Neste bloco de perguntas os participantes foram questionados quanto às suas práticas como docentes. A figura 10 apresenta de forma sintetizada a opinião dos educadores.
Evidencia-se a valorização do diagnóstico, por meio da avaliação, bem como a necessidade de inovação no exercício profissional docente, que pode ser observado nos cinco primeiros itens da figura: avaliar de forma ampla e contínua, ser flexível em relação ao planejamento, utilizar resultados dos alunos como base para novo planejamento, adaptar-se às expectativas e perfil das turmas e adaptar-se às situações.
A avaliação é um importante recurso para reflexão do docente a respeito de seu trabalho, pois é diagnóstico do estágio de aprendizagem dos alunos, apresentando ao professor as necessidades de melhoria ou mudança de rota em suas ações na sala de aula. Mais do que quantificar o aprendizado aluno, a avaliação deve ser utilizada para tomada de decisões do docente no que diz respeito ao seu planejamento (SANTOS, 2010). Desta forma, a avaliação é o primeiro passo a ser dado pelo docente para iniciar o planejamento ou repensá- lo.
Por meio de avaliação contínua e cumulativa, assim como determina a LDB (BRASIL, 1996) o docente tem condições de identificar as necessidades de maior investimento daqueles que apresentaram menor rendimento, bem como traçar estratégias que promovam a recuperação do aprendizado.
Notadamente, na prática docente observa-se que nunca uma turma é igual a outra; mesmo diante de alunos de semelhante faixa etária e condição sociocultural. Por vezes, algumas estratégias utilizadas surtem efeito com parte do grupo de alunos, entretanto não atinge outra. Torna-se necessário entender as particularidades dos indivíduos, sem perder o foco na formação profissional de toda a turma, o que pode exigir do professor o planejar e replanejar a aula.
Cordeiro (2010) afirma que a formação do ensino técnico não deve se concentrar somente na qualificação para o trabalho, mas também formar para a vida em sociedade, para a ação cidadã. Pensar a formação de forma mais ampla exige inovação do docente para conduzir tal processo.
Figura 10 – Opiniões sobre práticas docentes
Figura desenvolvida pela autora, a partir de dados coletados por meio de questionário.
Santos (2010) considera que inovação não é o mesmo que invenção. Por meio da inovação é possível estabelecer novas práticas sem que se invente nada, pois não implica em novidade e sim redefinição dos elementos já existentes. Por este ponto de vista, a inovação exige flexibilidade e propõe a reflexão a respeito das próprias práticas em sala de aula, bem como a reorganização dos recursos e espaços, visando o melhor aproveitamento do corpo discente.
A indisciplina e falta de interesse dos alunos, comportamentos já comentados anteriormente, podem ser consequência de aulas maçantes e distantes da realidade do aluno. É preciso sensibilidade do docente no sentido de realizar auto-avaliação, avaliação do aprendizado do aluno e, especialmente, humildade para repensar sua prática, na tentativa de conduzir aulas mais prazerosas e significativas para o aluno – principal elemento da escola.
Colocar o aluno como elemento central do processo de aprendizado exige do docente habilidade para conduzir a mediação, ou seja, deixar de lado a aprendizagem ensinada para promover a aprendizagem assistida, na direção da autonomia do educando. Nesta dimensão, o papel do educador é o de diagnosticar e não o de executar, pois quem executa é o aluno; o professor dá assistência, acompanha, contribui, colabora, provoca, articula, facilita (REHEM, 2009).
A autonomia do aluno também foi aspecto valorizado pelos docentes neste bloco de perguntas, na medida em concordam com a necessidade de se estimular a leitura, reflexão, pesquisa, organização e hábito do estudo.
Estimular o aprendizado do aluno, sua busca por soluções, sua curiosidade, são questões que remetem à ideia de “aprender a aprender”, ou seja, vai além de ensinar determinados conteúdos previstos pelo curso, trata-se de desenvolver a autonomia do aluno para o trabalho e para a vida em sociedade.
Acumular conhecimentos não é suficiente para a atuação profissional em um mercado de mudanças constantes, é preciso mobilizar, articular e integrá-los na prática do
exercício profissional. Assim, como afirma Morin (p.21, 2004b) “mais vale uma cabeça bem- feita que bem cheia”; considerando que em vez de acumular saberes, mostra-se mais
importante ter habilidade para criar relação entre elas, fazer interpretações, inferências, operações mentais que levem ao novo.
O profissional competente é reconhecido no mercado de trabalho como aquele que desenvolve alternativas para solucionar os problemas com os quais se depara no dia a dia de trabalho; deve ser capaz de buscar informações, raciocinar a respeito delas, mobilizar conhecimentos, habilidades e valores para apresentar respostas originais e criativas (CORDÃO, 2002). Mobilizar no aluno o interesse pelo estudo mostra-se como um grande desafio para o docente, que precisa inaugurar uma nova forma de pensar do discente que, por sua vez, precisa sair do posicionamento de aluno ouvinte para assumir a postura de aluno atuante.
