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Organisering av gode pasientforløp og «Hva er viktig for deg?»- metodikken i

Dentro da antropologia cultural do povo nyungwe, se existe um dos assuntos mais polêmicos que pode gerar comunhão e solidariedade, brigas, mal-entendidos, perseguições, divisões entre membros de família, mesmo na comunidade cristã, etc, é a doença e sua

250 A Antropologia como campo de estudo, possui diversos ramos. A Antropologia física, também conhecida como

biologia humana, é o estudo da evolução da espécie humana, e está preocupada em explicar as causas da diversidade atual das populações humanas. Na investigação da pré-história humana, utiliza técnicas da arqueologia, da paleontologia, da genética, bem como o estudo do comportamento e ecologia dos primatas. A Antropologia social e a antropologia cultural tratam do estudo comparativo das sociedades humanas atuais e seus sistemas culturais, embora haja diferenças na ênfase dada nas duas abordagens. HELMAN, Cecil G.. Cultura, Saúde e Doença, Porto Alegre: Ed. Artes Médicas, 1994, pp. 21-22.

251 Nos Estados Unidos preferem a denominação Antropologia Médica, enquanto que no Brasil e outras partes da

Europa como na França, preferem falar de Antropologia da saúde e doença porque o objeto de estudo é a doença.

CONCONE, Maria Helena Villas Boas. Cura e visão de mundo. In: Revista Kairós – Gerontologia, São Paulo, 2003, 45-59.

252 HELMAN, Cecil G.. Cultura, Saúde e Doença, Porto Alegre: Ed. Artes Médicas, 1994, p. 21. 253 Ibidem

interpretação, no mais, se ela culminar numa morte. A doença é um fato real, mas dependendo do tipo de doença, nem sempre vai ser concebida como natural. Os discípulos perguntaram a Jesus: “Mestre, quem pecou, para que ele nascesse cego, ele ou seus pais”? (Jo 9,1-3). A pergunta sugere que, até na sociedade de Jesus também era difícil conceber a doença como algo natural. Portanto, todas as sociedades procuram enfrentar com meios apropriados o problema sanitário. Fazem-se estudos, investiga-se, tentam-se novos métodos. Não se poupam esforços para estabelecer o estado de saúde quebrado pela doença.255 Na cultura do povo em estudo, toda a comunidade participa na busca de solução para reestabelecer a saúde.

Entre os nyungwe, não é possível falar do corpo sem falar da cultura, ou seja, o corpo humano tem uma relação profunda com a sociedade humana, porque ele se encontra inserido dentro de uma realidade onde se relaciona com outros corpos e outras realidades culturais. Assim, uma análise aprofundada do corpo enquanto lugar epifánico da doença e da saúde, pode nos ajudar a combater preconceitos e discriminações, a partir da consciência da diversidade cultural relativa a corpo, doença, tratamento, saúde, explicitando as relações de poder.

Em nossa pesquisa, buscamos seguir o pensamento laplantiniano, segundo o qual, há diferentes formas de percepção coletiva e individual da causa da doença e da resposta terapêutica que exige algumas precisões metodológicas. É essencialmente no prolongamento do procedimento metodológico aberto pela antropologia estrutural que vemos a tarefa da construção de modelos de representações da morbidez e da saúde.256 Nesta linha de pensamento, Rosny define antropologia como sendo “o estudo da lógica dos comportamentos que permite apreender melhor o que tem de original nas práticas terapêuticas tradicionais em relação à medicina dos hospitais, aquém dos fatores históricos e culturais”.257

Em “Aprender Antropologia”, Laplantine afirma que “a pluralidade de modelos mobilizados e utilizados não têm nada de desvantajoso, pelo contrário, procurando estudar a pluralidade, seria o cúmulo se a antropologia não fosse ela mesma plural. A pluralidade é uma das garantias de que nossas pesquisas aceitam sujeitar-se à criticas recíprocas e passar por

255 MARTINEZ, Francisco Lerma. O povo Macua e a sua cultura, Análise dos valores culturais do povo macua no

ciclo vital, Mauá, Moçambique, Maputo: 2ª edição, Paulinas, 2008, p.149.

256 LAPLANTINE, François. Antropologia da Doença. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1991, p. 38.

257 ROSNY, Eric de. Doença, cura e saúde nas culturas tradicionais, ponto de vista etnológico. In: Concilium.

processos de invalidação, e cada um dos modelos teóricos sendo apenas uma perspectiva sobre o social e não o próprio social”.258

Laplantine fala de modelo etiológico e modelo terapêutico ao tratar da questão da doença metodologicamente. Na definição laplantiniana,

um modelo etiológico (ou um modelo terapêutico, ou ainda um modelo etiológico-terapeutico) é uma matriz que consiste em uma certa combinação de relações de sentido e que comanda, com mais frequência à revelia dos atores sociais, soluções originais, distintas e irredutíveis, para responder ao problema da doença.259

Não existe uma antropologia médica sem comparação, ou seja, sem um estudo das relações recíprocas entre os modelos etiológicos e terapêuticos que devem ser analisados em sua variedade. Portanto, a etnologia nos permite pensar os diferentes grupos de interpretação da doença e da cura, não um a um, mas uns com relação aos outros. Assim, diante do pluralismo etiológico e terapêutico, Laplantine propõe uma antropologia da morbidez e da saúde, capaz de analisar as formas elementares da doença e da cura260 numa perspectiva metacultural e comparativa.261

Segundo Laplantine, os comportamentos e as sensibilidades médicas que se encontram nas sociedades extra-europeias podem ser utilizados como verdadeiros reveladores de comportamentos e sensibilidades também européias. Elas agem no sentido de um desvendamento de significações que são caracterizadas por uma forte capacidade de ocultação e das quais não se tem conhecimento imediato. Da mesma maneira, a existência obstinada de curandeiros não diplomados e de médicos não oficiais em pleno coração da modernidade médica do final de século XX incita-nos a não mais ignorarmos, mas esclarecermos os modos de representações que talvez não sejam os europeus,262 mas que poderiam muito bem ser. 263

Desta forma, as diferentes representações da doença e da saúde deverão ser rigorosamente comparadas umas com relação às outras, afirma Laplantine, e não, como ocorre com frequência,

258 LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2007, p. 103.

259 LAPLANTINE, François. Antropologia da Doença. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1991, p. 9. 260 Idem, p. 49.

261 CANESQUI, Ana Maria. Notas sobre a produção acadêmica de Antropologia e Saúde na década de 80. In: ALVES, Paulo Cesar, MANAYO, Maria Cecília de Souza (org.). Saúde e Doença, Um Olhar Antropológico. Rio

de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2008, p. 17.

262 DELUMEAU, Jean. A religião diante da desgraça e da doença no ocidente de outrora. In: Concilium,

Petrópolis, Vozes, n. 278, set.1998/5, p.46.

avaliadas a partir de uma dentre elas, que poderia ser, por exemplo, a biomedicina contemporânea, a psicanálise, ou ainda a abordagem relacional empregada pelas ciências sociais da saúde.264

Sendo assim, a pesquisa começará por definir o conceito de etiologia, doença, saúde na sociedade nyungwe e os médicos tradicionais para elucidar melhor esta relação do corpo com a cultura e a interpretação etiológica não ocidental da doença, isto é, tradições médicas populares.