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Não. Porque você faz as entrevistas, mas sempre fica alguém de fora. Eu não precisei disso para arrumar meu primeiro emprego, minha mãe arrumou na empresa em que ela trabalha. "às vezes uma pessoa arruma um emprego para você e esse programa não consegue arrumar". É isso que acontece, eles criam esses programas, mas ninguém consegue participar. (Billy, 20 anos, ensino médio completo, transmissão por transfusão. Questionada sobre as políticas públicas direcionadas para a inserção no mercado de trabalho)

A década de 1990 foi um período marcado pelas alterações do modelo econômico da sociedade capitalista, no primeiro momento, por ser constatada a incapacidade do mercado globalizado de se sustentar de forma independente. Isto ocorreu devido à mundialização da economia, visto que os países relacionados aos grupos industriais de grandes produções que centralizavam a economia passaram a fazer fusões e aquisições de empresas entre eles. Assim sendo, geraram uma economia de “livre acesso” de forma relativa, por estar voltada, na maioria das vezes, para os mesmos países de potência mundial que, por sua vez, são sempre os do Primeiro Mundo. Portanto, a economia permanece sempre centralizada nas mãos dos mesmos.

Nesse processo de mundialização da economia, somente os países de potência mundial estão envolvidos nesse crescimento, conforme Iamamoto (2005) a homogeneização está apoiada na mais completa heterogeneidade e desigualdade das economias nacionais. Pela conjuntura, podemos compreender que muitos países periféricos são explorados pelos países de potência mundial, que se utilizam dos países em desenvolvimento para permanecerem como potência econômica através da exploração da mão de obra barata e impostos mais acessíveis gerando, portanto, a desigualdade no desenvolvimento mundial dos países.

Essas alterações na economia não geram impactos somente na relação que a sociedade mantém com o capital, mas também nas relações que os sujeitos sociais mantém na sociedade. Segundo Nogueira (2005), podemos constatar que a centralização do “eu” incentiva essa forma deletéria de individualismo, que exibe sua força em muitos momentos e em muitos países. No discurso dos jovens, abaixo citados, é possível compreender a estratégia que o modelo econômico capitalista apropria-se para incutir nos sujeitos sociais a proposta de competição entre os trabalhadores na perspectiva de consolidar o sentimento do individualismo.

O emprego é da pessoa, se você chegar lá falando “o emprego é meu” você esquece que tem gente, eu acho que tem que ser assim (...). Depende do serviço tem que ter o perfil, agora depende do serviço não, se for numa linha de produção, eles não vão nem olhar se é feio, bonito, magro, se é doente se não

é. Eles vão olhar depois, eu acho que depende da vaga. (Billy, 20 anos, ensino médio completo, transmissão por transfusão. Questionada sobre as dificuldades para a inserção no mercado de trabalho)

Nessas condições, o próprio Estado é quem incentiva as ações centradas no indivíduo, e essa realidade se consolidou como um fato consagrado nesse modelo de sociedade capitalista.

Sob a CF de 1988, caberia ao Estado desenvolver estratégias de aproximação da sociedade civil com o projeto democrático, não somente numa perspectiva de fortalecimento do sujeito, mas com um olhar crítico que possibilite a compreensão do sujeito coletivo. Portanto, torna -se importante o despertar da mudança do pensamento da unidade de individual para a consciência coletiva.

Para os sujeitos sociais, é imprescindível compreender a relação de força existente entre Estado e sociedade civil, devido à centralização dos interesses voltados para o sujeito particular, o próprio Estado presenciou o afastamento da sociedade civil do seu papel de controle social, e isso compromete o exercício democrático de acompanhamento da gestão e avaliação da política e dos recursos destinados à sua implementação.

Conforme Nogueira (2005), as sociedades tornaram-se modernas e globais quase ao mesmo tempo, e esses elementos possibilitam a reflexão sobre a separação entre política e sociedade civil. A separação ocorreu em decorrência da proposta política neoliberal que proporciona o crescimento industrial através da utilização das tecnologias, para assegurar o aumento de produção e, consequentemente, a acumulação de capital.

O neoliberalismo, a partir da reflexão de Ianni (1998), proporciona um “desencantamento do mundo”, pelo fato de buscar metamorfosear a subjetividade do sujeito para transformar todos os pensamentos e ações em questões tecnocráticos. Na citação abaixo, podemos compreender esse processo de transformação das relações sociais pela via do trabalho.

Muito do que são as formas de sociabilidade em todos os níveis e em âmbito local, nacional, regional e mundial tende a ser equacionado em termos tecnocráticos. (...) Os princípios da eficácia, produtividade,competitividade e lucratividade, lado a lado com a racionalização das instituições, organizações, empresas e corporações públicas e privadas,nacionais e transnacionais, tendem a generalizar-se e a predominar... Aos poucos, tudo parece organizado e em movimento, em âmbito mundial, como uma vasta e complexa teia de redes atravessando as coisas, as gentes e as idéias. (IANNI7,1998, p.115-116)

Refletindo sobre a conjuntura desse contexto neoliberal, constata-se que sua base está centrada na relação empregado e empregador, tendo, então, como base, uma classe trabalhadora individual que vende a sua força de trabalho para o capital. Assim, esse próprio desenho de sociedade possibilita um afastamento das relações entre o Estado e sociedade civil e cria sujeitos sociais sem o sentimento de pertencimento com o Estado, tornando se muitas vezes incapazes de decidir sobre seus próprios interesses como sujeito de direito e incapazes também de propor a luta para transformar. Mas, até certo ponto, esse modelo é interessante para o Estado, pois todas as vantagens ficam centralizadas em suas mãos.