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In document Mekaniseringen av Brigade Nord (sider 45-0)

Feitas essas considerações, destaca-se que vários teóricos da área social são importantes para o desenvolvimento da tese. O primeiro a ser nomeado é Bourdieu, já que sua obra pode ser entendida como uma teoria das estruturas sociais a partir de alguns conceitos-chave, tais como habitus, campo e capital. Nas suas investigações, o referido autor erige uma variante modificada do estruturalismo.

O termo habitus foi adotado por Bourdieu (1983, 1989,1990) para estabelecer a diferença entre conceitos correntes, tais como hábito, costume, praxe, tradição, que medeiam entre a estrutura e a ação. Isso denota o sistema de disposições duráveis e transferíveis, que funciona como princípio gerador e organizador de práticas e de representações, associado a uma classe particular de condições de existência. O habitus gera uma lógica, uma racionalidade prática, irredutível à razão teórica. É adquirido mediante a interação social e, ao mesmo tempo, é o classificador e o organizador dessa interação. É condicionante e condicionador das nossas ações.

Para o autor, o campo se define como o espaço onde se realiza o embate por posições entre os atores, em torno de interesses específicos que caracterizam o campo em questão. Os atores travam lutas para a conquista e manutenção de legitimidade e de reconhecimento – o poder dentro do campo (BORDIEU, 1990). A entrada de um ator em dado campo implica aceitar as regras que regem esse espaço social e que passam a orquestrar sua atuação. Para se manter no campo e poder lutar por posição de prestígio, os atores não apenas utilizam seus capitais – seus haveres –, mas procuram expandi-los. Os atores possuem diferentes espécies de capital: o escolar, o econômico, o político, o social, o linguístico, o simbólico, que se concretizam nas relações sociais.

Bourdieu (1990) deriva o conceito de capital da noção econômica, em que o capital se acumula por operações de investimento, se transmite por herança e se reproduz de acordo com a habilidade do seu detentor em investir. A acumulação das diversas formas de capital se dá por investimento, extração de mais-valia etc. O conceito de capital — etimologicamente, o mesmo que cabedal ou conjunto de bens — é complexo. Além do

econômico, que compreende a riqueza material, o dinheiro, as ações, dentre outros (bens, patrimônios, trabalho), nessa esfera Bourdieu considera:

1) O capital cultural, que compreende o conhecimento, as habilidades, as informações etc., correspondente ao conjunto de qualificações intelectuais produzidas e transmitidas pela família e pelas instituições escolares, sob três formas: o estado incorporado, como disposição durável do corpo (por exemplo, a forma de se apresentar em público); o estado objetivo, como a posse de bens culturais (por exemplo, a posse de obras de arte); estado institucionalizado, sancionado pelas instituições, como os títulos acadêmicos;

2) O capital social, correspondente ao conjunto de acessos sociais, que compreende o relacionamento e a rede de contatos;

3) O capital simbólico, correspondente ao conjunto de rituais de reconhecimento social, e que compreende o prestígio, a honra etc. O capital simbólico é uma síntese dos demais (cultural econômico e social).As formas de capital são conversíveis umas nas outras, por exemplo, o capital econômico pode ser convertido em capital simbólico e vice-versa (BOURDIEU, 1990, p.114).

A literatura econômica reconhece diferentes formas de capital, que em comum têm a possibilidade de serem acumulados. Muitas formas de capital possuem, também, características que permitem que sejam valoradas e transacionadas no mercado, ou seja, o mercado determina o seu preço e a sua disponibilidade. O capital social é uma forma de capital não mercantil. Embora sua definição seja alvo de discussão na Ciência Econômica e na Sociologia, algumas características parecem se destacar, como a não ocorrência de retornos decrescentes, a apreciação com o uso (não se deprecia, portanto), a produção coletiva a partir das relações sociais existentes nas comunidades, mas seus benefícios não podem ser antecipadamente mensurados. Embora possua características de bem público, observa-se nele um aspecto único, ou seja, a sua produção é, necessariamente, coletiva.

O capital social gera externalidades, mas sua análise deve transcender esse ponto, isto é, o capital social deve ser entendido como um conjunto de redes e normas que permitem a redução dos riscos decorrentes das relações entre desconhecidos e, consequentemente, dos custos de transação. No entanto, sua mensuração é bastante problemática e, embora ele possa ser associado ao desenvolvimento, especialmente local, sua promoção não é comum, ou seja, como ele está incrustado nas redes de relações sociais, não é claro o modo como a sua expansão ou modificação pode afetar o bem-estar de seus componentes.

