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Em eventos da prefeitura de Fortaleza onde eu trabalhava como assessora de comunicação da Semas, conheci Inácio Rocha, idealizador e produtor do site BAB. Eu o via com frequência, cobrindo as atividades da Secretaria e outras de âmbito mais geral quando ele

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sempre se apresentava como “do site do Antônio Bezerra”. Isso me chamava atenção, porque, na maioria dos eventos, Inácio era o único comunicador, sem vínculo com empresas de comunicação, fazendo cobertura.

Na época, a gestão municipal da então prefeita Luizianne Lins incentivava grupos de comunicação popular, alternativa e comunitária da cidade, através de formações, apoios institucionais e parcos financiamentos. Havia o Núcleo de Comunicação Popular Alternativa20,

ligado à Coordenadoria de Comunicação Social da Prefeitura de Fortaleza, que centralizava as ações e costumava orientar os assessores de imprensa e de comunicação da Prefeitura a tratar da mesma maneira os jornalistas da mídia e os comunicadores.

Isso significava fazer clipagem21, mandar releases22 e atender as demandas por

informação desses veículos com o mesmo profissionalismo usado no trato com a mídia. Assim, fui me aproximando de Inácio (e de outros comunicadores) e passei a ler com frequência o site BAB. Ainda sob essa orientação, a Semas foi uma das secretarias a realizar, em parceria com a Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária - Seção Ceará (Abraço-Ce), uma formação para comunicadores populares.

Idealizada pelo Núcleo e pela Abraço-Ce, a formação consistia em vários minicursos práticos que mesclavam as técnicas de produção radiofônica a informações sobre os programas, projetos e ações da secretaria que promovia a oficina. Assim, a “Oficina de Rádio Educativo-Popular para comunicadores populares de Fortaleza (CE)”, promovida pela Semas, foi realizada em dois dias (19 e 26 de novembro de 2010) na Faculdade Sete de Setembro (FA7), onde o jornalista e presidente da Abraço-Ce, Ismar Capistrano Costa Filho, era professor23.

Na ocasião, representei a Secretaria e fui uma das mediadoras, ministrando algumas técnicas de rádio para um grupo com cerca de 30 comunicadores, ligados a rádios comunitárias,

20 Uma ação de grande envergadura do Núcleo foi a promoção e articulação da I Conferência Municipal de

Comunicação, em 16 e 17 de outubro de 2009. A conferência envolveu mais de 20 entidades entre ONGs; rádios comunitárias e educativas; sindicato dos jornalistas; entidades estudantis; além de mandatos parlamentares e outros militantes pela democratização da comunicação. Antecedida por uma série de encontros preparatórios, a etapa de Fortaleza aprovou propostas e elegeu delegados para a conferência estadual, sucedida pela conferência nacional, realizadas, respectivamente de 20 a 22 de novembro e de 14 a 17 de dezembro do mesmo ano.

21 O clipping (ou clipagem) é uma ferramenta estratégica da assessoria de imprensa que serve para monitorar e

selecionar informações, divulgadas na mídia, que tenham ligação com o assessorado.

22 Texto jornalístico que é distribuído à imprensa como sugestão de pauta para futuras matérias.

23 A gestão municipal transitava entre duas concepções que, muitas vezes, mostraram-se conflituosas. O

entendimento de que o poder público, em prol da democratização da comunicação, deveria fomentar experiências comunicativas que não seguissem a lógica do mercado; e o interesse de que tais experiências pudessem ser aliadas da gestão. Nas formações aqui citadas, por exemplo, a possibilidade de aqueles comunicadores divulgarem as ações da Prefeitura serviu como argumento para que os secretários municipais acatassem a proposta das oficinas, viabilizando-as financeiramente. Apesar disso, não havia nenhuma formalização dessa contrapartida, pois o grupo diretamente envolvido com o Núcleo de Comunicação Popular entendia que seria papel da administração pública fomentar formações técnicas que pudessem contribuir com aquelas experiências comunicativas.

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radioescolas, webradios, blogs, sites, portais e jornais impressos. Em conversas informais durante o evento, acabei por saber, muito vagamente, da existência de uma rádio comunitária no Antônio Bezerra, a Costa Oeste FM 87,9. Fiquei curiosa e guardei a informação, pois um bairro de periferia com um site e uma rádio é algo raro em Fortaleza.

