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KAPITTEL 3 METODE

3.2 F ORSKNINGSDESIGN

A teoria desenvolvida pelo grupo IPO se concentra nos aspectos acústicos e perceptivos dos fenômenos entonacionais através do confronto entre a medida das mudanças de F0 e o modo como a melodia é percebida. Em tal abordagem, procede-se uma simplificação da cadeia entonacional, chamada de estilização da curva entonacional, de tal maneira que seja possível fazer uma descrição da curva através de um número finito de eventos discretos.

De acordo com a abordagem IPO, isso é possível porque as mudanças de F0 ocorrem devido a dois tipos de movimentos: aqueles que são programados por parte do falante, mesmo se tratando de uma atividade inconsciente; e aqueles movimentos involuntários, que resultam de fenômenos de tipo segmental. Nos termos de Hart, Collier e Cohen (1990): mudanças programadas e voluntárias na F0 e flutuações involuntárias, determinadas fisiologicamente13. Então, na perspectiva IPO, os movimentos resultam perceptivelmente

relevantes para o interlocutor por decorrerem de uma atividade voluntária por parte do falante. Tais movimentos podem ser diferenciados daqueles que, por outro lado, são devidos a fenômenos micromelódicos, contextuais, ligados a características segmentais que, de fato, não apresentam saliência perceptual.

13 No original: “programmed, voluntary F0 changes and physiologically determined, involuntary fluctuations” (HART; COLLIER; COHEN, 1990).

A consequência disso é que tais movimentos involuntários podem ser omitidos da curva entonacional sem, com isso, acarretar mudança na percepção da melodia por parte do ouvinte. Ao contrário, a omissão de movimentos voluntários é perceptualmente relevante e acarreta uma mudança ou mesmo uma impossibilidade de interpretação por parte do ouvinte.

É possível testar e demonstrar essa tese através da criação de cópias de curvas entonacionais naturais que sejam perceptivelmente equivalentes às originais. Utilizando instrumentos computacionais para suprimir os movimentos produzidos não voluntariamente, é possível conduzir estudos sobre porções entonacionais compostas apenas pelos movimentos entonacionais que são significativos do ponto de vista perceptual. Essas cópias simplificadas (estilizadas), perceptualmente equivalentes às originais, são chamadas de close copy stilizations. Para estabelecer que a close copy é perceptualmente equivalente, realizam-se testes perceptuais, nos quais as duas curvas devem ser julgadas como uma ótima imitação uma da outra.

É importante ressaltar que o conceito de saliência perceptual elaborado pelo grupo IPO corresponde estritamente às características entonacionais de uma sequência sonora. Tal concepção não considera a diferença entre diversos valores funcionais de natureza informacional das unidades que formam o enunciado (FIRENZUOLI, 2003).

A unidade mínima de referência considerada nos estudos da abordagem IPO é o que os autores chamam de um “movimento de pitch”. Esse somente pode ser descrito através da consideração de um conjunto fechado de quatro parâmetros, quais sejam:

a) A direção do movimento: +rise (ascendente); -rise (descendente);

b) A posição do movimento na sílaba: +early (início da sílaba); +late (final da sílaba);

-early -late (no centro da sílaba);

c) A duração do movimento: +spread (associado a duas ou mais sílabas); -spread (limitado a apenas uma sílaba);

d) O grau de excursão: +full (o movimento cobre toda a distância entre os pontos mínimo e máximo); -full (movimento é menor do que a distância entre os pontos mínimo e máximo).

Tais parâmetros vão compôr um grupo de dez movimentos possíveis que apresentariam graus diversos de ocorrência nas línguas. Esse grupo consiste de um inventário de movimentos possíveis, apresentado no Quadro 2.1.

Quadro 2.1 - Inventário e características dos possíveis movimentos de pitch proposto pelo grupo IPO

/1/ /2/ /3/ /4/ /5/ /A/ /B/ /C/ /D/ /E/ rise + + + + + - - - - - early + - - - + - + - - + late - + - + - - - + + - spread - - - + - - - - + - full + + + + - + + + + -

Fonte: (HART; COLLIER; COHEN, 1990, p. 153)

A partir da observação de corpus, percebeu-se que, mesmo em enunciados muito breves, há frequentemente a ocorrência de mais de um movimento relevante. Por essa razão, sentiu-se a necessidade de introduzir um novo conceito, o de contorno de pitch (pitch

contour). Esse termo indica a possibilidade de, em um único enunciado, existir sequências de

movimentos relevantes.

Os estudos empíricos realizados levaram os pesquisadores do grupo IPO a reconhecer a existência de configurações de movimentos, uma vez que foi verificado, por exemplo, que um movimento ascendente ou descendente se encontra sempre antes ou depois de um outro tipo de movimento dentre uma escolha limitada de possibilidades. A análise distribucional das combinações de movimentos presentes no corpus revelou muitas restrições quanto à concatenação dos contornos de pitch. Desse modo, foram identificados três tipos de configurações dos contornos de pitch pelo grupo IPO, chamados de perfis prosódicos:

(I) Raiz: são configurações obrigatórias e não recursivas.

