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3. Litteratur som belyser problemstillingen

3.10 Organisasjonsformer, lederroller og lederfunksjoner

No entanto, muito mais se apresentava nos encontros clínicos, não eram só servidão e impotência, claro que não! Cada um trazia consigo uma infinidade de possibilidades e de potências48 que desconhecia, ou ainda, que não sabia que poderia usar e propagar intensivamente como potência. Numa sociedade em que o saber e poder ficam enclausurados em alguns modelos únicos e hegemônicos, e algumas vezes até mesmo a arte é capturada por estes modelos, é de certa forma naturalizado que as pessoas não se vejam e não se sintam sendo produtivas e verdadeiramente artistas quando lançam mão de saberes e fazeres corriqueiros, populares, de estratégias cotidianas de certa forma simples nas exigências de ‘executabilidade’, mas também de conexões complexas na elaboração.

E o encontro com este campo problemático levou a desejar, intensamente, compreender melhor e dar alguma visibilidade a este potencial de criar, inventar, gerar meios de adaptação, de escape. Estas forças que ficam lançadas num certo segundo plano, em conhecimentos secundários e/ou complementares, em aptidões personalizadas e individualizadas, mas que mostravam algo que de certa forma eu já intuía há algum

46Nietzsche, Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres, op.cit., p.269. 47Manoel de Barros, A Infância: Memórias Inventadas, op.cit., contra-capa.

48A vida nos atravessa enquanto estivermos vivos e com toda sua potência, múltipla, brutal, singela e sutil, em constante ‘fazimento’, atualizando e desatualizando ao mesmo tempo, adaptando e readaptando (sem que adaptação seja tomada como postura servil ou permissiva, mas ativa em interação com o meio e possibilidades que se movimentam e apresentam)

tempo, um “devir revolucionário”. Era com estas forças e potências que podíamos nos aliar na clínica, fosse individual ou grupal, era essa uma potência coletiva.

“É uma questão de vida, que passa no interior dos indivíduos como na espessura de uma sociedade, criando novas relações com o corpo, o tempo, a sexualidade, o meio, a cultura, o trabalho(...).”49

E todo esse campo intensivo de composições clínicas, que também me faziam e desfaziam, produziam deslocamentos infindáveis de pensamentos e posturas, formulou- se, num certo momento, numa vontade de expandir, buscar mecanismos e estratégias que possibilitassem a criação e alguma propagação das potências, que muitas vezes escondem-se, escamoteiam-se, camuflam-se nas rotinas e automatismos.

E por algum tempo achei que a motivação de estar estudando e pesquisando era pensar como é possível ocuparmos os espaços, entendendo ocupar em múltiplas e talvez infinitas possibilidades e espaços como jogos, conexões e encontros, tanto de lugares reais e concretos, quanto virtuais50 e abstratos. Sinto que escolhi ocupar porque traz uma dimensão de iniciativa, uma dimensão afirmativa, que tem liberdade para atuar. E sim, entendo que há um certo caráter de escolha em como se vive a vida que se faz presente em todo o redor, interior, direções e extensões, e isso em termos de conectividades. Para o que se abre passagem, para que direções se segue, o quanto se responde, ou se alia ao chamado da vida pulsando e de que maneiras e com que parcerias se tece essa aliança.

49Eduardo Pellejero, “A luta sem futuro de revolução” in Cadernos de Subjetividade, op.cit., p. 154. 50O emprego do virtual aqui se dá num senso-comum, numa simplificação corriqueira e não pretende adentrar a questão de virtual real e atual em Deleuze.

“(...)buscar um estatuto para as “máquinas de guerra”, que não seriam definidas de modo algum pela guerra, mas por uma certa maneira de ocupar, de preencher o espaço- tempo, ou de inventar novos espaços-tempos: os movimentos revolucionários (não se leva em conta o suficiente, por exemplo, como a OLP teve que inventar um espaço-tempo no mundo árabe), mas também os movimentos artísticos são máquinas de guerra.”51

Algumas formulações possíveis talvez sejam: Como vivemos? No que temos colaborado a vida a se efetuar em nós mesmos e através de nós? O que deseja em nós? Que coisas temos privilegiado, que valores estamos ajudando a construir?

