4. Analysis and Discussion
4.4 BKK’s Organizational responses to disruptive innovations
4.4.1 Organizational Structure
Uma outra importante abordagem teórica que se relaciona com o espaço e com a forma como o apreendemos, é a fenomenológica. “Segundo a etimologia, a
fenomenologia é o estudo do fenómeno. Como tudo o que aparece é fenómeno, o domínio da fenomenologia é praticamente ilimitado e não poderíamos, pois, confiná-la numa ciência particular.” (André Dartigues, 1992, p. 1).
Os principais contribuidores para o tema foram Edmund Husserl (1859-1938), Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) e Jan Patočka (1907-1977) (NAMU, 2020). Contudo, dada a finalidade deste Relatório de Estágio, a pesquisa, parece aproximar-se de outro autor, David Seamon (2014), nome importante, que seguiremos com alguma atenção. Fenomenologicamente, o lugar pode ser definido como um qualquer lócus ambiental no qual sejam traçados espacialmente: ações, experiências, intenções e significados, individuais ou em grupo. Seamon afirma mais concretamente (2014, p. 12): “I suggest that these holistic, dialectical, and generative perspectives provide a range of useful ways for thinking about and understanding place attachment.”
Abordando o tema de forma holística, e seguindo a mesma linha de raciocínio de outros autores, Seamon defende a mesma realidade. Também para ele a perceção do espaço é quase singular de pessoa para pessoa. Seja porque o espaço é diferente por si só, mas também porque quem o analisa o é. Cada um de nós analisa e retira do espaço aspetos diferenciados. Para o autor, este processo é extremamente complexo e
dinâmico, e depende, além de outras questões, da experiência e dos significados que determinado espaço transmite.
O grau de fixação por um lugar não se pode medir apenas tendo em conta a idade, o
status social, as características físicas e o tempo despendido. Para tal, Lewicka (2011, apud Seamon, 2014) diz-nos também que é preciso ter em consideração, por exemplo,
as qualidades geográficas desse mesmo local e a conexão que se tem com o mesmo, mas também a qualidade de vida, a sensibilidade estica ambiental e a identidade individual. Para a ligação funcionar, as dimensões humanas e ambientais devem estar em sincronia.
Como segunda análise, do ponto de vista dialético, isto é, no que se refere á discussão de ideias, ao diálogo e comunicação, Seamon, destaca duas contraposições de ideias, importantes para a relevância do apego ao lugar - movimento/descanso e interior/ exterior. Relativamente à dualidade movimento/descanso, muitas das vezes e de forma consciente, tendemos a estar num espaço e estabelecer com ele uma atitude ativa ou passiva. É exatamente essa dualidade de situações que faz com que
estabeleçamos com o lugar certas e determinadas rotinas e movimentos, e tenhamos com ele determinadas atitudes, que fazem com que o percebamos de determinada forma e apreendamos dele essas mesmas características. Com outros espaços, tendemos a ser monótonos e a usá-los como espaços de descanso, exercendo sobre eles um grande nível de passividade. “Because of the unself-conscious facility of body- subject, life just happens, and we follow a more or less regular regimen of actions, experiences, situations, and occasions all grounded in particular places and the paths of movement among those places” (Seamon, 2014, p. 14). Já Relph (1976, p. 55, apud Seamon, p. 14) chamou a este problema existential insideness. Uma situação de passividade em que alguém se sente tão completamente “em casa” e imerso no lugar, que a importância desse lugar no quotidiano de uma determinada pessoa não é mais por ela notada.
Além desta atitude perante o espaço, existem outras variáveis que condicionam a nossa perceção do mesmo. Segundo Fried (2000), Fullilove (2004) e Simms (2008, apud Seamon, 2014), não podemos esquecer a preponderância das nossas emoções no momento em que estamos perante o espaço e o apreendemos, sejam elas de tristeza, raiva, medo, preocupação, depressão ou arrependimento. Todas são também
influenciadoras da perceção. Esta dualidade permite entender desde logo a diferença da nossa atitude perante o espaço, que se repercute no futuro e na forma como o “aprisionamos” para nós mesmos.
A segunda dualidade - interior / exterior, remete para o à vontade, a familiaridade e o conhecimento de um determinado espaço. Esta dualidade pode ser facilmente
explicada com um exemplo - um habitante de uma cidade e um turista. Por um lado, o habitante, está familiarizado com aquele espaço, já lhe é comum tudo aquilo que observa; por outro lado, temos o turista, que entra do exterior e fica surpreso com tudo o que vê. Tudo para ele é novidade e cada pormenor é importante.
