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3. Gjennomføringsfasen

3.1 Organisering .1 Generelt

Entender a técnica moderna como um perigo pode parecer contraditório, principalmente quando se está de acordo com a sua visão instrumental e encantado com seu slogan do progresso. É assumindo essa bandeira e, mantendo o homem contido em sua circularidade que a técnica se apresenta como aquilo que possibilitará os avanços a humanidade levando-nos a acreditar que, por meio disso, iremos ter uma vida melhor. Há pessoas que às unhas e dentes lhe defendem, criando inúmeras justificativas para viabilizar o “progresso”, já outras são mais cautelosas e, mesmo sem entender onde habita o perigo, possuem consciência de que a intervenção da técnica moderna na natureza não causa todo este avanço. Em muitos casos não se sabe onde habita o perigo porque ele é algo que, tal como a essência (Wesen) da técnica, se mantém oculto e, por meio de uma visão instrumental dela, ambos não se desvelam.

Dito de outro modo, o perigo da técnica não está nos resultados técnicos e nos objetos técnicos que nos cercam e que parecem assustadores, mas o bloqueio gerado pela essência moderna da técnica, que repousa na armação [Ge-stell]. Nesse sentido, o perigo não é visível, não está nas máquinas, todavia, no sistema de pensamento que as alicerça (WERLE, 2011, p. 107).

É a partir do entendimento de que a técnica não é consequência da nossa intervenção na natureza e, lançando-a no horizonte da ontologia que se passa a entender onde habita o perigo. O perigo está em virar as costas para o desvelamento (αλεθεια) mais originário do ser e se sedimentar no plano ôntico ao se esquecer da diferença ontológica (die Ontologische

Differenz) que prevalece na relação entre ser e ente. A técnica, como estamos podendo

perceber ao longo deste capítulo, é decorrência de um decurso histórico das manifestações do ser aliado à decisão de cada mundo histórico na reconfiguração deste develamento (CASANOVA, 2006, p. 125).

A técnica moderna é a consolidação de um processo de busca pelo ser surgido na τέχνη grega, só que, nessa, ele é respeitado em sua manifestação e, a diferença ontológica prevalece; já naquela, é procurado no ente. Ambos são o esforço para responder à pergunta que abre a nossa existência “porque existe afinal o ente e não o nada?”, conforme já mencionamos

anteriormente neste trabalho49. Porém, na técnica moderna, a cada vez mais este horizonte é fechado no ente. “Seja qual for o modo em que possa imperar o destino do desabrigamento [desvelamento], o descobrimento, no qual tudo o que é sempre se mostra, abriga o perigo de o homem se equivocar junto ao que está descoberto [desvelado] e falseá-lo” (HEIDEGGER, A

questão da técnica, 2007b, p. 389).

É na circularidade desse processo que se fecha em si, que a técnica moderna leva o homem a ver tudo como fundo de reserva, onde a vontade de poder pode imperar e consolidar o processo da vontade e do poder que percorrem ambos sobre si. Desse modo, o próprio homem se torna disponível (Bestand) para ser material de pesquisa nos avanços genéticos50, pois tanto a subjetividade quanto a objetividade foram deterioradas pela vontade de poder que passa a imperar sobre a terra e a dar os direcionamentos da técnica moderna, em que o desvelamento

(αλεθεια) originário é abandonado.

A Bioquímica descobriu nos genes da célula germinal o plano da vida. É o programa de desenvolvimento inscrito nos genes, a prescrição aí armazenada. A ciência conhece já o alfabeto desta prescrição. Fala-se do “arquivo de informação genética”. Nesse conhecimento radica a expectativa segura de poder um dia chegar a ter mão na capacidade de fabricar e cultivar (Herstellbarkeit und Züchtung) técnico- cientificamente o homem (HEIDEGGER, A proveniência da arte e a determinação do pensar, [198-?b], p. 9).

