Eu acho que independe do emprego tem o perfil, né? Cada emprego tem um perfil, a pessoa que está lá para a vaga e a outra pessoa está avaliando vai olhar e ver (...) (Billy, 20 anos, ensino médio completo, transmissão por transfusão)
7 O neoliberalismo parece radicalizar o “desencantamento do mundo”, mas desenvolvendo
principalmente as práticas e as ideias mais características da “razão instrumental”. (IANNI, 1998)
Historicamente foi possível constatar que as mudanças ocorridas na sociedade capitalista no processo de reestruturação tanto no âmbito político como econômico repercutiram automaticamente no mundo do trabalho. Dessa forma, acabou refletindo nas relações que a classe trabalhadora mantém com o trabalho. Vale ressaltar que todas essas transformações privilegiaram o interesse do capital por gerar uma desestabilidade na classe que o produz. Conforme pensamento de Antunes (2009, p.233) proliferaram, a partir de então, as distintas formas de “empresa enxuta”, “empreendedorismo”, “cooperativismo”, “trabalho voluntário” etc, dentre os mais diversos modos alternativos de trabalho precarizado.
Portanto, do mesmo modo em que aconteceram alterações no sistema político de liberalismo para neoliberalismo, essas mudanças também influenciaram as relações existentes no mercado de trabalho, por intermédio de um sistema que visa reforçar a precarização no processo de trabalho (terceirização) e destituição dos interesses da classe trabalhadora (desmonte dos sindicatos e dos direitos trabalhistas). A sociedade se deparou com essa realidade a partir dos avanços tecnológicos e as alterações no processo organizacional, passando a refletir no sentimento de pertencimento que a classe trabalhadora mantém com o trabalho, isto é, o mercado passa a gerar novos processos produtivos, como o neotaylorismo (taylorismo8) e o neofordismo (fordismo9).
Nesse sentido, o sistema neoliberal repercute diretamente nas relações sociais que os sujeitos mantém com a sociedade; os novos arranjos da produção também começaram a influenciar diretamente no cotidiano da classe trabalhadora, pelo fato de o trabalho passar a ser monitorado pelo sistema tecnológico, que direciona o aumento da produção, para além disso, reflete também na ideologia de alienação construída pelo sistema empregador e pela
8 Taylorismo - Segundo Thomas Gounet (1999) o
método do taylorismo (ou “organização científica do trabalho”) na industria automobilística, para atender a um potencial consumo de massas, através do parcelamento das tarefas, a racionalização das operações sucessivas e a estandardização dos componentes, o tempo de produção do veículo era de 5h50.
9 Fordismo
– Segundo Thomas Gounet (1999) a data básica é 1913, quando Henry Ford, à frente de uma empresa que leva seu nome, formada dez anos antes, cria aquilo que denominou fordismo. É uma nova organização na produção e no trabalho, destinada a fabricar veículo, o modelo T, por um preço relativamente baixo, de forma que fosse comprado em massa. O veiculo é produzido em 1h30.
sociedade, que, de um lado, a empresa reforça a necessidade de dedicação exclusiva ao trabalho “temos que vestir a camisa da empresa”, mas, por outro lado, existe a necessidade da sociedade reforçar o individualismo e o consumo “ter para ser”. Toda essa conjuntura se refletirá na classe trabalhadora que automaticamente passa a sobreviver em função da produção para gerar cada vez mais aumento do capital, só que, infelizmente, a detenção do capital permanecerá nas mãos de quem tem o poder e não nas mãos de quem o produz.
Conforme ideias de Antunes (2009), essas transformações alteraram a estrutura da classe trabalhadora gerando uma ambiguidade, isto é, de um lado existe a (...) “desproletarização do trabalho industrial (diminuição da classe operária industrial tradicional) e do outro efetivou uma significativa subproletarização do trabalho devido às formas diversas de trabalho parcial, precário, terceirizado, subcontratado, vinculado à economia informal, ao setor de serviço” (p. 205). Portanto, compreendemos a importância do investimento tecnológico para o avanço da sociedade, mas questionamos as estratégias que são utilizadas pela classe burguesa para assegurar suas metas, sendo que, muitas vezes, isso ocorre às custas das classes operárias, através da precarização do trabalho e, consequentemente, dos seus direitos.