(II) Prefixo: são opcionais e algumas são recursivas, sempre precedem uma outra configuração de prefixo ou uma configuração de raiz.

(III) Sufixo: são opcionais e recursivas, sempre seguem uma configuração de raiz. A abordagem teórica adotada na TLA coincide parcialmente com aquela desenvolvida pelo grupo IPO, compartilhando o pressuposto de que a percepção deve ser central para o estudo da entonação. Da abordagem IPO, a TLA adota o pressuposto de que a possibilidade de o ouvinte distinguir os movimentos de pitch considerados relevantes é

decorrente do fato de serem produzidos voluntariamente (mas inconscientemente). Ao mesmo tempo, os movimentos não relevantes podem ser eliminados sem que se perca a equivalência perceptual. A TLA ainda reconhece a relevância dos parâmetros acústicos no reconhecimento dos movimentos de pitch e assume que a ocorrência dos perfis prosódicos é sujeita a regras distribucionais e de recursividade (FIRENZUOLI, 2003).

A partir disso, a teoria entonacional do grupo IPO foi implementada na Hipótese da Padronização da Informação (Information Patterning Hypothesis), que sustenta a possibilidade de atribuir a essas configurações de pitch (perfis prosódicos) diferentes valores informacionais. Com isso, entende-se que a unidade de raiz apresenta centralidade não somente como unidade entonacional independente e autônoma, mas também como a única unidade dedicada ao cumprimento dos valores ilocutivos e que, portanto, é o centro de todo enunciado (FIRENZUOLI, 2003).

Adicionalmente, na perspectiva da TLA, a relevância deve ser compreendida em termos mais amplos: a relevância perceptual é considerada juntamente com uma relevância que é de natureza informacional, de modo mais geral, e com uma relevância ilocutiva, de modo mais específico. Em outras palavras, a TLA busca identificar nas expressões linguísticas segmentadas quais são as porções entonacionais independentes e autossuficientes do ponto de vista entonacional (raiz) e que, ao mesmo tempo, de um ponto de vista informacional, veiculam o cumprimento de um ato linguístico através de seu valor ilocutivo.

A relevância perceptual seria então ligada à saliência perceptual das porções que apresentam determinadas as características de pitch, correlacionadas às unidades de raiz, prefixo ou sufixo. Já a relevância informacional remete às porções às quais o falante atribui, além de uma saliência perceptual, também uma função informacional.

A partir da elaboração do critério ilocutivo, fica claro que cada um dos tipos entonacionais não corresponde ao mesmo tipo de função informacional, tornando-se então possível traçar uma correspondência entre as unidades prosódicas de tipo raiz e as unidades informacionais de Comentário. Essas unidades nucleares podem ser acompanhadas de unidades antecedentes de prefixo e de unidades sucessivas de sufixo, que correspondem, do ponto de vista funcional, às unidades de Tópico e de Apêndice.

Na abordagem IPO, a relevância dos movimentos de pitch não é vista com relação às implicações funcionais relacionadas à unidade entonacional como um todo. O grupo italiano

sentiu então a necessidade de ampliar o conceito de perfil entonacional e criou o conceito de forma entonacional. Esse conceito surgiu a partir da observação de que certas variações nos parâmetros de duração e de alinhamento silábico de um mesmo movimento de pitch podem dar origem a formas diversas de um mesmo tipo de perfil (raiz) que veiculam diferentes valores ilocutivos (FIRENZUOLI, 2003).

Em outras palavras, há várias possibilidades de executar um perfil prosódico de tipo raiz, ou seja, que é perceptível como prosodicamente autônomo. Na comunicação, perfis prosódicos autônomos veiculam informações pragmaticamente autônomas, sendo associados à função informacional de Comentário. Algumas variações em determinados parâmetros podem fazer com que o perfil prosódico da unidade permaneça o mesmo (tipo raiz, prosodicamente autônomo), porém o efeito ilocucionário será distinto. Para compreender esse conceito, revejam-se as Figuras 2.1 e 2.2, que apresentam, respectivamente, uma ilocução de ordem e uma ilocução de pergunta com o mesmo conteúdo locutivo. Podem-se observar várias diferenças na curva entonacional (e também em outros parâmetros) desses enunciados, uma vez que veiculam ilocuções distintas. Contudo, ambos são igualmente unidades entonacionais completas e interpretáveis em isolamento, pertencendo ao mesmo tipo de perfil prosódico (raiz). Daí que ambos os enunciados apresentam um mesmo perfil prosódico, realizado com formas prosódicas diferentes.