2. Teoretisk rammeverk
2.1 Organisasjonslæring
mera forma, comunica sentido, serve para classificar, e é um instrumento rico para trabalhar questões de gênero; o hexâmetro inevitavelmente estava associado à forma mais elevada e solene de poesia, a épica (DUCKWORTH, 1969, p. 3; MORGAN, 2004, p. 4)75, e, como em Ovídio, o não emprego do hexâmetro está eivado de sentido, pode ser usado para anunciar um novo tipo poético.
O hexâmetro é o metro para a poesia épica, é o metro para as diferentes formas de épos, incluindo o didático. Agora devemos nos perguntar: em que medida as composições do épos didático se enquadram nos parâmetros dos teóricos antigos? Tais parâmetros nos levariam a supor que os poemas de Hesíodo ou as Geórgicas trazem temas bélicos, militares? Ou quais outros detalhes um metro pode carregar? Talvez a pergunta mais importante seja: “Os parâmetros para épos didáticos devem ser vistos apenas quanto à característica de uma poesia elevada, grave ou séria?”.
As perguntas não são de rápida resolução. No entanto, devemos admitir que considerar que apenas elevação e gravidade encontrem correspondência no épos didático parece muito pouco. Nesse sentido, é provável que os poetas desse épos estivessem habilitados a tratar temas bélicos, explicitamente ou não, e que caberia a cada um como se servir desses parâmetros. Ademais, a aproximação de um poema do épos didático ao épos heroico poderia ser determinante para grandeza diante dos receptores.
Por ora, devemos dizer que o uso do hexâmetro nesse tipo poético, como muito bem afirma Gale (2005, p. 102), faz com que o épos didático seja intensamente participante dos aspectos mais antigos do gênero épico – composição, transmissão, por vezes elocução – e empregue técnicas e formas estilísticas que podem ser consideradas como características de um gênero em geral.
2.2.1.2 Modo do discurso e linguagem
75 Duckworth constrói um raciocínio estruturado e demonstrativo do valor do metro para a poesia. Metro transmite sentido, e, se analisado em detalhes, pode revelar o que ele chama de “impressão digital” dos poetas antigos. Cada autor tem suas predileções pessoais e idiossincrasias, e o metro é o recurso que carrega tais informações (1969, p. 5). Duckworth começa seu estudo afirmando que, na poesia greco-latina, o metro mais frequente é o hexâmetro datílico; é o metro predominante da poesia épica. O estudioso caracteriza o metro como típico da poesia épica, mas, em seguida, elenca uma série de tipos poéticos também compostos em hexâmetros. Ele apenas afirma que esse metro, o hexâmetro, é usado também para a poesia pastoral (como os Idílios de Teócrito, as Éclogas de Virgílio), para o verso científico (Fenômenos de Arato e Astronômica de Manílio), para os hinos (como os homéricos e os de Calímaco), para os pequenos épicos, ou epyllion (Catulo 64) e para o verso mais longo do dístico elegíaco greco-latino. Ainda que não empregue o termo gênero para os tipos poéticos citados, Duckworth parece se manter ligado à interpretação tradicional segundo a qual quantas são as diferenças tantos são os gêneros.
Eric Havelock (1996a, p. 219-232), a despeito de pensar sempre em termos de composição oral, demonstrou que Os Trabalhos e os Dias revelam uma diferença substancial, sobretudo em comparação com os poemas homéricos. Nos versos 11-42 desse poema, Hesíodo trata de dois tipos de Contenda, a boa e a má, a primeira leva os homens ao trabalho, à emulação de atos nobres, a última conduz os homens às guerras, aos conflitos ideológicos e à Injustiça. Para Havelock, os catorze versos iniciais revelam uma estrutura e uma tese bem formulada: o poeta parece estar respondendo a outras formas tradicionais de tratar a questão da Contenda, tais formas estão nos poemas homéricos e até na Teogonia, do próprio Hesíodo. Diferente dessas formas, em que a Contenda é vista como uma só e está associada às imagens da Noite, do Medo, do Terror e do Sofrimento, para Hesíodo, a Contenda ganha outra tipologia: ela pode ser boa, se levar à emulação, e pode ser má, se conduzir à Injustiça. A grande contribuição de Havelock foi focalizar esses versos do poema hesiódico quanto ao caráter e ao conteúdo de sua estrutura argumentativa. Esses versos parecem revelar um alto rigor lógico, incomum aos poemas homéricos, e, em certo grau, se mostram uma novidade deixada por Hesíodo.
Estrutura argumentativa, dissertativa, parece ser uma marca do épos didático já com seu fundador, Hesíodo. Decerto, essa marca se justifica por pelo menos duas razões, primeiro pelo aspecto da extensão compacta dessa forma de épos e, segundo, por sua linguagem ser, grosso modo, técnica, devendo primar pela transmissão eficiente de uma matéria (de um conhecimento prático ou de uma doutrina filosófica).
Apesar do fato de ser argumentativa quanto ao discurso e técnica quanto à linguagem, o épos didático não se furtou de empregar partes narrativas. Todavia, outro detalhe emerge, a narrativa nesse épos é notoriamente menor e, ao que tudo indica, se subordina à argumentação e à praticidade de linguagem: mitos e fábulas se estruturam para formar uma mensagem coerente em seu todo.
A opinião dos antigos merece uma consideração aqui, e Quintiliano será nossa referência. Depois de tratar de Homero – o mais elevado em virtude poética e oratória (Ins. Or. 10.1.46, nec poetica modo sed oratoria uirtute eminentissimus) e aquele que ultrapassou a todos em todo gênero de eloquência (et in omni genere eloquentiae procul a se reliquit) –, Quintiliano (10.1.52) qualificou Hesíodo como o poeta que merece a palma no gênero intermediário de discurso. O que Quintiliano quis dizer com gênero intermediário de discurso? A descrição do teórico é digna de citação:
Raro adsurgit Hesiodus magnaque pars eius in nominibus est occupata, tamen utiles circa praecepta sententiae, leuitasque uerborum et compositionis probabilis, daturque ei palma in illo medio genere dicendi.
Ocasionalmente aparece Hesíodo, e grande parte de sua obra está ocupada por uma relação de nomes. No entanto, são úteis suas sentenças que tratam de preceitos morais. É digna de apreço a leveza das palavras e da composição e se lhe pode conferir a palma naquele gênero intermediário de discurso, sobre o qual já falei.76
A despeito da ressalva de que a obra de Hesíodo se ocupa com nomes, Quintiliano – o que nos leva a supor que ele esteja pensado apenas na Teogonia – parece estar pensando na natureza do discurso e na linguagem da poesia hesiódica. Trata-se de uma poesia que pretende ensinar algo que seja dotado de utilidade e por isso, decerto, deve ser uma poesia leve em suas palavras (leuitas uerborum). Talvez essa leveza seja um termo sinônimo de fluência, uma qualidade que corresponde ao tipo poético que se presta a ensinar; leveza pode também corresponder à frivolidade, ou melhor, à praticidade da matéria ensinada. Além da leveza, outro aspecto citado por Quintiliano diz respeito à composição dos poemas hesiódicos, ela é plausível, é verossímil (compositionis probabilis). Essa qualidade talvez reforce o caráter argumentativo desses poemas, ou seja, sua composição deve levar em conta a tarefa de argumentar, dissertar, dar provas de que seu ensino é bem estruturado e fundamentado.