e contribuem para redesenhar a imagem que se tem de Borges, sua ação no campo literário e sua figura autoral.” (VOGEL, 2009, p. 9).
32 Duarte utiliza o termo entrevista em profundidade, mas prefiro usar somente entrevista, visto que a compreensão
de entrevista como interação social sinaliza que a entrevista, para de fato acontecer como prática humana (como o diálogo possível), já pressupõe que é em profundidade.
57
Apoiei-me, portanto, na entrevista narrativa para a qual “a perspectiva do entrevistado se revela melhor nas narrativas em que o informante usa uma linguagem própria e espontânea.” (BAUER; GASKELL, 2000, apud BASTOS, 2008, p. 51).
Por fim, o uso da memória na estratégia metodológica me direcionou até as especificidades da entrevista de história oral que traz as significações do passado, com base na
experiência concreta, histórica e viva [...] transformada em expressão do humano. [...] (p. 22). [...] Como em um filme, a entrevista nos revela pedaços do passado, encadeados em um sentido no momento em que são contados e em que perguntamos a respeito. Através desses pedaços, temos a sensação de que o passado está presente (ALBERTI, 2004, p. 15).
Evidencia-se, aqui, o processo de exclusão que é próprio do contar histórias, pois a narrativa de um acontecimento se dá pela exclusão e ordenamento dos fatos segundo o sentido que se quer dar à história, bem como, a impossibilidade de se restituir plenamente a realidade, que de tão complexa e escorregadia, escapa-nos. Apesar disso, sem as narrativas provocadas pelas entrevistas, muitas histórias se perderiam no esquecimento ou permaneceriam inacessíveis a um público mais amplo.
Durante as entrevistas que realizei, procurei ser testemunha das interpretações e representações sobre o vivido expressas na narrativa dos meus interlocutores, que se manifestavam de forma particular. Essa unicidade é que dá uma cor própria ao passado, e que torna cada interlocutor “um indivíduo único e singular [...] um sujeito que efetivamente viveu – e, por isso, dá vida a – as conjunturas e estruturas que de outro modo parecem tão distantes.” (ALBERTI, 2004, p. 14).
Mas, embora tenha apostado na força da narrativa como o fio condutor para os relatos de memória, entender que a entrevista se ampara na linguagem verbal trouxe à tona uma preocupação. Como infere Morin (1973, apud MEDINA, 2001, p. 11), “a entrevista, evidentemente, se funda na mais duvidosa e mais rica das fontes, a palavra. Ela corre o risco permanente da dissimulação ou da fabulação.”.
Por isso, fiquei atenta não somente ao conteúdo, mas também aos processos de enunciação inerentes aos processos de produção, às condições materiais, e que também estão interligados ao contexto da entrevista. Logo, observava o lugar, o ambiente da entrevista, os silêncios, gestos do entrevistado, a interação deste comigo e, quando havia, com outras pessoas presentes. Mas também, estava atenta aos papéis sociais dos entrevistados, que fui identificando enquanto eles falavam sobre suas famílias, profissões e táticas de sobrevivência.
Por entender que a entrevista não é somente um relato do que passou, muitas vezes, prestei “[...] mais atenção aos ‘acontecimentos’ e às ‘ações’ da entrevista, ao trabalho da
58
linguagem em constituir realidades e ao trabalho de enquadramento da memória” (ALBERTI, 2004, p. 10). Visto que ela é também um resíduo de ação, pois permite que se documentem as ações de constituição de memória, desencadeadas ao se construir o passado de uma forma e não de outra.
Entretanto, sob o risco de cair no relativismo, procurei não perder de vista a noção de que a entrevista de história oral é documento sobre o passado. É uma fonte – como são os documentos escritos, notícias, livros, diários, cartas etc. – que precisa ser checada, interpretada e questionada. Por se apresentar como concepções do passado, através de sequências narrativas, ela deve ser entendida na relação entre o sentido que as narrativas produzem e a forma com que são narrados os fatos.
Por fim, não perdi de vista o fato de que eu vivenciava, junto com meu interlocutor, os processos de construção e escuta das narrativas que nos levavam àquelas interpretações e representações que surgiam. Minha proposta era de que a entrevista não fosse somente uma técnica para obter informações, mas que se tornasse uma atividade interacional na qual os envolvidos construiriam juntos uma versão do mundo; e avalio que consegui. Diante disso, os pressupostos da comunicação que compreendem os discursos acabaram por variar de uma versão representacionalista para uma processual, dinâmica, em que pelo menos dois interlocutores (eu e cada entrevistado) atuaram na formatação discursiva.
Afinal, a entrevista,
se tomada como meio de coleta de dados, em que o entrevistador fica numa posição de apagamento, a entrevista recorre a uma concepção “representacionalista” do discurso, isto é, o discurso é visto como um produto estabilizado, capaz de transmitir informações de modo neutro e transparente. Por outro lado, se considerada como atividade de co-construção de um modelo público de mundo, o discurso passa a ser concebido como processo dinâmico, no qual a atenção se desloca da simples busca de relação entre as palavras e as coisas para a emergência de um trabalho de negociação, de construção interativa, de colaboração coletiva (VOGEL, 2009, p. 55-56).
Infere-se, portanto, que “mesmo que o entrevistador fale pouco, para permitir ao entrevistado narrar suas experiências, a entrevista que ele conduz é parte de seu próprio relato – científico, acadêmico, político etc. – sobre ações passadas, e também de suas ações.” (ALBERTI, 2004, p. 34). Consequentemente, por mais que haja um distanciamento no lidar com o entrevistado, não é possível evitar “a interferência do eu subjetivo do entrevistador” (MEDINA, 2001, p. 44) [grifo no original]. Diante disso,
59
José Bleger34 enfatiza [...] o papel do observador participante (entrevistador) e a
presença decisiva de sua personalidade, desmistificando, com isso, a pretensa objetividade de quem pergunta ou encaminha conversação, ou ainda de quem ouve as respostas do entrevistado. [...] o entrevistador deve investir, de imediato, na própria personalidade para saber atuar numa inter-relação criadora (MEDINA, 2001, p. 10). Daí, a aproximação de minha pesquisa com a observação participante na qual a minha condição de investigadora – com minha consciência e subjetividade – foi parte integrante do processo, colocando em xeque a objetividade tão apregoada no campo científico.