Uns meses antes, em setembro, eu havia participado do 1º Encontro de Sites de Bairro de Fortaleza24, como palestrante e representante da Prefeitura. O encontro contou com a

participação dos bairros Álvaro Weyne, Centro, Ellery, Genibaú, João XXIII, Messejana e Monte Castelo. Além do integrante do Blog Jangadeiro Comunidade, do Sistema Jangadeiro de Comunicação, que na época mantinha uma proximidade com aqueles sites. Com o tema “O Papel social do site como Ferramenta de Comunicação Popular Alternativa”, o encontro era uma tentativa de organização dos sites de bairro de Fortaleza, que totalizavam onze.

Defensora que sou da comunicação popular, eu vi naquele encontro a chance de fortalecer o movimento pela democratização da comunicação. Aquela efervescência e tantas outras ações, como a I Conferência Municipal de Comunicação, que reuniu muitos comunicadores populares um ano antes, apontavam Fortaleza como um profícuo cenário para experiências comunicativas, distanciadas da lógica mercantil.

Mas, algumas coisas me intrigavam. Entre elas, a percepção de que alguns comunicadores, principalmente os ligados à internet – mesmo se intitulando populares – usavam seus blogs, sites e portais como fonte de renda e boa parte daquelas experiências não se ligavam a movimentos populares. Aquela situação confrontava-se com a definição de comunicação popular como expressão das classes “subalternas”, diante de um “processo de luta de classes” (PERUZZO, 2006) que se realizaria “na própria dinâmica dos movimentos populares de acordo com as suas necessidades.” (PERUZZO, 2004, p. 115).

Apesar disso, eram experiências que de algum modo se colocavam em oposição “ao modelo massivo em poder das classes dominantes, o qual é encarado como impositivo, alienante ou pervertedor dos interesses populares.” (PERUZZO, 2004, p. 128). Havia nelas fagulhas de resistência ao poderio midiático e isso não poderia ser ignorado.

O empírico me mostrava também que as redes cibernéticas possibilitavam uma conexão entre diversos atores sociais os quais se apropriavam das tecnologias digitais como instrumentos competentes na construção de representações sobre si e sobre a sociedade na qual

24 O encontro foi promovido pelo produtor do site Genibaú e funcionário da UFC, Cleber Freire Aragão; e realizado

em 5 de setembro de 2010 no auditório do Serviço Social do Comércio (SESC), sede localizada na avenida Duque de Caxias, no Centro de Fortaleza. Minha palestra tinha como tema “Da sociedade da informação à sociedade do conhecimento: reflexões sobre os processos comunicativos”.

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estavam inseridos. Até então ocultados dos processos democráticos, eles se somavam, agora, a grupos historicamente legitimados pelo Estado na condição de cidadãos. Fortaleza era realmente um terreno fértil. Havia apoio do poder público municipal, experiências desenvolvidas por organizações da sociedade civil e iniciativas individuais.

Por outro lado, a enxurrada de experiências comunicativas, impulsionadas pelas tecnologias digitais, colocava em evidência a necessidade de revisitar de forma mais acurada as conceituações de comunicação popular, alternativa e comunitária, como propunha Peruzzo (2006). Nesse cenário, outro ponto que aguçava meu olhar investigativo era a aproximação quase harmônica entre os sites de bairro e o Blog Jangadeiro Comunidade que, apesar do nome, fazia parte de um conglomerado de comunicação.

Em 2011, tentei a seleção do mestrado para o PPG-COM/UFC. Queria estudar as aproximações e distanciamentos entre os discursos das notícias produzidas pelos sites de bairro e as produzidas pela mídia, tendo como objeto de estudo o Blog Jangadeiro Comunidade e os sites do Álvaro Weyne, Messejana e Antônio Bezerra. Mas, a proposta não encontrou eco no Programa. Guardei o sonho e segui como professora de Jornalismo e assessora de comunicação. Já em 2012, com novo objeto de estudo, tentei, com êxito, a seleção para o mestrado no mesmo Programa.

Meu novo projeto se distanciou do jornalismo e enveredou pelo campo da comunicação popular, alternativa e comunitária. No início, tinha como principal objetivo analisar pontos de intersecção e divergência entre os conteúdos publicados e as rotinas de produção do site BAB e da rádio Costa Oeste 87,9 FM. Para assim, discutir a relação que tais veículos mantinham com o que se conceitua por comunicação popular e comunitária, observando, ainda, as convergências tecnológicas e culturais entre eles e destes com os moradores do bairro.