A maior parte dos estudos sobre o capital social destacam as contribuições de três teóricos citados por Durston (2000): I) James Coleman, para quem o capital social é um recurso para o indivíduo que pertence a uma determinada estrutura, tratando-se de um

recurso coletivo; II) Robert Putnam, que, de forma semelhante, trata o capital social como um recurso coletivo baseado nas normas e redes de intercâmbio entre os indivíduos; e III) Bourdieu (1983,1990), que trata o capital social como a soma dos recursos decorrentes da existência de uma rede de relações de reconhecimento mútuo institucionalizada. Os recursos são empregados pelas pessoas em uma estratégia de progresso dentro da hierarquia social, prática resultante da interação entre o indivíduo e a estrutura.

Esta tese analisa as redes sociais dos parques estaduais de Minas Gerais e, assim, é importante a colocação dos autores que discutem capital social de que a posição de cada indivíduo na rede depende do quanto ele agrega ao capital social do conjunto e de que a margem de decisão de cada um está sujeita à distribuição de poder, à estrutura de interdependência e às tensões no interior do grupo, de forma que as estruturas representadas nas redes determinam, em grande parte, a atuação dos indivíduos. Em outras palavras, o capital social está associado à localização dos atores na rede e aos recursos sociais nela incrustados, numa associação positiva, pois uma melhor localização aumenta a possibilidade de se mobilizarem os melhores recursos.

Como se vai discutir efetivamente de que modoas dimensões pública e privada se reestruturam no processo de gestão dos parques estaduais, torna-se necessário, para o desenvolvimento teórico, reportar-se a Jürgen Habermas (1984), que discute o fenômeno social esfera pública como uma das categorias centrais da sociedade. Nele, a tensão entre o público e o privado encontra uma relação entre a autoridade e a liberdade dos particulares. O ético cede lugar ao jurídico nas sociedades contemporâneas, balizadas pelo imediatismo e pelo esquema de produção, tal como uma linha de montagem. Nessa instrumentalização das relações sociais, há um risco de as pessoas serem também percebidas como instrumentos, como meios para a realização dos fins de outras pessoas que controlam o Estado, o titular dos interesses públicos.

Habermas (1984) comenta a multiplicidade de significados que envolvem o uso corrente dos termos público e esfera pública, significados que tiveram origem em diferentes fases históricas. “Chamamos de públicos certos eventos quando eles, em contraposição às sociedades fechadas, são acessíveis a qualquer um ― assim como falamos de locais públicos ou de casas públicas.” (HABERMAS, 1984, p.14)

De acordo com o autor, o surgimento da expressãoesfera pública está intimamente ligado ao desenvolvimento da sociedade burguesa, apesar de muito antes desse período já se falar em público, daquilo que não é privado. Para os gregos, a esfera pública destacava- se como um reino da liberdade e da continuidade; “só à luz da esfera pública é que aquilo

que é consegue aparecer, tudo se torna visível a todos.” (HABERMAS, 1997, p.16) Habermas (1997, p. 92) formula que

a esfera pública pode ser descrita como uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomadas de posição e opiniões; nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos.

Thompson (1995, p. 150) comenta que permanece evidente nos escritos de Habermas a “ideia de uma esfera pública como uma comunidade de indivíduos que estão unidos por sua participação num debate racional-crítico.” Pode-se entender a esfera pública construída por diversos públicos que se organizam em torno de temas de interesse comum. Habermas, em suas últimas obras, discute a existência de uma multiplicidade de esferas públicas, nas quais os sujeitos estão permanentemente reestruturando suas relações,caracterizando-se como palco para discussões, debates e questões sociais que são trazidos à tona por indivíduos ou coletividades, minorias ou maiorias, atores ou espectadores.

Em sociedades complexas, a esfera pública forma uma estrutura intermediária entre o sistema político, de um lado, e os setores privados do mundo da vida e sistemas de ação especializados em termos de funções, de outro lado. Ela representa uma rede supercomplexa que se ramifica especialmente num sem número de arenas internacionais, nacionais, regionais, comunais e subculturais, que se sobrepõem umas às outras; essa rede se articula objetivamente de acordo com os pontos de vista funcionais, temas, círculos políticos, assumindo a forma de esferas públicas mais ou menos especializadas. (HABERMAS, 1997, p. 107)

Compreende-se que o autor articula a variedade de espaços públicos como locais onde surgem inúmeros discursos que se entrecruzam e se sobrepõem. Nos espaços públicos descritos por Habermas encontram-se fluxos comunicacionais opostos: de um lado está o poder administrativo e econômico, representando o centro do espaço público; e de outro, o mundo cotidiano, o mundo da vida, os desejos e as subjetividades dos indivíduos. Esses dois fluxos comunicativos são classificados pelo autor como sistêmico (organizado) e discursivo (espontâneo), respectivamente (FERNANDES, 2000). Ou seja, o espaço público não se constrói unicamente no domínio das instituições, mas também no cotidiano, no que está relacionado à vida e às particularidades dos indivíduos.

