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Em outro bloco de perguntas, os docentes foram questionados quanto aos fatores que influenciam o ensino técnico. Os resultados para estes questionamentos foram expostos na figura 11.

Todos os docentes consideraram importantes a revisão constante do projeto pedagógico e proposta curricular contextualizada.

Regattieri e Castro (2010) defendem que o currículo da educação profissional técnica deve estar alinhado com o mercado de trabalho e com as necessidades de desenvolvimento local; para isso é preciso manter diálogo com o mundo real, em que o aluno irá se inserir. Neste sentido, emerge o posicionamento estratégico da escola, a revisão de seu projeto pedagógico, bem como modernização de ações para alcance dos resultados esperados.

As atualizações e revisões no ambiente escolar têm se tornado cada vez mais necessárias, como resposta às rápidas mudanças na sociedade. Novas estratégias pedagógicas devem ser pensadas a todo o momento e na tentativa de conseguir atender às demandas de formação do mercado. A reflexão a respeito dos projetos pedagógicos é estimulada constantemente, diante das mudanças de legislação, e não deve acontecer apenas como forma de compressão de documentos, mas sim como forma de promover autonomia das escolas, promoção da democracia e busca pela qualidade (BRASIL, 1996).

O docente, peça fundamental na escola, necessita participar das discussões que levam à elaboração do projeto político pedagógico de onde atua, bem como lançar olhar crítico sobre os currículos propostos (REGATTIERI; CASTRO, 2010).

Regattieri e Castro (2010) comentam a importância do envolvimento do corpo docente em todas as fases de organização da escola para oferta de curso profissionalizante. O primeiro passo diz respeito à definição do projeto pedagógico da escola, que deve levar em consideração suas propostas, seus objetivos e sua missão. O segundo passo é a definição do perfil profissional de conclusão do curso e o terceiro, de certa forma incluso no segundo, é a definição clara das competências profissionais a serem desenvolvidas. O quarto passo define

os conhecimentos, habilidade e valores a serem trabalhados pela escola, para formação do educando. No quinto passo, é prevista a organização curricular, onde são propostos estágios, tipos de atividades e trabalho de conclusão de curso. O sexto passo define os critérios e procedimentos para a avaliação da aprendizagem. No sétimo passo são identificadas as condições técnicas, tecnológicas, físicas, financeiras e de pessoal para implantação do curso. E finalmente, o oitavo passo trata da elaboração do curso em si, para encaminhamento e apreciação dos órgãos competentes.

Todos os passos descritos necessitam da perícia de especialistas em educação, bem como docentes especialistas no mercado de trabalho, para construção de proposta de formação profissional alinhada com esta realidade e que leve em consideração a formação integral do educando para autonomia e atuação cidadã.

Entretanto, caso as definições educacionais sejam tomadas à distância, contando apenas com o envolvimento dos gestores escolares corre-se o risco dos professores permanecerem no isolamento da sala de aula, agindo individualmente, dissociados de seus pares e gestores. O envolvimento com a vida escolar, além da sala de aula em si, tira o docente da solidão que tanto caracteriza seu exercício profissional e o coloca como agente transformador neste processo.

Figura 11 – Fatores que influenciam o ensino técnico

Figura desenvolvida pela autora, a partir de dados coletados por meio de questionário.

Aspectos importantes para a condução e desfecho dos cursos, de acordo com o previsto no momento de sua idealização, são os controles que se fazem necessários, tais como

aqueles que foram apresentados aos docentes nesta pesquisa: acompanhamento do rendimento dos alunos, monitoramento de sua frequência e da aprendizagem, uso de resultados para traçar novas estratégias pedagógicas, bem como a transparência na divulgação dos resultados das avaliações.

A transparência na divulgação dos resultados foi o tópico considerado mais importante pelos docentes, o que, de certa forma, contempla os outros itens.

Muita importância se atribuiu à avaliação. Segundo Santos (2010) a avaliação da aprendizagem é preocupação cotidiana dos profissionais da educação; com os resultados da avaliação dos alunos, o professor tem condições de alterar sua forma de atuação, repensar sua prática e reorganizar atividades de ensino aprendizagem.