Havia algo muito forte, e de fato porque não dizer que ainda há, no sentido de implicação e cuidado com o espaço público, com os espaços compartilhados, de co- autorias e co-responsabilidades.52

Quase uma rede de intrigas, instigada a compreender posicionamentos políticos e éticos do cotidiano, das pessoas ‘comuns’, dos lugares ‘simplórios’, das questões mais corriqueiras possíveis, das sustentações micro-políticas.

“(...) a ética é uma questão de vida cotidiana e de encarnações infinitesimais no tecido fino das relações humanas, não é de idéias puras ou de conceitos etéreos.”53

E ainda agora não posso deixar de rir, no percurso de conhecer iniciativas, pessoas, projetos, enfim, foi preciso esquecer um pouco da dissertação, das indagações sobre tema e da escrita, do lugar pós-graduanda.

A poesia retornou, a filosofia tântrica apresentou-se, o xamanismo tornou-se possível, a umbanda vivível; os filmes invadiram cenários e a arte de temperar e cozinhar

51Gilles Deleuze, Conversações (1972-1990), op.cit., p. 216.

52Na sagacidade de Alexandre Henz: “Cachorro que tem muitos donos morre de fome.” (Um deixa para o outro, que responsabiliza um outro, que tem certeza de que já foi feito e por aí se vai).

53Michel Onfray, A potência de existir: manifesto hedonista. Tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p.53.

marcaram encontros com o improviso e com o lúdico... outras maneiras de pensar e sentir, imanências outras e mesmas, linguagens e afetações de campos diferenciados.

“Criar a partir do mergulho no caos par dar corpo de imagens, palavras ou gestos às sensações que pedem passagem, participa da tomada de consistência de uma cartografia de si e do mundo que traz as marcas da alteridade. Um processo complexo e sutil que requer um longo trabalho.”54

Fez-se necessária alguma desintoxicação do mundo acadêmico e profissional, das convenções e pactuações quase imperceptíveis destes espaços. Era preciso re-encontrar certas origens, forças e histórias que me constituem, não num resgate histórico que define um lugar e papel, mas numa soma de histórias que abrem um leque de multiplicidade. Perceber o sangue índio pulsar, o jeito caboclo de alguns gostos, traços e trajetos familiares se entrecruzando, assim como maneiras de ser e pensar e sonhos de Juliana’s que nem lembrava mais que existiram. Muitos encontros inusitados – conexões!

Sentir de outras formas que coisas estavam falando e pedindo passagem nesta vontade de compreender, de aproximar do que incomoda incessantemente; suscitar essas pulsações por outras experiências que não a do pensamento (desse pensamento como ato reflexo e representativo da vontade), do discurso ou da ‘arte maldita’55.

54Suely nos presenteia com o conceito de “subjetividade antropofágica” que trata da existência do ‘outro’, da alteridade em nossos corpos, nossa subjetividade: “A existência do outro – não um, mas muitos e diversos – era assim inscrita na memória do corpo, produzindo imprevisíveis devires da subjetividade.” Senti muitas ressonâncias entre os chamados e convocações que me ‘tomaram pelas mãos’ (ou pelas vísceras) e este conceito; longe de poder falar dele como um processo finito, mas em curso - com novos cursos de rios e ares, odores e paladares, nuances. Suely Rolnik, “Políticas da hibridação: Evitando falsos problemas” in Cadernos de Subjetividade, op.cit., p. 18.

