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Organisering av instituttet

2 HOVEDKONKLUSJONER, ANBEFALINGER OG

2.4 Sammendrag

2.4.3 Organisering av instituttet

Se a cristandade estava envolta em um véu repleto de obscuridades nas quais ser e parecer se confundiam, podemos dizer que a Reforma Protestante tinha a intenção em reafirmar, a partir do cristianismo primitivo baseado na Sagrada Escritura e no contato imediato do homem com Deus, o primado do ser sobre o parecer. Para Calvino (2006), por exemplo, a real intenção do crente deveria ter a primazia diante de qualquer cerimonialismo vazio encorajado por homens soberbos e hipócritas. A verdadeira religião

deveria reaproximar o homem com Deus a partir da fé, do temor e do autêntico culto a Deus, conforme citação:

Eis no que consiste a religião pura e fiel: fé aliada a sério temor de Deus de modo que o temor não só em si contém reverência espontânea, mais ainda traz consigo a legítima adoração, a qual está prescrita na lei. E isto se deve observar com mais diligência: enquanto todos veneram a Deus de maneira vaga e geral, pouquíssimos o reverenciam de verdade; enquanto, por toda parte, grande é a ostentação em cerimônias, rara, porém, é a sinceridade de coração (CALVINO, 2006, p. 52).

O alcance da Reforma não foi meramente de ordem religiosa. Ela abriu caminhos para reformas e revoluções políticas liberais que dissiparam os Estados absolutistas e incrementaram bases para o progresso técnico e científico. A pluralidade trazida pela Reforma possibilitou novos pensamentos e atitudes até então impossíveis de serem divulgadas devido ao pensamento único dominado pelo catolicismo. Definitivamente, a Reforma abriu novos caminhos em direção a uma maior liberdade de pensamento adotado por intelectuais e pensadores. Conforme Nay (2007, p. 178):

O movimento quer ser estritamente religioso, mas influi duplamente sobre a marcha das ideias políticas. A curto prazo, a Reforma abre em primeiro lugar um período de guerras civis que favorece a eclosão de teses antiabsolutistas radicais. A longo prazo, os princípios pregados pelos reformados e pelos tratados de pacificação desempenham um papel importante na marcha para a ideia moderna de liberdade e para a decadência dos fundamentos religiosos da vida política.

No contexto das importantes mudanças políticas que influenciaram na consolidação da Reforma Protestante, está a formação dos Estados Modernos que quebrou a hegemonia da teocracia pontifícia, bem como diminuiu de forma substancial a influência do Sacro Império Romano Germânico nos domínios dos então formados Estados Nacionais, dos principados e territórios afins. Reis e senhores passaram a ser soberanos em seus territórios.

Foi a autonomia dos reis e senhores que possibilitou a consolidação do movimento reformista dos séculos XVI e XVII e uma maior abertura para a tolerância religiosa. Aderir à nova religião reformada inspirava uma liberdade política territorial na qual o príncipe tinha soberania. Além do que, o primeiro grito em defesa da liberdade almeja a liberdade religiosa e esta foi consequência da Reforma, quando a Europa se dividiu em

diversas igrejas cristãs com a intenção de serem realmente reformadas, afastadas do catolicismo tradicional. Para Collinson (2006, p. 24):

Enquanto a teologia de Lutero era sistematizada em forma de luteranismo, vastas regiões da Alemanha, isto é, os governos de príncipes e cidades em nome de seus súditos, adotaram formalmente o que se tornou conhecido como a religião evangélica. Outros governos promoveram uma forma diferente de Protestantismo, mais completa em seu afastamento do Catolicismo tradicional e desenvolvida nas cidades e cantões do sudoeste da Alemanha e Suíça, principalmente em Genebra, onde João Calvino exercia o domínio intelectual e espiritual. Essas foram as Igrejas Reformadas, e esse título indica que reivindicavam ser “mais bem reformadas”. Fiéis ao princípio de cuius regio,

eius religio, o princípio de que o governante determina a religião de seu estado,

o Palatinado da Renânia, no sudoeste da Alemanha, tornou-se sucessivamente evangélico, reformado, e finalmente recatolicizado de forma um tanto brutal47.

Esta maior secularização do poder implicou gradativamente a hegemonia de domínio dos reis em seus territórios e a urgência de uma codificação de leis que posteriormente contribuiria para a constituição da moderna teoria política. Essa moderna teoria nasce simultaneamente com formação e consolidação do Estado moderno na sua forma de monarquia absolutista. O fato é que, com a diminuição gradativa da influência da religião em assuntos políticos, o poder secular encontrou um terreno fértil para estabelecer de forma independente o seu domínio. Isso sugere, é evidente, o enquadramento do poder confessional na esfera do Estado. O cristão, católico ou, posteriormente, protestante é, antes de tudo, súdito, cidadão ou indivíduo.

