Durante a realização das atividades, percebemos que alguns dos sujeitos envolvidos na pesquisa procuravam explorar um determinado instrumento utilizando os recursos que a eles eram possíveis. Para explorar as propriedades físicas apresentadas por uma esfera, MG balançou o objeto que tinha em mãos a fim de captar sons, bateu com este sobre uma mesa e tocou em toda a sua superfície, percebendo sua forma. Balançando objetos, tentando captar sons, tateando por superfícies de diferentes estruturas, tocando os instrumentos de estudo, os alunos buscavam estratégias que melhor pudessem compreender e identificar todo o objeto que estava em suas mãos.
Na atividade com materiais sólidos (figura 8, p. 73), realizada durante a sondagem, antes do início das atividades, pudemos perceber que as diversas estratégias utilizadas pelos alunos para poderem compreender o objeto manipulado. Chamou-nos a atenção à forma como alguns alunos exploraram cada um desses objetos. Na figura 41, podemos perceber quadro a quadro os recursos utilizados por MG para poder explorar a esfera de isopor (letra G, figura 8, p. 73) que se encontrava em suas mãos. O aluno manuseou o objeto, balançou próximo ao ouvido, bateu sobre a mesa e deu tapas em sua superfície.
Figura 41: MG toma a bola em suas mãos e da pequenos socos [1], pequenos tapas [2], bate-a sobre a carteira [3], balança-a próximo ao seu ouvido [4] e, em seguida, registra as observações que fez a
partir do objeto manuseado [5].
Para Vygostky (1997), nosso mundo está organizado mais com fenômenos visuais que sonoros. Sendo assim, os cegos procuram alternativas para explorar objetos que superem esta apresentação exclusivamente visual e, de certa forma, possam identificá-lo através de sua composição textual e sonora. Por isso, MG movimenta a
esfera de isopor que se encontra em suas mãos, tocando-a e chocando-a sobre a carteira. São as estratégias de mediação utilizadas por ele para identificar características que definem o objeto que se encontra em suas mãos. Tanto que, sua fala em relação a este objeto é baseada em suas experiências sensoriais e culturais, formadas em antigas interações com o ambiente, já que o associa a um esporte conhecido. Segundo ele: “uma bola. Serve para jogar futebol. Não tem arestas nem vértices. Parece um círculo. Quando cai no chão e não tem nenhum tipo de ponta”.
Na primeira atividade realizada com a classe, Samuca e Chuck utilizaram gestos para se comunicarem, como a identificação de ângulos com as mãos. Essa forma de linguagem também foi comumente utilizada pelos alunos durante o desenvolvimento das atividades. Vale ressaltar que este recurso de comunicação se deu pelo fato da pesquisadora ser vidente e poder identificar o gesto e compreender o que estava sendo apresentado. Para Vygotsky (1997), essa manifestação nada mais é que outra forma de compensação sensorial utilizada para comunicar-se com o outro, fazendo-se entender e contribuindo para sua formação cultural.
Espinosa e Ochaíta (2004) destacam a importância de familiares e professores estarem atentos a todo tipo de sinais emitidos pelas crianças cegas na comunicação. Ao longo da pesquisa, compreender os gestos utilizados pelos alunos foi de grande importância na compreensão de suas ideias e dúvidas. Quando Samuca afirma – enquanto toca a aresta – “até aqui!” e explicamos em voz alta: “Você está mostrando uma linha, certo? É aresta”, para que a turma acompanhasse nosso diálogo, é um bom exemplo disso.
Na atividade 4, uma das tarefas envolvia a medição de ângulos formados com macarrão colado em folhas de papel. Samuca iniciou a medição dos ângulos designados a ele (figura 18, p. 86) sentado em sua carteira, apoiando sobre o colo a folha que contém a atividade, mas depois preferiu ficar em pé para obter um melhor apoio sobre a carteira (figura 42). Ele apresentou bastante dificuldade em alinhar o transferidor à semi-reta do ângulo apresentado nesta atividade.
Figura 42: Samuca inicia a medição sentado, mas finaliza em pé.
