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KAPITTEL 3 TOLKNING AV STRØKSSERVITUTTER

3.4 T OLKNINGSMOMENTER

3.4.1 Ordlyden

O problema do pecado na filosofia kierkegaardiana deve tocar também na questão da fé (KIERKEGAARD, 2010, p. 108). Em Kierkegaard, a ausência ou a deformação da fé remete-nos a problema do escândalo. Isto é, a definição do pecado implica a possibilidade do escândalo – afirma o autor – e a definição de escândalo implica a possibilidade da incredulidade (KIERKEGAARD, 2010, p. 108). Ora, sobre a questão da fé, Anti-Clímacus procurou justificar sua presença no fenômeno do desespero, a partir de um texto da epístola aos Romanos (14: 23) que diz: “Tudo que não provém da fé é pecado”.

Esta oposição do pecado e da fé domina o cristianismo e transforma, cristianizando-os todos, os conceitos éticos, que dele recebe assim o mais profundo relevo. É sobre o critério soberano do cristão que ela repousa: se está ou não perante Deus, critério que implica outro, por sua vez decisivo no cristianismo: o absurdo, o paradoxo, a possibilidade do escândalo. A presença deste critério é de extrema importância todas as vezes que se quer definir o cristianismo, pois é o escândalo que defende o cristianismo contra qualquer especulação (KIERKEGAARD, 2010, p. 108).

[...] é o escândalo que defende o cristianismo (KIERKEGAARD, 2010, p. 108).

Como essa afirmação, mais uma vez podemos entender porque Kierkegaard não se propõe a fazer teologia confessional ou acadêmica. Nesse sentido, seu discurso supostamente não estaria de acordo nem como os padres apologistas dos primeiros séculos, nem tão pouco com as propostas modernas ou contemporâneas de teólogos acadêmicos, visto que o escândalo é quem determina a defesa do cristianismo diante de qualquer tipo de especulação existencial, racional ou científica.

Os desdobramentos desses enunciados são caracterizados por Kierkegaard como sendo fruto de um eu que ao estar diante de Deus ou da ideia de Deus recusa-se a crer, portanto, se escandaliza (KIERKEGAARD, 2010, p. 109). Kierkegaard também defende que o escândalo do cristianismo deve repousar sobre a pena que: estar diante Deus ou a ideia de Deus não pode ser pensado sobre a perspectiva universal ou de gênero, como antes achavam os metafísicos, visto que o eu deve sempre se encontrar isoladamente diante de Deus ou da ideia de Deus (KIERKEGAARD, 2010, p. 109).

Anti-Clímacus afirma:

[...] Onde se encontra então, aqui, a possibilidade do escândalo? Senão nesse ponto inicial, que a realidade do homem devia consistir em existir Isolado perante Deus; e neste segundo ponto, consequência do primeiro, de que seu pecado deveria ocupar a Deus. Este tête-à-tête do Isolado e de Deus jamais entrará na cabeça dos filósofos; eles não fazem outra coisa senão universalizar imaginariamente os indivíduos na espécie. Foi isso que levou um cristianismo incrédulo a inventar que o pecado não é senão o pecado, sem que estar ou não perante Deus acrescente ou diminua alguma coisa. Em suma, queria eliminar o critério: perante Deus (KIERKEGAARD, 2010, p. 108-109).

Partindo da perspectiva de autores como Massimo Iiritano (1999) e Sergio Berardini (2010), podemos então pensar na influência do desenvolvimento dos conceitos de Angústia e

Desespero elaborados por Kierkegaard, pela instrumentalidade dos pseudônimos: Virgilius

Haufniensis e Anti-Clímacus. A tarefa de Tornar-se Indivíduo, ou como Kierkegaard também expressa, na primeira parte do livro de Anti-Clímacus, a constituição do “eu humano”, que é transposto na segunda parte do mesmo livro, como sendo o “eu teológico”, possui elementos de correlação como o conceito de angústia, sobretudo, daquela típica angústia diante do bem.

Ainda que Kierkegaard não se ocupe ainda primordialmente na sua concepção de angústia com a nomenclatura, “desespero humano”, que deu nome ao livro Anti-Clímacus, é bem apropriado o estabelecer dessa relação, pois se trata para Kierkegaard de elementos primordiais e fundantes da sua antropologia.

Massimo Iiritano (1999) nos lembra que o conceito de desespero em Kierkegaard sempre vai desencadear a falta de Fé (IIRITANO, 1999, p. 26-27). Essa ausência de fé reside no fato do eu se escandalizar de ter que estar diante de Deus (IIRITANO, 1999, p. 27). Outro lembrete feito pelo autor italiano, é que essa ausência de fé capaz de gerar o escândalo, tem profunda semelhança como aquilo que Kierkegaard chamou de demoníaco (IIRITANO, 1999, p. 101). 16 Assim, o escândalo passa adquirir categoria cristã, pois a ausência de fé determina a possibilidade do escândalo, ao mesmo tempo, em que a presença do escândalo no eu determina a possibilidade do paradoxo soterológico do cristo (IIRITANO, 1999, p. 155). O nascimento do eu, a possibilidade do pecado, a presença do escândalo e convite para fé, são entendidos como elementos interligados (IIRITANO, 1999, p. 156). O indivíduo e o indivíduo, o indivíduo e Deus ou a relação do indivíduo consigo mesmo, e como Deus, eis os temas da antropologia kierkegaardiana (IIRITANO, 1999, p. 155).

