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O que é que significa ser mulher na cultura nyungwe? E mais ainda, o que significa ser mulher que não pode engravidar? O que é que essa condição significa para o universo nyungwe?

Esses questionamentos são o nosso ponto de partida para entender o “ser mulher”, não apenas entre os nyungwe, mas dentro do universo banto. Partimos do princípio de que não é possível entender um único comportamento ou atitude feminina sem, contudo, situá-la dentro da cosmovisão desta grande coletividade banto. O afluxo das mulheres à casa da médica Ameria, ou seja, às medicinas paralelas mostra claramente e revela o grande sonho que a mulher espera realizar, sonho este que é parte integrante da cosmovisão banto.

Segundo Altuna, “a mulher banto ocupa na sociedade um lugar específico e honroso pela sua vocação para a maternidade. Os filhos e a agricultura outorgam-lhe prestigio e uma favorável

488 MENESES, Maria Paula G.. “Quando não há problemas, estamos de boa saúde, sem azar nem nada: para uma

concepção emancipatoria da saúde e das medicinas”. In: SANTOS, Boaventura de Souza e SILVA, Silva Tereza Cruz (org.). Moçambique e Reinvenção da Emancipação Social. Maputo: editor Centro de Formação Jurídica e Judiciária, 2004, p. 92.

489 DURKHEIM, Émile. As Formas elementares de vida Religiosa (O sistema totêmico na Austrália). São Paulo:

Ed. Paulinas, 1989, p. 343.

490 ALTUNA, P. Raul Ruiz De Asúa. Cultura Tradicional Banto. Luanda: Edições do Secretariado Arquidiocesano

situação familiar e social”.491 Junod ao falar das mulheres da tribo tsonga do sul de Moçambique,

afirma que, “na tribo banto primitiva, todas as raparigas se casavam, umas, porém, mais depressa que as outras. (...) Casamento e os filhos são a única carreira oferecida à mulher tsonga, donde um certo número de tabus femininos especiais que são muito curiosos”.492

Já Martinez, ao falar do casamento entre o povo macua, deixa bem clara a idéia de que o casamento é um acontecimento que ocupa um lugar importante no ciclo vital. Pelo casamento, o homem e a mulher formam a célula mais elementar da sociedade, colocam-se neste sentido ao serviço direto e concreto da transmissão da vida. Desta maneira integram-se na corrente vital, participando na função dos antepassados, intermediários entre a fonte original da vida e os homens. O casamento tem o seu fundamento neles e a sua raiz está na fonte vital. O casamento está, portanto, ao serviço da família.493

Na nossa entrevista com a médica Ameria, quando perguntamos:

Antonio Alone Maia. Vovó: o que significa ser mulher estéril, que não

consegue ter filhos, segundo as maneiras de ser daqui?

Vovó Anéria: Meu filho, você nunca ouviu falar de que (banja la

angana la phudzika? Isto é, que o lar de fulano de tal se apagou?) Aqui mulher que não nasce é desprezada, não vale nada. Mesmo que seja bonita, é como se fosse uma flor (malua) bonita, serve só para enfeitar a casa. Ora, nenhum homem quer mulher para enfeitar a casa, homem quer mulher que vai lhe dar filhos. Essas mulheres que têm problemas de não conseguir ficar grávidas, sofrem muito e esse problema é ameaça para o casamento delas, por isso elas não param de procurar a solução e vêm correndo aqui para se tratar. Já vi tantas mulheres bonitas perder o seu casamento, simplesmente porque não podem ter filhos; algumas são desprezadas por outras mulheres que lhes arrancam o marido. Esse é um problema muito grande aqui.494

As palavras da médica Améria, são confirmadas pela tese de Mbiti. Segundo ele,

Em algumas sociedades africanas, o casamento não é totalmente reconhecido ou consumado até que a mulher tenha filhos. A primeira gravidez vem a ser, o selo final do casamento, o sinal de completa integração da mulher na relação familiar do marido. Infeliz é a mulher que não consegue ter filhos, mesmo ela possuindo outras qualidades, o fracasso dela em não ter filhos é pior do que cometer um

491 Op.cit., p. 255.

492 JUNOD Henri A.. Usos e Costumes dos Bantos (Tomo I: vida social). Maputo: Ed. Arquivo histórico de

Moçambique, 1996, pp. 174-175.

493 MARTINEZ, Francisco Lerma. O povo Macua e a sua cultura. Análise dos valores culturais do povo macua no

ciclo vital, Mauá, Moçambique. Maputo: Paulinas, 2ª edição, 2008, pp. 132-133.

genocídio. Ela se torna o fim da vida Humana, não apenas na linha genealógica, mas também para ela mesma. Quando ela morre, não haverá ninguém da consanguinidade dela para lhe lembrar, para mantê-la num estado pessoal de imortalidade. Ela será simplesmente esquecida.495

Junod ao falar da esterilidade, sua abordagem confirma o que a médica Améria acabou de retratar. Para Junod, “nos clãs do Norte, quando uma mulher não tem filhos, é oferecido um sacrifício especial, muito parecido com o oferecido pelos Rhongas no dia da conclusão do casamento. Para os Tsongas, parece evidente que são os deuses-antepassados que enviam os filhos e isto explica a idéia de oferecer um sacrifício em caso de esterilidade”.496 Afirma ainda o

autor, que, “fora do rito religioso, os doutores indígenas têm numerosas drogas para remediar esta infelicidade. Há uma papa preparada para uma mulher estéril. Portanto, a mulher é considerada pobre e é desprezada. A esterilidade pode causar o divórcio e neste caso, o marido tem o direito de mandar a mulher de volta para a casa dos pais dela”.497

Há uma expectativa social entre os banto com relação à mulher, assim como com relação ao homem. A mulher deve ser mãe e trabalhadora, assim como o homem deve cumprir e mostrar sua virilidade, sabendo fazer os trabalhos próprios do gênero masculino. Estamos falando de uma sociedade onde a divisão do trabalho é feita conforme a idade e gênero. Segundo Altuna,

a mulher mãe-agricultora-doadora de sangue-linhagem goza de posição social. Porque é, sobretudo mãe, ocupa lugar primário na família. Como mãe- agricultora concretiza a ânsia, a força e o mistério da fecundidade. Ela realiza a vida. A mãe banto supera o pai em profundidade sacral, pois ela se enraíza na fecundidade total, cósmica. Ela revela e patentiza esta fecundidade e a vida participável, visto que esta germina no seu seio, e as forças invisíveis a transformam num laboratório sagrado onde realizam a comunhão vital com os seus descendentes. Portanto, a mãe banto torna-se digna de veneração religiosa.498

Na mesma linha de pensamento, Caporalini atesta que, “o sentido da mulher africana é antes de tudo o de ser mãe. Conceber, levar no seio, gerar, dar à luz, cuidar, cercar de carinho e ternura a seus filhos é vivido de uma maneira especial que eleva a mulher africana acima de todos

495 MBITI, John S.. African Religions and philosophy. London: printed in Great Britain by Morrison & Gibb Ltd,

London and Edinburgh, 1970, p. 110.

496 JUNOD Henri A.. Usos e Costumes dos Bantos. (Tomo I: vida social). Maputo: Ed. Arquivo histórico de

Moçambique, 1996, pp. 180-181.

497 Ibidem

498 ALTUNA, P. Raul Ruiz De Asúa. Cultura Tradicional Banto. Luanda: Edições do Secretariado Arquidiocesano

os costumes locais. Portanto, a maternidade é a mais nobre entre as ações humanas da mulher africana. Ela é mais mãe de seus filhos, que a mulher de seu esposo”.499