Novamente vemos aqui a utilização de estratégias de mediação para melhor compreender e manipular os instrumentos fornecidos e o espaço dado àquele que explora. Adler (COBRA, 2003), em sua Psicologia Individual, dizia que todos os fenômenos psicológicos são direcionados para a resolução de metas a fim de atingir a níveis mais altos de conhecimento. Com essa mudança de comportamento, deslocando- se de seu lugar, levantando-se de sua carteira para melhor manipular os objetos, Samuca mostra que está interessado na atividade que desempenha e busca outras formas de explorar o objeto que possui a fim de extrair todo o conhecimento que estes instrumentos possam fornecer a ele. O uso desses meios apenas reforça a ideia de Vygotsky (1997) em relação à reestruturação que passa o organismo e a personalidade daquele que não vê em busca de meios auxiliares para atingir o mesmo objetivo daquele que vê: o alcance de uma determinada meta previamente traçada.
No encontro seguinte ao mencionado anteriormente, propusemos aos alunos que construíssem sozinhos ângulos de medidas previamente determinadas, utilizando os mesmos instrumentos: macarrão e transferidor. Cada ângulo construído por eles seria fixado por fitas adesivas transparentes e faria parte do Dicionário de Geometria.
Quando solicitamos que os alunos quebrassem o macarrão ao meio, de forma a possuírem dois segmentos para a composição do ângulo, a maioria utilizou a mesma estratégia: tomou os dois extremos e foi aproximando as mãos ao centro do espaguete até ambas se encontrarem (figura 43).
Figura 43: Como não possuem aproximação do centro do quais dispunham para real Fernandes (2004), promove percepções táteis vão além o sujeito a tecer conjectura Samuca, na figura 43, pare utilizando seu comprimen proximidade o centro do ma Na construção do ân um pouco de frustração. Ch e foi ajudá-lo. Perceba a p juntos o ângulo, movimenta
Figura 44: Ambo
: Samuca parte o macarrão ao meio a partir de seus extr m o recurso visual (em sua grande maioria) par o fio de espaguete, eles utilizaram os recurso ealizarem a mesma tarefa: determinar este c
ver o manuseio de instrumentos e materiais qu m delas. Também estimulam interações intrape uras, fazer associações e tirar conclusões daqu
arece conhecer o espaço ocupado pelo macarr ento estrategicamente de forma a encontra macarrão.
ângulo de 45º, Samuca era o mais impacient Chuck, percebendo sua insatisfação, levantou-se
posição das mãos dos dois sujeitos na figura ntando transferidor e macarrão juntos.
bos manuseiam os instrumentos, um auxiliando o outro n xtremos.
ara encontrar uma sos sensoriais dos centro. Segundo que estimulam as apessoais, levando quilo que explora. arrão e delimita-o, trar com grande
ente e percebemos se de sua carteira ura 44: constroem
Para Vygotsky (1984), aprender com outros indivíduos é uma das estratégias de aprendizagem utilizadas pelo homem. Neste caso, as instruções dadas por Chuck a Samuca durante o desenvolvimento desta atividade são positivas e contribuem para a aprendizagem de ambos. Chuck juntamente com Samuca, atuam em sua ZDP e, concomitantemente, avançam. Ambos interagem em busca da solução do problema em questão: construir um ângulo de 45º. Ao mesmo tempo em que Chuck acalma Samuca na resolução da tarefa, dá suporte para que o segundo supere sua dificuldade (sua inferioridade) e alcance o objetivo traçado a priori (a superioridade). É o que Fino (2001) chama de aprendizagem mediada pelos pares. Nesta forma de aprendizagem, conforme dito no capítulo 2 (p. 32), os alunos se interagem ensinando uns aos outros, trocando ideias e experiências. Mais uma vez percebemos as funções psicológicas superiores sendo formadas e interiorizadas a partir de relações com outros humanos, a partir da relação social.
Na atividade 7, na qual a noção de semelhança era trabalhada com a manipulação e análise de figuras, MG utilizou uma boa estratégia para verificar a semelhança entre os hexágonos. Através da sobreposição de figuras, verificou se os ângulos que se encontravam em dois hexágonos que pareciam ter a mesma forma eram congruentes (figura 45). Através da sobreposição dessas duas figuras, concluiu que os hexágonos eram semelhantes.