De lá para cá, o projeto sofreu significativas alterações. Mas, um ponto se manteve: o Antônio Bezerra como locus da minha pesquisa. Nessa época, eu já sabia que além do BAB e da Costa Oeste (que também possui um site), havia o Jornal Popular. Antônio Bezerra em destaque, impresso criado por Totonho Carneiro (dono da Max Ótica e candidato a vereador, derrotado na eleição de 2012). Já sabia também que antes tinha existido no bairro a Rádio Comunitária Antônio Bezerra 103,5 FM25, comandada por Rondinelle Mendes, também

candidato a vereador, derrotado. Atraía-me a ideia de conhecer mais amiúde aquele bairro com

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um pouco mais de 2 km2 e quase 26 mil habitantes; e que acumulava experiências de

comunicação.

Junto a isso, as disciplinas do PPG-COM que cursei foram decisivas para as alterações que minha pesquisa sofreu, ao revitalizarem temas familiares a mim.

– A comunicação como mediação sociocultural, a partir da concepção de que a cultura é palco de negociações e conflitos que não se dissociam das condições materiais. Afinal, a posição social do indivíduo ou grupo gera um tipo próprio de consciência, uma maneira específica de representar e de (re)criar sistemas de significados. Gera um tipo próprio de cultura, entendida como “o agir e interagir de sujeitos sociais, como uma linguagem, articulação de significados.” (LEAL, 1986, p. 14). Mais do que um produto, a cultura seria o “processo de sua constante recriação num espaço socialmente determinado.” (MAGNANI, 2003, p. 26).

– A possibilidade do encontro, através da vivência na pesquisa de campo. Haja vista a preocupação em não se perder em apriorismos, dada a complexidade da realidade que é sempre mais rica do que o conhecimento, do que a síntese humana possa alcançar. Reconhecer a existência do novo como uma constante obrigou-me, diante do desafio de compreender a realidade, a não cristalizar meus pensamentos, valorizando o diálogo entre a empiria e os referenciais teóricos.

Foram também muito caras as disciplinas que fiz nos programas de pós-graduação da Educação, Sociologia e História, pois me despertaram para temas que até então eu não havia sequer pensado. Destaco a relação entre indivíduo e cidade, especialmente diante das metrópoles; os usos e abusos da memória e sua relação com a construção de si. Além da possibilidade de vislumbrar como objetos de estudo as redes e processos ao invés das tentativas de representação da realidade, tão presentes na ciência moderna.

Os diálogos interdisciplinares também me ajudaram a aprofundar as discussões sobre as estratégias discursivas do poder; a inerência entre enunciações, condições materiais e produção de sentidos; e o materialismo histórico e dialético. Reflexões que venho amadurecendo em minha vida acadêmica e que já encontraram lugar junto à minha visão de mundo. Entretanto, a observação direta durante as visitas ao Antônio Bezerra, associadas às primeiras entrevistas com moradores e comunicadores e às conversas informais que tive pelo Facebook ou enquanto caminhava pelo bairro foram cruciais na guinada que dei com a minha investigação.

Apesar de ter andando por todo o bairro, concentrei-me em um polígono que envolvia a Mister Hull e as ruas (paralelas a ela) Martins Neto e Professor Leite Gondim; a

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Perimetral (avenida Coronel Matos Dourado) e as ruas Dr. Vale Costa, Hugo Vitor, Perdigão Sampaio e Salgado Filho (figura 1).

Figura 1 – Mapa do bairro Antônio Bezerra

Fonte: Google Maps, 2015.

Nesse território, concentra-se boa parte da rede de serviços do bairro: posto de saúde, delegacia, banco, cartório, mercearias, lojas, igrejas católica e evangélica, campo de futebol, escolas, clubes, bares, lanchonetes, restaurantes etc. É onde acontecem as feiras aos domingos (a livre e a “dos cacarecos”) e se localiza a rádio Costa Oeste 87,9 FM. Lá, mora ainda boa parte dos meus entrevistados, entre eles, Inácio Rocha (a “sede” do BAB).

Nesses contatos, constatei que, apesar dos seus quase 26 mil habitantes, havia ali um clima de familiaridade muito forte. Deduzi que fosse pela predominância de famílias que moram no Antônio Bezerra há gerações. Com exceção da Mister Hull – que tem todas as características de uma grande avenida –, a atmosfera por onde passei era de “cidade do interior”. Sensação reforçada pelas falas dos meus interlocutores que, em várias ocasiões, fizeram essa referência. Identifiquei ainda contradições e dificuldades típicas de um bairro na periferia de uma metrópole, como é Fortaleza.