Depois desses argumentos de Iiritano, S. F. Berardini (2010) também advoga a ideia de estabelecermos uma espécie de relação entre o conceito de desespero de Anti-Clímacus, o problema do demoníaco de Virgilius Haufniensis (BERARDINI, 2010, p. 114). Trata-se de assumir diversas formas correlatas de uma mesma problemática. A estratégia de procurar associar a concepção de desespero ao problema do demoníaco acabou por potencializar a própria noção de desespero como sendo de fato pecado (BERARDINI, 2010, p. 114). Nesse estado de existência, o eu, pela instrumentalidade do pecado, passa a possuir traços de hipocrisia ou de rebelião contra o bem, ou seja, contra Deus ou a ideia de Deus (BERARDINI, 2010, p. 115). Mergulha-se numa espécie de “abismo de si mesmo”, resistindo ao bem ardentemente. Ora, esse desespero caracterizado como sendo a resistência ao bem, que está sendo relacionado ao demoníaco, pode também ser comparada a incapacidade ou ausência do arrependimento no eu (BERARDINI, p. 116). Após ou diante do desafio de – estar isoladamente de ante a face de Deus ou a ideia de Deus – ao invés de se humilhar e

16 As considerações feitas na pesquisa de M. Iiritano devem ser a sério. A associação entre o demoníaco, a

descrença e o escândalo são válidas. Sobre esse aspecto, Kierkegaard demonstra-nos uma espécie de movimento dialético que determina o interior dessa “angústia diante do bem”. Para o autor, a mesma é caracterizada por uma ausência da interioridade do eu (KIERKEGAARD, 2011, p. 156). Os principais esquemas desse fenômeno têm como ingredientes elementos como: descrença/crendice; hipocrisia/escândalo; orgulho/covardia (KIERKEGAARD, 2011, p, 157-158). Assim, o demoníaco nega o eterno no homem. Para Kierkegaard o homem pode negar o eterno tanto quanto quiser, o que ele não consegue, é separar-se totalmente a sua existência do eterno (KIERKEGAARD, 2011, p. 164).

reconhecer sua própria finitude, o eu se interioriza de forma negativa ou inautêntica, apegando-se a sua sentença: o pecado (BERARDINI, 2010, p. 116).

Haja vista, – sobre o problema do demoníaco – Kierkegaard já havia demonstrado anteriormente, as suas principais características no O Conceito de Angústia (KIEREKGAARD, 2011, p. 128). Ora, nesse sentido, é perceptível a relação com o problema do escândalo tratado aqui. Isto é, assim como o escândalo é caracterizado pela recusa de eu, que se posicionada contrariamente o imperativo existencial: estar Isoladamente diante de Deus (KIERKEGAARD, 2010, p. 109). Assim também o conceito de demoníaco é entendido por Kierkegaard como sendo uma espécie de “Angústia diante do Bem” (KIERKEGAARD, 2011, p. 142). Embora no texto em questão, Kierkegaard procura definir o bem como sendo continuidade, pois segundo o mesmo, a primeira expressão da salvação é continuidade, é possível também estabelecer uma espécie de “comparação análoga” com o conceito de bem de Agostino, onde é nítida a ideia de Deus (AGOSTINHO, 1995, p. 191).

É possível também encontrar outra incursão relacionada – talvez a última – feita por Anti-Clímacus sobre o tema, que também aponta para o demoníaco. Trata-se daquilo que o autor chamou de [...] O pecado de desesperar do seu pecado (KIERKEGAARD, 2010, p. 141). Ele diz:

[...] O pecado por si só é a luta do desespero; mas, esgotadas as forças é preciso uma nova elevação de potência uma nova compreensão demoníaca sobre si própria; é o desespero do pecado. É um progresso, um crescimento, um crescimento do demoníaco que, evidentemente, nos mergulha, nos afunda no pecado. É uma tentativa para dar ao pecado um interesse, para torná-lo uma potência, dizendo que se as sortes estão lançadas para sempre, e que se permanecerá surdo a qualquer ideia de arrependimento (KIERKEGAARD, 2010, p. 141-142).

