Esse acúmulo de funções, na imensa maioria das vezes, é diretamente responsável pelos elevados índices de estresse apresentados pelos cuidadores. A rotina anteriormente narrada deve ser desempenhada em tempo integral, consumindo de tal modo o tempo do cuidador, a ponto de não ter condições de realizar qualquer atividade em seu benefício.
A vida mudou muito, bastante, principalmente a minha, porque eu não tenho mais privacidade para nada. Não posso sair, não saio para lugar nenhum, nem na casa dos filhos casados dá para eu ir, porque eu não posso deixar ele sozinho... é bem difícil. De primeiro, eu ia para a academia, eu fazia caminhada, ia para a igreja todo final de semana, sábado e domingo. Agora,
eu só vou aos domingos, de 15 em 15 dias, porque é a folga do meu filho rapaz, então, ele fica com ele e eu vou. Eu ia na casa dos filhos, agora eu não posso sair (Alice).
A vida mudou muito, sem dúvida. Claro que muda. Eu, por exemplo, perdi a minha liberdade. Porque a gente procura cuidar, sem falha. Não é 100%. A vida mudou geral. Apesar que a minha foi mais, porque eu estou sempre ali cuidando. Sei lá, a gente não se separa mesmo. Eu não saio um minuto, entende. Eu só saio assim quando fica alguém no lugar. Caso contrário, não saio (Asdrubal).
O meu dia é terrível, acabou, eu não vivo para mim, mais nada. Faço para mim, pouquíssimo, somente aquilo que é necessário. Eu não vou a lugar nenhum, eu tenho que cuidar dele. Porque, quando ele não está em casa, ele está internado e quando ele está internado, eu tenho que ficar com ele porque não tem ninguém que fique. Eu também não posso fazer nada para mim, acabou! Eu não posso ir no médico, eu não posso ir no dentista, na cabeleireira, não posso ir a lugar nenhum, nenhum (Karina).
(A rotina de cuidados) Me afetou, assim, no sentido de que eu sempre fui uma pessoa alegre e, com o passar do tempo, eu fui mudando. Eu mudei de uma pessoa alegre, que gostava de sair e passear, eu fui me retraindo, eu me tornei uma pessoa estressada, antissocial, porque cuidar é um peso para mim, é um peso para mim (Rose).
Essas informações revelam quanto a execução das atividades de cuidado tem a possibilidade de mudar, por completo, a vida, o comportamento e gerar necessidades antes nunca apresentadas por esses cuidadores. Segundo Floriani (2004, p. 341)
Sabe-se, também, que cuidar de um paciente com doença avançada no domicílio causa importante ônus ao cuidador e a sua família, e, em relação ao cotidiano do cuidador, há uma literatura abundante de estudos que demonstram a sobrecarga que ele tem com sua estafante e estressora atividade de cuidados diários e ininterruptos. [...] Estes custos ocorrem no nível físico, psíquico, social e financeiro e há estudos que demonstram, em circunstâncias específicas, um maior risco de infarto agudo do miocárdio e de morte para os cuidadores adultos e idosos. Exclusão social, isolamento afetivo e social, depressão, erosão nos relacionamentos, perda da perspectiva de vida, distúrbio do sono, maior uso de psicotrópicos são alguns dos vários registros no contexto psicossocial do cuidador.
Muito embora a principal função de um cuidador consista em zelar pela saúde de outrem, o mesmo, no entanto, não ocorre em seu próprio benefício. Todos os cuidadores entrevistados, em maior ou menor grau, apresentam problemas de saúde, e o que os diferenciam é a possibilidade de efetivar ações relacionadas ao autocuidado.
De acordo com Hirata (2012, p. 287), um dos principais problemas vivenciados pelos cuidadores “é o esgotamento físico e psíquico do cuidador. Cuidar
durante muitas horas, por muitos dias sem descanso, dia e noite, sem folga, isso tudo leva a um esgotamento físico e psíquico, além de dores na coluna e outros problemas de saúde”.
São inúmeros os estudos na literatura que comprovam a condição de estresse e sobrecarga vivenciada pelos cuidadores familiares (MENDES, 1995; LEMOS, 2012; KARSCH, 2003). O fato é que a presença ativa na vida do paciente acarreta ao cuidador ausência desmedida para si próprio.
O estado de saúde do cuidador, independentemente de sua faixa etária, muitas vezes está relacionado ao grau de responsabilização que lhe é imposto, seja pela própria família ou até mesmo pela equipe de saúde das instituições hospitalares. Na concepção de Karsch (2003, p. 106), “as condições físicas dos cuidadores levaram a inferir que os cuidadores são doentes em potencial e sua capacidade funcional está sempre em risco”.