Neste sentido, o estimulo à construção do próprio conhecimento, por meio da pesquisa, leitura, reflexão e hábito de estudo, podem contribuir para o desenvolvimento de
posturas mais críticas dos alunos. Entretanto, é válido comentar que não é possível estimular o posicionamento de construção do próprio conhecimento junto aos alunos, caso os docentes não adotem tal posicionamento para si mesmos. Muitos dos professores foram aprendizes de um sistema instrucionista e, talvez, não tenham aprendido a estudar e buscar seu desenvolvimento de forma autônoma (DEMO 2008). Assim, cabe às instituições de ensino e gestores escolares o apoio no desenvolvimento de seu corpo docente para que, posteriormente, estes profissionais tenham condições de estimular o aprendizado do aluno para esta atuação autônoma.
A educação profissional não pode se resumir a uma lista de conhecimentos a serem transmitidos pelo professor e decorados pelo aluno, afinal, na era do conhecimento as informações estão disponíveis a todos e mudam a todo tempo. É necessário desenvolver o saber pensar sistêmico e reflexivamente, favorecendo a integração dos conhecimentos, pois o pensamento é o capital mais precioso do indivíduo na sociedade (REHEM, 2009).
Aspecto que não pode ser negado na educação profissionalizante é o aprendizado de determinada função ou profissão. Dentre os professores pesquisados, todos concordaram com a necessidade do docente ter domínio do conteúdo, o que promoveria a aproximação da escola e do educando com a realidade do mercado de trabalho.
O professor deve ser um “profissional de ofício, que domina o saber ensinar, o
saber disciplinar e o saber da profissão que estão aprendendo” (REHEM, p.75, 2009). Ele é, antes de tudo, um profissional que optou por ser professor e desta forma, adota o trabalho como princípio educativo – sem abrir mão da formação integral do aluno.
O domínio que possui foi construído por meio de práticas profissionais contextualizadas, em local de trabalho que promoveu a reflexão-ação-reflexão, resultando em prática impregnada de valores e na consciência da constante necessidade de renovação, transformação e busca pela mudança (GOMES; MARINS, 2004).
Perrenoud (2007) ressalta a necessidade de o docente dominar os conteúdos que serão trabalhados em sala de aula, pois estes deverão se traduzir em objetivos de aprendizagem. Entretanto, o docente deve ter cuidado para evitar a cristalização de seu conhecimento, mantendo-se com contato com a realidade da profissão que ensina – especialmente aqueles que se afastaram da atuação profissional para se dedicar exclusivamente à docência – a fim de conduzir suas aulas com segurança, convicção e contextualização quanto ao mercado e práticas em voga.
Além do domínio dos conteúdos e conhecimentos específicos da profissão, faz-se necessária a habilidade do docente para contextualizar teoria e prática, bem como articulação dos conteúdos com outras áreas, aspectos que também foram valorizados pelos docentes.
O educando que busca formação profissional tem por objetivo principal aprender a trabalhar em determinada função ou profissão. Porém observa-se, assim como comentado anteriormente, o desinteresse e desmotivação do aluno no ambiente de sala de aula.
Em pesquisa com alunos do ensino profissionalizante, Mjelde (2015) identificou o desinteresse pelas aulas puramente teóricas e valorização dos momentos de aprendizado na prática. As justificativas dos alunos para a preferência pela prática foram: momento de fuga da rotina da sala de aula, satisfação pela possibilidade de produzir algo, sentir-se trabalhando de verdade. De maneira simplificada, o aluno não vê sentido em aulas teóricas, pois não consegue se projetar na situação de trabalho sem realmente vivenciá-la, não consegue criar relações com outros conteúdos e áreas.
Barato (2002) também defende a necessidade do aprendizado na prática. O autor critica a subordinação de técnicas e habilidades ao conhecimento, pois considera que a técnica é uma das dimensões do saber, um tipo particular do conhecimento.
Por meio da atividade prática e da cooperação que se promove nestes ambientes de aprendizagem, o educando desenvolve um ofício e pode chegar à perícia; este percurso o leva a outro nível no meio social, de aprendiz para companheiro de trabalho daqueles mais experientes, sendo sempre orientado pelo mestre/ professor. Assim, a atividade em si é o ponto principal para a aprendizagem (MJELDE, 2015).
Saber fazer, que caracteriza este aprendizado não é apenas uma receita que possa ser aplica automaticamente. O fazer demanda conhecimento específico, que não se resume a aplicação de conhecimento teórico, é um processo que exige engajamento cognitivo do aprendiz, que vai além do desempenho observável. (BARATO, 1999; 2002).
Apesar de evidenciarem a necessidade de contextualização entre teoria é prática, parece claro que os docentes desta pesquisa ainda não consigam, efetivamente, trazer este posicionamento para sua prática cotidiana, visto que o desinteresse do aluno é um fato presente no contexto da instituição de ensino.
Cabe ressaltar que não se trata apenas da intenção do docente em fazer diferente. O sistema educacional, tanto na educação acadêmica, quanto na profissional separa o conhecimento da experimentação, a teoria da prática, o pensamento da ação (MJELDE, 2015). Além da intenção do educador, é necessário que a escola adote posicionamento de aproximação do aluno em relação ao mercado, seja na adequação de espaços escolares, por
meio de parcerias com empresas que cedam espaços para realização estágios, ou outras estratégias que promovam a vivência prática do educando.
Também é papel da escola o apoio e formação do docente para conseguir atuar dentro desta nova proposta de educação, visto que o mesmo foi educado dentro de um modelo tradicional e tende a levar para a sala de aula este estilo de ensino.