Por outro lado, através do princípio cuius regio, eius religio, reis e senhores ganharam uma autonomia no tocante às questões morais e espirituais. Nesse caso, a autonomia política conquistada frente ao Imperador no plano externo e aos senhores, no plano interno, foi acompanhada de uma autonomia espiritual frente à Igreja de Roma. O rei e o príncipe eram também chefes espirituais dos seus súditos. Eles tinham a última palavra em matéria de manifestação religiosa, conforme Todorov (2008, p. 68): “Com efeito, o poder temporal da Igreja é abalado sem ser abolido, como testemunham os vários passos dados em favor da tolerância religiosa”.

O marco histórico da Reforma foi o século XVI. Como se sabe, os protagonistas desse importante episódio foram Lutero, Henrique VIII e Calvino. Talvez não fosse de se esperar que o movimento reformador viesse de lugares tão diferentes, como Alemanha,

Inglaterra e França. Evidentemente que os protagonistas eram, em sua origem, católicos: Lutero era clérigo, Calvino era leigo e Henrique VIII era um dos mais fervorosos monarcas católicos da Europa de então. Não obstante vindo de lugares diferentes, todos são de classes sociais diferentes. O que os unia era a insatisfação contra o papado, lógico que motivados por interesses distintos.

O sentimento que se construiu séculos anteriores era o de associar o papa ao anticristo. Sentimento mais que reforçado na Reforma Protestante, associado à ideia de que a Igreja Católica era a “Grande Prostituta”, a “Besta do Apocalipse”. O que se tornou uma propaganda eficaz contra qualquer tentativa de retorno ao catolicismo, além de sugerir uma nítida inspiração escatológica e milenarista que povoou a Europa até o século XVIII, reforçando a insegurança e o medo generalizados de uma sociedade marcada pela instabilidade social e política, conforme Delumeau (2009):

Em pleno século XVIII permaneciam, portanto vivas na Europa a preocupação com o Anticristo e a espera do fim dos tempos (ou da passagem ao millenium). Para John Napier o principal interesse dos logaritmos, dos quais foi o inventor, era facilitar os cálculos relativos ao “número da Besta” indicado no Apocalipse. Segundo ele, 1639 marcava o começo da desagregação do “império anticristão” – a Igreja romana48.

A partir da Reforma, grandíssima parte da Europa foi envolvida em graves conflitos de ordem religiosa que reforçaram, posteriormente, uma ampla discussão das relações existentes entre Religião e Estado. O que implica dizer que as incoerências e a intolerância no cristianismo não cessaram com a Reforma.

A necessidade de ruptura com a ortodoxia católica em nome de reformas no cristianismo levou muitas pessoas a pagarem com a própria vida por essas insatisfações. Tanto numa fronteira quanto noutra: a intolerância era mútua e, portanto, a instabilidade era a regra. Diante disso, os filósofos não podiam ignorar determinadas questões a seguir: como são possíveis guerras, torturas e assassinatos tão bárbaros em nome de Deus? O que leva o Estado a punir pessoas por abraçarem determinado tipo de religião? Será que é mesmo necessário o Estado ser confessional? Quais os papéis e limites da religião e do Estado?

O fato é que, a partir da Reforma, uma onda de violência motivada pela intolerância religiosa se generalizou na Europa. Várias guerras foram travadas, perseguições foram motivadas. O mundo assistiu a um cenário de calamidades sustentado, muitas vezes pelo fanatismo. Conflitos por praticamente toda a Europa foram travados.

A Reforma trouxe instabilidades políticas na França. Os huguenotes (como eram chamados os protestantes franceses) se organizaram sob a doutrinária influência de Calvino e já em 1555 algumas regiões do sul da França foram sacudidas por conflitos religiosos. A nobreza rural se encantou com as pregações dos reformadores. Nessas regiões, já havia uma hegemonia protestante e um exército em fase de organização. A ameaça aos católicos da família Guise foi tão ousada que a própria Paris foi palco de um sínodo nacional protestante em 1559. Hinos e salmos protestantes eram ouvidos em alguns locais de Paris, despertando a fúria dos católicos. De acordo com Collinson (2006, p. 119):

Durante seis noites no verão de 1558 três ou quatro mil manifestantes cantando salmos ocuparam o Pré-aux-Clercs, agradável parque na margem esquerda do Sena, em Paris. Os nobres naturalmente iam armados aos locais de culto, pois para os homens daquela classe a espada era como um guarda-chuva, e às vezes, por assim dizer, chovia. No inverno de 1561-62 houve muita violência nas ruas, com atrocidades cometidas por ambos os lados.

Tais atrocidades tinham o fanatismo e a sedição como causa dos genocídios mútuos. Em conformidade com a Inglaterra, a família Guise, por intermédio da Rainha Catarina de Médicis, queria uma França Católica, seguindo a máxima: cuius regio eius

religio. Se os protestantes continuassem alargando suas fronteiras no território francês,

isso acarretaria também a perda da coroa. Seguir determinada religião tinha uma substancial significação política. Além de envolver questões relacionadas à perseguição e confisco de bens por parte daqueles que por ora exerciam o poder contra os que não abraçassem a fé determinada pelo Estado, também inspirava nestes um sentimento de rebelião e revolta por não poderem exercer livremente o direito de seguir a religião que quisessem.