O perigo nos cega de uma visão fenomenológica das coisas, onde elas podem ser em seu desvelamento (αλεθεια), criando em nós a sensação de que tudo o que existe somente o é na medida em que é feito pelo homem, em tudo o homem se experimenta. O desvelamento provocado pela técnica moderna certamente nos emite asserções corretas, mas o que é correto não pode ser confundido com o verdadeiro, conforme dissemos anteriormente com as palavras do pensador da floresta negra neste trabalho51. Aí consiste o perigo, no verdadeiro ser substituído pelo correto.

49 Presente na página 50.

50 Embora nas pesquisas genéticas não se consiga o acesso à essência do Dasein humano, conforme colocamos

no subtopico anterior a este tópico, isto não inválida o fato de o homem já se encontrar dentro da lógica que a Ge-stell lhe impregna de ver tudo como disponibilidade (Bestand), inclusive ele mesmo, quando se torna o objeto da pesquisa científica.

Ao mesmo tempo, o descobrimento [desvelamento], segundo o qual a natureza se apresenta como um contexto efetivo e calculável de forças, pode, certamente, permitir asseverações corretas, mas justamente por meio deste resultado pode permanecer o perigo de em todo o correto se retrair o verdadeiro (HEIDEGGER, A questão da técnica, 2007b, p. 389).

Assim, a “armação” (Ge-stell) ao direcionar o homem para o desvelamento que tem como princípio o desafio (Herausforden), afasta-o do desvelamento (αλεθεια) originário que tem como escopo a οίησις, isto é, eclosão do ser. Onde impera a “armação”, o desvelamento segue o princípio da exatidão do homem sobre o ente, impedido o acesso ao verdadeiro. Logo, às máquinas e aparelhos técnicos que podem inclusive provocar a morte não são a ameaça ao homem; a verdadeira ameaça já adentrou no homem, porque com o domínio da Ge-stell, a entrada e escuta da αλεθεια, que é um desvelar mais originário já se encontra ameaçada. Portanto, o perigo extremo está onde impera a “armação”.

A ameaça dos homens não vem primeiramente das máquinas e aparelhos da técnica cujo efeito pode causar a morte. A autêntica ameaça já atacou o homem em sua essência. O domínio da armação ameaça com a possibilidade de que a entrada num desabrigar [desvelar] mais originário possa estar impedida para o homem, como também o homem poderá estar impedido de perceber o apelo de uma verdade mais originária [αλεθεια]. Assim, pois, onde domina a armação, há perigo em sentido extremo (HEIDEGGER, A questão da técnica, 2007b, p. 390).

Em todo esse posicionamento do nosso filósofo sobre a questão da técnica, uma coisa há de ficar claro para nós: Heidegger não é um tecnofóbico. Em todo o seu discurso sobre o tema, ele não se posiciona contrário aos avanços tecnológicos e científicos que temos, mas sua preocupação é com a essência (Wesen) escondida que reside por detrás desse processo, algo que se inicia na Grécia antiga e que vai tomando reposicionamentos ao longo da tomada de posição do homem frente ao ente, o que provoca a formação de uma humanidade que a cada vez mais se distancia da origem ao percorrer outros caminhos em sua busca. “A armação impede o aparecer e imperar da verdade. O destino, que no requerer manda (Schickt), é, assim, o extremo perigo. A técnica não é o que há de perigoso. Não existe uma técnica demoníaca, pelo contrário, existe o mistério de sua essência” (HEIDEGGER, A questão da

O que ele busca é o desencobrimento dessa questão que se mantém oculta, principalmente quando se percorre sua essência na instrumentalidade, para que, a partir disso, possa a problemática ser reposicionada. No tópico seguinte, passaremos a pensar em como fica a arte dentro desse mundo de perigo proposto pela tecnologia moderna, e se ela continuaria ou não como um meio de expressão da verdade originária (αλεθεια), conforme o primeiro capítulo deste trabalho nos mostrou.