Mas tão importante quanto o repensar do docente é o conhecimento do aluno a respeito de sua avaliação e é neste sentido que a transparência dos resultados ganha dimensão. A nota, menção ou situação de avaliação deve ser uma forma de auxiliar o aluno na identificação de suas necessidades de melhorias (SANTOS, 2010). E neste ponto, se faz necessária a ação docente, identificando ou criando estratégias para recuperar o aprendizado do educando.

A avaliação não deve ser uma ferramenta de quantificação e qualificação do aluno, manifestando-se de forma punitiva, ao contrário, deve estar a serviço da aprendizagem. Sob este ponto de vista, toda ação pedagógica vincula-se a uma avaliação (SANTOS, 2010). Isso significa dizer que o aluno é avaliado na medida em que aprende, ou seja, o tempo todo. Desta forma, também deve ser informado constantemente a respeito de seu desempenho, aumentando suas chances de recuperação.

É compreensível a relevância dada pelos docentes à necessidade de dar retorno de forma sincera ao aluno no que se refere aos critérios de avaliação. Percebe-se em ambientes escolares que não se considera oferecer aos discentes a adequada resposta de como foram avaliados, quais os critérios adotados, até mesmo por que receberam determinado conceito/ nota, minando o interesse do aluno pelo aprendizado.

A transparência quanto aos resultados do aluno exige do docente disponibilidade para mudar, para desenvolver sua prática de forma inovadora, buscando novos caminhos na tentativa de recuperar alunos com algum tipo de dificuldade. Tal disponibilidade parece verdadeira para os docentes participantes, na medida em que consideraram importantes questões como inovação pedagógica, planejamento da prática pedagógica e reorganização dos espaços e tempos escolares.

A inovação pedagógica parece caminhar junto com a flexibilidade docente, apontada anteriormente como necessidade pelos participantes, desta forma, os docentes parecem sentir necessidade de adotar posicionamento pedagógico diferenciado em suas aulas e o uso de didática específica para esta modalidade de ensino.

Barato (2002; 2011) critica a adoção de didática tradicional pela educação técnica, pois considera que a subordinação da prática à teoria – característica da didática tradicional – não contempla as necessidades desta modalidade de ensino que valoriza o saber fazer.

A educação técnica profissional necessita resgatar o saber vinculado à própria tarefa, ao trabalho em si, pois este nasce antes mesmo da ciência (BARATO, 1999; 2011). Neste sentido, é importante a valorização das dinâmicas do saber, da elaboração que se estrutura no fazer cotidiano do trabalhador, sem que se imponham apenas formas de ensinar nascidas dos conteúdos meramente acadêmicos.

Vale, neste ponto, relembrar que os docentes do ensino técnico são profissionais que se direcionaram para a carreira educacional após a vivência no mercado de trabalho; é bastante provável que carreguem consigo as estratégias de ensino adotadas nas empresas, ou seja, o aprendizado baseado na execução da tarefa, forma de ensinar que encontra fundamento em Barato (1999; 2002; 2011) e Mjelde (2006; 2015).

Parece haver preocupação dos docentes no sentido de encontrar estratégias mais eficientes para atuação junto ao aluno do ensino técnico, entretanto não é possível afirmar que as estratégias que valorizem a prática estejam sendo adotadas, na medida em que a desmotivação e desinteresse dos alunos são desafios que persistem, conforme comentado anteriormente.

A inovação pedagógica também exige a reorganização dos espaços e tempos escolares, pois a dinâmica de funcionamento e organização das empresas não segue a mesma lógica das escolas. As salas de aula, com cadeiras enfileiradas, em nada lembram os ambientes de trabalho almejados pelo aluno (MEJDLE, 2015). Ambientes que não aproximam o aluno da realidade de trabalho acabam estimulando o posicionamento transmissivista do docente (BARATO, 2002) – que transmite a informação e o conhecimento – sem valorização a atuação do aluno. Assim, a mobilização dos gestores escolares é necessária na condução e apoio para conquista de espaços mais adequados, criando um ambiente de aprendizagem mais estimulante e realmente alinhado com as práticas do mercado de trabalho.