O cuius regio eius religio não foi tão eficaz como pretendera ser. A religião também inspirava resistência. Resistir à religião do príncipe em nome da defesa da religião reformada era uma maneira de lutar pelo direito à liberdade de culto e de uma

maneira mais geral à própria liberdade. Conforme Collinson (2006, p. 171): “Por quase toda parte havia um desajuste entre governos de uma fé religiosa e os súditos de outra. As mentalidades ainda não eram suficientemente elásticas para aceitar a idéia de uma situação de tolerância do pluralismo religioso”.

Foi por isso que, com a finalidade de evitar maior instabilidade aliada à supremacia do poder, os Guise tentaram contornar a querela entre católicos e protestantes sugerindo um casamento com os seus primos convertidos ao protestantismo, os Bourbons, tendo como cônjuges: Margarete de Valois e Henrique de Bourbon. Mas o massacre dos católicos sobre os milhares de huguenotes em Paris na noite de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572, abalou decisivamente essa aproximação, além de tornar-se um dos episódios mais tenebrosos envolvendo as guerras de religião. Episódio largamente citado por Voltaire (2000, p. 19), talvez com uma tentativa de denunciar uma religião guiada pelo fanatismo, acontecimento pelo qual: “[...] não havia nenhum exemplo nos anais do crime”49.

As consequências do massacre de São Bartolomeu não se limitaram a Paris. Sabedores dessa “gloriosa ação sacra” e motivados por padres sediciosos, a carnificina religiosa foi impregnada em outras cidades. Para Delumeau (2009, p. 284-285):

Em Orleans, onde em 25 de Agosto de 1572 chega a notícia do dia de São Bartolomeu parisiense, a multidão católica é amotinada por “certo pregador do rei chamado Sorbin, ignorante e turbulento dentre todos os doutores da Igreja romana” e invade as casas dos protestantes. Em Bordéus, em um sermão pronunciado no dia de São Miguel do mesmo ano (20 de setembro), o jesuíta E. Auger espanta-se de que a cidade ainda não tenha seguido o exemplo da capital. Acusa o governador de Pusilânime, censura-o por “dormir com sua prostituta”, anuncia a vinda do anjo exterminador. Esse sermão põe fogo na pólvora: a carnificina começa em 3 de outubro50.

Inspirados pelo fanatismo religioso nas regiões onde o protestantismo se estabeleceu com mais vigor, igrejas católicas foram invadidas e saqueadas, imagens quebradas motivadas pelo velho sentimento iconoclasta, inspirados no livro do Deuteronômio (13:7-12), que visava aa lcançar os símbolos do poder religioso: o papa e a Igreja católica.

49 VOLTAIRE, Fraçois Marie Arouet. Tratado sobre a tolerância. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 50DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

A conversão do huguenote Henrique IV ao catolicismo, seguindo a máxima “Paris vale uma missa” como única alternativa para assumir o poder monárquico após as sucessivas mortes (ou assassinatos) dos irmãos Guise, trouxe relativa paz à França, após este monarca decretar o edito de Nantes em 1598, que dava relativa tolerância aos huguenotes. A situação voltou a ficar instável com a revogação desse edito para o edito de Fontainebleau, decretado por Luís XIV em 1685, que restaurava a máxima cuis regio

eius religio. Quem não fosse católico não poderia morar em território francês. As querelas

religiosas não cessaram. O fanatismo não escolhia território. A intolerância abriu novas cicatrizes que precisavam ser novamente fechadas, conforme Delumeau (2009, p. 602):

As diferenças teológicas de um lado e do outro da barreira confessional dissimularam por muito tempo a similitude desses comportamentos. E por trás dessa similitude, camuflava-se um medo único: o medo experimentado por um poder político-religioso que temia de maneira crescente todas as diversidades. Inútil, a partir daí, insistir longamente nas perseguições sofridas pelos católicos (e pelos anabatistas) na maior parte dos países protestantes: foram simétricas àquelas que atingiram os reformados nas regiões que permaneceram fiéis a Roma.

É nesse cenário turbulento que o século XVIII se iniciou, e com ele o enigmático padre Jean Meslier. Em matéria de ser e de parecer, o cristianismo na época do padre Meslier não era tão diferente do cristianismo de Erasmo, pois a intolerância e, com ela, as incoerências atuavam mesmo após a Reforma. A restauração do domínio do ser em lugar do parecer revela-se, em grande parte, um projeto fracassado em se tratando da cultura cristã, porquanto alguns reformadores e seus seguidores permaneceram tão intolerantes quanto os católicos.