Figura 45: MG sobrepõe dois hexágonos a fim de comprar seus ângulos.
Utilizar todos os recursos que se dispõe para a solução de um problema e encontrar meios eficientes e objetivos para isso é um dos pontos de desenvolvimento cognitivo. Entendemos aqui que a estratégia de mediação utilizada por MG sobrepondo figuras a fim de verificar a congruência entre os ângulos indicava uma ação em sua Zona de Desenvolvimento Proximal, uma interação entre o conteúdo de estudo (as figuras e suas características) e o aprendiz. MG ainda vai mais longe: já consegue perceber a semelhança de hexágonos através das relações angulares.
Na atividade 8, em um determinado momento, além da medição dos lados de um triângulo, solicitamos que os alunos também medissem seus ângulos internos. Nesse momento, alguns alunos parecem ter se esquecido de como utilizar o transferidor.
Samuca Como é que se mede mesmo? Chuck Num sei, num lembro.
Samuca Ah, é lembrei. [Medindo corretamente com o auxílio do transferidor.] Achei 60º.
MG Dá 30º?
Degê O meu grandão deu aqui 360º.
Bejota Ai, Degê, num eventa. [...] Tá difícil medir aqui. Samuca Eles são semelhantes!
Bejota Como que eu começo medindo o grandão?
Samuca Deixa ver se eu consigo te explicar. [Levanta-se até à carteira de Bejota, figura 35.] Você bota o centro no vértice e alinha.
Figura 46: Samuca mostra para Bejota como mexer com o transferidor.
A situação descrita sugere que Bejota recuperou suas experiências em relação à medição de ângulos com o auxílio de um colega, no caso, Samuca. Ambos estão em níveis diferentes de ZDP e participam juntos do processo de medição. Fino (2001) afirma que, durante a participação guiada, os conhecimentos e as habilidades daquele que aprende são desenvolvidas e, aos poucos, seu par vai lhe entregando cada vez mais o controle da atividade. Assim, gradativamente, Bejota vai interiorizando os procedimentos e, com Samuca, vai reaprendendo a medir ângulos. Mais uma vez, vemos a importância da aprendizagem mediada por pares. Eles interagem ensinando um ao outro, trocando experiências e resoluções.
Em relação à medida dos lados encontrados com o auxílio da régua adaptada, Degê percebeu que o triângulo 1 (um) (figura 29, p. 98) possuía uma medida maior que o tamanho da régua.
Degê Nu!! Nu, Bejota, esse triângulo aqui é maior que a régua! Mede mais que a régua esse grandão aqui.
Bejota Marca onde termina a régua e continua.
Chuck Eu marquei com o dedo e levei a régua lá. É mais fácil!
Bejota e Chuck utilizaram métodos semelhantes na medição do lado do triângulo, mas cada um a seu modo. Para Colaço et al (2007), esses recursos empregados pelos alunos para intermediar atividades e utilizar instrumentos são estratégias de mediação. Marcar onde parou durante a medição é um meio potencial de compreensão do espaço explorado.
Muitas vezes, as estratégias utilizadas pelos alunos foram importantes ferramentas na mediação de conhecimentos e no acesso às informações. Entendemos que estratégias de mediação são formas como utilizamos os instrumentos e os signos para intermediar atividades, proporcionando interações entre pessoas e os meios utilizados. Ao realizarem as atividades em conjunto, os alunos buscavam recursos que potencializavam sua comunicação com o outro e a compreensão do objeto de estudo em questão.
Na teoria histórico-cultural de Vygotsky (1984; 2001), encontramos suporte para analisar as estratégias e os recursos utilizados pelos alunos na exploração dos instrumentos, já que o desenvolvimento psicológico compreende o processo de desenvolvimento cognitivo e social e a linguagem (a palavra) através do diálogo entre os sujeitos da pesquisa é um dos recursos mais utilizados pelos alunos para a descoberta e a compreensão.