2 PERSPECTIVES ON SOCIAL MOVEMENTS: THEORETICAL FRAMEWORK
2.4 P OST -‐ STRUCTURAL PERSPECTIVE
O mapa da distribuição de renda pelos distritos da cidade de São Paulo enriquece a análise esboçada acima, revelando que existe uma relação direta entre os níveis de rendimento, a valorização do espaço urbano e a localização das moradias. As classes sociais de renda elevada concentram-se majoritariamente na região do centro expandido, ao passo que as classes sociais de renda inferior vão localizar-se nos bairros periféricos, onde o preço do solo urbano é mais compatível com a sua condição social. O mapa ainda revela que existe uma distribuição gradativa das diferentes faixas de renda (como em círculos ou anéis concêntricos) a partir dos bairros residenciais elitizados do centro da cidade. Os níveis de maiores rendimentos são envolvidos pelos níveis de menores rendimentos gradualmente, sobretudo quando se traça um horizonte que parte da região central em direção às regiões leste ou sul. Corrobora fortemente com a constatação da elevação dos antigos bairros de periferia à condição de espaços de valorização formal e recentemente de habitação das classes médias. A região correspondente ao vetor sudoeste de expansão das atividades do terciário moderno, que envolve bairros como Pinheiros e Jardins em direção a Santo Amaro, é a que possui maior renda média familiar. O distrito do Morumbi, também localizado na região sudoeste de São Paulo, é o que apresenta a maior concentração de famílias com renda acima de 20 salários mínimos.
Mapa 3.4 – Renda média familiar por distrito municipal – 2000.
Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2000.
Os mapas não revelam, contudo, a dinâmica dos processos de valorização do espaço urbano e da distribuição de renda. Eles são uma “fotografia” do espaço num determinado momento. Acreditamos que as análises realizadas anteriormente sobre a reprodução das relações de produção, a reestruturação produtiva e seus impactos no mundo do trabalho e na produção do espaço ajudam a entender (apesar de não
esgotarem o assunto) numa perspectiva dinâmica as questões da valorização do espaço urbano e da distribuição de renda.
Pudemos verificar que existe uma tendência consolidada de deterioração salarial da classe trabalhadora ao longo das últimas décadas do século XX e começo do atual. Também apontamos brevemente que a produção do espaço, em meio a uma metrópole marcada pela raridade do espaço, coloca-se como um dos negócios modernos mais vantajosos e lucrativos, atraindo grande parte dos investimentos do capital financeiro, incrementando a valorização não apenas dos locais diretamente afetados, mas de uma vasta região do entorno. A tendência do espaço urbano a médio e longo prazo é de valorização certa, sobretudo na extensa região que faz parte do centro expandido (que inclui os antigos bairros de periferia), que cada vez mais abrigam as classes médias e mesmo grande parte das atividades do setor terciário em expansão. A valorização do espaço também verifica-se nas áreas de periferia de ocupação mais recentes, sobretudo na medida em que elas recebem investimentos em infra-estruturas, incorporam atividades e serviços urbanos (como os pequenos centros comerciais e de serviços locais), redefinindo uma pequena divisão social do espaço mesmo em bairros de periferia distantes.
Percebe-se que a junção contraditória entre a valorização capitalista do espaço, por um lado, e a deterioração das condições da classe trabalhadora, por outro, são talvez alguns dos principais ingredientes que se colocam como fundamentos da segregação sócio-espacial e também da deterioração ambiental das áreas de mananciais. Qualquer forma de representação da questão
dos mananciais que não levar em consideração essas questões fundamentais, que estão atualmente na origem dos processos que induzem a ocupação dessas áreas pela população empobrecida, coloca-se como discurso ideológico de validade científica contestável. Mesmo a utilização de uma grande quantidade de mapeamentos da situação de precariedade sócio-espacial e de dados estatísticos sobre o perfil social predominante nessas áreas, não deve fazer confundir esses estudos como sendo uma abordagem crítica. A grande parte dos relatórios técnicos e institucionais sobre a problemática diz ter uma preocupação ampla e estar considerando todas as dimensões envolvidas no processo (carência de habitações, problemas de saneamento básico, “exclusão social”, especulação imobiliária, falta
de atuação fiscalizadora efetiva por parte do poder público, etc.). Mas isso não as isenta de realizar uma representação dualista (de um lado os impactos ecológicos e do outro a crise social que não é entendida como produto da acumulação) e não desvendar as contradições que se colocam na base de todo o processo. Colocam-se muito mais como aperfeiçoamento da ideologia da burocracia estatal e pela manutenção das relações de produção.