O sistema capitalista dos tempos atuais gerou a desarticulação nas relações do trabalho, em especial, com a classe trabalhadora. Essa desarticulação mantém grande influência da proposta política neoliberal, tendo como tendência estratégias de extração de super lucros no mercado, a privatização dos setores de utilidades públicas do Estado e a desregulamentação das políticas sociais. Essas tendências passaram a repercutir diretamente no trinômio formado por trabalhador, mercado de trabalho e o Estado. Conforme alguns indicativos de Antunes (1998):
1) diminuição do operariado manual, fabril, “estável”, típico do binômio taylorismo/fordismo e da fase de expansão da indústria verticalizada e concentrada;
2) aumento acentuado do novo proletariado, das inúmeras formas de subproletarização ou precarização do trabalho, decorrentes da expansão do trabalho parcial, temporário, subcontratado, terceirizado,
e que tem-se intensificado em escala mundial, tanto nos países do Terceiro Mundo, como também nos países centrais;
3) aumento expressivo do trabalho feminino no interior da classe trabalhadora, também em escala mundial, aumento este que tem suprido principalmente (ainda que a ele não se restrinja) o espaço do trabalho precarizado, subcontratado, terceirizado, part-time, etc.; 4) enorme expansão dos assalariados médios, especialmente no “setor de serviços” que, inicialmente, aumentaram em ampla escala, mas que vem presenciando também níveis crescentes de desemprego;
5) exclusão dos trabalhadores jovens e dos trabalhadores “idosos”, segundo a definição do capital (em torno de 40 anos) do mercado de trabalho dos países centrais;
6) intensificação e superexploração do trabalho, com a utilização brutalizada do trabalho dos imigrantes, dos negros, além da expansão dos níveis de trabalho infantil, sob condições criminosas, em tantas partes do mundo, como Ásia, América Latina, entre outras; 7) há, em níveis explosivos, um processo de desemprego estrutural que, se somado ao trabalho precarizado, part-time, temporário, etc., atinge cerca de um terço da forma humana mundial que trabalha; 8) Há uma expansão do que Marx chamou de trabalho social
combinado, em que trabalhadores de diversas partes do mundo participam do processo de produção e de serviços. O que, é evidente, não caminha no sentido da eliminação da classe trabalhadora, mas da sua complexificação, utilização e intensificação de maneira ainda mais diversificada, acentuada e precarizada, acentuando a necessidade de uma estruturação internacional dos trabalhadores para confrontar o capital. Portanto, a classe trabalhadora fragmentou- se, heterogeneizou-se e complexificou-se ainda mais (p 93 ).
Esses são alguns retratos dos frutos gerados na década de 1990, em decorrência da política neoliberal, que desarticulou a condição de vida da
classe trabalhadora, pelo fato de aumentar o índice de desemprego, através da precarização e terceirização do espaço de trabalho.
A política neoliberal reflete diretamente no cotidiano da classe trabalhadora, por elevar a população pauperizada, formada por sujeitos sociais aptos para o trabalho mas que não conseguem ser absorvidos por esse sistema. Portanto, acabam ficando subordinados ao Estado, que utiliza as políticas sociais como meio de mercantilização dos direitos sociais, pois em vez de assegurar ações de qualidade para a inserção no mercado de trabalho com autonomia, acabam fazendo o inverso, conforme explanação de Vieira (2004) sobre a política social neoliberal, que atende aos indigentes, ou seja, aqueles que não têm meios de gerar a mínima renda. Mas isso não é política social, porque não quer dizer um serviço de distribuição de sopa, de distribuição de leite.