O estudo, nas organizações, dos fluxos de informação com base nas redes sociais implica analisar as relações de poder ali existentes, com todas as dificuldades inerentes ao seu conceito. Conceitos de buraco estrutural e de intermediários (brokers) (BURT, 2000)

podem ser aplicados dentro dessas redes analisadas. Os intermediários têm vantagens sobre os demais atores por construírem uma rede de informações que garante o acesso às oportunidades existentes, de três formas: I) controle sobre o acesso e o conhecimento de quem melhor pode usar a informação; II) uso privilegiado e antecipado em relação aos demais; e III) ampliação de sua legitimação.

As relações de confiança existentes na rede são fundamentais para o papel do intermediário, uma vez que, dada a capacidade limitada de processamento de informação por parte dos indivíduos (racionalidade limitada), a qualidade da informação recebida não pode ser integralmente verificada e, assim, sua qualidade depende da reputação das fontes. Além da confiança, os intermediários devem ser capazes de identificar quem pode fazer melhor uso da informação disponível, sem o que não poderiam tirar vantagem de sua posição (BURT, 2000).

Na área sob a denominação de gestão de conhecimento, a aplicação do conceito de capital social para explicar o comportamento informacional dos gestores é utilizada, assim como nos estudos relacionados às condições internas às empresas, para que haja a criação de novos conhecimentos por autores que analisam o funcionamento das redes internas sem, no entanto, utilizar a análise de redes sociais, como Brown e Duquid (1991) e Davenport e Prusak (1998).

Esses aspectos são relevantes para a compreensão da importância do capital social no interior das organizações. Um possível modelo seria, conforme, Borgatti e Cross (2003, p. 440),

Baseado numa revisão da literatura de redes sociais, processamento da informação e aprendizagem organizacional, [...] um modelo formal de busca de informação no qual a probabilidade de buscar informação junto à outra pessoa é função: 1) do conhecimento sobre o que a outra pessoa sabe; 2) do valor atribuído a esse conhecimento; 3) do ganho de tempo estimado em se obter acesso a esse conhecimento; 4) do baixo custo associado a essa forma de busca de informação. Adicionalmente é feita a hipótese que as variáveis ‘conhecimento’, ‘acesso’ e ‘custos’ determinam a relação entre proximidade e busca por informação.

Segundo Tsai e Ghoshal (1998), o uso do conceito de capital social nas empresas se relaciona à existência de recursos incrustados nos relacionamentos pessoais que podem ser usados em proveito dos indivíduos e das organizações. Esses autores estudaram como o capital social contribui para a criação de valor na firma, na forma de inovações. Para tal, identificaram três dimensões do capital social: estrutural, relacional e cognitiva (também denominada dimensão de conteúdo ou de comunicação).

O capital estrutural permite que o indivíduo obtenha vantagens, pois inclui interação social, e a posição do ator na rede e seus contatos permite que ele obtenha informações vantajosas (vantagem no acesso a recursos). Já o capital relacional se refere a ativos que estão residentes nas relações, como a confiança. Por fim, a dimensão cognitiva se relaciona com o compartilhamento de códigos, modelos e paradigmas que facilitam a compreensão dos objetivos da coletividade e das normas para atuar naquela sociedade.

Essa compreensão comum é apropriada pela coletividade como um recurso (TSAI; GHOSHAL, 1998). Em sua pesquisa, os autores analisam a relação entre unidades de negócios de uma empresa, destacando como as três dimensões interagem entre si, como influenciam a combinação e troca de recursos entre as unidades e como esses processos influenciam a criação de valor no desenvolvimento de novos produtos, ou seja, na inovação.

As três dimensões do capital social de Tsai e Ghosal podem ser aproximadas da união dos conceitos de conhecimento cultural (CHOO, 1998) e de ambiente de criação de conhecimento (NONAKA; KONNO, 1998). Cabe também destacar que os laços estudados são interpessoais, mas, também, interdepartamentais, e as relações entre essas entidades (pessoas e departamentos) na criação do conhecimento são identificadas com a dimensão ontológica da criação do conhecimento no modelo de Nonaka e Takeushi (1997).

Os resultados obtidos confirmam o argumento de que o capital social facilita a criação de valor nas organizações e estão de acordo, segundo Tsai e Ghoshal (1998), com outras pesquisas que evidenciam que as organizações podem obter vantagens do compartilhamento de recursos entre as suas unidades de negócio. A análise sugere, ainda, que o investimento em capital social dentro das organizações ajuda na criação de valor. Os investimentos em técnicas de gestão e infraestrutura têm retorno, pois as relações sociais informais e os acordos tácitos encorajam a troca e a combinação de recursos.

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