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5. Empiriske funn

5.1 Styringssystem og digitalisering

5.1.2 Organisasjonsstruktur

O mundo mitopoético de Bispo parece começar no final do ano de 1938 quando “dopado por um exército angelical, entre visões e quimeras, Bispo saiu pela rua deserta, na abafada noite de 22 de dezembro”.351 A partir desse ponto de referência começa o percurso de um caminho em direção à morte e uma missão guiada “pela voz”, pelo outro que direcionava sua obra. Nesse dia Bispo se consideraria o “eleito”, inclusive com a marca do que ele chamava de cruz luminosa nas costas.

A teatralidade e a ficção marcariam o começo do percurso e a trajetória do artista até o momento de sua apresentação final no palco do “Tribunal Supremo”, das esferas divinas, vestido com o Manto da Apresentação. Bispo assumiria entre performances seu personagem de enviado de Deus durante, aproximadamente, 50 anos de reclusão numa colônia de doentes mentais. Nestas condições começam a se misturar para ele, a ficção e a realidade, naquele divisor de águas psíquico. Não era fácil ser rei ou eleito na condição de descendente de escravos, negro e pobre naquele princípio de século XX na cidade de Rio de Janeiro, mas era possível governar no seu mundo ficcionalizado. Assim, Bispo foi construindo sua ficção nos limites de sua cela, da Colônia Juliano Moreira, sacralizando tudo o que estava em seu entorno. Ele se considerava um ser divino e como tal fundaria o novo mundo.

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“A Reverón, que no ha sido indiferente en materia religiosa, le preocupa el más allá, viviendo rodeado de voces y de imágenes que él crea, convencido de la idea de que la representación máxima de la divinidad es el propio hombre”. Martin de Ugalde. Reverón quiere curarse y volver a pintar. In: CALZADILLA, Juan (Org).

Reverón a la luz del periodismo. Caracas: Fundación Museo Armando Reverón, 1993. Vol 2, p.47. 351

Bispo seria o enviado de Deus e isso frequentemente o expunha para os outros e para si mesmo. O único ser divino e puro que o acompanhava era a Virgem Maria e sua voz seria o elemento que movimentaria sua obra de sacralização, inclusive a obra artística.

“Recriar o mundo” implicava para Bispo em selecionar também as pessoas, pois para ele o mundo estava polarizado em bons e maus, perdidos e divinos, puros e impuros. Assim, era necessário classificar, registrar e apresentar ao “Tribunal Divino” as pessoas: “Eu vim pra salvar a humanidade, então tenho que ter esses mantos de Cristo, bordados com os nomes de quem vai se salvar quando acabar o mundo.” 352 O manto representa aqui, dentro da mitopoética de Bispo, o elemento que o diferencia como rei diante dos homens e de Deus, além de servir de suporte dos registros de pessoas que seriam salvas por ele, no seu papel de Noé dos homens. O manto é por excelência a vestimenta apropriada para seu ritual de passagem e para sua apresentação ao divino.

Marta Dantas assegura que o “duplo libertador que se manifestava na mitopoética de Bispo como força, como poder sobrenatural, como potência divina que julgava e, ainda, projetava o mundo. Essa categoria de duplo não se manifestava em alucinações auditivas ou visuais; ela era o próprio Bispo, renascido do sacrifício.” 353 A ideia do duplo lembra mais uma vez a história citada por Lévi-Strauss de um mito das planícies da América do Norte, contado por um velho índio. No mito da Dama Dupla o personagem ou espírito, do mesmo nome, se apresentava para as mulheres durante um sonho, no delírio do sonho. A partir desse momento a pessoa era transformada em outra. Passava a viver o duplo, como Bispo, e convertendo-se numa mulher cheia de atributos, inclusive nas artes, o que a transforma numa artista genial.354 Consideramos que em Bispo, o duplo combinado com seus rituais o aproxima da teatralidade na medida em que ele encarna o personagem. Assim, RoseLee Goldberg assegura que “Ao contrário do que ocorre na tradição teatral, o performer é o artista, raramente um personagem, como acontece com os atores, e o conteúdo raramente segue um enredo ou uma narrativa tradicional”. 355

A sacralização do mundo permeava Bispo e as pessoas que conviviam com ele. Seu corpo foi alvo desse processo e para tal era necessário purificá-lo por meio dos rituais de sacrifício que

352

Ibidem, 1996, p.98.

353

DANTAS, Marta. Arthur Bispo do Rosário, a poética do delírio, 2009, p.63.

354

LÉVI-STRAUSS. Olhar, escutar, ler, 1997, p.134.

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o jejum permitia. Lembremos que Emile Durkheim assegura que o jejum, como ritual negativo, está inserido nas mutações entre o profano e o sagrado. Hidalgo, por outro lado, descreve que “Os jejuns minavam-lhe o equilíbrio do corpo (...). O interno que tentava manter corpo, alma e cela limpos não dava conta dos inimigos. As chuvas desafiavam a ordem no cubículo, os fungos faziam a festa e Bispo se fechava”.356 Segundo Bispo, a Virgem aconselhava que se afastasse do fumo, da bebida, do dinheiro e até da comida. Assim suas refeições se resumiam ao café e à sopa com pão. Com suas crenças e rituais, Bispo se afastava dos pecados e dos pecadores que representavam uma ameaça para ele e para sua obra de sacralização. O tabu está presente dentro das proibições rituais de Bispo. Ele implica um imperativo negativo, não faça isto ou aquilo, que tem como eficácia manter a ordem e o equilíbrio de seu mundo.

Recriar o mundo segundo Bispo do Rosário representava também, reconstruir o entorno e aqui está a fonte de criação de seus objetos. O artista fez uso de suas habilidades de bricoleur e começou a acumular, selecionar e classificar. As junções se deram utilizando a bricolage como sistema de organização dos conjuntos e foi assim que construiu suas vitrines (assemblages), miniaturas, estandartes e mantos. Se os mantos servem para sua apresentação ao divino então, para que poderiam servir os outros objetos?

Como havíamos referenciado no Capítulo I, Bispo do Rosário não se considerava artista. Mesmo assim, sua vasta obra, sua mitopoética e suas performances, em primeiro lugar, consagraram-no como tal. Somado a isto a crítica especializada dos anos 1980 e o público brasileiro comovido pela sua história pessoal o declaravam um criador, um gênio. Isto trouxe como consequência, também, a preservação, a conservação e a restauração de seu trabalho e seu reconhecimento internacional.