Diante disso, o Estado passa a implementar políticas sociais com o objetivo de ampliar as ações focalistas, compensatórias, paternalistas, sendo direcionadas geralmente para atingir os efeitos da crise do sistema capitalista, em que os sujeitos acabam tornando-se dependentes do Estado para a construção de sua “vida”. Por outro lado, o mesmo Estado passa sempre a consolidar, nesse modelo de política, a mercantilização dos direitos sociais, onde tudo se torna mercadoria pela mão do Estado. Com isso, os direitos que deveriam ser assegurados pelo fato de sermos sujeitos de direito e por termos direito à cidadania civil acabam se perdendo na construção desse modelo de políticas sociais.
Nas Tabelas 6 e 7, conforme os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD, 2009), torna-se possível visualizar o retrato do trabalhador brasileiro, em decorrência da concretização da política neoliberal a partir do desmonte da classe trabalhadora pelo processo de precarização do trabalho e destituição de direitos.
Tabela 5 Panorama do trabalhador brasileiro no sistema político neoliberal- (PNAD, 2009)
N %
Economicamente ativo 101.110 62,1
Ocupados 92.689 56,9
Desocupados 8.421 8,3
Fonte: Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio 2009 - IBGE
Segundo a PNAD 2009, o segmento populacional brasileiro está em torno de 162.807 milhões de pessoas, e 62% delas encontram-se economicamente ativas. Podemos avaliar que, desses dados das pessoas ativas no mercado de trabalho, 56,9% encontram-se ocupadas.
Neste momento, nos deparamos com a consolidação da política neoliberal na sociedade brasileira. A partir dos dados da Tabela 7, do universo pesquisado de aproximadamente 92.689 milhões de brasileiros, é possível perceber que 53,5% são contribuintes do sistema previdenciário, sendo que, atualmente, 82,3% não são filiados ao sindicato. Quanto às horas trabalhadas, podemos constatar que 72,2% dos trabalhadores possuem jornada a partir de 40 horas semanais. Este é o retrato da política neoliberal no Brasil.
Tabela 6: Perfil do trabalhador brasileiro no sistema político neoliberal – (PNAD, 2009) No % Ocupados 92.689 56,9 Contribuinte do INSS 49.628 53,5 Não contribuinte 43.061 46,5 Associados ao sindicato 16.450 17,2 Não associados ao sindicato 76.239 82,3 Horas trabalhadas até 14 horas 5.365 5,8
Horas trabalhadas de 15 a 39 horas 20.411 22,0 Horas trabalhadas de 40 a 44 horas 37.394 40,3 Horas trabalhadas de 45 a 48 horas 12.974 14,0 Horas trabalhadas 49 horas ou mais 16.545 17,9
Fonte : Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio 2009 - IBGE
Ao avaliar esses dados, constatamos que existe uma controvérsia a respeito do papel do trabalho no cotidiano da classe trabalhadora porque, por um lado, ele possibilita a inserção do sujeito social na sociedade, tendo em vista que existem 92.689 milhões de trabalhadores ocupados, só que, em contrapartida desse processo, muitos estão inseridos na sociedade a partir da subproletarização da classe trabalhadora, que favorece o interesse do capital. Conforme discussão de Antunes (2009) a força de trabalho torna-se uma mercadoria, ainda que especial, cuja finalidade é criar novas mercadorias e valorizar o capital. Converte-se em meio e não primeira necessidade de realização humana.
Desta forma, podemos compreender que o trabalho possibilita as condições de convivência e de sobrevivência do sujeito social na sociedade, mas que, pela tradição histórica, está cada vez mais acentuado o seu papel de sobrevivência, ainda que de forma precária, devido à flexibilização das relações trabalhistas. Assim, após análise do sistema político neoliberal, podemos compreender que a classe trabalhadora está cada vez mais exposta a essa realidade social, visto que as questões políticas e econômicas são geradas pelo sistema neoliberal. Avaliamos que seria importante refletir sobre o papel que o trabalho exerce na subjetividade da vida do homem, tendo em vista que ele não pode ser suprimível já que essa é a estratégia de convivência com essa sociedade.