3 ANALYTICAL APPROACH
3.1 P ARAGUAY
Apesar da ocupação urbana da área da bacia ser realizada predominantemente pela população de baixa renda, através de formas de produção do espaço que envolvem a autoconstrução das moradias, comércio imobiliário através de loteamentos irregulares e clandestinos, ocupação de áreas de risco e favelas, etc., ela também envolve a presença de segmentos das classes sociais mais abastadas. Existe um processo muito nítido de valorização do espaço da bacia da Guarapiranga para as finalidades de uso residencial de padrão médio e elevado e para as atividades de lazer. Mais ao sul da represa, nos distritos de Parelheiros e Marsilac e nos municípios de Embu-Guaçu e Itapecerica da Serra também se verifica uma grande utilização do espaço por atividades agrícolas do setor hortifrutigranjeiro. A maior parte da área de mananciais ainda é composta por matas e áreas agrícolas.
Figuras 10 e 11. Uso misto da área de mananciais da Guarapiranga: na primeira foto o clube de golfe alerta que os não pagantes não são bem-vindos na propriedade particular (de interesse social). Na segunda fotografia cultivo de hortaliças, nas margens da Estrada do Jaceguava, no Parelheiros.
Figuras 12, 13 e 14. Imagens do Parque da Várzea do Embu-Guaçu, criado na década de 90 como parte do Programa Guarapiranga, financiado pelo Banco Mundial. O rio Embu-Guaçu (fotografia do meio), é um dos principais afluentes da represa. Município de Embu Guaçu.
Existem fragmentos da bacia que são completamente ocupados por condomínios residências de alto padrão, muitos deles bloqueando o acesso às águas da represa e fazendo das margens a sua “prainha” particular, localizados principalmente na margem esquerda, no bairro Riviera Paulista e seu entorno. O acesso a esses espaços é reservado apenas aos moradores dos condomínios fechados, ou aos que disponibilizam de lanchas e outras embarcações leves de lazer e podem cruzar as águas da represa de um lado ao outro. Na margem direita, a avenida Robert Kenedy coloca-se como uma das principais vias de circulação local da região. Ela segue beirando boa parte da represa (no distrito da Capela do Socorro) e concentra uma grande variedade de restaurantes, clubes náuticos, casas noturnas e serviços de lazer aquático, como passeios de escuna e locação de equipamentos como jet-skis. Esse lado da represa, em perímetro urbano consolidado, ainda conta com a presença de um parque linear público e com a “Praia do Sol”, que é um balneário popular freqüentado por moradores de classe baixa. O balneário é bastante utilizado por famílias da região. Em dias de forte calor
chega a ser difícil achar um espaço em meio de tanta gente que disputa o frescor da água.
Figuras 15 e 16. Vista geral das residências localizadas no “lado restrito” da represa, na Riviera Paulista. O padrão de uso do solo envolve lotes grandes, arborizados e com residências com um padrão construtivo elevado. Fonte: Sampa Online, 2004.
No mês de janeiro de 2009 a Revista Veja imprimiu uma edição com uma matéria de capa destacando algumas potencialidades e práticas realizadas na represa, como nos casos das diferentes modalidades de lazer e esportes aquáticos possíveis de ser praticados e também sobre a qualidade de vida invejável de quem vive na parte isolada da represa:
O bairro da Riviera Paulista é um dos exemplos de ocupações que convivem bem com o meio ambiente. Em suas ruas e ladeiras de terra e pedregulho, cercadas por árvores que ultrapassam os 20 metros de altura, é possível ouvir o canto de pássaros ou trotar de cavalos. Não há prédios, e as residências mais se parecem com sítios e casas de veraneio. Na garagem de muitas delas, é comum barcos ou jet-skis dividirem espaço com automóveis. “Há imóveis de até nove dormitórios à venda por 1,7 milhão de reais”, diz o corretor João Fernandes Colliers Filho. “Uma construção nesse padrão vale três vezes mais em bairros como o Morumbi”. O preço médio do metro quadrado ali é de 200 reais, que varia conforme a distância em relação à represa e a topografia do terreno.
