Antes do início das tarefas em Geometria elaboradas para esta pesquisa, era necessário verificar o grau de afinidade e conhecimento que os alunos possuem referentes a esse conteúdo. Sendo assim, a professora realizou algumas atividades elementares de Geometria plana e espacial. Tais atividades foram elaboradas por nós, pesquisadoras.
A partir da análise das respostas dadas pelos alunos pudemos identificar como costumavam explora as atividades e materiais a ele fornecidos, que recursos utilizavam e quais os assuntos, tópicos e símbolos que já pareciam familiares ao grupo.
Figura 4: Avaliação Diagnóstica: figuras simples, contorno e elementos primitivos. Nas atividades da figura 4, utilizamos EVA61, barbante, macarrão e cola em relevo. Cada uma das figuras possuía, logo abaixo da mesma, uma letra de identificação em Braille. Foi solicitado aos alunos que escrevessem em uma folha a parte tudo o que sabiam sobre cada uma das figuras, como o nome, o que ela contém, o que a diferencia de outras figuras, etc.
O manuseio da folha acontece geralmente com ela apoiada na carteira, mas Bejota a manuseia no alto. Isso se deve ao fato deste aluno possuir um resíduo visual. Segundo, Espinosa e Ochaíta (2006) a utilização da visão residual, mesmo que escassa e deficitária, é importante para o aprendizado e deve ser incentivada e explorada ao máximo. Bejota usou esse recurso em praticamente todas as atividades, que foi de grande auxílio para conclusões e construções.
Figura 5: Bejota aproxima a folha em seus olhos para identificar as figuras com o auxílio da visão periférica.
Vygotsky (1997) ressalta a importância do tato por permitir uma coleta de informações significativa de objetos pequenos e próximos. Como evidenciam as pesquisas estudadas, também nós – a partir da realização da tarefa e das falas dos próprios alunos na exploração do material – verificamos que o triângulo, o quadrado e o círculo foram mais facilmente identificados. Características relacionadas ao número de lados e número de vértices foram corretamente citadas pela maioria. Percebemos também que algumas associações foram feitas com objetos do cotidiano, como indicado na figura 6.
Figura 6: Resposta de Chuck para a letra E da atividade 1 (figura 4).
Corroborando as ideias de Espinosa e Ochaíta (2006), percebemos vários erros gramaticais e de grafia na escrita Braille dos alunos. Acreditamos que esta forma de escrita é pouco utilizada pelos alunos e que algumas expressões ainda são desconhecidas para eles quanto à sua escrita, tendo-se conhecimento apenas de sua oralidade. Por exemplo:
Em geral, os participantes da pesquisa não pareciam familiarizados com as diferentes nomenclaturas utilizadas na identificação de segmentos em Geometria Plana e Espacial. Arestas e lados são expressões livremente utilizadas pelos alunos independente do item apresentado.
Na segunda atividade (figura 4), percebemos, pela fala dos alunos, que as diferenças apresentadas nas figuras não eram claras para eles. No diálogo abaixo, Cat identifica apenas a diferença do material utilizado para a construção das figuras como a diferença entre elas.
Cat Hum... Não tem nenhuma diferença. Tem nessa [C], mas nessa daqui [A] e nessa daqui [B] não.
Pesquisadora Entre essas duas aqui você não vê diferença nenhuma? Cat Nenhuma.
Pesquisadora Entre essas duas aqui [A–B e C–D] você vê? Cat Vejo.
Pesquisadora O quê?
Cat Humm. O material...
A atividade 3 (figura 4) tratava de conceitos primitivos em Geometria. Em geral, os alunos não indicaram dificuldades nas relações entre as retas (letras E, F e G, ativ. 3, figura 4), mas na apresentação da reta em si (letra B, ativ. 3, figura 4), na identificação de ponto (letra A, ativ. 3, figura 4) e de plano (letra C, ativ. 3, figura 4). Em outro momento, não lembravam o nome deste elemento e fizeram associações com itens de seu conhecimento cotidiano, chamando o ponto de pingo.
Chuck Tenho certeza que eu nunca vi isso...
Pesquisadora Que nome você dá pra isso aí? Popularmente... Chuck Um pingo.
Pesquisadora Um pingo. Pronto. Na Geometria é chamado de quê? Chuck Vou saber...
Pudemos inferir que os alunos desta turma têm conhecimento prévio sobre o vocabulário referente a figuras planas, porém pouco se sabe sobre características específicas das formas geométricas como relações entre lados e relações entre ângulos.
A quarta atividade tinha como objetivo: identificar elementos, levantar conceitos e observações acerca do sólido manipulado e associar cada sólido a objetos comuns de seu conhecimento. Tomamos aqui algumas superfícies sólidas em acrílico (figura 8)
para manipulação devido ao fato de serem de fácil manuseio, terem boa estrutura física e apresentarem características físicas de nosso interesse. A pesquisadora comentou com os alunos que os objetos a serem manipulados, na verdade, se tratavam de superfícies sólidas, pois, para serem denominados sólidos deveriam objetos maciços. Porém, no decorrer das atividades, quando encontrarmos superfícies sólidas, lidaremos como se sólidos fossem, utilizando esse vocabulário, inclusive. Mantivemos a palavra “sólido” ao longo do texto, cientes de que os alunos estavam a par da diferença.
Figura 8: Sólidos geométricos em acrílico e isopor.
Assim como nas atividades anteriores, todos os sólidos foram marcados com letras em Braille (de A a G) para melhor identificá-los e distingui-los. Foi solicitado que todos manuseassem um a um os objetos, tomando nota do que percebiam sobre o mesmo.
Durante esta atividade, os alunos procuraram objetos semelhantes aos sólidos que tinham em mãos, levando em consideração não só a sua forma, mas a posição em que se encontravam (conforme diálogo exposto abaixo). Outros alunos diziam o nome à medida que exploravam o objeto. Características como a presença ou não de arestas, a existência e a quantidade de vértices presentes em cada objeto já foram sendo ditos pelos alunos à medida que executavam a atividade. Essa exploração foi importante para que pudéssemos verificar o grau de conhecimento dos alunos. Algumas respostas foram fundamentais para avaliarmos o andamento da turma.
Chuck Esse sólido meu parece com um prédio, velho. [C] Pesquisadora Parece o que?
Chuck Um prédio.
Tendo em mãos as anotações dos alunos e as imagens geradas a partir das atividades acima, analisamos os conhecimentos manifestados e partimos para o desenvolvimento das atividades que abordariam conceitos associados a esses conhecimentos prévios e ao dia-a-dia desses alunos.
4.2.Atividade 1: Formalizando conceitos geométricos a partir da exploração