Ao mesmo tempo, porém, não consegui dimensionar – nem nas falas dos meus interlocutores, nem nas minhas andanças pelo bairro – os limites da comunidade tão citada pelos comunicadores que entrevistei. Lembrei que a heterogeneidade das experiências comunicativas que não seguem a dinâmica dos meios de comunicação comerciais faz com que

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elas tenham distintas interpretações do que seja comunidade. Como sinaliza Matos (2011, p. 20-21),

as radiocom compreendem o tipo de comunicação que produzem e sua relação com os ouvintes a partir da ideia de comunidade. Amparadas nessa noção e no que ela significa, elas constroem uma autodefinição do que seja uma emissora comunitária. [...] E nesse ambiente o termo comunidade aparece com um sentido político.

A autora se refere às rádios comunitárias, mas é possível estender essa reflexão às demais experiências comunicativas. Ademais, diante das discussões motivadas pelo sentido de comunidade em pesquisas que abordam a temática e nas práticas do cotidiano, é possível dizer ainda que “há modos de pensar e dar sentido à comunidade que se diferenciam e se modificam a partir dos lugares nos quais os sujeitos se posicionam.” (MATTOS, 2012, p. 22). Com essa compreensão, passei a não ver muito nexo em discutir as experiências do BAB e da Costa Oeste sob a categoria comunidade, apesar de não abandonar por completo essa discussão.

Outro aspecto considerado foi que, ao conhecer um pouco mais da trajetória e da dinâmica da Costa Oeste e do BAB, percebi que seria infrutífero tentar enquadrá-los nas tradicionais conceituações de comunicação popular, alternativa e comunitária. O site, apesar de ter colaboradores e de receber sugestões de moradores, é produzido por um casal que nem ao menos participa de algum movimento popular ou organização política. Além disso, ele se tornou fonte de renda da família.

Na emissora, mesmo com uma licença de rádio comunitária e uma associação que responde legalmente por ela, não consegui identificar uma organização comunitária efetivamente comandando a Costa Oeste, inclusive, porque ficou difícil delimitar a comunidade da rádio por ser o Antônio Bezerra um bairro tão diverso e pelo alcance da emissora que chega a bairros vizinhos.

Da trajetória da Costa Oeste, o pouco que apreendi me mostrou ainda o mal estar, entre comunicadores do bairro, sobre o fato de a rádio ter sofrido interferência do vereador Adail Júnior entre os anos 2009 e 2012. Esse mal estar, por exemplo, causou o distanciamento entre a Costa Oeste e o BAB, pois a emissora, segundo Inácio Rocha, tem objetivos bem diferentes do seu que é de ser “a favor da comunidade”. Além do mais, os entrevistados quando perguntados sobre a emissora, aqueles que lembravam se referiam ora ao “programa do Rondinelle” ora à primeira emissora que ele dirigiu, a Rádio Comunitária Antônio Bezerra 103,5 FM e que foi também a radiocom pioneira no Antônio Bezerra.

Por outro lado – mantidas as diferenças –, o site e a rádio apresentam-se como uma comunicação alternativa ao massivo comercial. Eles veiculam conteúdos que valorizam o

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Antônio Bezerra, não objetivam o lucro e possuem características de gestão que os distanciam da mídia comercial. Essas contradições só fortaleceram a minha visão de que fixar minha análise nas experiências comunicativas do Antônio Bezerra para saber se são genuinamente populares e/ou comunitárias é ignorar que as vivências em comunicação têm particularidades muito extensas e que o poder embrenhado nessas relações é cheio de matizes e variações.

Tomei, então, para mim, a crítica de Malerba (2008, p. 2-3), para quem

[...] grande parte dos pesquisadores que se propõem a refletir sobre comunicação comunitária é motivada por uma inquietação expressa quanto à situação de desequilíbrio de forças no cenário midiático. [...] ávidos por uma espécie de tábua de salvação midiática, passam a tratar a mídia comunitária a partir de um modelo idealizado. [...] O resultado desse tipo de linha de análise é quase sempre binário: ou o veículo em questão se apresenta como um genuíno exemplar de mídia comunitária ou deve ser banido ou condenado por representar sua apropriação abjeta.

Nesse sentido, é até importante encontrar as conexões que o site e a rádio possam ter com a comunicação popular, alternativa e comunitária, e também com a mídia comercial. Não para dar um veredito sobre o que seriam essas duas experiências, mas para tentar compreender a dinâmica de ambas e como elas contribuem na produção de sentidos sobre o bairro. Por fim, outro elemento que chamou minha atenção foi a afetuosidade recorrente nas falas dos meus entrevistados quando eles falavam sobre o Antônio Bezerra. Isso me levou a pensar sobre que bairro é esse e que representações seus moradores guardam dele e, por conseguinte de si e dos outros. Estavam postos cenário e problematizações que definiriam a minha investigação.