• No results found

Kapittel 4:   Teoretisk rammeverk for studien - konstruksjon, endring og

4.1.1   Organisasjonsidentitet som relasjonell variabel – image og identitet

A Política dos Fluidos possuiria um território de guerrilha ideal: o gueto. Ronaldo Brito retoma o conceito de gueto de Cildo Meireles a partir do ponto de vista do buraco negro. Se um gueto é, afinal, um não-lugar13, um espaço-tempo fechado por excelência, na

medida em que são zonas de exclusão do convívio na sociedade dos Sólidos; o buraco negro é aquela força convoluta que transtorna ou exacerba uma singularidade espaço-temporal até uma máxima densidade que emana uma força que atravessa ou arrasta todos os objetos ao seu redor. Se, por um lado, do ponto de vista do Sistema, o gueto (e seus moradores) seriam justamente aquilo que “não funcionaria, não relacionaria, não significaria”14; de

outro, levados a trocar incessantemente entre si informações que dão conta da situação de opressão, do sentimento dos oprimidos e do modus operandi do opressor, os moradores do gueto acabariam criando uma desproporção entre energia (tendendo ao máximo) e matéria (permanecendo a mesma), o que geraria um campo gravitacional mais amplo com enorme poder de atração e tensionamento, isto é, um buraco negro:

13 Ibidem, p.10 14 Ibidem, p.9.

Pressão, sucção a vácuo. Produção de inteligibilidade a vácuo, processos de difusão a vácuo. Dispositivos, técnicas de aproveitamento do atrito do vazio com os sólidos. (...) buraco negro - corpo celeste com uma materialidade mínima e um imenso poder de atração no universo social. Atrai, irradia e dissemina de uma maneira que os aparelhos não detectam, produz impactos surdos que não são assimilidaos pela política dos sólidos. 15

Com efeito, um gueto reúne as quatro potencialidades elencadas por Brito: 1) considerado um zero a mais do Sistema (calculado), ele pode (ou deveria) tornar-se o zero a menos no meio do Sistema (incalculável), logrando assim livrar-se das condições subordinativas de controle e fazer confundir as coordenadas espaço-temporais; 2) considerado excluído da sociedade, o gueto pode (ou deveria) reunir simultaneamente as coordenadas internas e externas da sociedade, formando, em um mesmo espaço, uma constelação composta de informações do algoz e oprimido - essa constelação possibilita, por sua vez, uma comunicação não-linear moebiana, que cruza ao mesmo tempo dentro-e- fora e, portanto, desfaz os limites da espaço-temporais condicionadas ao gueto pelo Sistema;

3) considerado um não-lugar, o gueto pode (ou deveria) concentrar a potência do infinito atual, isto é, ao desfazer-se da linearidade sistêmica que subordina o passado e o futuro ao presente (é) e, destruindo a razão resultante do fio lógico da exclusão, o gueto pode recuperar a meada do fio, a virtualidade capaz de ressignificar as duas finitudes, passado e o futuro, na medida em que são atualizados constantemente como infinitos através da ação de inserção;

4) por fim, considerado um mero vácuo, imprestável até mesmo para participar nas trocas econômicas, o gueto pode (ou deveria) tornar-se um buraco negro, isto é, um aglutinando de todas as energias dispensadas e incompossíveis de polarização pelo Sistema, que por sua vez podem ser reinseridas no Sistema ao modo do arrastão, produzindo uma incompreensão latente, uma significação sem início e sem fim, uma desorientação, portanto, criativa.

Ronaldo Brito fala de uma suposta estratégia de Cildo em fazer operar dentro do circuito-da-arte - o cubo branco16 - os dispositivos do buraco negro:

Falar a linguagem da inserção contra a linguagem do estilo, mover-se no fluxo contra o fetiche do Objeto, ouvir o Murmúrio Anônimo contra a Voz do Autor. No sentido inverso à teleologia do Gênio que a acompanha, o trabalho age à maneira do gueto, espaço indefinido onde circula o desregulado saber comum, a balbuciante inteligência coletiva.17

15 Ibidem.

16 Veja o projeto de intervenção urbana que concebi a partir da reflexão de Cildo/Brito intitulado Cubo Branco / Buraco Negro, publicado em: MENDES PENA, Victor. Cubo Branco / Buraco Negro. Revista ArtContexto v.1, nº4, 07/2014. Disponível em: http://artcontexto.com.br/revista/artigo-victor_pena.htm. Acesso em: 01/11/2014.

Em nosso livro de observador, iremos experimentar, por a teste, nós mesmos, as estratégias e táticas de formulações de densidade e de produção de inserções que operam a nível da redundância, ou seja, a formação de densidades, os eventuais buracos negros; ou ainda, de composições armações que não passam de guetos do pensamento - e sendo eu mesmo, a minha maneira, um morador de gueto em vários níveis18 -, que são nada mais

que guerrilhas precárias que só podem apontar para o transcorrer fluido que, para além do Sistema, afirma o convívio com base na diferença inconciliável. Dessa forma iremos atravessar o observador.

Em todo caso: buraco negro - o gueto em arrastão. Com efeito, essa será a nossa abordagem do observador: uma espécie de estética que confunde causa com efeito, e que transborda os limites do Objeto de arte e da Argumentação para agir evocando, aglutinando, condensando, arrastando o que for ao redor, indo atrás sempre das fissuras por onde passam as densidades transformadoras capazes de propiciar a deflagração atual do corpo-mundo- infinito, fissuras nas quais passa entre os observadores a energia informe, a política das afinidades fluidas capazes de transtornar o pacto social dos sólidos em uma zona efetivamente equitativa19: superfície do sol - sol com gesto de ó.

18 Em relação ao O Ocidente: gueto do terceiro-mundo, da américa latina, do brasil, do ser brasileiro; gueto da língua portuguesa, gueto da juventude; quase-gueto da crítica-de-arte, quase-guetos da academia e suas hierarquias; quase- gueto da classe média, quase-gueto do sudeste...

19 LIBERDADE, AFINIDADE e DIFERENÇA: esse é um lema apropriado ao Gueto: “Lembro-me dele [o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro] dizendo em sala de aula, em tom de blague, que na Amazônia indígena não valia o lema ‘liberdade, igualdade e fraternidade’. Liberdade, tudo bem. Mas no lugar de igualdade, diferença. No lugar de fraternidade, afinidade”. (CARIELLO, Rafael. O Antropólogo Contra o Estado. Revista Piauí, Edição 88, 12/2013. São Paulo: Instituto Moreira Sales, 2013.)