Com o formato de uma península, a Riviera é um oásis ao qual se chega depois de percorrida toda a Avenida Guarapiranga, que atravessa os distritos de Jardim Ângela e Jardim São Luís. Tem apenas uma via de acesso, vigiada por uma guarita. Seguranças particulares, bancados pela associação de moradores, fazem ronda dia e noite e garantem atualmente o sossego. “Há dez anos, minha casa foi assaltada quatro vezes”, conta o publicitário Carlos Alexandre Sampaio, morador do bairro desde 1981. “Mas em que outro local eu poderia pilotar meu jet-ski ou praticar wakeboard antes de sair para o trabalho?” (VEJA, 2009, pp. 27-28, grifos nossos).
Figura 17. Capa da edição especial da Revista Veja, que destaca o consumo do espaço da Guarapiranga. No primeiro plano, praticantes de windsurf, um esporte nada acessível; no segundo plano, visão geral do bairro Capela do Socorro, com padrão residencial de rendas média e alta. Fonte: Veja, 2009.
A matéria da revista explora a questão da raridade dos espaços naturais em São Paulo e a sua mercantilização com muita perspicácia, demonstrando através de imagens atraentes o potencial da represa como local para a prática de esportes aquáticos e o lazer para famílias de classes média e alta. A raridade da natureza ainda permite a presença de um nicho de mercado imobiliário voltado para um público de poder aquisitivo elevado, que se enquadram como consumidores dos novos lançamentos imobiliários apoiados no paradigma da busca pela conciliação entre a habitação e contato com a natureza, com a comodidade da proximidade da cidade. A região fica a poucos quilômetros/minutos do CENESP - Centro Empresarial de São Paulo, bem como da Marginal Pinheiros, que coloca-se como uma das principais vias de acesso para a região do eixo empresarial-comercial que envolve a extensa região que parte da Avenida Faria Lima em direção a Berrini e Santo Amaro.
Figura 18. Foto do prefeito Gilberto Kassab pilotando um jet-ski na represa Guarapiranga durante a virada esportiva, em 2008. O prefeito é um dos grandes defensores da valorização da represa como lugar para a prática de atividades de lazer e esportes aquáticos. Fonte: Globo.com., 2008.
A população pobre que disputa o espaço com os condomínios e projetos de valorização imobiliária e que habitam em bairros vizinhos é representada como um
forte empecilho ao exercício da qualidade de vida dos moradores da Riviera Paulista e dos freqüentadores que usam a represa para praticar esportes aquáticos, como pode ser percebido pelo teor da reportagem e o depoimento do morador destacado na citação acima, que argumenta que apesar de sua residência ter sido assaltada algumas vezes, vale a pena correr o risco pelas possibilidades únicas que o local oferece aos seus moradores (poder pilotar um jet-ski e praticar wakeboard antes de ir para o trabalho) no contexto da cidade de São Paulo. A matéria é pontual ao destacar que o padrão construtivo das residências de alto padrão “convivem bem com o meio ambiente”, referindo-se indiretamente a questão da contaminação das águas pela expansão da mancha urbana sobre os mananciais. Trata-se de um discurso que separa aqueles que são autorizados a habitar as margens da represa, porque “sabem usufruir” as suas qualidades naturais sem prejudicá-la, daqueles que não são autorizados a morar na região, pois representam ao mesmo tempo um risco ambiental e social (representam a contaminação das águas e a violência urbana que atormenta os possuidores de bens).
Figuras 19 e 20. “Milhares de casas amontoadas”. Paisagem do Jardim Ângela, nas áreas de mananciais da Guarapiranga. Na segunda fotografia Crianças jogam bola em campo de terra improvisado. Mais ao fundo franco processo de verticalização residencial, nas margens da avenida M,Boi Mirim.