Seamon (2014) sintetiza muitas das ideias referidas identificando seis processos que explicam a nossa atitude perante o espaço:
Place Interaction - Lugar de interação
Remete para todas as interações / experiências que se realizam num local. Todas as ações, comportamentos, situações e eventos que lá se desenvolvem. A “interação com o lugar” concretiza-se em saber aquilo que ele já é e tudo aquilo que podemos esperar dele, em qualquer altura, seja do dia, do mês ou do ano. A interação é importantíssima para conhecer o espaço. É ela que nos interliga com ele e nos proporciona a
experiência, fazendo desse espaço, um espaço de presença (Seamon, 2014).
Place identity - Identidade do local
Este processo acontece quando um indivíduo reconhece o local como parte integrante da sua vida, ou de algum episódio desta, atribuindo-lhe um significado particular e reconhecendo-lhe valor pessoal e sentimental. Esta interação dá origem a um
dinamismo e atividade nesse local, por parte do mesmo indivíduo, desenvolvendo-se um ciclo de relação, significado e sentimento (Seamon, 2014).
Place Release - Libertar o local
Este terceiro processo diz respeito à surpresa, ao inesperado e a um boom
momentâneo de emoções. São situações casuais que permitem que “libertemos” o local. Temos como exemplo, um eventual encontro na rua com um amigo de infância, com a antiga vizinha do quarterão, ou então, o encontro no café com o próprio marido ou esposa. Contudo há que ter em conta que a frequência de uso de um qualquer lugar é também influenciadora. Um local frequentado, por cada um de nós, mais vezes, tende a não oferecer mais surpresas inesperadas e, além disso, são espaços vividos com menor entusiasmo por serem locais do quotidiano (Seamon, 2014).
Place Realization - Concretização do local
Para Seamon, a concretização de um local refere-se á “palpable presence of place” (2014, p. 17). Segundo o autor, concretizar um local é abarcar o conjunto físico e
humano desse mesmo sítio. É conhecer e conceber o espaço interiormente como aquilo que ele é, sendo capaz de o transpor mentalmente para outros locais, como conceber Nova York, urbana, com multidões e arranha-céus, ou então conceber a Escócia com paisagens, pastos verdes e ovelhas que os percorrem por entre casas de pedra, pequenas e humildes. Contudo, esta realização de espaços costuma contribuir para a sua deterioração e destruição, seja por políticas inadequadas, design incorreto ou falta de investimento (Seamon, 2014).
Os quatro processos anteriores, de interação, identidade, libertação e concretização do local, descrevem, essencialmente, o que esses locais são e como funcionam. Mas, existem dois processos de melhoramento ou deterioração desses espaços que faz com que se transformem em locais mais ou menos agradáveis, dependendo das atitudes e do esforço humano.
Place Creation - Criação de lugar
Para o Seamon (2014), este é o processo no qual o ser humano tem de ser mais ativo. Aqui, as pessoas assumem um compromisso de melhoramento de um local, criando para isso, novas e melhores políticas, melhor design e planeamento, para que os quatro processos anteriores sejam mais significativos (Alexander et al., 2012 apud Seamon, 2014).
Por um lado, quando assim acontece, o espaço é dotado de valor e significado, as pessoas são capazes de o pensar, imaginar, impulsionar e por fim, como finalidade, melhorá-lo. Por outro lado, opções e atitudes menos corretas criam um local, mal conotado, nada significativo, em que os indivíduos enfrentam dificuldades e insatisfações por permanecerem associados a ele.
Place Intensification - Intensificação do lugar
A intensificação do local assemelha-se ao processo anterior, com a diferença que neste, a atratividade e a procura desse lugar é independente das políticas, design, entre outras. A ideia que se quer transmitir é que o lugar é ativo por si só, por condicionar, devido a questões físicas e organizacionais, as ações e experiências do Homem (Seamon, 2014).
Embora constituam seis processos distintos, é preciso esclarecer que em locais “bastante utilizados”, todos estão presentes, nenhum é mais importante, sendo apenas diferentes. Contudo, em determinados espaços e tempos, algum(ns) dele(s) podem-se destacar e ter mais sentido.
Todos os seis processos são formas e intensidades de nos ligarmos ao espaço e estabelecermos laços emocionais com ele. “In their constructive, place-sustaining modes, the six processes mutually support and invigorate each other at a wide range of generative levels and scales.” (Seamon, 2014, p. 19).