55Seria um caminho bem outro falar das relações com a arte, mas é interessante pensar o quanto a arte também pode se tornar, ou camuflar, um certo ‘lugar do maldito’. Numa sociedade que individualiza, que produz cisões bastante duras entre público e privado e que prega a felicidade a qualquer custo, numa ojeriza a dor e desconforto, há um campo social e de relações afetivas que também é atravessado por competição e desconfiança e que propicia assim que a arte seja não só a linha de investimento de desejos, mas também

Operar um certo resgate de possibilidades outras de pensamento, de sociedade, de organização e, especialmente, de relações. Relação com a natureza (fauna, flora, essências, substâncias, cores, etc), relação com o ‘outro’, com o corpo, com desejos; relação com o que seria vital ou divino (sem que isso implique em monoteísmo ou em uma supremacia condenadora)...outras águas, outros fluxos eram precisos.

E num certo sentido clínico, acho que podemos dizer, que as inquietações com tema, escrita, que as ânsias e expectativas em produzir potência, eram gritos por uma DESERTIFICAÇÃO. Desertar, necessidade de ocupar outros espaços, de estar na vida de outras formas. E no percurso das inquietações e dos modos de persegui-las e de por elas ser perseguida, todo um processo vem se desencadeando...mudanças sutis, de certa forma, por deslocamentos em graus, por variações nas velocidades e lentidões, por improvisos, aproximações: experimentações.

“Assim, eu a [“subjetividade antropofágica”] descreveria em linhas gerais: a ausência de identificação absoluta e estável com qualquer repertório e a inexistência de obediência cega a qualquer regra estabelecida, gerando uma plasticidade de contornos da subjetividade (no lugar de identidades); uma fluidez na incorporação de novos universos, acompanhada de uma liberdade de hibridação (no lugar de atribuir valor de verdade a um universo em particular); uma coragem de experimentação levada ao limite, acompanhada de uma agilidade de improvisação na dinâmica da criação de territórios e suas respectivas cartografias (no lugar de territórios fixos com suas representações pré-determinadas, supostamente estáveis).56

algo como expurgação de toda espécie de afeto (o que refiro como arte maldita, desse lugar do profundo, do sofrido, do vômito). Isso pode ocorrer com o pensamento e com a escrita, isso diz de modos de vida, de modos de investimento de desejo e não de uma qualidade da arte ou do que seja. Traz um frescor sempre atual quando Foucault questiona: “A vida de todo indivíduo não poderia ser uma obra de arte?” (apud Denise Bernuzzi de Sant’Anna, “Passagens para condutas éticas na vida cotidiana” in Corpos de Passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea, op. cit., p. 99)

56Suely Rolnik, “Políticas da hibridação: Evitando falsos problemas” in Cadernos de Subjetividade, op.cit., p. 16.

Se seria possível escrever uma dissertação depois disso, não sei até agora. É certo que se intensificou a relação com o pensar. Produziu-se um outro campo de paradoxos e talvez tenha acontecido um distanciamento da dimensão acadêmica, dos lugares sociais e culturais a que ela está conectada (ou que eu a conectava). No mínimo, os lugares e posicionamentos que me levaram a graduação e pós-graduação mudaram de ocupação, disparando ‘desidealizações’. Assim também tem sido com relação às temáticas que me trouxeram a este percurso.

Uma compreensão que tem sido importante neste processo (entre tantas) é que ocupar também pode ser controlar e, por isso, desocupar também é preciso, desinvestir alguns esforços, num certo não agir, uma quase inércia que espera o momento de uma abertura, de uma brecha, que aguarda o escorregadio de uma possibilidade, o quase momento...deslizar junto ao vento.

“Uma resistência permanente, sim; uma construção de sua existência para evitar que ela constitua uma engrenagem do funcionamento da máquina nefasta é melhor ainda, mas na verdade devemos nos aliar, associar forças,(...): ir mais devagar, frear, deter, imobilizar, tornar a máquina ineficaz e inutilizável. Da inércia à sabotagem.”57

Outras questões me perpassaram e com outras sensibilidades, com novos perceptos; afetações de outras formas, novas e/ou renovadas. E o pensamento foi chamado para outro campo: quem ocupa? Nós e as coisas (atos, ideias, sentimentos e pensamentos) ocupamos os espaços ou os espaços que ocupam a nós e as coisas?