Por outro lado, paradoxalmente – como um pouco de ironia – sobre a pena de Anti- Clímacus se defende também, que é possível que exista uma espécie de “função pedagógica” no escândalo (KIERKEGAARD, 2010, p. 111). No primeiro caso, como já apontamos acima, para Kierkegaard, o escândalo seria uma espécie de critério de validade ou validação do próprio cristianismo (KIERKEGAARD, 2010, p. 108). O segundo aspecto repousa sobre essa função pedagógica do escândalo, ou seja, o não “escandalizar-se do eu”, diante do Cristo. Trata-se de uma decisão, sobretudo na medida em que o pecado não é uma simples negação, mas sim uma posição (KIERKEGAARD, 2010, p. 124). Isto é, a verdadeira ciência do escândalo é caracterizada quando se apreende estudando a inveja humana. Para o autor, a inveja é uma admiração que dissimula (KIERKEGARD, 2010, p. 112). Sobre essa suposta pedagogia do escândalo que, quando não entendida corretamente, nos reprova, Kierkegaard afirma:

O escândalo varia segunda a paixão que o homem põe na admiração. Mais prosaicas, as naturezas sem imaginação nem paixão, portanto sem grande aptidão para admirar, é certo que se escandalizam, mas limitando-se a dizer: “São coisas que não me entram na cabeça, deixo-as passar”. Assim falam os céticos [...] Assim, o escândalo: pois o que de homem para homem é admiração-inveja, torna-se, do homem para Deus, adoração-escândalo [...] Assim se passa as coisas com o cristianismo e o escândalo. Por isso a possibilidade do escândalo está bem presente na definição cristã do pecado. O estar perante Deus. O pagão e o homem natural reconheceriam sem dificuldade a existência do pecado, mas este: perante Deus, sem a qual no fundo o pecado não existe, para eles é ainda demasiado. Aos seus olhos, é dar excessiva importância a existência humana; um pouco menos de importância, ainda admitiriam... – mas a demasia é sempre demasia (KIERKEGAARD, 2010, p. 112-113).

Em termos de importância teológica, as conclusões de Kierkegaard nessa citação, devem remeter-nos a temas de maior abrangência tais como a problemática entre o filosófico e teológico ou entre o ético e o religioso. Kierkegaard procura medir essas consequências, a partir de termos como: o homem natural ou espiritual, o herói trágico ou cavaleiro da fé, Agamenon ou Abrão 17 (KIERKEGAARD, 2012, p. 62). Em suma, o paradoxo de Abraão é revelado em toda sua clareza possível a partir da comparação do universo religioso com o universo do trágico (KIEKEGAARD, 2012, p. 63). O gesto do herói trágico, levado às últimas consequências, é ético (CRUZ, 2010, p. 77). O gesto de Abraão, nas mesmas condições, é um ato de fé (CRUZ, 2010, p. 77). O herói da tragédia grega se tem de sacrificar sua filha, é coagido a essa atitude pelas leis divinas e pelas leis humanas (CRUZ, 2010, p. 78). A satisfação dessa lei, no caso, coincide com o interesse geral, que é o da coletividade humana (CRUZ, 2010, p. 78). Como indivíduo, ele deve ceder ao interesse geral. E por isso sua conduta será pautada pela ética. As propostas de Kierkegaard vão além dos meandros do ético, visto que nos permite pensar em uma “suspensão” teleológica da moralidade (KIERKEGAARD, 2012, p. 61). Relacionado às reflexos de Anti-Clímacus com as de

17 Essas ideias foram expostas por Kierkegaard na sua obra Temor e Tremor (1843). Nesta obra, nosso autor

procurou fazer uma relação entre o Herói Trágico e o Cavaleiro da Fé (KIERKEGAARD, 2012, p. 62). A ideia de Kierkegaard foi utilizar o exemplo de Agamêmnon, personagem descrito por Eurípedes na obra, Ifigênia em Áulide, comparando-o com Abrão, personagem descrito no livro Gêneses. O enredo desta obra diz respeito ao sacrifício de Ifigênia, cuja causa imediata se encontra no enamoramento avassalador mutuamente correspondido entre Helena e Paris. Tal enamoramento, como é sabido, culminou no sequestro imediato de Helena. O agravante desta história consiste no seguinte: Agamêmnon, pai de Ifigênia, teria que aceitar que ela fosse sacrificada, uma vez que a previsão do oráculo tinha tornado-se pública (PEREIRA, 2011, p. 85). Ao fim e ao cabo do sacrifício, não obstante, ele seria aclamado e louvado como herói acrescido do adjetivo trágico, segundo Kierkegaard, pois, além deste modelo, Kierkegaard apresenta, nesta mesma obra, o cavalheiro da Fé, cuja representação é a figura de Abrão (KIERKEGAARD, 1974, 287). Através do sacrifício Abraão está intimamente ligado a Deus; a atitude de executar Isaac é uma vontade do ser absoluto. Com efeito, a moralidade é suspensa e Abraão não pode se tornar assassino (BARROS, 2007, p. 4). Sobre o ponto de vista ético, a atitude do sacerdote é imoral. Sobre o ponto de vista religioso, Abraão deve fazer aquilo que Deus lhe ordena. Neste contexto, encontramos ainda o paradoxo da ética. Abraão deve agir de acordo com as leis morais ou de acordo com a vontade de Deus? Como agir? Desta forma, podemos encontrar um conflito ético no momento em que Deus pede para que se cometa um ato julgado imoral (BARROS, 2007, p. 5).

Johannes de Silentio, temos: a fuga de um eu desesperadamente escandalizado, permite-nos uma resignação infinita do ético, rumo ao paradoxo da fé.

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