Actualmente, a infecção pelo VIH em Portugal coloca o país numa posição hierárquica de VIH/SIDA preocupante em relação aos restantes países da Europa Ocidental. Em Portugal a taxa de prevalência (tal como se verifica na figura 6) e de incidência da infecção VIH são as mais elevadas da União Europeia, sendo a epidemia classificada como concentrada. (28)
A infecção por VIH passou a integrar a lista de Doenças transmissíveis de Declaração Obrigatória em 2005, sendo a notificação obrigatória aquando do diagnóstico em qualquer estadio da infecção, sempre que se verifique alteração do estadio ou no caso de óbito. Tendo em conta estas notificações (incluindo as realizadas no período em que as notificações da infecção pelo VIH não eram obrigatórias), desde 1983 a 31 de Dezembro de 2010 encontravam-se notificados (e chegaram ao Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, I.P., no Núcleo de Vigilância Laboratorial de Doenças Infecciosas) 39 347 casos de VIH/SIDA nos vários estadios da doença. (28)(29)
MESTRADO INTEGRADO EM CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS 45 No decorrer do último ano (1 de Janeiro a 31 de Dezembro de 2010), foram notificados 2 325 casos de VIH/SIDA e estavam distribuídos de acordo com o estadio da infecção do seguinte modo: 688 casos de SIDA (350 diagnosticados em 2010 – 50,9%); 271 casos classificados como sintomáticos precoce (109 diagnosticados em 2010 – 40,2%); e 1 366 casos de portadores assintomáticos (561 diagnosticados em 2010 – 41.4%). Contudo, destes casos apenas 1 020 (43,9%) haviam sido diagnosticados nesse mesmo período. Relativamente ao modo de transmissão, dos casos diagnosticados em 2010, 612 (60%) estão reportados na categoria da transmissão heterossexual, 14,4 % (147 casos) estão associados à transmissão relacionada com a partilha de instrumentos de toxicodependência e 217 casos (21,3%) referem a transmissão homo/bissexuais como a causa da infecção. (29)
Do total de casos acumulados de 1981 a Dezembro de 2010 o maior número refere como causa a transmissão heterossexual (42,1%), enquanto a transmissão via partilha de instrumentos de uso de drogas injectáveis constitui 39,9% de todas as notificações, seguindo-se a transmissão por contacto homossexual. (29)
Importa ainda referir que no ano de 2010 não foram diagnosticados (ou pelo menos não estão referenciados) casos de transmissão por transfusões sanguíneas, nosocomiais, transfusões de factores de coagulação do plasma em hemofílicos nem mesmo de mãe para filho. (29)
Em 31 de Dezembro de 2010, o total acumulado de casos de SIDA em Portugal rondava os 16 370 (8 676 ainda estão vivos e 7 694 já faleceram), tendo-se atingido o máximo de casos diagnosticados no ano de 1999, sendo os homens e a faixa etária dos 20 aos 49 anos os mais afectados. (29)
Com os dados relativos aos óbitos ocorridos desde o primeiro dia de 1983 até ao último dia de 2010, pode-se constatar que os toxicodependentes são aqueles mais fragilizados, correspondendo a 50,4% das mortes ocorridas neste período, já que estão mais susceptíveis a doenças oportunistas (tuberculose apresenta um lugar de destaque como causa de morte - 41,1% dos casos de morte). (29)
No período de 1983 a 31 de Dezembro de 2010, dos casos de SIDA diagnosticados em Portugal, 95,5% eram causados pela infecção pelo VIH-1, 3,2% pela infecção pelo VIH-2 e em 1,3% dos casos estavam envolvidos os dois tipos de vírus. (29)
MESTRADO INTEGRADO EM CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS 46
12.
I
nteracções
M
edicamentosas
As interacções medicamentosas são definidas como uma alteração na intensidade e/ou duração da resposta a um fármaco aquando da administração prévia, conjunta ou posterior de outra substância (fármaco, alimentos, drogas, álcool, tabaco, poluentes, entre outras), em comparação com os efeitos terapêuticos e/ou tóxicos obtidos quando administrados em separado. Existem situações em que essas interacções são favoráveis numa perspectiva clínica e a capacidade de prever o sentido e a força da variação na resposta terapêutica baseia-se na compreensão do mecanismo pelo qual a interacção ocorre e do estado clínico do doente, sendo essencial para o controlo da interacção em causa. (30) (31)
Os efeitos adversos adjacentes às interacções medicamentosas têm atraído as atenções de estudos científicos, devido ao grande desenvolvimento de novas substâncias com actividade terapêutica que requerem um equilíbrio entre as características físico- químicas, farmacocinéticas e farmacodinâmicas dos fármacos. No entanto, nos estudos de interacções não é possível prever todas as co-prescrições de fármacos possíveis na prática clínica, pelo que o perfil completo da eficácia, da segurança e da ocorrência de interacções apenas é determinado após a entrada dos medicamentos no mercado. (32) (33)
Deste modo, e tendo em conta que a população infectada pelo VIH apresenta regimes terapêuticos com 3 ou mais fármacos anti-retrovirais e que além desses podem necessitar de outros medicamentos para o tratamento de outras morbilidades relacionadas ou não com a infecção, é interessante e importante perceber de que forma a farmacoterapia da SIDA e de outras doenças concomitantes pode ser melhorada, monitorizando efeitos adversos das interacções e também aproveitando as interacções para um efeito terapêutico benéfico. (34)
As interacções podem ser classificadas de acordo com o mecanismo da interferência em farmacêuticas e terapêuticas (farmacocinéticas e farmacodinâmicas). Apesar de a definição genérica de interacção referir-se a interacções fármaco-fármaco, esta inclui também interacções fármaco-alimento, fármaco-álcool e fármaco-plantas. Podem ainda ser referidas interacções fármaco-clínica laboratorial, quando um fármaco interfere, por exemplo, com os resultados bioquímicos ou hematológicos do doente. Há ainda a destacar possíveis interacções entre fármacos que dependem de factores genéticos, pelo que o efeito das mesmas dependerá do indivíduo. As doenças também
MESTRADO INTEGRADO EM CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS 47 podem alterar a farmacocinética e/ou a farmacodinâmica do fármaco (interacção fármaco-doença). (34)