Ainda iremos desenvolver uma outra frente de análise que corrobora com as tendências de continuidade da ocupação das regiões de periferia como tendência de reprodução do espaço urbano da metrópole, induzida pelas contradições da raridade do espaço, da valorização e especulação imobiliária e pela precarização das relações de trabalho. De certo modo também enriquece a hipótese de que os antigos bairros operários de periferia do século passado foram “incorporados” pela cidade, manifestando os processos que ocorrem na região do centro.
Coloca-se como característica da urbanização de São Paulo, já de forma consolidada, um movimento de esvaziamento demográfico da região do centro expandido e de alguns bairros vizinhos que perfaziam a antiga periferia (do período de industrialização leve e pesada), já completamente tomados pelos processos de valorização imobiliária. Em contraposição, os bairros de periferia mais distantes e mesmo os municípios vizinhos crescem a taxas elevadas.
A ampla região antigamente caracterizada pela “cidade de bairros” (SEABRA, 2004), localizada, sobretudo na região entre os rios Tietê, Pinheiros e um pouco além do rio Tamandateí, além de seus entornos mais imediatos, vem apresentando taxas negativas de crescimento demográfico já desde os anos 80, enquanto nas periferias mais distantes e municípios vizinhos verifica-se processo inverso. Trata-se de um esvaziamento generalizado entre as diferentes classes sociais, realizado tanto pelas classes média e alta em direção aos “novos subúrbios” de condomínios fechados, com localização distante ao centro expandido - motivados pelo marketing da qualidade de vida financiado pelas corretoras e construtoras imobiliárias, quanto pela população mais pobre, que não pode manter-se nas áreas centrais devido aos custos elevados promovidos pela especulação imobiliária e pelos impostos.
O mapa 3.5 adiante apresenta alguns dados que quantificam e espacializam o processo de esvaziamento da região central da cidade de São Paulo e o maior crescimento dos distritos periféricos. Praticamente toda a região entre os rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, além do seu entorno mais imediato, apresentaram taxas negativas de crescimento demográfico ao longo da última década. Distritos como os de Pinheiros, Sé, República, Liberdade, Vila Mariana, Moema, Perdizes, Barra Funda, Morumbi, Bom Retiro, Brás, dentre outros, apresentaram decréscimo populacional na última década, ao passo que nos distritos periféricos, como nos casos de Parelheiros, Grajaú e Cidade Tiradentes, o crescimento populacional esteve entre 5,01 e 10 % ao ano.
Mapa 3.5 – Crescimento demográfico de São Paulo segundo os distritos: 1991/2000.
Outro aspecto que chama atenção no mapa é que os antigos distritos de periferia do período da industrialização, hoje como bairros de classe média consolidados, como nos casos da Vila Prudente, Vila Maria, Vila Guilerme, Vila Matilde, Vila Formosa, Carrão, Penha, Jaçanã, Santana, Mooca, Belém, Tatuapé, Ipiranga e Santo Amaro, dentre outros, também apresentaram taxas de crescimento populacional negativas ao longo da década passada.
O caráter contraditório desse processo é que, enquanto a extensa região entre os rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, além do seu entorno mais imediato, são as que apresentam a maior concentração de infra-estruturas de uso coletivo instaladas, bem como de edifícios (que passam por um processo de substituição dos antigos usos residenciais pelos usos comerciais e de serviços), perdem população, nas periferias urbanas distantes, onde verifica-se um adensamento crescente de população, existe um déficit de infra-estruturas e de serviços de uso coletivo muito grandes, sobrecarregando ainda mais esses serviços públicos já escassos em bairros distantes e menos valorizados.
É importante frisar que o fenômeno por hora em avaliação envolve toda a Região Metropolitana de São Paulo. Os municípios vizinhos da capital também crescem de população a taxas superiores ao município de São Paulo, sobretudo aqueles que são cortados pelas grandes vias de circulação rodoviária que partem da capital em direção ao interior, nas regiões leste, noroeste e sudoeste da metrópole.
Mapa 3.6 - Crescimento demográfico da Região Metropolitana de São Paulo: