No período de coleta de dados, de março a outubro de 2007, houve a participação voluntária de 48 primigestas que atenderam aos critérios de inclusão da pesquisa na primeira etapa (período pré-natal). Desse total, dez primigestas que tiveram parto normal na maternidade-estudo e atenderam aos demais critérios
propostos para a pesquisa foram incluídas na segunda etapa (período pós-parto), sendo selecionadas para a análise de dados das duas etapas. As outras 38 participantes não foram incluídas para a análise dos dados qualitativos, sendo 25 em virtude de ocorrência de parto cesáreo, nove pela ocorrência de parto induzido com ocitocina e quatro porque o parto normal ocorreu em outra instituição e/ou cidade.
Os partos cesáreos tiveram indicações variadas, entre elas: pré-eclâmpsia (5), pós-datismo associado a sofrimento fetal e oligoâmnio (1), sofrimento fetal agudo (5), oligoâminio (2), apresentação pélvica (1), apresentação transversa associada a sofrimento fetal agudo (1), ausência de dinâmica uterina (4), desproporção cefalo-pélvica (4) e outros em que não foi descrita a indicação (2).
Os partos normais induzidos com ocitocina tiveram essa indicação por: ocorrência de distócia da contratilidade uterina (3), ausência de dinâmica uterina (3), período expulsivo prolongado (1) e outros em que não foi descrita a indicação (2).
Na ocasião da primeira entrevista, as participantes responderam previamente algumas perguntas referentes às suas características socioeconômicas, demográficas e obstétricas que permitiram traçar o perfil de saúde desse grupo no período pré-natal.
As dez participantes estavam na faixa etária entre 18 e 31 anos, com idade média de 23,9 anos, pertencendo ao grupo considerado de menor risco obstétrico, segundo Neme (2000) e Rezende e Montenegro (2008). Esses autores esclarecem que, embora a idade biológica ideal para se instalar a primeira gestação seja entre 18 e 20 anos, por ser considerado o período de pleno desenvolvimento fisiológico e anatômico da mulher, em função do desenvolvimento somático e psicológico de cada uma e dos aspectos preventivos que devem presidir a assistência obstétrica, essa idade foi estendia. Assim, os limites fisiológicos para se
ter a primeira gestação passaram a ser 16 (primigesta precoce) e 35 anos (primigesta tardia), idades consideradas de maior frequência de riscos obstétricos.
Quanto à escolaridade, as participantes apresentaram média de 11,6 anos de estudo formal, sendo que seis tinham ensino médio completo; uma tinha ensino médio incompleto; duas estavam iniciando curso universitário e uma outra tinha ensino fundamental incompleto.
O grau de escolaridade de ensino médio completo apresentado pela maioria dessas participantes pode ter constituído um fator favorável para a compreensão e o aproveitamento das orientações disponibilizadas no serviço pré- natal, assim como de prevenção de riscos e complicações obstétricas. Pelo contrário, segundo o Ministério da Saúde, a baixa escolaridade (menor que cinco anos no estudo regular) entre mulheres brasileiras têm-se constituído em agravante para a saúde, e consequentemente, em um fator de risco obstétrico (BRASIL, 2005). Embora os dados sociodemográficos das participantes apontassem condições favoráveis para a manutenção da saúde, no que se refere à renda familiar, elas se enquadraram na população de baixa renda. Entre elas, quatro residiam em moradia cedida, três em moradia própria e as demais, em moradia alugada, com renda familiar variando de um a três salários mínimos com média de dois salários.
Em relação à ocupação, as participantes relataram as seguintes atividades de trabalho: cabeleireira, agente de vendas (2), encarregada de produção, salgadeira, secretária (2), estudante (2) e do lar. Entre elas, quatro encontravam-se desempregadas; três realizavam atividade de trabalho remunerado, sendo duas com emprego formal (encarregada de produção e salgadeira) e uma como autônoma
(cabeleireira); outras duas tinham ocupação com o estudo escolar formal e não exerciam atividade de trabalho fora de casa.
Além da ocupação que relatou cada participante, todas relataram que também realizavam atividades domésticas diárias em suas residências e apenas uma tinha essa ocupação como exclusiva. Observe-se que entre elas não houve uma ocupação de trabalho predominante, e que a maioria das ocupações exige algum tipo de qualificação para o seu exercício.
A natureza do trabalho em si e o trabalho da mulher em particular, segundo Hilfinger Messias et al. (1997), estão continuamente se transformando, em decorrência das mudanças relacionadas à maternidade, à estrutura familiar, ao casamento e ao divórcio, como também da urbanização, dos avanços tecnológicos e da globalização da economia. Embora o nível de escolaridade entre as participantes não fosse baixo, apenas duas se encontravam exercendo trabalho formal remunerado e uma como autônoma.
Entre as participantes, oito relataram estar vivendo com o companheiro, sendo cinco em união formal (estado civil de casada) e as outras três em união consensual. Entre essas oito, quatro referiram gravidez planejada e as outras quatro não planejada, mas todas enfatizaram o desejo da gestação e o apoio do companheiro. As demais participantes, ambas eram solteiras e assumiram a gravidez não planejada e a maternidade com o apoio da família, em face da interrupção do vínculo com o pai da criança que, segundo elas, não demonstrou interesse pela manutenção do relacionamento, pela gravidez e pela paternidade.
A maioria das participantes apresentou uma situação conjugal favorável à evolução da gravidez, tendo em vista o apoio e a participação do companheiro na promoção de sua segurança psicoafetiva e socioeconômica. De outro modo, uma
situação conjugal insegura poderia constituir um fator de risco para a gravidez (BRASIL, 2005).
Quanto à religião atual, seis participantes relataram ser adeptas da religião evangélica, duas da religião católica e as demais de nenhuma congregação religiosa.
Todas as participantes iniciaram o acompanhamento pré-natal no primeiro trimestre de gestação, realizaram todos os exames solicitados até aquele momento da gravidez e apresentavam gravidez saudável, segundo as informações médicas obtidas por elas durante a consulta e os registros do cartão da gestante.
Em relação ao número de consultas de pré-natal, a frequência desse grupo foi entre 5 e 8 consultas. Nove participantes apresentaram uma frequência entre 6 e 8 consultas, atendendo ao número mínimo previsto como satisfatório para o acompanhamento pré-natal preconizado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2005).
No estudo realizado por Haidar, Oliveira e Nascimento (2001), no registro de declaração de nascidos vivos de uma cidade do estado de São Paulo, foi identificado que as gestantes com maior instrução apresentaram chance duas vezes maior de efetuar mais de seis consultas no pré-natal. No presente estudo, a frequência das participantes às consultas de pré-natal também sugere uma associação com sua escolaridade, pelo fato de terem iniciado mais cedo o acompanhamento pré-natal, o que provavelmente favoreceu o reconhecimento de sua importância para a gestação.
Oito participantes relataram a necessidade de utilização de medicação no primeiro trimestre de gravidez, duas pela ocorrência de vaginite, cinco por êmese gravídica e uma por pirose. Segundo as participantes, com a terapêutica instituída
inicialmente no pré-natal, todos os problemas foram resolvidos sem prejuízos para a gestação.
Nenhuma das participantes referiu antecedentes patológicos e cirúrgicos e consumo de cigarro e/ou álcool durante a gestação, mas algumas referiram antecedentes de vivência de algum tipo de dor intensa fora da gestação. A cólica menstrual foi citada por três participantes, cólica intenstinal por uma e a dor gástrica por outra.
Em relação à prática de atividade física na gravidez duas participantes referiram realizar caminhada duas vezes por semana. Quanto ao preparo específico para o parto, três referiram ter participado de grupo de gestantes em uma UBS do setor de suas residências, onde receberam algumas informações acerca da gravidez, do parto e do puerpério.
Todos os dados obstétricos obtidos com as participantes no período pré- natal foram cotejados com os registros médicos do cartão da gestante e, nos casos em que faltava clareza ou a gestante apresentava dúvida, também era conferido no prontuário de atendimento pré-natal.
Para caracterizar o perfil obstétrico dessas dez participantes na ocorrência da admissão na maternidade, durante o trabalho de parto e no parto, os dados foram buscados nos registros dos prontuários no dia correspondente à alta hospitalar, quando foram contactadas para agendamento da entrevista domiciliar.
No momento da admissão na maternidade-estudo, as participantes apresentaram idade gestacional, dilatação cervical, dinâmica uterina, membranas, líquido amniótico e posição e batimento cardíaco fetal em um padrão favorável ao parto normal e de baixo risco.
Em relação à idade gestacional, todas as participantes se encontravam no período de termo, com idade gestacional variando ente 37semanas e quatro dias e 39 semanas e três dias. É considerada gestação a termo aquela compreendida entre 37 semanas completas e 42 semanas incompletas, a partir do primeiro dia da última menstruação, sendo o período favorável para a ocorrência do parto (NEME, 2000; REZENDE, MONTENEGRO, 2008).
À admissão hospitalar, houve entre as participantes variação da dilatação do colo uterino entre dois e dez centímetros e do padrão de contração uterina (frequência, intensidade e duração) entre ausente e regular com intensidade moderada a intensa. Para oito participantes, a admissão ocorreu pela confirmação de trabalho de parto verdadeiro; para uma, por estar em período expulsivo e para a outra, por apresentar ruptura prematura das membranas amnióticas, com coloração normal, indicando período gestacional de termo.
Em relação à posição do feto, os registros apontaram que todos se encontravam em apresentação cefálica e com batimentos cardíacos normais, variando entre 136 e 148 batimentos por minuto, favorecendo o parto normal.
O período de evolução do trabalho de parto das participantes variou entre 5 e 14 horas. Seis participantes apresentaram uma duração de trabalho de parto entre 5 e 6 horas, três, entre 13 e 14 horas e uma, 9 horas. Entre primigestas, é esperada uma média de 10 a 12 horas de duração de trabalho de parto em razão da estreia funcional do organismo no tocante às modificações fisiológicas do colo uterino (amolecimento, encurtamento e medialização), aumento progressivo do padrão das contrações uterinas e descida do feto pelo canal do parto (NEME, 2000; REZENDE, MONTENEGRO, 2008).
Na fase final de evolução do trabalho de parto, sete participantes apresentaram ruptura espontânea das membranas amnióticas, com perda de líquido amniótico com coloração normal, confirmando o período gestacional de termo e vitalidade. Em 80% dos casos, a ruptura espontânea das membranas, conforme Rezende e Montenegro (2008), ocorre com nove para dez centímetros de dilatação cervical ou em pleno período expulsivo.
As dez participantes tiveram parto normal sem intercorrências obstétricas, sendo que nove tiveram parto com episiotomia e apenas uma teve parto normal espontâneo. Segundo a classificação obstétrica dos tipos de parto de Rezende e Montenegro (2008), a maioria das participantes teve um parto dirigido, ou seja, com intervenção ativa do obstetra, episiotomia no caso, com o objetivo de encurtar o período expulsivo. Uma participante teve parto espontâneo, ou seja, aquele que se inicia com um trabalho de parto espontâneo, evolui e termina sem interferência assistencial ativa.
O parto normal é definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS, 1996) como de início espontâneo, baixo risco no trabalho de parto, permanecendo assim durante todo o processo, até o nascimento. O nascimento ocorre espontaneamente, com feto em posição cefálica, entre 37 e 42 semanas completas de gestação.
Todos os recém-nascidos foram classificados como normais quanto ao boletim APGAR, que variou entre 8 e 10, no primeiro minuto (média 8,9), e entre 9 e 10, no segundo minuto (média 9,8), e peso entre 2,560 e 3,780 kg (média 3,045 kg).
De modo geral, as características individuais sociodemográficas e obstétricas das participantes apontaram condições favoráveis para o desenvolvimento de uma gestação normal, para a redução de fatores de risco à
saúde materna e fetal e para a ocorrência do parto normal como preconizado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2005).
No entanto, do ponto de vista de apoio psicoafetivo, para a maioria das participantes, não foi garantida a possibilidade de compartilhar a vivência do parto e/ou de ter o apoio de um acompanhante (pessoa de sua escolha ou o companheiro) durante o processo de parturição. A presença do acompanhante, em especial do pai da criança ou pessoa significativa do contexto de vida da parturiente é um dos aspectos mais importantes para a promoção da humanização da assistência obstétrica, além de ser uma prática baseada em evidências (OMS, 1996).