Nesta ambivalência, charada sem resposta, esbarrei num sentido de arte, a arte de viver, uma arte da existência que em nada pode ser resumida e/ou representada pelos

‘objetos de arte’ – o ‘final’ da arte, o seu ‘resultado’ (instalações, pinturas, escritos,etc) podem inspirar, sensibilizar, disparar novos processos, mas não traduzem o processo que os criou, que instaurou a visibilidade existencial dessa arte. Não seria então uma questão de ocupar, mas de estar se ocupando com os processos, em meio a eles, ocupados por eles.

“O grande inimigo é sempre a laminação homogeneizante provocada pelo Capital, que torna tudo equivalente ou indiferente, ou a laminação provocada pelo Significante, que subsume sob seu filtro a totalidade do real, com todas suas imensidades, dimensões, variedade, ou a laminação oriunda da idéia de Ser (...) ou de Razão, ou de Energia, ou de Informação, ou de Comunicação, e assim por diante. Essa operação que Guattari propõe consiste na destruição de todas as maiúsculas, isto é, de todos os despotismos reterritorializantes do Universal. Por isso o inconsciente para Guattari não é estrutural, mas processual, não pode estar referido apenas ao romance familiar, mas também às máquinas técnicas e sociais, não pode estar voltado exclusivamente para o passado, mas também deve sê-lo para o futuro.”58

Você pode achar esta conclusão uma grande tolice, de uma obviedade sem tamanho, e talvez o seja realmente. A questão é que estar em meio, entre as coisas nos desloca dos lugares e saberes conhecidos, nos convoca a situações e espaços já ‘superados’ reiteradamente, mas sempre como novo – num novo movimento do processo, num outro grau de posicionamento e direcionamento, com outros interesses, sentindo outras intensidades de afetos, num diversificado ritmo....um momento nunca é igual ao outro, uma passagem nunca é igual a outra e se a vida a alguém sempre parece igual talvez seja porque procure encaixá-la nas mesmas respostas ensaiadas, atentando-se aos repertórios conhecidos.

Neste sentido a questão seria como viver a vida fazendo dela uma obra de arte, desmistificando tanto as imagens e mitos da figura vida quanto da figura arte. Atribuir aos gestos, fazeres, às ‘escolhas’ (conectividades e disposições) um certo refinamento – não de ‘ares refinados’ como numa sofisticação, mas num certo cuidado, num generoso movimento e atenção amorosa pelas formas de vida que se apresentam.

“Em toda modernidade, em toda novidade, há um conformismo e uma criatividade; uma enfadonha conformidade, mas também “uma pequena música nova”; alguma coisa que se conforma à época, mas também algo de intempestivo – separar uma coisa da outra é a tarefa daqueles que sabem amar e que são os verdadeiros destruidores e, ao mesmo tempo, os verdadeiros criadores. Não há boa destruição sem amor.”59

Em meio a uma composição de um jeito criança que brinca com muita seriedade e acredita no que inventa. É o que vive naquele momento, no mundo inventado, junto a um certo jeito adulto que cria e investe em condições para que as coisas se realizem, disponibiliza meios, somados a um jeito idoso de sabedoria e discernimento, que atribui leveza ao viver, não se apega mais as teimosias, pode esperar, silenciar e sorrir (rir de tudo) aprendeu que todo instante passa rápido e que, muitas vezes, são quase imperceptíveis as coisas que realmente importam.

Este cuidado, tato, esta ação refinada é da ordem da delicadeza, do silêncio, das lentidões. De um saber esperar, alcançar grandes distâncias em movimentos quase ínfimos, sem necessidade do ato brusco, violento. Primazia do intensivo que contém variações, gradações e não de um intenso que transcende e estronda em extremos, em opostos.

59Gilles Deleuze, “Sobre Nietzsche e a imagem do pensamento”. Tradução de Tomaz Tadeu e Sandra Corazza, in A Ilha Deserta e outros textos, op.cit., p.180.