Nos relatos descritos a seguir, percebe-se a dificuldade dos cuidadores em dedicar atenção à própria saúde.
Cuidar da minha saúde é difícil também, porque, vamos supor, eu tenho uma consulta marcada aí eles pedem para voltar, para fazer o retorno. Muitas vezes, eu perco a consulta por causa do retorno, fico sem ter como sair, eu estou indo mais no posto de saúde. Essa cirurgia da vesícula eu estou desde dezembro com o pedido e com prioridade, e até agora eu não consegui (Alice).
Eu agora preciso de um tratamento de coluna, e tratamento para mim só se eu pagar. Primeiro, eu não tenho tempo, e não consigo arrumar uma pessoa para ficar com ele para eu ir lá. Não consigo largar ele aqui para fazer nada, eu não consigo fazer nada para mim. Eu tenho 70 anos, com certeza tenho problemas de saúde (Karina).
Agora como que eu, uma pessoa sozinha, posso faltar (no trabalho) para cuidar da saúde dela e da minha. Então, abri mão de cuidar da minha saúde que, graças a Deus, até hoje, é boa. Porque, se eu tivesse uma saúde frágil... Eu não vou a um ginecologista, acho que faz uns 3 anos, teria que ir, mas por eu não ter nada, eu acabo deixando de ir para poder ir com a Silvia. No meu trabalho, eu não posso ficar me ausentando (Rose). Eu pedi afastamento do meu trabalho para me cuidar, porque, se eu não cuidar de mim, não tenho como cuidar dela. Eu tenho diabetes, estou com os pés todos rachados, tomo remédio. Eu tenho fibromialgia, diabetes, pressão alta, DPOC, um monte de coisa. Eu tenho tosse devido ao cigarro que me prejudica muito. A idade está avançando e o médico falou: “o senhor está ficando “galo velho” (José).
Esses dados corroboram com o estudo elaborado por Karsch (2003, p. 863) sobre o perfil do cuidador familiar no Brasil. Dos casos por ela entrevistados “40,7%
tinham dores lombares, 39,0% depressão, 37,3% sofriam de pressão alta, 37,3% tinham artrite e reumatismo, 10,2%, problemas cardíacos, e 5,1%, diabetes”.
No que diz respeito à saúde do cuidador, uma das situações mais preocupantes diz respeito ao contingente de idosos responsáveis por pacientes do mesmo segmento etário. De acordo com matéria publicada no Jornal Folha de S. Paulo, no dia 11 de maio de 2014, quase 40% das pessoas que cuidam de idosos nessa cidade também são idosas (COLLUCCI, 2014). Esse fenômeno é consequência do processo de envelhecimento em curso no País e também do fato de as famílias estarem constituídas, cada dia mais, com número reduzido de filhos.
Minha mãe tem 99 anos e eu de 65 sou responsável pelos cuidados dela. Cada um ajuda como pode, tanto financeiro como ali no cotidiano, a gente vai se virando (Asdrubal).
Eu tenho 70 anos de idade, tenho problemas de saúde e cuido do meu esposo de 71 anos. É muito diíficil! (Karina).
Sou cuidadora há 10 anos, desde 2004, foi quando ele descobriu a doença. Até então ele era independente. Hoje eu tenho 65 anos e ainda cuido dele (Alice).
Considerando que Asdrubal, especificamente, recebe ajuda dos irmãos, todos eles, com a mãe prestes a completar um centenário de vida, são igualmente idosos. Além disso, por mais bem-intencionados que sejam, as limitações próprias da idade dificultam a execução diária das atividades de cuidados. De acordo com Mendes (2002, p. 29), o que presenciamos hoje é uma geração de “velhos-jovens independentes cuidando de velhos-velhos dependentes”.
Nesta dissertação, 37,5% dos entrevistados possuem mais de 65 anos de idade e tornaram-se responsáveis pelos cuidados de um familiar da mesma faixa etária. A mesma porcentagem representa também aqueles que estão acima de 50 anos. Esse fenômeno também foi revelado pela pesquisa elaborada por Karsch (2003, p. 863):
[...] a faixa etária de 59% dos cuidadores estava acima de 50 anos e 41% tinham mais de 60 anos. Os dados mostraram também, que 39,3% de cuidadores, entre 60 e 80 anos, cuidavam de 62,5% de pacientes da mesma faixa etária, o que mostra que pessoas idosas estão cuidando de idosos.