São todos os sentidos apurando-se em prontidão; é um corpo se compondo em si mesmo, das suas maneiras, com suas sinfonias; é um corpo em conexão direta - extensiva e intensiva – com o ‘fora’, com a matéria que o constitui e com as demais variações desta matéria: ‘outros’/ ‘coisas’ - relações. Não se trata de uma política da assepsia e nem de uma ‘zen passividade’.

Haveria só ‘mansidão’ e silêncio, somente gestos delicados e mornos, claro que não. Há outras coisas, outra sensibilidade, outros valores e concepções, outras formas de sentimento e de disposição – outro mundo, outra vida, “um outro de todo mundo”60; novas eternas alegrias.61

“(...) é necessário ter ao mesmo tempo o pessimismo da razão e o optimismo da vontade. A esquerda, com efeito, geralmente se tem definido por um certo voluntarismo, isto é, pela idéia de que se fazemos tudo que devemos, de que se fazemos tudo o que podemos (seguindo as linhas de um projecto revolucionário, neste caso), as coisas irão para melhor. O involuntarismo deleuziano implica uma problematização desta idéia, mas certamente não significa a alienação completa do político pelo pessimismo da razão. Na realidade, o que é colocado em questão por Deleuze é a esperança na realização (total ou totalitária) dos projectos revolucionários, não a vontade de mudança. No fundo, o involuntarismo deleuziano afirma que uma mutação subjectiva não pode decretar-se, isto é, que nunca é o resultado de uma realização voluntariosa de uma idéia da razão; é, antes, a vontade impessoal do acontecimento a que decide uma nova partilha dos afectos, uma nova circunscrição do intolerável (“o acontecimento é o próprio potencial revolucionário”).”62

*Nota: ‘des’ – retirar-se de fórmulas e padrões, subverter valores e conceitos; abandonar-se como indivíduo, contornado, fechado, definido; abrir mão do

60Peter Pál Pelbart

61Acredito que haja uma lógica dos prazeres e das satisfações a serem consumidos para que nos ‘façam felizes’, um apego ao que se chama de paixões e a se viver de últimos suspiros; e talvez aí, nessa lógica, a dimensão de impermanência e de incontrolável da vida seja transformada numa espécie de instabilidade e tensão que sustentam uma certa noção e política do medo. No canal Futura, de TV, diziam dia desses, num programa que falava sobre Freud e a Psicanálise: “o medo é inerente ao homem, é inato.”. Entre tantos afetos porque o medo teria este privilégio e supremacia?! Parece-me, que a única coisa que pode ser chamada de inerente e inata ao homem é a vida. Quando se nasce e ‘vira’ homem é a vida que acontece. “Verdadeiramente, só há uma desgraça: é não nascer.” (Machado de Assis)

62Eduardo Pellejero, “A luta sem futuro de revolução” in Cadernos de Subjetividade, op.cit., p. 156, nota de rodapé 16.

pensamento diretivo que impõe o caminho e forma, com a ilusão de resultados, sucesso e efetividade. Deixar-se ‘bambear’, abrir, soltar o contorno, maleabilizar o ‘chão’, dispor-se na direção de compor o todo, estar em meio ao ar, espaço e tempo, compondo todo o mais que também existe, em conexão à vida, esparramada em todos os diferentes modos de existência e de subjetividade. Esvaziar-se de ‘eu’. Exemplos: desertificar-se, desocupar, despreocupar-se, desacelerar; descentralizar, desobrigar-se. Mas como viver convoca a uma certa arte do temperar, o ‘des’ desmente a si mesmo e não induz a uma desimplicação com a vida e seus modos, relações. Não representa um largar-se em descuido, a mercê do que vier de qualquer forma, como quem estende a mão e espera que qualquer algo lhe toque, impulsione, arraste.

“Sou um dos fracos? fraca que foi tomada por ritmo incessante e doido? se eu sólida e forte nem ao menos teria ouvido o ritmo? Não encontro resposta: sou. É isto apenas o que me vem da vida. Mas sou o quê? a resposta é apenas: sou o quê. Embora às vezes grite: não quero mais ser eu!!! mas eu me grudo a mim e inextricavelmente forma-se uma tessitura de

vida.”63